Embora leigo na área jurídica, tenho para mim que se o julgamento do presidente Bolsonaro não cruzou a tênue barreira que separa justiça de justiciamento, andou bem perto dessa aberração se considerarmos a absurda intensidade – com contornos de sadismo e desespero – exercida por um consórcio que aninhava sob suas asas indecorosas representantes de quase todos os segmentos sociais, indo desde autoridades jurídicas até entidades religiosas, passando por jornalistas, órgãos de imprensa, artistas, influenciadores mercenários, megas capitalistas, entre outros “notáveis”, na busca implacável da destruição física, política e moral de um ex-presidente da República.
A hipocrisia congênita se mostrou íntima dos esquerdistas do final dos tempos quando, próximos do orgasmo ideológico e sem deixar transparecer o menor sinal de constrangimento, em nome do amor celebraram o ódio e comemoram a condenação do “Boso” com o mesmo entusiasmo e empolgação que os presidiários festejaram a eleição de lula da silva como presidente do Brasil, naquele histórico 30 de outubro de 2022.
Se procurarmos analisar esse episódio sombrio da história política e jurídica brasileira com o espírito apaziguado e afastado da preferência política e/ou ideológica, não estaremos nos distanciando da verdade se chegarmos à conclusão de que nenhum dos julgadores que participaram do processo estava apto para decidir o futuro do acusado.
Era óbvia, pública e assumida a antipatia pessoal que os magistrados dedicavam ao réu sem deixar transparecer, em tempo algum, o menor sintoma de conflito de consciência; nem o mínimo do mínimo, sequer. Tinha entre eles quem só o odiava, outros que eram somente corporativistas. Tinha até quem, sem o menor vestígio de desconforto ético, o mantinha na categoria de inimigo. Para surpresa de ninguém, o veredito foi a condenação unânime do ex-presidente.
O Brasil está quebrado e os destroços de sua democracia estilhaçada cuidadosamente despejados nas águas pútridas do pântano da indecência.
“Numa patocracia, indivíduos com transtornos de personalidade ocupam as posições mais elevadas na hierarquia do poder.” (Andrew Lobaczewski, Ponerologia: Psicopatas no Poder)
Nas modernas ciências da alma, é bastante consolidada a ideia de que existe uma região psíquica evitada pelos homens, um local recôndito e misterioso que permanece adormecido qual um vulcão inativo. É o que, classicamente, Freud chamou de “inconsciente” e que Carl Gustav Jung, referindo-se particularmente à autoimagem do indivíduo, denominou de “sombra”. Trata-se do depósito subterrâneo de tudo aquilo que preferimos não admitir sobre nós mesmos – desejos, impulsos destrutivos, ressentimentos, inseguranças, vaidades feridas etc. Quando não enfrentados, esses conteúdos não se dissipam; apenas aguardam, decantados, a ocasião de emergir sob formas distorcidas.
Se admitirmos como verdadeiro o princípio antropológico estabelecido por Platão há 2,5 mil anos – segundo o qual “a pólis é o homem escrito em letras maiúsculas” (A República, 368c-d) –, essa dimensão da psique individual também se aplica, mutatis mutandis, à política. Instituições, embora adornadas por linguagem jurídica e símbolos de autoridade, não escapam dessa dinâmica. Também elas constroem uma persona – o rosto virtuoso, público e higienizado – que só se sustenta pela expulsão compulsória de tudo o que ameaça contradizê-la.
É justamente aqui que, inspirado no princípio platônico (e recusando a cisão maquiavélica entre alma individual e alma estatal), o psiquiatra polonês Andrew Lobaczewski fornece uma chave de leitura relevante para a compreensão da política moderna. Como ele mostra em Ponerologia: Psicopatas no Poder, sistemas políticos inteiros podem ser progressivamente capturados por indivíduos cuja estrutura psicológica é empobrecida, incapaz de empatia genuína e inclinada à manipulação e ao controle. Uma vez instalada, essa elite “ponerogênica” (do grego poneros, “mal”, e genesis, “origem”) passa a usar o aparato estatal para projetar sua própria sombra no exterior, sempre sobre inimigos cuidadosamente escolhidos, que acabam vítimas de perseguição permanente.
A história oferece um exemplo quase didático: a perseguição movida por Stalin contra Trotski. Muito além de disputas doutrinárias, havia ali um conflito entre persona e sombra. Trotski encarnava precisamente aquilo que Stalin temia não possuir: talento intelectual, prestígio internacional, magnetismo político e ousadia estratégica. Como mostram biógrafos de Trotski como Isaac Deutscher, Robert Service e Leonardo Padura, o processo stalinista que começou com isolamento, passou pela difamação e culminou no exílio e no assassinato não tinha por objetivo apenas eliminar um rival. Para Stalin, tratava-se de um ritual de expiação – uma tentativa desesperada de calar a voz íntima que, projetada no adversário, denunciava sua própria fraqueza.
Nos últimos anos, o Brasil testemunha uma versão juridicamente ornada da mesma lógica. Em torno de Alexandre de Moraes ergueu-se uma persona luminosíssima: o guardião infalível da democracia, celebrado por colunistas, reverenciado por corporações, protegido por uma aura de impecabilidade e higidez institucional. Mas nenhuma persona resiste por muito tempo à contemplação da própria sombra no espelho. E, para o sancionado de toga, esse espelho atende pelo nome de Jair Bolsonaro.
Apesar de seus defeitos demasiado humanos – ou justamente por causa deles –, Bolsonaro carrega uma força política que desestabiliza a narrativa alexandrina. Simetricamente inverso ao sancionado, é popular, carismático e imprevisível, recordando ao sistema que a legitimidade do poder reside na representatividade orgânica, não na imposição artificial das vontades de uma casta burocrática pretensamente iluminada. A percepção desse contraste basta para que a sombra institucional, reprimida e acumulada, busque um hospedeiro externo. De repente, tudo aquilo que a persona togada não admite em si – autoritarismo, ódio, inadequação e desejo de vingança – é projetado sobre o ex-presidente, convertido em “inimigo da democracia” por uma necessidade psicopolítica.
A leitura de Lobaczewski ajuda a compreender o fenômeno. Regimes constituídos por elites mentalmente corrompidas precisam de adversários permanentes para manter coesão interna. A repressão teatral – intimações hospitalares, buscas cinematográficas, vigilância clandestina, prisões desproporcionais, tortura e exibicionismo penal – não exprime autoridade, mas medo. Quando um sistema inteiro precisa reencenar diariamente a própria força, é porque teme que sua legitimidade exista apenas enquanto houver um bode expiatório disponível.
O trágico é que toda a sociedade paga o preço desse processo. Quando magistrados começam a acreditar que são encarnações vivas da Constituição; quando o Estado assume o papel de tutor moral; quando o direito deixa de limitar o poder e passa a funcionar como instrumento de purificação política – então a sombra coletiva cresce a ponto de tudo devorar. Já não há instituição que escape ao destino de se tornar um mero petisco para saciar a fome metafísica do Leviatã no divã.
Stalin não se libertou de sua sombra ao assassinar Trotski; apenas eternizou sua miséria interior na história, deixando um rastro conhecido de destruição e infâmia. Da mesma forma, transformar Bolsonaro em inimigo metafísico diz menos sobre ele do que sobre o regime que necessita fabricá-lo para manter sua ilusão de pureza.
Nenhuma sombra desaparece com a destruição do objeto sobre o qual se projeta. Quando o perseguidor confunde sua psicopatologia com a razão de Estado, a tragédia social deixa de ser possibilidade e se torna fato consumado.
“Nós estamos hoje literalmente entregues… onde um Poder pode tudo e não é moderado por ninguém”, protestou o líder do PL no Senado, Rogério Marinho (RN).
“Isso é intolerável”, concluiu.
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O sinhô senadô acertou em cheio.
Tem um Poder que “pode tudo”.
Um retrato perfeito da nossa republiqueta nos dias de hoje.
Aqui no Recife a sexta-feira amanheceu bonita e com muito sol.
Chupicleide, secretária de redação, começou o dia com um grito.
Um brado no qual ela usou o mais novo neologismo que a vagabundagem inventou nos últimos tempos:
– Sextou!!!
Ou seja, é dia de cair na gandaia e encher o rabo de aguardente e cerveja, tirando o gosto com rolinha frita e sarapatel de porco no Bar da Tripa, bairro do Totó, em Jaboatão dos Guararapes, que fica aqui na Grande Recife.
Ela e Bosticler, o nosso faxineiro, já me pediram dinheiro, se aproveitando das generosas doações feitas pelos nossos leitores.
Além do adiantamento de dinheiro pra Chupicleide e Bosticler, vou também providenciar uma ração especial pro mascote desta gazeta escrota, o jumento Polodoro.
Os dois, Chupicleide e Polodoro, estão aqui com os dentes arreganhados de felicidade.
Vocês são a força que mantém esta gazeta escrota nos ares e que cobrem as despesas com hospedagem e manutenção técnica feita pela empresa Bartolomeu Silva.
Chupicleide afirma, assevera, assegura e garante que as contribuições dos nossos leitores voltarão em forma de muita alegria, amor, paz, tesão, saúde e vida feliz.
Amanhã começa um final de semana que será excelente pra toda a comunidade fubânica!!!
E, pra fechar a postagem, Roberta Sá e Martinho da Vila cantando a música “Amanhã é Sábado“, pra embelezar e alegrar o nosso dia:
Pois é, em 1967, com 19 anos, e daí pra frente, curti muito esta música e há muito tempo não escutava.
Foi uma muito grata recordação proporcionada pelo “Peninha”, que muito nos agrada e emociona, apresentando as pérolas musicais, principalmente do passado.
Segundo li no YouTube, hoje, somente restam 2 integrantes do “The Cowsills”.
E consegui uma apresentação deles, com ainda os três restantes integrantes.
Encaminho o vídeo para o JBF, quem sabe o nosso querido editor possa divulgar este vídeo para os demais leitores desta importante Gazeta.
O paraibano Severino Lourenço da Silva Pinto, o Pinto do Monteiro (1895-1990)
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Pinto do Monteiro:
Quando é de manhãzinha, Se apagam os pirilampos, O homem vai para os campos, A mulher vai pra cozinha; Sacode milho à galinha, Se, por acaso, ela cria! Canta o galo, o pinto pia, Salta o bode no terreiro, Se despede o violeiro, Dando adeus, até um dia.
Recordo perfeitamente, Quando em minha idade nova, O meu pai abria a cova, E eu plantava a semente. Eu atrás, ele na frente, Por ter força e mais idade… Olhando a fertilidade Da vastidão da campina, Aquela chuvinha fina Me faz chorar de saudade.
Em dezembro, começa a trovoada, Em janeiro, o inverno principia, Dão início a pegar a vacaria: Haja leite, haja queijo, haja coalhada! Em setembro, começa a vaquejada: É aboio, é carreira, é queda, é grito! Berra o bode, a cabra e o cabrito; A galinha ciscando no quintal, O vaqueiro aboiando no curral; Nunca vi um cinema tão bonito!
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Oliveira de Panelas:
Na mulher toda têmpera se envolve Seu ciúme é cuidado impertinente Seu desejo é fornalha incandescente Quando pode, é perigo, o que devolve, Quando está duvidosa só resolve Pelo fio da ânsia propulsora, Quando assume o papel de genitora Aurifica seu corpo fecundante, Pra tornar-se a maior representante Dessa lei biológica criadora.
No namoro é centelha de ilusão No noivado é a fonte de esperança Sendo esposa é profunda a aliança E faz unir coração com coração, Como mãe é suprema adoração! Sendo sogra é as vezes tempestade Quando amiga, é amiga de verdade, Sendo amante é volúpia no segredo, Porém sendo inimiga causa medo Ao mais forte machão da humanidade.