MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

1971, EUA : Em Washington, vários governadores estão reunidos com o presidente Nixon para discutir o aumento do consumo de drogas, especialmente maconha. O presidente apresenta um relatório preparado pelo governo federal que recomenda tratar a questão como um problema de saúde pública. Silêncio na sala, rostos constrangidos, até que um governador se anima e diz: “Presidente, esse seu relatório é muito bonito, mas o problema na prática é que se eu não prender ninguém eu não me reelejo!”. Todos os demais governadores se apressam em apoiar o colega. A reunião acaba com a seguinte conclusão: o problema das drogas será tratado como caso de polícia.

2025, Brasil : A Guerra às Drogas já dura mais de meio século; o consumo de drogas nunca parou de crescer, e propiciou o surgimento de grupos organizados que começam a desafiar o poder do governo. A luta contra o tráfico de drogas confunde-se com a luta pelo controle das favelas, em especial no Rio de Janeiro. As tradicionais operações policiais, conhecidas como “subir o morro”, já não convencem a opinião pública. Sentindo a necessidade de algo novo, e de olho, como todo político, na próxima eleição, o governo estadual parte para algo maior, instantaneamente batizado de “megaoperação”. Com um saldo de 121 mortos, a operação foi declarada um sucesso e aprovada com entusiasmo pela maior parte da população.

Baixada a poeira, porém, algumas dúvidas surgem sobre o que vai acontecer daqui para frente:

Algum “chefe do tráfico” ou “líder de facção” foi preso ou morto? Não, até porque é notório que os membros do primeiro escalão não moram nas favelas, moram nos bairros nobres da cidade.

Algum membro do segundo ou terceiro escalão foi preso ou morto? Não, parece pouco provável que algum deles vá para as ruas enfrentar a polícia.

Então quem morreu? Os funcionários de último escalão, facilmente substituíveis.

Então a tal “megaoperação” fez algo para acabar com o crime organizado e com o tráfico de drogas? Não, porque não existe a menor intenção de fazer isso.

A atual política dos governos pelo mundo segue uma lógica simples: Criar algo que deixe a população com medo, e apresentar-se como a solução para esse medo. Isso funciona melhor com uma combinação entre “medos permanentes” e “medos temporários”. Por exemplo, a crise do COVID-19 foi um medo temporário que levou muita gente à beira da paranóia. Já a ameaça da “saúde cara” é um medo permanente onde o governo mantém os hospitais e os planos de saúde particulares próximos da inviabilidade para que a população tenha medo de ficar sem o SUS. Da mesma forma, o governo mantém a criminalidade como um medo permanente e complementa o sentimento com crises periódicas que elevam a retórica a níveis de “o mundo vai acabar”, novamente levando a população à beira da paranóia.

O salário de muita gente no governo depende da existência da Guerra às Drogas. Alguns são empregos fixos, na polícia, ministério público, justiça e diversos departamentos federais, estaduais e municipais. Outros são cargos eletivos, ocupados por políticos que fazem da retórica da guerra sua eterna plataforma de campanha.

Também há gente cujos rendimentos vêm do outro lado: são todos os que fazem parte da estrutura dos tão falados cartéis.

E é óbvio que existe gente que recebe dos dois lados, ou seja, combinam o salário recebido do governo com a propina recebida dos criminosos, em troca de conivência e ajuda nos mais diversos graus.

Por isso, é extremamente ingênuo acreditar que existe, em algum governo, a intenção de acabar com o tráfico de drogas, simplesmente porque, acabando o tráfico, acaba a guerra, e nenhum dos interessados quer acabar com algo tão conveniente e tão lucrativo.

Se os governadores que participaram da reunião com Nixon estivessem aqui, iriam sorrir satisfeitos: se a questão é manter a Guerra às Drogas, a reeleição de todos eles está garantida.

2 pensou em “E DAQUI PARA FRENTE?

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