DEU NO JORNAL

ACORDA, VIGIA!

Luís Ernesto Lacombe

Rodrigo Pacheco

Rodrigo Pacheco, presidente do Senado

Eles podem arrancar folha por folha da Constituição. Podem rasgar cada uma em dezenas de pedacinhos, impedindo até que o melhor montador de quebra-cabeças tenha facilidade na reconstrução. Podem até sambar sobre os pedaços de papel espalhados pelo palco particular que eles iluminam para si mesmos. Se resolvem não picotar tudo, se mantêm algumas folhas intactas, é porque são ardilosos interpretadores de texto. Em parte, a forma se mantém, o físico, o material, mas a essência muda. As frases são as mesmas, cada palavra, cada sílaba, cada letra, toda pontuação, mas mudam o significado, a semântica, o sentido. E o livre entendimento de tudo pelos ungidos deve ser inquestionável. Se acharem necessário, eles podem até criar leis. Eles têm o poder.

O vigia do vigia anda há muito distraído, passivo, quase morto. Não quer ver o esbulho, não quer ouvir nada. Há um estrondo enlouquecedor, está tudo se quebrando. As folhas de papel rasgadas com fúria vão ganhando corpo, vão virando monstros movidos também pela interpretação catastrófica do que ainda é palpável, mas subvertido, invertido, pervertido. Vidros espatifados, o solo se abrindo, estruturas que pareciam sólidas rachando. Os monstros avançam para o colapso. São chamados de inquéritos, carregam a palavra que me amedrontava nas brincadeiras de criança: inconstitucionalissimamente…

O vigia se mexeu, mas não deu em nada. Ele só mudou de posição num sono profundo. Crimes de responsabilidade, crimes de responsabilidade, nem em seus sonhos, nem em seus pesadelos, em situação nenhuma. Está inerte de novo… O vigia que não vigia. Não vai suspeitar de ninguém. Os rasgadores da Constituição, claro, não suspeitam deles próprios e dos que estão com eles. Todos devem acreditar nos ameaçadores poderosos. Todos devem aceitar que eles são a verdade, somente a verdade, nada além da verdade. E que ninguém venha choramingar, falar, aos soluços, aos engasgos, em “modo incompatível com a dignidade e o decoro do cargo”.

Aristóteles disse que “o homem é um animal político”. Alguns são apenas animais e querem fazer política, mesmo que sejam selvagens e incapazes. Querem fazer política, mas estão no lugar errado. Não poderiam dar um passo, um pio nessa área. O vigia deveria lembrá-los disso, mas ainda dorme pesadamente. E os brutamontes ficam se metendo em turbas e discursos coletivistas, porque a “democracia liberal burguesa está em crise”, porque há um grupo a derrotar, a eliminar… O vigia se mexeu de novo. Agora dorme de bruços. Os sequestradores e torturadores da Constituição acham graça.

E lá vão eles, juntos e misturados, achando que têm “cabeça política”, que “vivenciam política”, que têm “experiência política”. O vigia dorme, sonhando com pessoas de bem, com “comunistas do bem”… Os sonhos são assim: às vezes, podem ser mesmo completamente desgarrados da realidade. É um sono pesadíssimo. O barulho é ensurdecedor, nessa destruição de tudo. Nem beliscões, nem tapas, nem pedras e paus, socos e pontapés; os animais e os monstros avançam, na sua ideologia empobrecedora, aprisionante e assassina. Quando finalmente despertar (e eu tenho esperança de que isso aconteça a tempo), o vigia terá de se movimentar freneticamente, para endireitar um país que tem cada vez mais “crimes sem castigo e castigo sem crimes”.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

BRECHIÓ. O CORAJOSO

Quando eu me encontro com Zé Bola, filho do velho e inesquecível Muquêi, se é dia vira noite e se é noite vira dia.

Nós conversamos sobre as coisas da terrinha por horas e as risadas são a energia para a prosa se sustentar por si, tudo arrimado nas melhores lembranças do nosso maior patrimônio: as coisas e os fatos retirados do meio do nosso povo mais humilde em sua simplicidade mais genuína.

Encontrei hoje em minhas rabiscadas que há cinco anos eu tive a satisfação de encontrá-lo instalando uma lâmpada na casa de Marluce Nogueira, viúva do meu Tio Ema e ex-sogra de Diana, essa a filha mais velha de Zé.

Os meus rabiscos me dão conta que naquela oportunidade a prosa começou no quarto escuro, continuou com o mesmo iluminado, passou para a sala onde as mulheres conversavam, foi para a área, desceu para a calçada e subiu para terminar umas três horas depois no calçamento da Rua Cipriano Pereira.

Causo daqui, causo de lá, apresentei a obra de Jessier Quirino e lhe falei com orgulho da minha amizade apenas – mas, apenas por enquanto – virtual com Zelito Nunes (que no outro dia jogaria mais sementes de cultura, com o lançamento do quarto livro, no solo fértil das almas matutas), dois exímios contadores de estórias e histórias da gente sertaneja.

Pois bem, e de causo em causo fomos ficando ali no meio da rua, mesmo depois da impaciência das nossas mulheres ter levado ambas, cada uma para a sua casa.

Daí, que Zé Bola, também um bom contador de anedotas e um cabra de lembrança apurada, contou-me uma história pela qual eu desenvolvi especial carinho por se tratar de mais uma presepada de Brechió, de quem, aliás, já falei aqui em outra oportunidade.

Brechió, apenas para relembrar, sofria de certa fraqueza na cabeça, doença que lhe acometia vez em quando. Sentindo o tal “aperto no juízo”, de conta própria pedia ao delegado de Acary para passar uns dias na cadeia, de onde geralmente saía curado vinte e poucos dias depois. No entanto, algumas vezes o internamento em uma casa especializada se fazia necessário.

Em uma dessas vezes, Brechió ficou amigo do Doido da Lanterna. O sujeito era um mossoroense de boa família que, em sua loucura, virava caçador de OVNI’s apontando à noite para o céu escuro o facho de luz de uma potente lanterna.

Como era sujeito de temperamento calmo, assim como Brechió, lhe era dado o direito de ir ao pátio à noite, lugar onde pela manhã os internos tomavam banho de sol. E isso, digo, esse livre acesso, se dava até para poder acalmar a sua ansiedade em encontrar um OVNI e derrubá-lo com a luz da lanterna, da qual não se separava nunca!

Pois bem, contou-me Zé Bola de haver ouvido de Brechió a seguinte história.

Noite escura, luzes da unidade apagadas e no meio do pátio o mossoroense de lanterna em punho, porém desligada. Brechió foi se aproximando. Quando chegou ao lado do colega, o mesmo ligou a lanterna e apontou para o céu. O facho de luz se abrindo e se perdendo na imensidão.

– Tem coragem? – perguntou a Brechió.

– De quê? De matar um bicho de outro mundo? – inquiriu o outro.

– Não. De subir aí – respondeu o mossoroense, acompanhando com um movimento do dedo indicador da outra a mão a claridade feita numa reta quase perfeita se abrindo no espaço, apontando para o facho de luz saído da lanterna e se perdendo escuridão acima.

– Ter eu tenho – respondeu Brechió. – Mas você tá achando qu’eu sou doido, tá?

– Oxente! – Por quê?

– Eu subo, né?, e quando eu tiver lá em cima bem tranquilo, tu vai apaga e eu, ó – falou jogando os dois braços para frente – timbungo no chão e me lasco todinho – respondeu Brechió e acrescentou saindo para o quarto onde dormia: – Sou doido, não, mô fie.

Não era mesmo não. Mas, que tinha coragem de subir, isso tinha.

E de sobra!

DEU NO JORNAL

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

SÓ UM PÔQUIM DE CHUVA

Acauã ave agourenta

A calçada alta com as bordas feitas de tijolos brancos desgastados com o subir e descer da gente. Arestas abauladas pelo sentar e pelo tempo, naquele momento se tornava confortável e parceira na tristeza normal do fim de dia e chegada da lugubridade da noite. João cuidava em preparar os candeeiros para amainar a noite.

“Vem-vem!……..”

Sem que ninguém estivesse para chegar, o vem-vem cantava em tiriça, entristecendo mais ainda aquele fim de dia, que ficava mais triste ainda com a chegada das mariposas perseguidas pelas andorinhas.

Uma ode poética num verso que nada dizia além da desesperança. Sim, por quê, longe dali, na grande capoeira duas, três, quatro e agora cinco vacas haviam morrido de sede, virando carniça e fazendo o banquete dos urubus. A natureza se fazia perversa, ainda que de forma passageira.

Mais escuro que claro, o silêncio do vem-vem parecia uma autorização para os sussurros lúgubres da coruja que sobrevoavam a área. Aquele “cantar”, diziam alguns, era o prenúncio da chegada da morte para alguém. Era, pelo assim dizer sertanejo, um “agôuro”!

João concluíra a tarefa da preparação dos candeeiros. Agora, segurando na mão firme e envelhecida de Raimunda – os dois – dobrava os joelhos e rezava o que mais parecia uma cantiga que oração:

“Pai celestial de todos nós. Minhas vaquinhas estão morrendo de sede. Onte morreu uma, onteonte morrer duas e mais uma novilha, e hoje perdemos ôtra”. Ajude nós, Sinhô de todos. Nem temos mais o que cumê, faiz três dias.”

Acauã – Gravação de Luiz Gonzaga e letra de Zé Dantas

“Acauã, acauã vive cantando
Durante o tempo do verão
No silêncio das tardes agourando
Chamando a seca pro sertão
Chamando a seca pro sertão
Acauã,
Acauã,
Teu canto é penoso e faz medo
Te cala acauã,
Que é pra chuva voltar cedo
Que é pra chuva voltar cedo
Toda noite no sertão
Canta o João Corta-Pau
A coruja, mãe da lua
A peitica e o bacurau
Na alegria do inverno
Canta sapo, gia e rã
Mas na tristeza da seca
Só se ouve acauã
Só se ouve acauã
Acauã, Acauã…”

Muito mais que o sono, o cansaço e a ansiedade pela chegada da chuva, adormeceram João minutos após a oração conjunta com Raimunda. Candeeiros acesos. Cessado o canto da coruja. Mariposas que conseguiram se salvar da gula das andorinhas, fugiram e se aquietaram. Com o fato seguinte, concluo mesmo que se esconderam ou se abrigaram.

A noite quente que traz aquele calor conhecido na roça, agora começava a se transformar. Uma neblina e em seguida uma chuva mais forte e cada vez mais forte fazendo barulho nas telhas, acordou João.

– Chuva meu Deus! “Aubrigado” por atender minha oraçãozinha mais cheia de Fé que de conhecimento”!

Agora mais intensa, a chuva continuava caindo. A forte ventania começou a preocupar João que, longe dali, escutava os chocalhos das vacas em movimento procurando abrigo. A ressequida sombra do juazeiro não protegeria todas.

A claridade do dia seguinte chegou. João levantou, tomou café acompanhado de farinha seca e foi pastorear as vacas, na esperança que elas tivessem se protegido durante a chuva. Algumas sobreviveram, outras tantas se afogaram nos lagos formados pelo excesso de chuvas nas capoeiras. Mas, havia a alegria do futuro garantido pela chuva.

Contrito e agora só, João mais uma vez dobrava os joelhos em oração. Não era oração. Era uma cantiga do vasto cancioneiro sertanejo:

“Oh! Deus, perdoe este pobre coitado
Que de joelhos rezou um bocado
Pedindo pra chuva cair sem parar

Oh! Deus, será que o senhor se zangou
E só por isso o sol arretirou
Fazendo cair toda a chuva que há

Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho
Pedi pra chover, mas chover de mansinho
Pra ver se nascia uma planta no chão

Oh! Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe
Eu acho que a culpa foi
Desse pobre que nem sabe fazer oração”

DEU NO X

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

DEU NO X

DEU NO JORNAL

ABUNDÂNCIA DE JANJADAS

Têm sido atribuídas à primeira-dama as decisões mais espantosas do presidente Lula (PT) sobretudo em política externa, baseadas em conceitos ideológicos atrasados.

O neologismo “janjada”, criado por diplomatas constrangidos, também passou a ser adotado por políticos de vários partidos.

É a expressão usada para definir, por exemplo, o erro do presidente petista de associar o Brasil às mais repulsivas e atrasadas ditaduras para ofender Israel, vítima do terrorismo covarde do Hamas.

Até petistas usam “janjada” para blindar Lula, quando “passa pano” nos terroristas do Hamas ou nos invasores russos à Ucrânia, por exemplo.

Líder da atrasadíssima esquerda brasileira, Lula concedeu “asilo político” a um assassino, Cesare Battisti, condenado à prisão perpétua na Itália.

Confundindo terrorismo com esquerdismo, Lula nem sequer condenou o ataque terrorista do Hamas que matou 1.400, incluindo quatro brasileiros.

* * *

Neste notícia aí de cima, a expressão “atrasadíssima esquerda brasileira” está simplesmente genial.

Resume tudo de maneira irrespondível.

A esquerda é atrasada em qualquer recanto do mundo.

Mas aqui no Brasil ela é atrasadíssima.

Quanto à abundância de janjadas, tá tudo coerente e nos conformes.

Caga-se pela bunda, mas no governo lulo-janjaico caga-se bem mais pela boca.

E nisso a parelha presidencial Lula-Janja é imbatível.

Charge da semana (35) - Revista Oeste

“Qual vai ser a janjada de hoje, meu amô?

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

LEVANDO PISA

No início desse século o OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico teve a brilhante ideia de promover um teste de conhecimento para estudantes de, aproximadamente, 80 países, dentre os quais o Brasil. Surgiu o exame do PISA – Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, que exige conhecimento em Matemática, Ciências e Leitura. O exame é aplicado para estudantes com até 15 anos.

Desde os primeiros resultados, o Brasil tem ocupado uma sofrível posição dentre os participantes e quando a gente olha o que aconteceu em 2022 dá vergonha. Basta dizer que 50% dos nossos alunos não leem mais do que três páginas de texto… por ano. Menos de 10% conseguem ler mais de cem páginas e o resultado nos colocou em posição distante de países vizinhos como Argentina e Chile.

Nitidamente, o modelo educacional que temos é falho. Fui aluno de escola pública, localizada no interior do estado, no sertão, e meus professores eram mais dedicados a nos ensinar do que meus colegas de escola pública quando passei a ensinar. O tempo entre o término do meu ensino fundamental e minha experiência como professor foi inferior a dez anos e numa década eu não conseguia entender o que aconteceu com a educação.

Dois casos curiosos aconteceram: o primeiro é que não havia as escolas de referência como há hoje – tempo integral – e tínhamos 5 aulas de Matemática por semana em cada turma. Então, numa reunião de planejamento eu propus que dessas 5 aulas a gente reservasse duas, por semana, para ensinar geometria porque era os últimos capítulos do livro e não dava tempo de abordar. Nenhum dos demais professores aceitou e o motivo, soube depois, era que eles não sabiam geometria.

O segundo caso aconteceu quando postulamos colocar o ensino médio nessa escola. Precisávamos garantir que não teria disciplina sem professor e aí eu pedi para assumir as disciplinas de Física e Matemática, no ensino médio. Um professor insistiu pra ficar com uma turma de Física e não vi problema. O fato é que um aluno dele me procurava com frequência para ajudar a resolver a lista de exercícios e depois de tanta “ajuda” eu perguntei: “por que você não pede a teu professor para resolver?” e o aluno respondeu: “prof. não comente com ele, nem com ninguém, mas ele pega essa lista do livro e me pede para falar com o sr. O sr. resolve, eu passo para ele e copia as respostas no quadro”.

É por essa razão que me choquei quando vi que a qualidade dos professores que ensinavam no colégio onde trabalhei era muito inferior à qualidade dos professores que tive. Não preciso dizer que ao longo do tempo isso só piorou e fico estupefato quando vejo alguém defender esse modelo educacional que não produz nada, ou melhor, produz uma maioria de analfabetos. Quando vemos os resultados obtidos na prova do PISA em leitura é que percebemos que não há incentivo para se fazer diferente.

Essa semana, num grupo de zap, um dos colegas afirmou que a escola pública só melhoraria se o filho do governador estudasse nela. Na escola que ensinei, durante uma reunião de pais e mestres eu pedi a diretora da escola que dissesse o nome da escola que os filhos dela estudavam. Ela não disse, claro, mas eu não deixei de dizer que a escola pública que estava era para filho se miseráveis e nenhum professor tinha filho estudando em escola público.

Cabe lembrar que essa ideia de filho de político estudar em escola pública foi dita, exaustivamente, por Eduardo Campos, agora ele nunca tirou os filhos dele de escolas privadas para matricular na escola pública. Deveria ter aproveitado a ocasião e ter dado um bom exemplo. Não fez, porque tudo isso é pura demagogia e o governo, para suprir sua deficiência acerbada, criou um sistema de cotas onde, logicamente, se entende os fins. O sistema de cotas não passa disso: o reconhecimento da falência múltipla dos nossos órgãos governamentais.

De certa forma não soubemos aproveitar o desenvolvimento tecnológico do mundo. Pelo contrário, caímos um pouco mais. Recentemente puseram um anúncio no grupo de professores do meu departamento onde ofertava-se monografias para os concluintes da graduação. Isso mesmo: pague X reais e você não precisa se preocupar para fazer uma monografia com 30 páginas, sem precisar pesquisar nada. Francamente, não condeno quem vende esse tipo de produto e nem quem o compra afinal esse cara que está comprado é só o retrato do que foi feito com ele ao longo de 4 anos de graduação, ou seja, não teve ensinamento necessário para se envolver com uma pesquisa, escrever um texto e defender sua ideia.

O Brasil cometeu um erro crasso: colocou muita política na educação e pouca educação na política. Por isso, externa para o mundo seu alto nível de burrice. Vamos continuar levando PISA e não vamos aprender.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Jorge Tibiriçá

Jorge Tibiriçá Piratininga nasceu em Paris, França, em 15/11/1855. Fazendeiro e político, foi um dos governadores mais progressitas de São Paulo. Filho de João Tibiriçá Piratininga, líder republicano, e Pauline Eberlé, veio para o Brasil aos 4 anos e fixou residência numa fazenda perto de Itu. Foi alfabetizado em casa pela mãe e concluiu os primeiros estudos no Colégio Barth. Aos 14 anos, viajou com a mãe para Zurique, afim de continuar os estudos.

O conflito na Europa na segunda metade do séc. XIX, com a guerra franco-alemã, dificultou sua estadia e causou a morte de sua mãe. Mas o pai, no Brasil, determinou que ele continuasse na Europa, onde concluiu o ensino médio no Colégio Riffel, em Zurique. Em seguida graduou-se em agronomia, concluiu o doutourado na Alemanha e emendou com um curso de filosofia em Zurique. De volta ao Brasil em fins da década de 1870, foi tocar a fazenda do pai, nas redondezas de Campinas; conheceu Ana de Queiroz Teles, com quem se casou em 1880, e se estabeleceu como fazendeiro e agrônomo. Com o falecimento do pai em 1888, herdou enormes extensões de terras. Seguindo os passos do pai, que foi presidente da Convenção de Itu e um dos fundadores do Partido Republicano Paulista-PRP e de seu sogro – Antonio de Queiroz Teles – que governou o Estado em 1886-87, logo ingressou na carreira política.

Como republicano apoiou o fim da escravidão e se antecipou à Lei Áurea. Foi um dos primeiros fazendeiros a fixar os imigrantes em suas terras, tornando-os pequenos produtores rurais, porém servindo aos seus negócios. Assim, a abolição não afetou tanto sua situação econômica. Com a proclamação da República, em 1889, Deodoro da Fonseca elegeu Prudente de Morais como governador de São Paulo, que logo deixou o cargo para se tornar senador do Congresso Constituinte. Assim, Tibiriçá chegou ao governo do Estado e iniciou o madato em outubro de 1890. Suas proridades foram a reconstrução da Estação Agronômica de Campinas e a organização das eleições para a Constituinte do estado. Mas devido aos atritos com o governo Deodoro da Fonseca, foi exonerado em 4/3/1891.

No plano estadual, os republicanos de São Paulo preparam as eleições de 1892. Jorge é eleito senador estadual, assume a vice-presidência do Senado e se torna membro da Comissão de Fazenda e Contas. No mesmo ano Bernardino de Campos foi eleito governador e convida-o para a Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, tomando posse em 12/12/1892. Sua gestão foi marcada por um grande impulso no desenvolviento do Estado com o aumento significativo do fornecimento de água na capital, que passou de 3,5 milhões de litros diários para 31,5 milhões. Impulsionou a formação de engenherios agronômos e, consequentemente, o desenvlvimento agroindustrial. Sua atuação nestas áreas tornaram a Escola Politécnica de São Paulo, a Escola Prática de Piracicaba e o Instituto Agricola de Campinas, referências em nível nacional na formação de técnicos agricolas e fez de São Paulo uma potência agricola. Ficou neste cargo até 1895.

Amigo do arquiteto Ramos de Azevedo, promoveu a construção de diversos palácios na capital paulista, incluindo o Teatro Municipal. Pouco depois voltou a ocupar uma cadeira no Senado Estadual e em 1896 voltou a integrar as comissões de Fazenda e Contas, onde permanceu até 1900, quando passou a integrar, também, as comissões de Terras Públicas e Minas. Em 1901 foi reeleito senador e tornou-se membro das comissões de Indústria, Comércio, Obras Públicas e Estatística. Foi um político articulado e dotado de grande capacidade administrativa. Mesmo assim, sofreu um abalo com a crise do sistema cafeeiro no mesmo ano, obrigando-o a hipotecar sua Fazenda e conceder parte de suas terras para a subsistência de seus colonos. Encontrou uma saída na exploração da pecuária. Com a ajuda da esposa, passou a utilizar seu rebanho de gado na produção de leite e derivados

A crise do café fez com que o PRP voltasse a apostar em seu nome para nova candidatura ao governo de São Paulo. Assim, em 1904 foi eleito pela segunda vez com um madato até 1908. Contando com Washington Luís na Secretaria de Justiça e Segurança Pública, trouxe especialistas de Paris para ajudar na modernização da “Força Pública”, atual Polícia Militar e instalou a Polícia Civil, em 1906, nomeando apenas funcionário público, formado em Direito, para delegado de polícia. Esta modernização acabou com as indicações dos coronéis e ficou conhecida como “polícia sem política”.

Em sua gestão promoveu a aproximação com os governos do Rio de Janeiro e Minas Gerais, os maiores produtores de café, em prol de uma remodelação no sistema monetário. Com isso, teve que enfrentar o governo central de Rodrigues Alves e sua política de câmbio. Não podendo bater de frente com o governo central, promoveu, em agosto de 1905, uma reunião secreta com os governos do Rio e Minas Gerais ojetivando um pacto de proteção ao café com o aumento do seu preço no mercado internacional. O pacto ficou conhecido como “Convênio de Taubaté”, que rendeu uma expressiva lucratividade no setor. Isto se deu no ano de uma safra (20 milhões de sacas) que rendeu mais que o dobro das safras anteriores, O plano era que tais lucros fossem dirigidos à indústria, transformando-a no carro chefe da economia paulista.

Após deixar o governo em 1908, voltou a ser eleito para o Senado Estadual em 1916 e assumiu também a presidência do PRP, mantendo-se nos dois cargos até 1924. No mesmo ano renunciou o mandato de senador para assumir o cargo de ministro do TCE-Tribunal de Contas do Estado, a convite do governador Carlos de Campos. Na sessão inaugural de instalação da corte, foi escolhido por aclamação presidente do TCE, cargo em que permaneceu até o falecimento em 29/9/1928, aos 71 anos. Não obstante sua competência, prolífica vida política e relevância no desenvolvimento do Estado de São Paulo, hoje é uma figura pouco conhecida na história paulista. Sua vida e carreira política ficou registrada na biografia escrita por Rodrigo Soares Jr. Jorge Tibiriça e sua época, publicada por Rodrigo Soares Jr. pela Cia. Editora Nacional, em 1958.