DEU NO X

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO

DEU NO X

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

PARA QUÊ?! – Florbela Espanca

Tudo é vaidade neste mundo vão …
Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente, essa canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão! …

Beijos de amor! Pra quê?! … Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!

Só neles acredita quem é louca!
Beijos de amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta! …

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

VAMOS ANDAR – JUNTOS!

O portão eletrônico das Queimadas

O ano, lembro bem, era 1954. Seca braba. Tudo seco. Animais morrendo de sede. Nem as muitas caminhadas para o Açude Novo conseguiam resolver. A jumenta Bonita caminhava trôpega com dois cambitos e dois barris d´água. Seria maldade transportar mais de dois barris – e Bonita, farejando o vento que soprava ao contrário da nossa direção, parecia sentir sede e andava mais rápido – Vovô orientava para não bater no animal. Naquela seca seria muita maldade.

Dia 19 de março se aproximava. Dia consagrado ao Santo Padroeiro do Ceará, São José. Havia em cada novena reunida durante a noite, uma reza muito forte pedindo o milagre da chuva.

Todo dia eu caminhava. Para ir, e, claro, para vir. Era até o Açude Novo, uma boa caminhada. Sempre sofrendo as agruras do calor na trajetória. O banho no açude refrescava um pouco. Banho nu. Sei que muitos banham nu. Mas era hábito, no Açude Novo, banhar vestido com um calção. Havia o local reservado para os homens, ainda que meninos, e para a mulheres, mesmo que meninas com os mamilos aflorando.

Os anos se passaram. Passou 1954. Passou 1955 e passou 1956. Em 1957 a seca que matava não apenas os animais, nos expulsou das Queimadas.

Antiga Praça José de Alencar

Meados de 1957, o êxodo nos levou para Fortaleza. Poderia ter sido Manaus, Salvador ou Curitiba. Não tínhamos nada de posse, além de duas ou três redes e um cachorro que parecia ser nosso Anjo da Guarda. E era.

Andando, chegamos a Fortaleza. Sem dinheiro, sem emprego e sem nada nas mãos além dos dez dedos. Andamos e fomos parar no Pirambu – ali, erguemos uma palhoça, onde poderíamos ter a sensação de liberdade e de um recomeço. Ledo engano. As necessidades materiais bateram à porta e entraram palhoça à dentro sem pedir licença. Fazíamos nossas necessidades fisiológicas onde estivéssemos e onde desse vontade. Despudoramente – e até aprendemos substituir o sabugo de milho pela água salgada do mar.

Os dias que chegaram nos encontraram andando. Andando para lugares incertos e levados pelos sons audíveis dos roncos famintos dos intestinos. Mas, aquela voz não nos deixava parar. Esmorecer, jamais.

Vá em frente, dizia uma voz vindo de algum lugar. Não pare. Ande. E foi aquele incessante caminhar, andar de mãos dadas que nos manteve unidos e de pé.

Chegaria 1958. A caminhada incessante e incentivada me levou ao Liceu do Ceará. Os obstáculos encontrados não me deixavam abater. Mas a insistência, a perseverança, a esperança acaba descortinando um novo horizonte.

Os dias se passaram e foram nos encontrar andando em busca de algo imaterial que acabaria por nos levar à materialidade das realizações. Aprendizado. Empregos. Vida, enfim.

Hora de servir à Pátria. CPOR. Universidade. A continuidade da caminhada nos levou à Western. Primeiro emprego formal. A imaturidade nos conduziu para a composição de uma Diretoria sindical. Sindicato dos Telegráficos. Ilusões. Nada mais que isso.

Theatro Municipal do Rio de Janeiro na Cinelândia

Andamos rápido, para a caminhada que nos levou para o Rio de Janeiro, sem lenço, sem documentos e sem profissão. O pouco tempo – seis anos apenas – de Western não nos garantia uma transferência.

Andando conforme a luz divina iluminava o caminho. Sempre o bom caminho – as necessidades materiais eram janelas abertas para o desvirtuamento. Deus não permitiu e a luz forte clareava a estrada – tanto quanto as lamparinas da Vovó, ou o candeeiro do Vovô iluminando o espraiado do quintal fronteiriço daquela casa onde nasci. Nas Queimadas. Onde dei os primeiros passos até aqui.

Andando sempre. Acreditando em Deus, mas, caminhando.

Vida. Universidade. Casamento e nova família. Problemas, mas continuamos andando, sempre na direção certa e no caminho traçado por Deus.

Sem acreditar jamais na mentira: “cada um será o que quiser”!

Cada um será sempre, o “que Deus quiser e traçar como destino inicial e final.”

Parte do Largo do Carmo em São Luís

Chegou 1987, e continuei andando. Agora, segurando na mão de Deus. Um novo caminho, ainda desconhecido, tanto quanto foi o Pirambu, em 1957 e o Rio de Janeiro, em 1969. Problemas vencidos e a construção de uma nova família. Tudo novo. Recomeço de uma nova caminhada – que mostrava a mesma esperança de quando colocava os cambitos e os barris vazios na jumenta Bonita, para “buscar água” no Açude Novo.

São Luís. Filhos. Três filhos, hoje adultos. Entraram na caminhada traçada por Deus.

Hoje, Deus bondoso e justo, permite que continuemos andando. Juntos. Eu e ELE! Nós, enfim.

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MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

BANCO MASTER

A proteção ao sistema financeiro é uma ação fundamental. Todos sabem que os bancos operam com dinheiro dos outros, ou seja, capta recursos de quem tem superavit de caixa para emprestar a quem tem déficit de caixa. O banco ganha pela intermediação financeira que faz. Por isso, empréstimos e financiamentos devem ter garantias. Fica claro que se a inadimplência de um banco aumentar, ele terá problemas para devolver o dinheiro dos aplicadores.

Atualmente, as operações do mercado financeiro atingiram um nível de sofisticação muito grande. O Brasil, por exemplo, experimente há cinco anos o pagamento instantâneo, ou seja, o Pix que trouxe uma facilidade operacional muito grande para realizar transações. Basta dizer que no primeiro semestre de 2025, foram realizadas 36,9 bilhões de transações, totalizando quase R$ 28 trilhões e com estimativa de atingir R$ 35 trilhões, até o final desse ano. O Pix retirou uma parte da receita dos bancos que era decorrente da cobrança de TED e DOC, até então, os meios disponíveis para transferência de valores entre contas.

Apesar desse avanço operacional, o sistema enfrenta, vez por outra, problemas e o Banco Central entra em campo para arbitrar. Hoje, diante da disponibilidade tecnológica, parece até mais fácil observar os sintomas de contaminação, mas no passado a coisa era extremamente sutil e, quiçá, quase imperceptível. Um dos grandes bancos que tínhamos no passado era o Banco Nacional que chegou a patrocinar Airton Senna. Durante 10 anos, este banco gerou receitas fictícias apresentou lucros falsos e manteve-se no mercado durante esse período inteiro sem ser incomodado por ninguém. Nem o Banco Central percebeu, ou se percebeu foi conivente, com o que aconteceu no Banco Nacional.

A questão torna-se mais complexa quando o banco se entranha no poder político, como foi o caso do Banco Rural de Minas Gerais que gestou, junto com o senador Eduardo Azeredo, do PSDB, o chamado mensalão mineiro. Na verdade, o banco fez um pequeno estágio com este senador, mas fez um doutorado e um pós-doutorado com o PT, fato que levou Marcos Valério, e somente ele, ser condenado a 37 anos de prisão. Cabe aqui uma pergunta: se todos os réus foram soltos porque não houve mensalão, por que Marcos Valério, somente ele, foi condenado e preso? Como pode se prender alguém por um crime que não existiu?

Em 1996, no governo Miguel Arraes que tinha seu neto Eduardo Campos como secretário da Fazenda, o BANDEPE – Banco do Estado de Pernambuco, envolveu-se num escândalo feio, envolvendo uma consultoria financeira chamada Vetor, que ficou conhecido como escândalo dos precatórios. Ninguém foi preso, mas a consultoria foi liquidada. Ainda na década de 1990, mais precisamente em 1999, o Banco Marka, de Salvatore Cacciola, foi liquidado por conta de transações fraudulentas.

O caso recente é o Banco Master que quase foi adquirido pelo Banco Regional de Brasília numa operação para lá de esquisita, mas que, agora, se sabe que esse esforço do BRB era para encobrir falcatruas realizadas nas compras de CDB’s do Banco Master. Pensa que isso é tudo? O fundo de pensão de funcionários do Amapá, Amprev, investiu R$ 400 milhões na compra desses títulos, mesmo com a indicação contrária do conselho de administração. O gestor, Jocildo Silva Lemos é aliado de Alcolumbre.

Não pensem, com isso, que esse cidadão vai se responsabilizar por nada. Alguma banca de advogados famosa, vai demonstrar que a operação foi feita de forma legal e que o gestor estava maximizando os lucros da Amprev e perder dinheiro, é parte de quem investe no mercado financeiro. É daí se o dinheiro investido era destinado a buscar recursos para honrar o passivo do fundo. Quanto a Alcolumbre, ele nem conhece o cara que indicou e nem sabia que o irmão dele também tem um cargo na Amprev.

Na Inglaterra, em 1995, o então jovem diretor de operações do Barings Bank, um banco centenário, fez investimentos especulativos na bolsa de Singapura, investindo algo da ordem de US$ 1,4 bilhão, valor este superior ao patrimônio líquido do banco. O resultado foi desastroso para o mercado financeiro londrino, mas quem a pagou a conta foram os donos do banco e o jovem diretor Nick Leesson, foi condenado à 28 anos de prisão. O interessante é que ele foi preso mesmo.

Um pouco antes, em 1992, o megainvestidor George Soros, fez uma aposta contra o Libra Esterlina que estava sobrevalorizada. O Banco da Inglaterra se empenhou em manter a moeda na banca cambial, como se diz. O resultado disso é que o banco teve que desvalorizar a libra e Soros ganhou algo em torno de 1 bilhão de libras esterlinas. No Brasil, Nagi Nahas também quase quebra o sistema financeiro.

Concordando ou não essas operações estão no âmbito da máxima “tudo dia sai um burro de casa” e o pessoal ganha dinheiro com isso. É diferente quando um banco serve de instrumento para ocultar favores prestados ao mundo político, Vorcaro foi preso no aeroporto. Mas, quem acredita que ele continuará preso por isso?

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