XICO COM X, BIZERRA COM I

DA SÉRIE “DECÁLOGOS DESCARTÁVEIS DE TÃO TOLOS QUE SÃO”

Decálogo 3: NOVE HISTORINHAS DE GENTE QUE MORA LONGE E DE UM CABRA QUE MORA PERTO

1. Strawny Kolneter, triste e infeliz por ser feia, fazia, sem saber, a felicidade de suas amigas um pouco menos feias que ela.

2. Suzan Betesfield deu aos pobres, acreditando estar emprestando a Deus. Está grávida e hoje chora de barriga cheia.

3. Standslaw Recroweski, deixou de beber não por recomendação médica mas porque sempre fazia uma tempestade em copo de whisky.

4. Denis Dumont Wrigth era um piloto promissor. Em seu breve currículo constam 17 decolagens e 16 pousos …

5. Dr. Andreas Carson Collins, Médico, nunca enganou um desenganado. Contava-lhes sempre a verdade …

6. Ferdinand Capuelli, cego, a quem todos respeitavam seus pontos de vista …

7. Henri Costfauld aposentou-se como Corretor de Imóveis, com a coluna comprometida, dores insuportáveis nos quartos e outras dependências …

8. John Evarist Reuples, de tanto engolir sapos na vida foi parar na mesa de operação …

9. Delbrucy Perdges, Alvi-rubro roxo, questionava se a voz do povo é a voz de Deus. Queria saber em que arquibancada torceria Deus num Sport x SCruz

10. Zé da Silva não acreditava em Deus. Alegava nunca ter ouvido um baião feito por ele.

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PENINHA - DICA MUSICAL

DEU NO X

DEU NO JORNAL

OS BANDIDOS QUE JÁ NÃO SÃO DE VERDADE

Luís Ernesto Lacombe

Os bandidos que já não são de verdade

Não adianta gritar… Ninguém vai pegar o ladrão, não o que era considerado um ladrão de verdade, e deixou de ser. Pega! Pega! Você vai ficar sem voz, e o criminoso que não é mais criminoso seguirá tranquilamente. E ele ainda vai debochar de você. Ele pode quase tudo, foi autorizado a fazer quase tudo. Pode roubar celular, carro, pode sequestrar, bater em mulher, corromper menores, traficar drogas, fazer contrabando, pode furtar o que quiser, não usar armas ou usar as armas que achar necessárias. Ele precisa sempre ser compreendido e apoiado. Mesmo estupradores e assassinos merecem tolerância e um abraço emocionado… Merecem livros, flores, amor. O que se entendia outrora como bandidagem virou coisa boa, e é um patrimônio nacional.

Eles estão em todas as classes sociais, em todas as áreas, tomaram conta de tudo. Podem odiar, ameaçar, perseguir, torturar. Podem corromper e ser corrompidos. Aceitam triplex na praia, sítio, reformas dos imóveis, depósitos gordos no exterior, presentes caros, verba para instituto, viagens de helicóptero ou de jatinho. Eles podem comprar parlamentares, ou ser parlamentares e se vender. Podem fazer politicagem e politicalha. Gostam de cargos no governo… Gostam de estelionato, todo tipo de estelionato. Podem dilapidar estatais, fundos de pensão… Bandido que não é mais bandido está sempre aí para qualquer negócio. E, mesmo que diga na cara de um juiz desavisado que “seu apego a poder e dinheiro é um vício”, pode sorrir e sambar nas redes sociais.

Os bandidos de verdade não são mais bandidos. Não serão presos. Se estiverem presos, serão soltos. A Justiça já criou jurisprudência sobre isso. Não a Justiça de verdade, essa foi extinta, mas a que decretaram que é de verdade e é detentora da verdade. Se falavam em cleptocracia, passou. Se falavam em roubalheira, passou.

Nenhuma prova resiste a uma furadeira potente. Nenhuma delação, nenhum acordo de leniência, nenhuma confissão dos bandidos que eram de verdade, nada disso existe mais. Produto do roubo? Nunca houve, claro.

As leis agora têm donos; eles decidem o que vale e o que não vale, de que maneira vale ou não vale e para quem vale e para quem não vale. Revogam-se as disposições (e o choramingo) em contrário. Revoga-se o contrário, o que se opõe ao bandido que era de verdade, e deixou de ser. Não está tudo liberado porque há os novos bandidos, e esses serão condenados. Aos outros nada será imputado. Nem cueca com dólares, nem cueca com reais, nem mala de dinheiro no estacionamento de shopping, nem malas e mais malas em apartamento com milhões e milhões de reais. Qual o problema disso tudo? Temos as nossas tradições, e quem se opuser a elas, mesmo que no plenário da Câmara Federal, vai levar tapa na cara, ou coisa pior.

Quem apoiava os bandidos que eram considerados de verdade e se afastou deles, acusando-os de praticar crimes, agora entendeu como deve ser. Estão todos juntos de novo. Quem não estava com os bandidos que eram considerados de verdade, quem disse que eles voltariam ao local do crime já está lado a lado com eles. Esse é o Brasil pacificado, que transforma o que era ruim em coisa boa, o errado em certo, o desonesto em honesto, os defeitos mais abjetos nas maiores qualidades, os pecados mais horrendos em virtudes quase divinas. Os crimes agora são exclusivos daqueles que não eram bandidos de verdade, que nunca foram. E quem disser o contrário pagará por isso.

DEU NO X

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

VÃO ARREBATAMENTO – Cruz e Souza

Partes um dia das Curiosidades
do teu ser singular, partes em busca
de almas irmãs, cujo esplendor ofusca
as celestes, divinas claridades.

Rasgas terras e céus, imensidades,
dos perigos da Vida a vaga brusca,
queima-te o sol que na Amplidão corusca
e consola-te a lua das saudades.

Andas por toda a parte, em toda a parte
a sedução das almas a falar-te,
como da Terra luminosos marcos.

E a sorrir e a gemer e soluçando
ah! sempre em busca de almas vais andando
mas em vez delas encontrando charcos!

João da Cruz e Sousa, Florianópolis-SC, (1861-1898)

DEU NO X

DEU NO X

DEU NO X

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O CHÃO TÁ RACHANDO! – VALEI-ME MEU JESUS CRISTIM!

Leito de antigo açude meses após a seca devastadora

“João Buretama” era meu Avô materno. Nascido lá para as bandas do povoado que hoje é conhecido como “Chácara dos Ventos”, a alguns minutos da serra em Uruburetama – daí a corruptela linguística “Buretama” – no ano que está tão distante que poucos lembram.

Conheceu minha Avó materna no ajuntamento dos empregados para trabalharem numa “farinhada” que duraria mais de dois meses e era propriedade dos Albano, donos de quase tudo nas Queimadas, povoado de Pacajus, onde nasci.

João Buretama não conhecia o sertão. Filho de pescador, era mais afeito ao mar, de onde a família tirava o sustento – “tudo com as Graças Divinas” de São Pedro.

Quando atingiu a maioridade, teve conhecimento que, para as bandas do Sul, em relação a Uruburetama, os Albano estavam oferecendo “trabalho”. Coisa rara nos dias atuais. Viajou quase dois dias para vencer um percurso que, nos dias atuais, não viajaria mais de sessenta minutos.

Desceu da boléia do “Pau-de-Arara” no então povoado Chorozinho e, depois de uma boa caminhada, finalmente chegou na casa dos Albano.

Joaquim Albano, o patrão, olhou para João de cima para baixo e definiu:

– “Baixinho e forte. Vai trabalhar na prensa”.

A prensa era onde os fortes espremiam a mandioca para retirar o líquido e a massa da farinha. O líquido retirado, posto à parte, vai secar e se transformar na goma.

A mandioca vinha do catitu. O catitu era “operado” por Raimunda, de quem já falei inúmeras vezes aqui. Era minha Avó, querida e inesquecível.

Pois, João Buretama e Raimunda, tão logo acabou a farinhada dos Albano, receberam suas pagas e, sem muita conversa foram morar juntos e “amigados”. Foi de onde nasceu minha Mãe, Jordina, antes do nascimento de Maria, minha tia.

João Buretama e Raimunda, agora, também Buretama.

Raimunda já era conhecida dos Albano, pois descendia dos índios Pacajus e morava nas Queimadas fazia tempo. Albano chamou João e ofereceu os elementos necessários para ser “meieiro” de aves e animais (vacas, jumentos e cabras e bodes), sem esquecer de oferecer, também, terra para plantio de feijão, milho e mandioca.

Tudo aceito e acordado, João Buretama plantou raiz. Virou morador e meieiro dos Albano, além de garantir o emprego na prensa durante a realização das farinhadas a cada ano.

Enxada e foice nas mãos, João Buretama brocou o mato e limpou a terra onde plantaria as sementes que tivesse. Café em grãos, sal, açúcar teria que comprar, além do fumo para os cachimbos, querosene para as lamparinas e outros itens do suprimento da casa.

Eis que chega a seca de 1957. A pior de todas elas desde que o mundo é mundo e as pessoas não plantavam nada que servisse para comer.

João Buretama pegou a enxada, enfiou no cabo uma cabaça com água e foi tentar limpar o espaço onde plantaria alguma coisa. Maxixe que fosse. Não demorou muito e voltou para casa numa carreira só, afuleimado e gritando para Raimunda:

– “Mulé, o chão tá rachando. Valei-me meu Jesus Cristim!”

Sol do meio-dia no sertão cearense