DEU NO JORNAL

A MELHOR DIETA

Roberto Motta

Esse é o conselho mais importante para quem procura o enriquecimento – material, social e espiritual – de sua vida: leia livros bons, leia muito, leia todos os dias

A melhor maneira de ensinar alguém a pensar de forma coerente e estruturada é ensinando a escrever. As atividades de raciocinar e escrever estão intimamente associadas. É impossível escrever sem antes estruturar o pensamento, por mais simples que ele seja. Vem daí, provavelmente, a dificuldade que muitos encontram em escrever: o problema não está na escrita, mas no pensamento que, necessariamente, a precede. Porque pensar bem demanda esforço e tempo.

É possível pensar bem sem escrever, mas não é possível escrever bem sem pensar bem.

Nem todos os que desenvolvem bom raciocínio adquirem o hábito da escrita, claro. Há exemplos de indivíduos inteligentes e sagazes que nunca escreveram, e não conseguiriam escrever, uma linha sequer. Pensar bem é uma condição necessária, mas não suficiente, para a escrita. A produção habitual de bons textos envolve outros fatores como instrução, cultura, inspiração e estímulos sociais. Mas minha constatação é de que todos os que aprenderam a escrever bem também aprenderam a pensar.

Essa associação entre pensamento e escrita explica algumas coisas. Primeiro, a dificuldade quase física que muitos sentem diante da necessidade de escrever um texto estruturado, compreensível e interessante. Segundo, a degradação cognitiva generalizada observável no sistema mídia-ensino-entretenimento, que trabalha com unidades cada vez mais rudimentares de informação, conectadas pelos raciocínios mais simplistas disponíveis.

O discurso público se reduziu à repetição de slogans e palavras de ordem. Esse é exatamente o mesmo processo usado por sistemas de inteligência artificial como ChatGPT ou Grok. Pergunte a alguém sua opinião sobre uma questão política ou social do momento. A resposta, com toda a probabilidade, será uma coleção das expressões mais usadas pela mídia sobre aquele assunto – é exatamente o que faria o ChatGPT. A chance de elaboração de um pensamento original é zero.

Sem raciocínio, e sem a capacidade de se expressar verbalmente, as manifestações individuais ficam restritas à expressão de necessidades fisiológicas e estados emocionais elementares – e nada exemplifica melhor isso do que os diálogos e monólogos dos reality shows. A brutalização da expressão leva à incapacidade de reconhecer e apreciar aspectos da realidade que envolvam transcendência e beleza.

Se a dificuldade de pensar leva à dificuldade de escrever, ela leva também à dificuldade de ler. Ninguém escreve bem sem ler bem e muito. Ler é reproduzir na mente os pensamentos que outra mente selecionou e estruturou. Ler bons livros é um processo pelo qual, por algum tempo, simulamos a forma de pensar – as ideias e os sentimentos – de outros seres humanos, sem que seja necessário passar pelas experiências que eles viveram. A boa leitura, especialmente de ficção, é a simulação de outra vida. Ler bem é viver muitas vezes.

O hábito de ler e escrever é tão importante quanto se exercitar e manter uma boa dieta. Nunca foi tão fácil ler coisas boas; nunca foi tão simples e barato acessar os melhores textos que a humanidade produziu. Mas o intelecto é como os músculos: ele se atrofia se deixado de lado.

Esse é o conselho mais importante para quem procura o enriquecimento – material, social e espiritual – de sua vida: leia livros bons, leia muito, leia todos os dias.

Como saber que livros são bons? Basta me seguir. Não falo de outra coisa.

XICO COM X, BIZERRA COM I

RELIGIOSO SEM RELIGIÃO

Conheço um cara de origem extremamente católica, criado dentro dos mais rigorosos preceitos da Igreja Católica Apostólica Romana, de família totalmente dedicada aos princípios religiosos. Criança, não perdia uma missa aos domingos. Foi coroinha e depois, para satisfazer a vontade da mãe que queria vê-lo Padre, ingressou no seminário. Nas duas atividades permaneceu por apenas 6 meses. Isso tudo juntado talvez seja o responsável por ele hoje detestar as igrejas, todas elas, não importa, evitando até botar os pés em suas calçadas.

Sua Fé é muito mais intensa: é íntima, é uma parceria com a natureza e com os valores do bem, é o perseguir a filosofia e os ensinamentos de Francisco, aquele de Assis, um Santo de e da Verdade que pregava a caridade como obrigação humana. É o fazer o bem sem olhar a quem e nunca desejar o mal ao semelhante.

A religião desse cara se sustenta em três pilares: a importância da família, a serenidade da música e a liturgia da palavra. E assim tem sido ao longo de sua vida. Nunca sentiu falta de altares e de estátuas, de homilias e de religiosos, de dogmas e outras enganações. Santos, estão lá por merecimento, não para atender ou intermediar pedidos de nós, terrenos errantes. Por isso, não lhes ‘enche o saco’. Sacerdotes, alguns ele até admira, como João Paulo II e um ou outro Lancelotti dos tempos atuais, bem diferentes dos Padres e Freis cantores.

E assim segue, religioso a seu modo, temente a um ser superior, um Deus em que acredita, e fazendo o que acha que deve ser feito, respeitando o próximo, em primeiro lugar. Esse é um cara do bem. Modéstia à parte, dá para desconfiar de quem estou falando?

DEU NO X

PENINHA - DICA MUSICAL

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

DEU NO X

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

DEU NO X

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

HORA QUE PASSA – Florbela Espanca

Vejo-me triste, abandonada e só
Bem como um cão sem dono e que o procura
Mais pobre e desprezada do que Job
A caminhar na via da amargura!

Judeu Errante que a ninguém faz dó!
Minh’alma triste, dolorida, escura,
Minh’alma sem amor é cinza, é pó,
Vaga roubada ao Mar da Desventura!

Que tragédia tão funda no meu peito!…
Quanta ilusão morrendo que esvoaça!
Quanto sonho a nascer e já desfeito!

Deus! Como é triste a hora quando morre…
O instante que foge, voa, e passa…
Fiozinho d’água triste… a vida corre…

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)

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