CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

SEVERINO, O SÁBIO

Olegário comprou um sítio com uma bela casa para as bandas do Alto de Ipioca. Uma linda vista da praia e o clima ventilado pela brisa. Contratou um caseiro para tomar conta do sítio. Severino, o caseiro, ficou morando numa casa de taipa nos fundos do sítio com um quarto, sala, cozinha e banheiro.

Olegário gostou do rapaz trabalhador, incentivou ao empregado arrumar uma moça e se casar ou se amigar. Severino confessou ter acontecido uma decepcionante experiência marital. Sua mulher fugiu com um pilantra, ele preferia ficar só na vida.

Certo dia o caseiro foi a Rio Largo, aniversário de um primo, conheceu uma prima, Esmeralda, morena bonita, 26 anos, também separada.

A família começou a encorajar o namoro entre os primos. Severino mesmo traumatizado em ter levado galha, foi engolindo a corda. Depois de algumas cervejas os dois conversavam animados. No mês seguinte Severino parou um caminhão na porta de Esmeralda. Pegaram uma cama e um guarda-roupa, se juntaram na casa de morador do Sítio.

A lua-de-mel durou pouco, Esmeralda tem um defeito congênito que alguns chamam de furor uterino ou comichão na genitália ou ninfomaníaca; o companheiro tem que ser ótimo de cama para dar conta de Esmeralda e seu novo homem não era tão bom assim. Ela começou a sair com um vaqueiro da redondeza, até o menino Pedroca visitava a mulher enquanto Severino toda tarde entrava nas matas em busca de lenha e fiscalizando os caçadores proibidos, deixava a mulher sozinha, sem ter o que fazer. Alguém chegou a fuxicar no seu ouvido, ele não quis saber, achava Esmeralda bonita, gostava dela, lhe dava carinho e boa comida quando chegava cansado da mata. Mas ficou desassossegado com o fuxico.

Nos fins-de-semana o casal descia à praia de Ipioca, direto para a Bodega do Joaldo. Os dois casais se davam bem, tomavam cerveja, cachacinha, iam ao mar, tinham um domingo maravilhoso. Até que Joaldo deu para visitar Severino com assiduidade, mesmo sem ele em casa, aparecia para uma prosa com Esmeralda. Precisou um amigo contar a Severino: Joaldo estava de caso com sua mulher, toda tarde ele chegava sorrateiramente para visitá-la.

Severino ficou indignado. Seu maior amigo fazer uma traição dessa! Uma punhalada nas costas. A coisa não ia ficar assim. Depois de muito remover, pensar, resolveu dar fim aquela história que machucava o fundo de seu coração. Foi à Feira do Passarinho, comprou um velho revólver, R$ 150,00.

Ao entrar em casa, Esmeralda desconfiou, havia alguma coisa no ar, perguntou porque ele estava estranho. Severino pediu que o deixasse em paz. No outro dia, domingo, os dois desceram até a Bodega de Joaldo. Enquanto as mulheres foram ao mar, Severino pediu um particular. Foram para mesa mais afastada. O caseiro foi direto, estava com mágoa no coração.

– Joaldo, estou com um problema. Primeiro eu desconfiei, agora tenho certeza de um caso muito sério. Esmeralda está me traindo, ela tem um amante. Eu preciso acabar com esta situação. Comprei uma arma, está aqui em minha cintura, vou matar o amante de minha mulher.

O amigo se assustou, respirou fundo, baixou os olhos. Maior silêncio entre os dois. De repente Joaldo olhou nos olhos de Severino e falou bem pausado.

– Meu amigo, não faça isso. Você vai acabar sua vida por causa dessa mulher que não lhe merece. No mínimo 20 anos de cadeia. Eu estou sabendo que ela é doente, precisa procurar um médico para ver se tem cura. Se você matar esse amante, vai ser uma desgraça. Segurou na mão do amigo e perguntou

– Escute! Por quanto você comprou o revólver?

– R$ 150,00

– Vamos fazer um negócio! Eu estou precisando de uma arma na bodega, tenho medo de assalto, lhe dou R$ 250,00 por ela. Está bom?

Calaram-se, um olhando para o outro. Severino pensou, pensou, depois de alguns minutos de silêncio, chegou à conclusão.

– Você tem razão, não vale a pena pegar uma cadeia por aquela cadela. Mas, me faça um favor, eu vou para casa agora, você diga a essa vaca que não pise mais em minha casa, vou queimar tudo dela. Ela não apareça!

Pegou o dinheiro de Joaldo, colocou no bolso, entregou o revólver, levantou-se. Subiu ao Alto de Ipioca aliviado da dor que oprimia seu coração. Tocou fogo em tudo que era de Esmeralda. Prometeu-se nunca mais casar ou amigar; só raparigar. Hoje Severino, o Sábio, vive sozinho no Sítio do Olegário, com direito a levar uma rapariga para esquentar a cama juntos, vez em quando. Casar nunca mais.

DEU NO X

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

PLATÉIA

Ouvi certa vez, já não lembro onde, a expressão “O Brasil é um país que não tem povo, tem platéia”. A idéia era que o brasileiro não participa dos fatos de seu país, apenas assiste (e quando é o caso, aplaude ou vaia). O tempo tem me convencido de que a frase e a idéia que ela transmite são verdadeiras.

Nesta semana, o noticiário de meu estado mostrou um fato que já ocorreu inúmeras vezes: descontentes com um projeto sobre o setor da educação, o sindicato dos professores promoveu uma manifestação que invadiu a assembléia legislativa e transformou-se em quebra-quebra. Como das outras vezes, ninguém espera que isso traga alguma consequência. Mas ao dar a notícia, um jornalista citou, de passagem, um fato muito mais grave e que permanece completamente imune a qualquer questionamento.

O jornalista citou que muitos colégios particulares de primeiro grau em São Paulo custam menos de mil reais por mês. Estes colégios são fiscalizados pelo governo, atendem a todas as exigências e regulamentações do Ministério da Educação e agradam muitas famílias – senão, não estariam funcionando. E, se uma família prefere pagar uma escola para seu filho quando tem a opção de matriculá-lo em uma escola gratuita do governo, é porque a particular e paga é melhor do que a pública e gratuita.

Mas aí surge a espantosa complementação da notícia: em São Paulo, o custo para o governo de um aluno na rede pública é de aproximadamente dois mil reais por mês! Simplesmente o dobro da média do custo das escolas particulares (que, para horror de muitos brasileiros, visam lucro). Se as escolas públicas não visam lucro, custam o dobro e são piores, algo está muito errado.

Não apenas ninguém pergunta como esse absurdo pode ocorrer, como todos aceitam com naturalidade o hábito de repetir que todos os problemas da educação do país (e são muitos) se devem exclusivamente à “falta de investimento”. Por alguma razão misteriosa, os brasileiros parecem acreditar que um professor incompetente torna-se competente se receber aumento de salário, e que uma escola mal-administrada melhora se receber mais dinheiro.

Existe, claro, a possibilidade de que a informação esteja errada. Seria então de se esperar que as autoridades se apressassem em corrigir o erro e divulgar os números corretos. Mas nada aconteceu. Aparentemente, o assunto não é importante. Aliás, é interessante notar que quando se pergunta ao Google “quanto custa uma escola privada”, recebemos respostas exatas. Quando perguntamos “quanto custa uma escola pública”, não conseguimos nada de relevante. Ou os governantes não se dão ao trabalho de mostrar essa informação em seus sites oficiais, ou o Google não consegue achá-los.

Consequências disso tudo? Nenhuma. Apenas mais um absurdo entre tantos que envolvem o dia-a-dia deste absurdo país que é o Brasil. Faz parte da rotina. Muito mais importante é acompanhar as colunas de fofoca disfarçadas de noticiário político, que se dedicam a noticiar quem criticou quem, quem elogiou quem e quem se aliou a quem, numa versão sem graça da revista Caras.

A PALAVRA DO EDITOR

BELOVED ET “LES CHANSONS D’AMOUR”

“La literatura nos permite vivir en un mundo cuyas leyes transgreden las leyes inflexibles por las que transcurre nuestra vida real”, cunhou Mario Vargas Llosa na página 394 de seu livro, ‘La Verdad de las Mentiras’.

Hablando en literatura… ¿Es posible que haya algo mejor que Sancho? Puedo decir que ustedes, lectores, pueden escribir millones de cosas mejores que Mister Brochura Sancho, el tontolón.

Correndo (tentando correr) para o amor nas avenidas congestionadas. Hell of the January eleito o segundo estado da Federação com as pessoas mais grosseiras no trânsito, perdendo apenas para Sampa, líder do ranking dos “sem-educação no trânsito”, conforme destacaram 20% dos entrevistados em pesquisa recente da Preply (o número de veículos congestionando o trânsito nessas duas metrópolis, em minha visão, explica tais colocações na pesquisa).

Um verdadeiro clássico do Dia dos Namorados! Em geral, rosas vermelhas são sempre uma boa opção para a data, já que são tidas como a “flor do amor”. Sancho saiu da floricultura sem nada nas mãos, pois não tem namorada; à porta da joalheria também recuou, pois nenhuma bela o aguarda para a troca de presentes no próximo dia 12. Reserva em hotel de luxo como era seu costume? Desnecessário se faz desta feita. Desde que completara 13 anos isso não ocorria. Dizem que para tudo há uma primeira vez.

¡Prepárate para sumergirte en esta emocionante aventura de un peculiar Sancho sin poderes, sin phodderes, “vecchio” y con un destino incierto! Recomenda Albert Tugues la última novela de un autor anónimo, que se titula: ‘Cagada de pájaro sobre la cabeza del enamorado que en la esquina esperaba en vano’.

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