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AS AMEAÇAS DE MADURO E A BÚSSOLA MORAL QUEBRADA DE LULA

Editorial Gazeta do Povo

O ditador Nicolás Maduro, que reivindica soberania sobre 70% do território da Guiana.

O ditador Nicolás Maduro, que reivindica soberania sobre 70% do território da Guiana

O ditador venezuelano, Nicolás Maduro, conseguiu o “respaldo popular” – real ou fabricado – de que precisava para embarcar em sua própria loucura expansionista contra a Guiana e tentar anexar a região do Essequibo, ou Guiana Essequiba. O caudilho bolivariano disse ter conseguido o apoio de 95% dos que foram às urnas no referendo de domingo, o que daria, segundo suas contas, 10 milhões de votos – na melhor das hipóteses, isso representaria pouco menos da metade de todo o eleitorado venezuelano, mas existe a possibilidade de apenas 10% dos eleitores terem votado, já que o referendo tinha cinco perguntas; se a resposta a cada uma delas contar como um voto, como apontou a oposição, o comparecimento às urnas teria sido de apenas 2 milhões.

A reivindicação sobre o Essequibo, que corresponde a pouco menos de três quartos de todo o território guianense, não é invenção bolivariana; é obsessão antiga venezuelana, que data do século 19, quando a Guiana ainda era uma colônia britânica. O tema é um dos poucos que conseguem unir polos opostos dentro do país – a ponto de até o episcopado da Venezuela ter se manifestado em favor da soberania sobre a região –, de forma similar à reivindicação argentina sobre as Ilhas Malvinas. Mas a ressurreição da controvérsia neste exato momento é bastante conveniente à ditadura de Maduro por duas razões.

A primeira é a mais óbvia, e nela vemos a repetição do caso argentino. Em 1982 os generais que governavam a Argentina precisavam desviar a atenção de sua população, afligida por inflação próxima de 100% ao ano, recessão e aumento da pobreza, e viram na invasão das Malvinas a ocasião de unir os cidadãos em torno de uma plataforma que era unanimidade nacional. A Venezuela de Maduro passa por um caos econômico ainda maior, e o povo percebe que não há a menor intenção, da parte do bolivariano, de realizar as prometidas eleições limpas e livres em 2024 – apesar dos acordos assinados recentemente em Barbados, a ditadura não tem feito sua parte, por exemplo ao manter inelegível o principal nome da oposição, María Corina Machado. Já a segunda razão para que a Venezuela volte a pressionar pela posse de Essequibo é econômica: a região é riquíssima em recursos minerais, e desde 2015 sabe-se da existência de vastos campos de petróleo que foram responsáveis pelo salto recente da economia da Guiana.

Em todas as ocasiões em que a arbitragem nacional foi invocada, a Guiana saiu vencedora – inclusive na última sexta-feira, quando a Corte Internacional de Justiça, em Haia, determinou que a Venezuela deve “se abster de qualquer ação agressiva contra a região fronteiriça de Essequibo” e evitar “quaisquer ações que possam modificar a situação que prevalece atualmente”, embora não tenha mencionado o referendo venezuelano do último domingo, que a Guiana pretendia suspender. Entretanto, a Venezuela já havia afirmado recusar a autoridade da corte, e uma das questões do referendo tinha o objetivo (atingido) de dar apoio popular a essa recusa, o que na prática torna mais difícil uma solução negociada com amplo respaldo internacional.

Isso, teoricamente, abriria espaço para que o Brasil, a potência regional sul-americana, pudesse finalmente demonstrar algum poder diplomático, ao contrário da influência quase nula que exerce sobre conflitos recentes como a guerra na Ucrânia e a reação israelense ao terrorismo do Hamas. Mas Lula novamente desperdiçou a oportunidade. Repetindo o padrão usado sempre que um amigo ou parceiro ideológico é pego cometendo atos tão absurdos que são impossíveis de ignorar, o petista colocou no mesmo balaio quem ameaça e quem é ameaçado. Em Dubai, ao fim da COP28, afirmou esperar “que o bom senso prevaleça, do lado da Venezuela e do lado da Guiana”, e que, “se tem uma coisa que estamos precisando para crescer e para melhorar a vida do nosso povo é a gente baixar o facho”.

Se há alguém hoje que necessita “baixar o facho” e ter “bom senso”, esse alguém é única e exclusivamente Nicolás Maduro. Mas Lula fala como se a Guiana também estivesse provocando um conflito, assim como no passado culpou a Ucrânia pela invasão russa. Os apelos genéricos do petista, aliados à falsa equivalência moral que ele começa a desenhar também neste caso, acabarão desmoralizando o Brasil, que hoje é o país que está na posição mais privilegiada para dissuadir Maduro de uma aventura militar. Se Lula não usar sua amizade com o ditador para frear seu expansionismo irracional, não terá como reclamar se um eventual conflito resultar em um aumento da presença militar de potências estrangeiras na América do Sul, já que é muito improvável que a Guiana seja deixada ao léu por aliados como os Estados Unidos – nem que seja apenas para proteger os interesses das companhias ocidentais que exploram as reservas de petróleo do Essequibo.

A América do Sul caminha para a marca de três décadas sem que países do continente troquem tiros entre si – o último conflito entre nações opôs Peru e Equador, que lutaram por um mês em 1995. A paz na região só não é completa porque há guerras internas, como na Colômbia, mas a concórdia entre países é ativo que precisa ser preservado, mas está sob ameaça graças à loucura de Nicolás Maduro, que pode muito bem aceitar também a possibilidade de fazer da Guiana o palco de uma nova “guerra por procuração” se isso interessar a seus aliados russos e chineses. O Brasil pode e deve se empenhar em trabalhar pela distensão e por uma solução diplomática para a disputa territorial – mas para isso Lula precisará ajustar sua bússola moral, que hoje está completamente quebrada, e parar de igualar os valentões e suas vítimas.

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A RUA DOS CATAVENTOS – Mario Quintana

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

Mário de Miranda Quintana, Alegrete-RS (1906-1994)

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