DEU NO JORNAL
LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA
HIPOCRISIA – A MARCA DA COP30
DEU NO X
MODELO PAMONHA: LINDO!
ALEXANDRE GARCIA
COP 30 É VEXAME ATRÁS DE VEXAME

Manifestantes forçam entrada em área reservada a credenciados na COP 30
A ONU, que realiza a conferência do clima, está reclamando da COP 30. Reclamou expressamente, formalmente, da falta de segurança, da falta de estrutura e do excesso de calor nos recintos do evento. Falou em precariedade das instalações. Que vexame! Só estamos passando vergonha nessa COP – aliás, eu faço uma análise da conferência no meu artigo desta semana na revista Oeste.
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Alarmismo climático continua a ser uma bela fonte de dinheiro
Ainda na COP, o ministro da Saúde anunciou que o Brasil está recebendo US$ 300 milhões para “saúde climática”. Fui ver que diabo é isso, e descobri que tem a ver com doenças causadas pelo clima. Isso é óbvio, e antigo – e também existe cura causada pelo clima; nos anos 1940, minha tia foi a Campos do Jordão (SP) para curar uma tuberculose. Morei por muitos anos no Rio Grande do Sul, e tinha dor de garganta todos os anos por causa do clima; vim para Brasília, estou aqui há quase 50 anos, e nunca mais tive dor de garganta. Em Manaus, onde faz um calor insuportável, um arquiteto amigo projetou uma casa em que a natureza, sozinha, vai trocando o ar quente por um ar fresco, que vem das árvores. Aqui em Brasília temos a estação da seca e a estação da umidade, da chuva. E quem vive à beira-mar e não suporta a maresia, a umidade, sofre. Isso tudo já se sabe. Mas precisam de US$ 300 milhões doados por instituições de benemerência.
Isso revela que todo esse negócio de clima – primeiro era “aquecimento global”, agora é “mudança climática”, mudam de nome porque as coisas não se confirmam e tudo começa a perder credibilidade – é para gerar dinheiro. E muito cientista deve saber disso.
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Estão exagerando no caso do ex-prefeito de Lajeado
Achei exagerado o que estão fazendo com Marcelo Caumo, ex-prefeito de Lajeado (RS). Foi em Lajeado que ganhei meu primeiro salário na Rádio Independente, como locutor. Eu me formei em contabilidade, meus pais estão enterrados lá, e nem conheço esse ex-prefeito, nem sei qual o partido dele. É aliado de Eduardo Leite, porque estava como secretário de Desenvolvimento Urbano do governo gaúcho, e pediu demissão. A Polícia Federal executou um mandado de busca e apreensão contra ele. O que é que ele teria feito? Dizem que ele se aproveitou da emergência climática, da enchente do ano passado, quando ele era prefeito, para contratar serviços terceirizados de motorista, psicólogo, assistente social. Estão fazendo um barulho danado, desproporcional ao caso. Caumo pediu demissão para ficar livre e o caso não respingar no governador. Achei positivo da parte dele, e me lembrou Henrique Hargreaves, que era ministro-chefe da Casa Civil de Itamar Franco, surgiram denúncias contra ele, e ele imediatamente pediu demissão; provou a inocência, e Itamar o chamou de volta.
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Será que trabalhadores sem vínculo empregatício estão recebendo Bolsa Família?
Um amigo estudioso de economia e de sociologia me fez alguns comentários sobre essas novas atividades sem vínculo empregatício, sem horário definido, em que a pessoa tem renda, produtividade e pode ter a sua vida privada normalmente. Por exemplo, o motorista de Uber que aproveita para levar o filho para a escola, de carro, e depois começa no Uber; ou a pessoa que faz entrega na Amazon, tem uma atividade durante o dia e tem outra à noite, fazendo entregas. Eles se livram de todos aqueles encargos trabalhistas, é um fenômeno novo. O que eu respondi a ele? “Tem de fiscalizar esse sujeito que faz isso, para ver se ele não quer carteira assinada porque está recebendo o dinheiro dos impostos de todos na forma de Bolsa Família.”
DEU NO JORNAL
PEDRA CANTADA
Daqueles julgamentos que nem precisavam ter, Eduardo Tagliaferro está na imensa lista de réus já condenados.
O ex-assessor de ministro vai responder por “vazar informações”, na verdade, gravíssimas denúncias que deveriam ser investigadas.
Mas não o serão.
* * *
A expressão “réus já condenados” resume tudo.
Isso é o retrato perfeito deste nosso Brasil nos tempos de hoje.
Tem jeito não…
PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS
GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS

Valdir Teles (1956-2020)
Waldir Teles glosando o mote:
Quando morre um alguém que a gente adora
Nasce um broto de dor no coração.
Quando morre um parente ou um amigo
Resta só lamentar, ninguém dá jeito
A tristeza se aloja em nosso peito
A angústia se apossa do abrigo
O seu corpo levado pra o jazigo
É seguido por uma multidão
Nem compensa apertar na sua mão
É inútil dizer não vá agora
Quando morre um alguém que a gente adora
Nasce um broto de dor no coração.
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Chico Nunes glosando o mote:
A saudade é companheira
De quem não tem companhia.
Vivo em eterna agonia
Sem saber o resultado
Deus já me deu o atestado
Pra eu baixar à terra fria.
Em volta só vejo o mal
Deste meio social,
E espero sozinho o dia
De minha hora derradeira…
A saudade é companheira
De quem não tem companhia.
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José Lucas de Barros glosando o mote:
A viola, em silêncio, está chorando,
Com saudade da voz do violeiro.
Chico Motta viveu de cantoria,
Imitando as graúnas sertanejas,
Nos ardores de inúmeras pelejas
Que aprendeu a enfrentar com galhardia;
Seu programa, nem bem raiava o dia,
Acordava o sertão alvissareiro,
Mas, depois do seu verso derradeiro,
Que inda está, nas quebradas, ecoando,
A viola, em silêncio, está chorando,
Com saudade da voz do violeiro.
* * *
Pinto do Monteiro glosando o mote:
Aquela chuvinha fina
Me faz chorar de saudade.
Me lembro perfeitamente,
Quando em minha idade nova,
O meu pai cavava a cova
E eu plantava a semente.
Eu atrás, ele na frente,
Por ter força e mais idade,
Olhando a fertilidade
Da vastidão da campina,
Aquela chuvinha fina
Me faz chorar de saudade.
* * *
Severino Ferreira glosando o mote:
O Nordeste poético ainda chora
Com saudade de Pinto do Monteiro.
Sei que Pinto deixou como recinto
A Monteiro que é sua cidade
O Nordeste até hoje tem saudade
De um poeta pacato e tão distinto
Outro galo não faz mais outro pinto
Que seja poeta e verdadeiro
Se pegar a galinha no terreiro
E tentar fabricar o ovo “gora”
O Nordeste poético ainda chora
Com saudade de Pinto do Monteiro.
* * *
Jó Patriota glosando o mote:
A casa que tem criança
Deus visita todo dia.
Quando a criança adormece
A mãe já fraca do parto
Nos quatro cantos do quarto
Deus em pessoa aparece.
O Santo Espírito desce
Distribuindo alegria
Aquela rede sombria
Tem uma mão que balança
A casa que tem criança
Deus visita todo dia.
CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA
ZAZZOU – FORTALEZA-CE
Senhor Luiz Berto,
Saudações.
Primeiramente, parabéns pelo seu blog.
Hilário, inteligente e necessário!
Sou formada em Letras, Pedagogia, Direito e Secretariado Executivo.
Estou realizando uma pesquisa sobre Benício de Abreu Tranca citado na coluna de Marcos Mairton, intitulada A CERTIDÃO, publicada em 9 de abril de 2025.
Se eu conseguir material suficiente, pretendo escrever um artigo.
Será que poderia me ajudar a conseguir mais textos do falecido oficial de justiça?
Desde já, agradecida.
R. Cara leitora, gratíssimo pela generosa apreciação que você fez sobre nossa gazeta.
Vou encaminhar sua solicitação para o nosso colunista Marcos Mairton, competente profissional do Direito e um cearense talentoso, cronista, compositor, cordelista, músico, blogueiro, uma figura humana muito especial.
Mairton é Juiz Instrutor no Superior Tribunal de Justiça (STJ) em Brasília.
É um privilégio editar uma página que tem um colaborador desse porte.
Aguarde que ele deverá fazer contato.
Disponha sempre.
Abraços
DEU NO JORNAL
COINCIDÊNCIA
O senador Sérgio Moro (União-PR) fez questão de registrar que três dos presos nesta quinta-feira (13), foram nomeados por Lula: “a história se repete”.
Todos afastados dos cargos por decisão da Justiça, não de Lula.
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Que coincidência…
As prisões foram feitas no dia 13, o número do bando luloso.
E os três prisioneiros foram nomeados pelo descondenado.
Ironias do destino.
VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO
FAVELA
FAVELA era o nome dado a uma comunidade construída para moradia de pessoas menos favorecidas, no Rio de Janeiro. O nome era simplesmente FAVELA. Depois, criaram-se outras comunidades, acrescentando ao nome favela outro adjetivo.
A origem da palavra “favela” remonta à história do Brasil, especialmente à Guerra de Canudos, no final do século XIX. O termo é derivado da planta “favela”, que crescia abundantemente nas regiões áridas do Nordeste Brasileiro. A partir de 1920, o nome passou a ser utilizado para se referir a conjuntos habitacionais informais, surgindo quando ex-escravos e migrantes rurais se instalaram em morros e encostas das grandes cidades brasileiras.
As primeiras favelas no Brasil surgiram no final do século XIX, principalmente depois da Guerra de Canudos, com a formação do Morro da Providência, no Rio de Janeiro.
O conflito resultou no retorno de cerca de 10 mil soldados ao Rio de Janeiro, que se instalaram em uma área já habitada por ex-escravos. A falta de moradia adequada levou à formação de uma comunidade informal.
A urbanização desordenada e a falta de políticas habitacionais adequadas contribuíram para o crescimento das favelas. Muitas pessoas migraram do campo para as cidades em busca de trabalho, mas sem recursos para alugar ou comprar casas, acabaram ocupando terrenos baldios e áreas de risco.
As favelas, como o Morro da Providência, representam um fenômeno complexo que resulta de uma combinação de fatores históricos, sociais e econômicos. O processo de favelização continua a ser um tema relevante no Brasil, refletindo as lutas por moradia e direitos urbanos até os dias de hoje.
As favelas são uma expressão da desigualdade social, refletindo a exclusão de grupos mais pobres da sociedade urbana. A falta de infraestrutura e serviços básicos são característica marcantes dessas comunidades.
Por outro lado, o lirismo aproveitou a favela, e um número considerável de poetas teve nela a inspiração de belos poemas musicados, que ainda hoje enriquecem o nosso cancioneiro.
Muitas composições romantizaram e ainda romantizam as favelas.
O termo Favela está presente na música brasileira desde a primeira ocupação clandestina dos morros cariocas, sendo cantado pelos mais diferentes pontos de vista, que resultaram nos estereótipos de favela que conhecemos hoje. (ZALUAR; ALVITO, 2004). Após um século de história, tanto preconceito e estigma não retratam mais sua verdadeira face (SILVA; BARBOSA, 2005). A música deu voz às favelas, e hoje o tema fala por si mesmo.
Favela – Francisco Alves
Favela oi, favela,
Favela que guardo no meu coração
Ao recordar com saudade
A minha felicidade
Favela dos sonhos de amor
E do samba-canção.
{Bis}
Hoje tão longe de ti
Se vejo a lua surgir
Eu relembro a batucada
E começo a chorar
Favela das noites de samba
Berço dourado dos bambas
Favela é tudo que eu posso falar.
Favela oi…{Bis}
Minha favela querida
Onde eu senti minha vida
Presa a um romance de amor
Numa doce ilusão
E uma saudade bem rara
Na distância que nos separa
Eu guardo de ti esta recordação.
Favela oi, …{Bis}
JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO
CAMÕES E OS LUSÍADAS
Luís Vaz de Camões veio da pequena nobreza – assim se dizia, na época, dos nobres sem casas nem títulos em Portugal. Desde jovem, passava dias e noites pelas ruas entre pedintes, arruaceiros, prostitutas, desvalidos. Ou nas tabernas. E escrevendo versos por puro prazer, quando possível e, às vezes, em troca de gorjeta. Ou comida.
Era conhecido, pelas incontáveis rixas em que se metia, como Trinca-Fortes. Em uma delas, na noite da procissão de Corpus-Christi, golpeou com espada o pescoço de Gonçalo Borges, cárrego (responsável) dos arreios do rei. Acabou preso no tronco. Libertado por Carta Régia de Perdão, em 7 de março de 1553, teve que pagar quatro mil réis para caridade e foi obrigado a ir servir na Índia. Seria mudança definitiva, em sua vida. Um destino jamais sonhado por seus pais – Simão Vaz de Camões, capitão de nau; e Ana de Sá, dos Macedo de Santarém, doméstica.
Em torno dele, quase tudo é incerto. Sabe-se, dos serviços que prestou na armada portuguesa, que nasceu em Lisboa – ou Coimbra, ou Santarém, ou Alenquer. Talvez em 1523 ou, mais provavelmente, em 1524 (havendo ainda quem sugira começos de 1525). Tendo a lei portuguesa 1540, de 02/02/1924, definido que teria sido em 05.02.1524. Estudou em Coimbra, entre 1542 e 1545, com o tio dom Bento de Camões, prior do Convento de Santa Cruz. Até que voltou para Lisboa. Mas a carreira das armas, logo percebeu, era mesmo das poucas opções que lhe restavam.
Para cumprir aquela sentença de perdão embarcou pouco dias depois, em 24 de março, na poderosa armada do capitão-mor Fernão Álvares Cabral, filho de um Pedro que conhecemos bem. Para Goa (Índia). Ali, naquele mundo para ele novo, sofreu todas as agruras. Numa expedição a Ceuta, perdeu o olho direito em batalha. Mais tarde, em 1558, naufragou na foz do rio Mekong – costa do Sião (hoje, Tailândia). Salvou-se despido, como todos os demais sobreviventes, tendo em uma das mãos os primeiros versos de seu Os Lusíadas.
Nesse episódio teria morrido uma chinesa, a quem Camões deu o nome poético de Dinamene, para quem depois escreveria uma série de poemas. Entre eles o famoso Soneto 48, que todos conhecem, começando assim:
“Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste”.
Foi Provedor dos defuntos nas partes da China. Desempenhando suas funções com não muita lisura, é de justiça reconhecer. E, vez por outra, frequentaria prisões. Por dívidas. Ou rixas. Como dizia o próprio Camões, “Erros meus, má fortuna, amor ardente/ Em minha perdição se conjuraram”. Mas, sobretudo, nunca parou de escrever.
Em 1570, afinal, estava novamente de volta a Lisboa. Com as carências financeiras de sempre. Segundo se conta, sobreviveu durante algum tempo graças ao fiel Jau, trazido das Molucas. Esse escravo esmolava, de noite, pedindo pão para seu mestre. Importante é que Os Lusíadas avançava. Sob o patrocínio de dom Manuel de Portugal, devotou-se então à sagração de seu país – naquela que é considerada, consensualmente, a mais bela epopéia do século XVI.
A edição princeps – assim se diz das primeiras edições de um livro – foi impressa na tipografia de António Gonçalves, em Lisboa, no ano de 1572. Com privilégio real de impressão por 10 anos e publicada com um benévolo (e corajoso) parecer censório de frei Bartolomeu Ferreira, sem data. Terá tido também licença da Mesa Inquisitorial – que, todavia, não consta da impressão.
Tem aparato paratextual simples, 8.816 versos e 1.102 estrofes divididas em 10 cantos. Utilizando a divisão da divina Comédia, de Dante – que assim tem, como cantos, seus 100 livros. Há, hoje, cerca de 25 exemplares ainda existentes, em bibliotecas ou nas mãos de colecionadores, talvez menos que 10 completos.
Até fins do século XIX, se acreditava ter havido duas edições princeps, um mito devido a Manuel Faria e Souza – que (em 1639), ao comentar Os Lusíadas, confrontou dois volumes daquele mesmo ano em que o livro foi lançado, 1572; e verificou haver, neles, pequenas diferenças. Depois se comprovando terem sido bem mais que duas. Restando hoje assente que assim ocorreu pelo desejo de Camões, ou seu editor, em corrigir pequenas incorreções das impressões anteriores.
Dando-se que, em alguns casos, foram sendo aproveitados conjuntos de páginas já impressas, antes, e não utilizadas. Fazendo-se, as correções, nas novas páginas impressas. Uma explicação que só se pode compreender pelos rudimentares sistemas de impressão daquela época.
Apesar de numerosos indicativos dessa edição princeps na comparação com as demais, e curiosamente, o que a identifica é um pelicano, à primeira página, com o bico virado para a esquerda do leitor. Além do pelicano, também um detalhe no terceiro verso da primeira estrofe, que começa por “E entre”; enquanto nas versões posteriores, já corrigidas, começa por “Entre” apenas. Essas edições de 1572 tornaram-se conhecidas, por isso, como “Ee” e “E”.
Camões tinha com ele, ao morrer, aquela que acabou tida como a primeira edição autêntica, deixada ao frei Joseph Índio, que o acompanhou num hospital de Lisboa. Esse volume é conhecido como Holland House – por ter estado em casa do general Lord Holland, em Londres, a partir de 1812 e por mais de cem anos.
Outra edição famosa, em Portugal, é a segunda ‒ conhecida como dos piscos. Surgida, em 1584, dois anos após o fim do prazo do alvará que protegia a primeira (de 1572). Impressa pela tipografia Manuel de Lira (em Lisboa), e com licença do mesmo frei Bartolomeu Ferreira, responsável pela autorização da edição princeps. O nome jocoso dado à edição vem de uma citação, nos Lusíadas (Canto III, 65), sobre a “piscosa Cizimbra”.
Sezimbra é uma vila portuguesa no distrito de Setúbal. Abundante em peixes, bom lembrar. Trata-se da primeira edição comentada de Os Lusíadas. Explicando a citação, o comentador, como referência aos pássaros que ali se juntam em passagem para a África, provavelmente se referindo ao Pisco-de-peito-ruivo (Erithacus Rubecula).
Camões segue a trilha de outras epopéias do passado. Sobretudo a Eneida, de Virgílio; o que se vê até na comparação dos versos iniciais dos poemas: Canto as armas e o varão, Virgílio; e As armas e os Barões assinalados, Camões. Também a Ilíada e a Odisseia, de Homero. Bem como a divina Comédia, de Dante.
Além de numerosas epopéias surgidas em Portugal, no mesmo século XVI de Os Lusíadas, mas antes dele – como as de André de Resende, Manuel da Costa ou José de Anchieta; e manuscritos que circularam, também antes de 1572, como os de António Ferreira e Jerónimo Corte-Real.
Nele temos o passado, com a exaltação das conquistas em que o povo português foi muito além do Mar Tenebroso. O presente, com o lamento pelo abandono das terras africanas por Portugal – de Safim a Azanos, de Azila a Alcácer Cequer. Sem contar a ameaça turca, conjurada só na batalha naval de Lepanto, em 7 de outubro de 1571.
Mas é, sobretudo, a antevisão de um futuro grandioso, na linha da Utopia do Quinto Império. E ninguém cantou Portugal como Camões. Ver Canto X, 155,
“Pera servir-vos, braço às armas feito,
Pera cantar-vos, mente às Musas dada;
Só me falece ser a vós aceito,
De quem virtude deve ser prezada.
Se me insto o Céu concede, e o vosso peito
Dima empresa tomar de ser cantada,
Como a pressaga mente vaticina
Olhando a vossa inclinação divina”.
Pouco antes, em Desenganos, escreveu “Nascemos para morrer/ Morremos para ter vida/ Em ti morrendo”. Assim foi. Luís Vaz de Camões morreria só em 10 de junho de 1580, pouco depois do desastre de Alcácer Quibir – em que desapareceu dom Sebastião, o Desejado, e Portugal passou a ter um rei espanhol.
Foi enterrado na igreja de Santa Ana e seus restos acabaram transferidos, em 1894, ao mosteiro dos Jerônimos, onde repousam num túmulo esculpido em mármore bem na entrada. Consta que disse, ao morrer, “Ao menos morro com a pátria”.
* * *
Há uma razão para falar em Camões agora, amigo leitor, É que, nesta quarta, o Gabinete Português de Literatura me distinguiu com o “Colar do Mérito Luiz Vaz de Camões”. Como complemento, “Em reconhecimento à sua destacada contribuição à cultura e à língua portuguesa”. Homenagem enorme, da qual nem me sinto merecedor. Deve ser por conta da idade…
O Gabinete (com 80 mil livros) está celebrando, agora, seus 175 anos. Um marco importante na história literária e intelectual de nosso estado. Por tudo, pois, grato a seu presidente, o eminente Celso Stamford; e a seu vice-presidente, o caro Alexandre Reis de Melo.
Agradeço, também, ao conselheiro da Embaixada de Portugal no Brasil, o Excelentíssimo senhor doutor Francisco Duarte de Azevedo. E logo encareço permitam uma observação pessoal. Para dizer que se trata de alguém que cultua a exatidão. Por exemplo lembro que foi ao Shopping Center Recife para comprar meias. A balconista desejou ter informações complementares, para melhor atender seu pedido. Reconhecendo aquele cliente como português, e forçando um sotaque lusitano,
‒ Diga mais.
E ele, preciso em tudo,
‒ Mais.
Muito grato a todos. E viva pelos seus méritos, por todos reconhecidos, o Gabinete Português de Leitura.

