DEU NO JORNAL

XICO COM X, BIZERRA COM I

O AZUL E O AZUL

Era só uma quarta-feira, igual a tantas outras quartas-feiras já vividas. Estava eu a soletrar sílabas, embalar palavras e transformá-las em versos, quando acendi o escuro e meus olhos enxergaram um azul mais azul que aquele que o Poeta Carlos Pena Filho tanto gostava. Acho que até meus sapatos, ainda que que em mim descalçados, estavam azuis. Meus cabelos, revoltos e também azuis, voavam ao sabor dos ventos anunciadores da chuva que estava por vir.

A lua, escondida entre nuvens, de quando em vez teimava em costurar bordados num céu azul, como que a anunciar que naquela noite ela estava preguiçosa e sem vontade. Estava também azulada, observei. Ali permanecia apenas por obrigação de ofício, embora soberana como sempre.

O relógio bateu meia-noite e naquele instante respirei o cheiro de uma quarta-feira de passado tão recente. Além disso,já era madrugada de uma nova quinta-feira.

DEU NO JORNAL

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PORNOGRAFIA E PROSTITUIÇÃO INVADEM O MERCADO DO FUTEBOL

Editorial Gazeta do Povo

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Cada vez mais times estão sendo patrocinados por sites de conteúdo erótico ou de prostituição

Em abril de 2023, o técnico Cuca durou apenas duas partidas no Corinthians; ele pediu demissão após forte pressão da torcida, especialmente sua ala feminina, devido ao fato de ter contra si uma condenação por violência sexual na Suíça, em 1989 – ele sempre negou o crime, e em janeiro de 2024 a condenação foi anulada por irregularidades processuais, sem análise de mérito. Três anos depois, o clube paulista se vê novamente diante de um episódio que testa seu compromisso com a dignidade da mulher, mas a repercussão tem sido muito menor que a esperada e necessária.

A prostituição e a pornografia estão seguindo o caminho aberto pelas bets e invadindo o mundo do futebol. Em 4 de julho, o Corinthians anunciou um contrato de patrocínio no valor de R$ 22 milhões com um site de conteúdo erótico, em que os usuários pagam para receber fotos, vídeos ou interagir com as mulheres presentes na plataforma – o mesmo site também está patrocinando o Operário (PR) e o Vila Nova (GO). O site pertence a um conglomerado que também opera uma agência de prostituição (eufemisticamente chamada de “anúncios de acompanhantes”), que coloca ou já colocou seu nome nos uniformes de outros times, como Vitória (BA), Amazonas (AM), Brusque (SC), Paysandu (PA), Remo (PA) e Ponte Preta (SP).

Tanto o Corinthians quanto o novo patrocinador afirmam que o nome do site não será estampado nos uniformes da equipe de futebol feminino – os calções terão a frase “respeita as minas”, slogan de um movimento de torcedoras e jogadoras, e que foi muito usado nos protestos após a contratação de Cuca. Uma ressalva hipócrita; afinal, se não houvesse nenhum problema com o tipo de atividade praticada pela empresa patrocinadora, a marca poderia muito bem estar no uniforme das atletas. No fim, admite-se implicitamente que a última coisa que o patrocinador faz é respeitar as mulheres.

A exploração da mulher, seja pela prostituição, seja pela pornografia, é um atentado grotesco à dignidade feminina. A pessoa da mulher, com toda a sua riqueza, é reduzida ao seu corpo, usado como instrumento de prazer por outra pessoa. Essa avaliação independe completamente de a mulher consentir ou de tomar a iniciativa de expor ou negociar o seu corpo; a desvalorização, a objetificação, os problemas de autoestima são consequências praticamente inescapáveis. Pesquisadores como Mary Eberstadt têm se dedicado a investigar o custo que a sociedade paga pela pornografia e pela prostituição, e já encontraram mecanismos de vício semelhantes ao causado pelas drogas, bem como relações de correspondência entre consumo de pornografia e violência contra mulheres. A dessensibilização dos homens que recorrem à prostituição e a pornografia destrói relacionamentos reais e famílias inteiras.

Assim como as bets, o mercado da exploração sexual de mulheres movimenta cifras grandes, e os R$ 22 milhões pagos ao Corinthians fazem desse patrocínio um dos maiores do time paulista atualmente, e o maior das modalidades poliesportivas (ou seja, excluindo o futebol masculino) do clube. Mas será mesmo necessário? A Gazeta do Povo acredita que pode dizer algo a esse respeito. Cerca de 25 anos atrás, quando os classificados ainda eram uma enorme fonte de receita de todos os jornais, decidimos não publicar mais os anúncios de prostituição disfarçados sob os rótulos de “massagistas” ou “acompanhantes”, uma prática que era amplamente difundida na grande imprensa nacional e à qual as publicações faziam vista grossa. O autêntico respeito à dignidade da mulher era incompatível com a publicação de tais anúncios, e a eventual redução de receita se revelou, no longo prazo, um preço baixo a pagar pela coerência.

A reação da torcida e das jogadoras do Corinthians e de outros times patrocinados pelo mesmo conglomerado, infelizmente, tem sido muito menor que a registrada quando da contratação do técnico Cuca, quando deveria ser equivalente. Estariam os R$ 22 milhões comprando consciências? Ou a sociedade estaria normalizando a prostituição e a pornografia, aceitando-as socialmente a ponto de não se incomodar com a propaganda mesmo em ambientes como o esportivo, frequentado inclusive por crianças e adolescentes? Em qualquer dos casos, estamos presenciando o fortalecimento de um processo que precisa ser contido antes que se torne irreversível – e as mais prejudicadas serão, indiscutivelmente, todas as mulheres.

PENINHA - DICA MUSICAL

DEU NO X

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

COPA

Desde muito cedo eu aprendi a ler o futebol como algo muito além da questão de bola no fundo da rede. Nunca foi simplesmente isso. É, também, uma questão de desafios socioculturais. De bem-estar individual e coletivo ao mesmo tempo.

O futebol se expande para o universo lhe cercando fora das quatro linhas perimetrando o gramado, ganha o espaço ao redor do espetáculo e alcança a nossa própria nudez moral exposta sob o calor da nossa paixão. E quem enxerga a Copa do Mundo apenas como um torneio esportivo sofre de uma cegueira lamentável, uma incapacidade crônica de ler a filosofia da vida, e as agruras dos homens em seu conflitos. De entender coisas que parecem supérfluas e, no entanto, são essenciais para desnudar virtudes e defeitos. Primeiramente em nós.

O campo é o palco onde as nossas maiores virtudes e os nossos vícios mais inconfessáveis se digladiam em noventa minutos de puro desespero existencial. Mesmo que lá dentro se configure uma vitória fácil.

No fundo, no fundo, a bola é um fetiche absoluto. Um objeto sagrado despertando o adultério moral oculto na alma do dirigente burocrata e a santidade impura, súbita, no peito do torcedor fanático pecador. Em cada gol ela, a bola, promove uma pequena crucificação, ou uma inesquecível ressurreição.

Se em cada derrota há um funeral coletivo com hora marcada e sem direito a choro discreto na melancolia mansa e indecifrável do silêncio do torcedor que sofre sozinho, abraçado à própria solidão no meio de uma multidão, vendo o tempo escorrer entre os dedos, há também na vitória, inevitavelmente, a glória de um jogador superando limites para fazer de sua nação um paraíso de alegrias.

De um lado a tragédia de uma pátria arrasada pela desclassificação. Do outro a glória eterna. Sensações extraídas de um mesmo jogo e lugar; onde o herói e o vilão da partida vestiam cores diferentes mas se doavam num esforço igual pelo mesmo objetivo: a luz inconfundivelmente bela da vitória.

Ambos ficarão marcados no destino futuro, embora em apenas um mês estarão com as almas livres de tais estados. Porque a vida vai além do apito final, nas lembranças do jogo.

O expectador que busca apenas estatísticas, perde a poesia do absurdo existente esportiva e exclusivamente no futebol, e ignora que um drible pode ser algo conotativo, na verdade, da nossa vã tentativa de enganar a morte. Ou a má sorte do destino.

Depois do ato final do último jogo, o que resta não é o campeão erguendo a taça, mas o espelho cruel de quem somos.

A Copa pode ser a vida em miniatura. Uma espécie de prato temperado com o nosso lirismo mais dolorido e o nosso sarcasmo mais definitivo.

Só que a Copa para. A vida não.

E cada nação continua em seu bem-estar social, ou em seu flagelo cotidiano. Cada ser humano disputando um mata-mata de sua Copa individual.

DEU NO X

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

MÁRCIA MARIA RICCI – JUNDIAÍ-SP

Vejam esta:

Só nos 5 primeiros meses de 2026, o governo Lula já torrou R$ 676 milhões com viagens.

E olha que esse número nem inclui os gastos do próprio Lula e da Janja, porque esses são mantidos em sigilo.

Você não tem esse privilégio, mas paga a conta.

Passagem de primeira classe pro governo, fila de espera no SUS para a população.

DEU NO JORNAL