DEU NO X

XICO COM X, BIZERRA COM I

O QUINTO METATARSO

Zé quebrou o quinto metatarso do pé direito quando, ao carregar um saco de cimento, caiu-lhe o fardo do ombro. Ninguém o socorreu. Era apenas um operário da construção civil. Depois de horas lembraram-no da existência de um posto médico logo ali, a poucos quilômetros do prédio onde trabalhava. Teve que ir a pé, a um pé só. Não tinha dinheiro para o táxi e a ambulância solicitada não chegou. – Para que paguei imposto? – Por que descontei INSS? – perguntas que não encontravam resposta. Fila, burocracia, e, depois de sete horas de espera, o atendimento e a marcação da cirurgia para dali a 7 meses. Para depois da Copa do Mundo. Estávamos em 1970. Quando menino, Zé tentou estudar mas nunca passou do terceiro ano. Tinha que traballhar, desde cedo. Também nunca sonegou imposto: não tinha renda para tal. Terminou por carregar cimento e quebrar o pé. Pena que Zé não tinha aptidão para ser jogador de futebol … Zé vivia num tempo em que não havia SUS. Nem UPA. Nem governo. Em abundância, truculência, tortura, ditadura e desrespeito ao povo simples. Tempo de generais que cantavam, ironicamente, a pleno pulmões, ‘eu te amo, meu Brasil’.

DEU NO JORNAL

DESCULPEM SE EU NÃO CHORAR: A CARTA DE CLARICE

Roberto Motta

Policiais durante a Operação Contenção, no Rio de Janeiro.

Policiais durante a Operação Contenção, no Rio de Janeiro

Reproduzo aqui a carta que recebi de Clarice, leitora dos meus livros. Por razões que ficarão evidentes, esse não é seu nome real. Além de mudar o nome, retirei do texto qualquer elemento que permitisse a identificação da autora.

É Clarice quem fala agora.

* * *

Caro Roberto,

Tento me afastar de temas polêmicos e manter o tom positivo nas minhas redes sociais. Mas não consigo me calar por muito tempo, principalmente diante do que tenho visto e do que já vivi. Preciso contar minha história.

Fui moradora de uma comunidade (esse é o termo que a mídia usa para se referir a favelas) até casar e mudar para uma linda cidade da serra fluminense. Essas são minhas memórias de infância e adolescência, vividas em uma pequena favela do Rio de Janeiro – infelizmente, não tão pequena a ponto de escapar do domínio do crime organizado. Lembro de voltar da escola ou da igreja sofrendo crises de ansiedade, pela possibilidade de encontrar com uma vítima da sociedade armada de fuzil na esquina, ou até na porta de casa. Sofria do medo permanente de me encontrar em meio a uma troca de tiros – um fato corriqueiro naquele lugar.

Lembro também de acordar apreensiva e ver meus pais saindo de madrugada para trabalhar, depois de ter ouvido tantos tiros na noite anterior.

Lembro de passar madrugadas acordada, tremendo (literalmente) de medo, ouvindo correria, gritos e tiros – muitos tiros – que pareciam estar sendo disparados dentro de casa. Isso não ocorria apenas durante operações policiais. Na maioria das vezes, tratava-se de briga entre as facções.

Lembro de ter a casa invadida duas vezes. Em uma dessas ocasiões as “vítimas da sociedade” apontaram fuzis para meu avô, ameaçando “furá-lo todo” se ele não abrisse o portão.

Lembro de um dia em que minha mãe (que era muito cuidadosa) não me deixou descer para brincar na rua, porque a favela tinha sido invadida por outra facção e havia perigo. Depois daquele dia, nunca mais desci para brincar – até que, de repente, eu já não era mais criança.

Lembro de ter crises de pânico ao ouvir passos, conversas e risadas das “vítimas da sociedade” vindas da laje da minha casa, transformada por eles em “escritório” – isso enquanto, sozinha em casa, eu esperava meus pais voltarem do trabalho. Na laje os criminosos escondiam drogas, armas e granadas. Subir na laje para estender roupas era um teste de coragem, assim como descer a escada, à noite, para trancar o portão, torcendo para não levar um susto com o vulto de alguma “vítima da sociedade” escondida no quintal.

Lembro de histórias de pessoas próximas, pais de família, que tiveram que abandonar suas casas só com a roupa do corpo, sob ameaça de morte, por não ceder o carro para ser usado pelo movimento ou facção Lembro de um pai de família assassinado no “micro-ondas” por ter pedido educadamente que as “vítimas” parassem de usar drogas no portão de sua casa.

Lembro de tantas coisas, a maioria bem ruim.

A polícia comete erros? Há corrupção e excessos? Claro. Mas eu garanto: nada se compara ao terror que é viver sob o domínio de uma facção!

Me surpreendo com as pessoas que se sensibilizam mais com criminosos mortos em uma operação policial do que com os trabalhadores honestos que, diariamente, perdem suas vidas ou sua saúde mental pela ação cruel e deliberada desses criminosos. Quem pensa assim não tem noção do que é a realidade de uma favela.

Me desculpem se eu não chorar a morte de quem leva tanta desgraça, ruína e terror a populações inteiras. Eles escolheram esse caminho.

Não venham me dizer que “foi a sociedade” que fez isso ou aquilo. Para cada menino da favela que escolhe pegar em armas, há outros cem que escolheram um livro ou uma carteira de trabalho. Eles são frutos do mesmo meio – muitas vezes os honestos vivem em condições ainda piores do que aqueles que escolheram o crime. Essa é a realidade que vi na minha pequena comunidade: é sempre uma minoria que escolhe o crime, a facção, e que faz a população inteira de refém.

E sim, acredito que em Deus há perdão, redenção e regeneração esperando esses indivíduos. Mas desde que exista antes uma coisa chamada ARREPENDIMENTO.

Mas, quando um homem, voluntariamente, aponta uma arma e fuzila pessoas inocentes (incluindo policiais), ele já escolheu o infortúnio como destino, e se sujeita às consequências de tal escolha.

Sejamos lúcidos.

Clarice.

PENINHA - DICA MUSICAL

DEU NO X

SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

DEU NO X

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

CANTIGA PARA NÃO MORRER – Ferreira Gullar

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento

José Ribamar Ferreira, o  Ferreira Gullar, São Luís-MA, (1930-2016)

DEU NO JORNAL