PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

GRANDES MESTRES DO REPENTE

O paraibano Severino Lourenço da Silva Pinto, o Pinto do Monteiro (1895-1990)

* * *

Pinto do Monteiro:

Quando é de manhãzinha,
Se apagam os pirilampos,
O homem vai para os campos,
A mulher vai pra cozinha;
Sacode milho à galinha,
Se, por acaso, ela cria!
Canta o galo, o pinto pia,
Salta o bode no terreiro,
Se despede o violeiro,
Dando adeus, até um dia.

Recordo perfeitamente,
Quando em minha idade nova,
O meu pai abria a cova,
E eu plantava a semente.
Eu atrás, ele na frente,
Por ter força e mais idade…
Olhando a fertilidade
Da vastidão da campina,
Aquela chuvinha fina
Me faz chorar de saudade.

Em dezembro, começa a trovoada,
Em janeiro, o inverno principia,
Dão início a pegar a vacaria:
Haja leite, haja queijo, haja coalhada!
Em setembro, começa a vaquejada:
É aboio, é carreira, é queda, é grito!
Berra o bode, a cabra e o cabrito;
A galinha ciscando no quintal,
O vaqueiro aboiando no curral;
Nunca vi um cinema tão bonito!

* * *

Mocinha de Passira

Amor é vinho servido
Em alva taça pequena
Quem bebe pouco quer mais
Quem bebe mais se envenena
Quem se envenena de amor
Morrendo Deus não condena.

* * *

Antônio Francisco:

Quem já passou no sertão
E viu o solo rachado,
A caatinga cor de cinza,
Duvido não ter parado
Pra ficar olhando o verde
Do juazeiro copado.

E sair dali pensando:
Como pode a natureza
Num clima tão quente e seco,
Numa terra indefesa
Com tanta adversidade
Criar tamanha beleza.

* * *

Lourival Batista Patriota:

Nem tudo que é triste, chora,
Nem tudo que é alegre, canta,
Nem toda comida é janta,
Nem todo velho se escora,
Nem toda moça namora,
Nem todo amor é paixão,
Nem toda prática é sermão,
Nem tudo que amarga é lima,
Nem todo poeta rima,
Nem toda terra é sertão!

* * *

Manoel Xudu:

Neste mundo não há maior ciência
Do que ver uma aranha se bulindo
Com perícia maestra construindo
Alicerces da sua residência .
É pequena , tem pouca resistência
Mas trabalha vencendo os empecilhos
Superando carrascos e caudilhos
Que assassinam , devoram , fazem guerra
Mas não cavam sequer barro na terra
Pra fazer um casebre pra seus filhos.

* * *

José Monte:

É bonito se olhar numa represa
A marreca puxando uma ninhada
Com um gesto de mãe tão dedicada
No encontro das águas da represa
Quanto é lindo o arrolho da burguesa
Num conserto de notas musicais
A lagarta com letras naturais
Numa folha escrever fazendo um cheque
E palmeira selvagem abrindo o leque
Espantando o calor que a tarde faz.

* * *

Catarine Aragão:

Eu vim trazendo o desgosto
Da morte de um sonho lindo
Com o pranto banhando o rosto
Que outrora viveu sorrindo
Vim arrastando os meus passos
Pra ver se junto os pedaços
De um peito sem alegria
Vim com a alma abatida
Querendo encontrar guarida
Nos braços da poesia.

Eu vim procurar motivo
Pra querer seguir em frente
E vim tentar manter vivo
O amor que meu peito sente
Vim cercada de tristeza
Querendo ter a certeza
Que nem tudo está perdido
Vim com todo sacrifício
Pra despejar meu suplício
Dentro de um verso sofrido.

Eu vim fazer o meu pranto
Achar consolo na rima
E vim pra ver se levanto
Um pouco minha autoestima
Com a alma pedindo tréguas
Eu vim cansada de léguas
Buscando paz e abrigo
Dentro de um mundo perverso
Fazendo o meu próprio verso
Me servir de ombro amigo.

Eu vim procurar meu eu
Entre os escombros do peito
E achar o que se perdeu
Pra ver se ainda tem jeito
Vim pelas desilusões
Tristezas e frustrações
Que me mantém inquieta
Buscar a minha poesia
Porque só ela alivia
Meu coração de poeta!

* * *

Poeta José Luiz:

Estou igual um bacurinho
Preso dentro de um chiqueiro
O comer que a dona bota
É folha de marmeleiro
Esperando que ele engorde
Pra lhe passar no dinheiro.

Estou igual um jumento
Debaixo de uma cangalha
Quando o seu dono é malvado
O dia todo trabalha
E quando chega de noite
Lhe nega um feixe de palha.

Estou igual uma gata
Na frente de um cachorro
Ela correndo e miando
Como quem pede socorro
Se ela falasse dizia
Me acuda senão eu morro!

ALEXANDRE GARCIA

LULA RECLAMA DA BUROCRACIA, MAS A BUROCRACIA QUEM CRIA É O GOVERNO

O presidente Lula em visita ao bairro Passo de Estrela, na cidade de Cruzeiro do Sul (RS).

O presidente Lula em visita ao bairro Passo de Estrela, na cidade de Cruzeiro do Sul (RS)

Na quinta-feira o presidente Lula visitou uma região onde eu morei na minha infância e adolescência e também na minha mocidade, o Vale do Taquari. Não ficou muito tempo: foi até Canoas, depois se deslocou para Cruzeiro do Sul e Arroio do Meio, e já voltou. Ele viu coisas que eu não tinha visto antes, porque na minha época não havia casas onde depois construíram residências que foram levadas pelas águas, em lugares onde há enchente.

As pessoas não são as responsáveis por terem feito as casas – algumas delas muito boas, aliás – que foram totalmente destruídas em Cruzeiro do Sul, por exemplo, no Passo de Estrela; eu atravessava o Rio Taquari a nado e saía lá no Passo de Estrela. Mas o poder municipal permitiu. A prefeitura tem o código de construção e podia ter impedido; tem de olhar o histórico das cheias e das chuvas, e que considerar que agora existe uma barragem a jusante, ou seja, rio abaixo, em Bom Retiro, que não é muito distante, fica a uns 15 quilômetros, e que ajuda a levantar o nível do rio. Fora isso, há todo o barro, pedra e areia que a água do rio traz a cada cheia, e que vai se depositando na calha do rio.

Lula reclamou da burocracia, mas a burocracia é estatal, não é dos voluntários. Os voluntários estão trabalhando dia e noite, fazendo uma ponte ali entre Arroio do Meio e Lajeado, porque a anterior, de ferro, a água levou. E já estão colocando! Parece que já assinaram para fazer uma ponte definitiva, porque aquela mais moderna, toda de concreto, também despencou.

* * *

Não é só a importação de arroz que vai prejudicar o agro gaúcho

A importação de arroz decidida pela Conab, que é federal, prejudica mais o Rio Grande do Sul do que qualquer outra coisa. Não adianta reclamar que a burocracia estatal prejudica e fazer algo assim. Foi ideia do presidente importar 1 milhão de toneladas de arroz; já fecharam um leilão de 263 mil toneladas a R$ 1,3 bilhão, R$ 5 por quilo, para vender a R$ 4. Vai haver um subsídio de R$ 1, e o arroz virá em um pacote escrito “Conab”. Mas já está todo mundo se perguntando: será que vão comer esse arroz? Porque o arroz asiático é um arroz cheio de amido, bom para aquelas culinárias asiáticas que conhecemos, tailandesa, japonesa, chinesa.

E o prejuízo não é só o da importação. Lula assinou uma medida provisória parando as compensações do PIS-Cofins. O presidente da Confederação Nacional da Indústria, que estava na comitiva de Geraldo Alckmin na China, se retirou em protesto. E agora se calcula que o agro também vai ter R$ 10 bilhões a mais de encargos por causa disso.

* * *

Taxa da blusinha passou no Senado, mas volta para a Câmara

O Senado aprovou a taxa de 20% para a blusinha à noite, separada do outro projeto e surpreendendo todo mundo. Está voltando para a Câmara, porque mudaram tudo, a taxa já não está mais um jabuti pendurado no projeto de lei do Mover, do carro descarbonizado.

E, por falar em chineses e comércio exterior, vejam só o que a Polícia Federal apreendeu no Porto de Itaqui (MA). Sabem o que mais vem das minas, reservas de minério? Vem manganês. Eram 23 mil toneladas de contrabando, prontinhas para embarcar em um cargueiro e ir para a China! Enquanto isso, o dólar está lá em cima, a bolsa está caindo e o presidente Lula promete benefícios para os flagelados do Rio Grande do Sul.

* * *

Muita gente não quer carteira assinada para não perder benefício do governo

Ontem falei do amigo de São Paulo que empregou um sujeito, e ele não queria carteira assinada para não perder o benefício do governo. Choveu mensagem: todo mundo conhece um caso igual. São milhares de pessoas que estão trabalhando, mas fingem estar desempregadas para receber auxílio. Só que o benefício não é do governo; vem do dinheiro dos nossos impostos, e que talvez falte para a saúde, para a educação, para a segurança pública, para melhorar estradas.

DEU NO JORNAL

COISAS DA REPUBLIQUETA LULO-BANÂNICA

O que mais chamou atenção do jornal Financial Times para denunciar o desmanche da Lava Jato foi a presença dos bilionários Joesley e Wesley Batista, enrolados e presos na operação, em encontro ao lado de… Lula.

* * *

Alguém surpreso com esse fato?

O corrupto ao lado dos irmãos corruptores é rotina.

É tudo farinha do mesmo saco.

Normal, normal, normal.

Lula e Wesley, de roupa bem limpinha e ficha bem sujinha

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

COMENTÁRIO DO LEITOR

DEU NO JORNAL

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (35) ‒ POETAS

Lisboa. Mais conversas, hoje só com poetas, em livro que estou escrevendo (título da coluna).

ALMADA NEGREIROS, do grupo da revista Orpheu. E amigo de Fernando Pessoa (“Almada, você não imagina como lhe agradeço o fato de você existir”, está em anotação sem data). O episódio ocorreu em 1917. Dando-se que Almada, Santa-Rita Pintor e Amadeu de Sousa Cardoso conversavam quando vem cumprimentá-los o poeta saudosista (autor de Dizeres do povo), ligado ao movimento conservador Renascença Portuguesa, António Correia de Oliveira. E Almada, vestido num fato-macaco (macacão de operário), o saúda

– Bom dia, Oliveira de Correia António.

– Perdão, é António Correia de Oliveira.

– Isso é para o senhor que está daqui para ali, mas eu estou dali para aqui.

ANTONIO CARLOS SECCHIN, da ABL. Manuel Bandeira dizia que um poema de Racine, composto por 12 versos monossílabos, seria impossível de igualar: “Le jour n´est pas plus pur que le fond de mon coeur” (O dia não é mais puro que o fundo do meu coração). Secchin conseguiu essa proeza memorável com o enorme poema Luz

– Ao ver
o não
que sai
da dor
o som
da voz
já vai
no sim.
no tom
do céu
não vi
mais luz
do que
no sol
que há
em mim.

BARTYRA SOARES, da APL. O dramaturgo Aristóteles Soares (seu tio) foi expulso de um bar, em Catende (cidade com larga tradição açucareira, em Pernambuco). E decidiu continuar a serenata na rua, ele e seu violão, atrapalhando a madrugada. Num desafio ao delegado, que proibiu barulho. Acabou preso. E o tira

– Me acompanhe, cachaceiro.

– Em que tom?

Por conta dessa graçola, o seresteiro levou uma camada de pau, da polícia, e passou um mês sem poder cantar.

BOCAGE, poeta português. Foi mais um poeta preso pela Inquisição. E, como Pessoa, também escrevia por heterônimos – Lidio ou Elmano (anagrama de seu primeiro nome, Manoel) Sadino. Saía do Nicola, botequim de Lisboa onde se encontravam políticos e literatos, para ele “o último café do Rossio” (ainda hoje, fica em frente à Praça). Bem ao lado, no Chave de Ouro, deu-se mais tarde (em 10/05/1958) famosa conferência à imprensa. Em que o correspondente da France Press, Lindorfe Pinto Basto, perguntou “Se for eleito presidente da República, que fará?” com Salazar. E Humberto Delgado, o general sem medo, respondeu “obviamente demito-o”. Delgado acabaria assassinado pouco depois, em 13/02/1959, na fronteira de Badajoz, por um comissário da polícia de Salazar, mas essa é outra história. Voltando ao botequim. Amigos se fingem de bandidos e, simulando um assalto, perguntam

– Quem és tu?, de onde vens?, para onde vais?

– Sou o poeta Bocage
Venho do café Nicola
E irei pro outro mundo
Se disparar a pistola.

GENTIL PORTO, médico. Escreveu texto sobre nosso poeta de Evocação do Recife. Comentei

– Pena certeira
Bem brasileira
Um vivo, um morto
Manuel, bandeira
E Gentil, porto.

JAYME WANDERLEY, da Academia Norte-rio‒grandense de Letras. Um amigo bodegueiro de Tibau do Sul, incomodado com o tamanho na fila do pendura, pediu ideia para se proteger. E o poeta redigiu na hora versos que estão numa placa, pendurada no estabelecimento, até hoje.

– Para não haver transtorno
Aqui neste barracão
Só vendo fiado a corno
Filho da puta e ladrão.

JESSIER QUIRINO, poeta. Toda vez que vê avisos nos murais das igrejas, vai anotando. Segue relação que me mandou desses avisos paroquianos:

‒ Para todos os que têm filhos e não sabem, temos na paróquia uma área especial para crianças.

‒ O torneio de basquete das paróquias vai continuar com o jogo da próxima quarta-feira. Venham nos aplaudir, que vamos tentar derrotar o Cristo Rei!

‒ Na sexta-feira, às sete, os meninos do Oratório farão uma representação da obra Hamlet, de Shakespeare, no salão da igreja. Toda a comunidade está convidada para tomar parte nesta tragédia.

‒ Prezadas senhoras, não esqueçam a próxima venda para beneficência. É uma boa ocasião para se livrar das coisas inúteis que há na sua casa. Tragam seus maridos!

‒ Assunto da catequese de hoje: Jesus caminha sobre as águas. Assunto da catequese de amanhã: Em busca de Jesus.

‒ O coro dos maiores de sessenta anos vai ser suspenso durante o verão, com o agradecimento de toda a paróquia.

‒ O mês de novembro finalizará com uma missa cantada por todos os defuntos da paróquia.

‒ O preço do curso sobre Oração e Jejum não inclui as refeições.

‒ Por favor, coloquem suas esmolas no envelope, junto com os defuntos que desejem sejam lembrados.

JORGE DE SENA, poeta. Iniciou sua vida de exilado, por conta de Salazar, em São Paulo (depois foi morrer na Califórnia, Estados Unidos). E não gostava de certo Costa Pimpão (Álvaro Júlio da Costa), salazarista, historiador e crítico, professor nas universidades da Bahia e São Paulo, famoso pelas edições comentadas de Rimas e Os Lusíadas – ambas recebidas, em Portugal, com muitas reservas. Razão também das críticas de Sena, com esse Poema do Pimpão que acaba assim

Eis o temível canudo
Que mais irrita o Pimpão
Ter ideias, isso não!
Álvaro Júlio da Costa
De ter ideias não gosta.

MANUEL BANDEIRA da ABL. Em 20/09/1945, a Academia Brasileira de Letras aprovou o primeiro Acordo de Unificação Ortográfica para reduzir diferenças na língua entre Brasil e Portugal. Apesar da oposição feroz de Bandeira. Ao sair de uma reunião preparatória, jornalistas perguntaram

– Qual sua opinião sobre esse acordo?

– Por mim, tudo bem; que, para um poeta, a forma é fôrma (disse a palavra fechando o “o”, como se tivesse circunflexo).

Depois, completou

– Agora, escrevam isso aí sem o acento diferencial.

E foi embora, rindo.

MARCELO CARNEIRO LEÃO, empresário. Antes de morrer, me legou rascunhos de um Dicionário dos insultos pernambucanos. Em poemas. Exemplos. De autor ignorado, sobre o acadêmico Rui Ayres Belo e seu nariz achatado,

– Agita-se na Assembleia
Formidável polichinelo
Que à pretensão de ser Rui
Acrescenta a de ser Belo.

Ou o poeta Manuel Bandeira, que não perdoava seus desafetos na cidade e escreveu

Façam-me uma estátua incrível
De algum novo Donatello.
O mais equestre possível
Eu montado em Mário Melo!

O pintor José Cláudio vivia repetindo poema, Que fim levou Doroteia, louvando o órgão reprodutor de certo cortador de cana

– Usina, só Catende
Caminhão, 13 de maio
Mais seu Júlio no charuto
E Benvenuto no caraio.

A propósito de soneto do sociólogo francês Michel Simon-Brésil, sobre a saudade, comentou Tânia Carneiro Leão

– Michael Simon em verdade
É um gênio, todavia
Nem entende de saudade
Nem entende de poesia.

E bem que se poderia lembrar soneto de Artur Azevedo, Velha anedota, que encerra com um cidadão “frívolo, peralta e paspalhão desde fedelho” dizendo

‒ “Tertuliano, és um rapaz formoso!
És simpático, és rico, és talentoso!
Que mais no mundo te faz preciso?”

Penetrando na sala, o pai sisudo,
Que por trás da cortina ouvira tudo,
Severamente respondeu: ‒ Juízo!

Ou soneto escrito por Emílio de Menezes, O plenipotenciário da facúndia (da eloquência, pois), criticando seu colega na Academia Brasileira de Letras, o pernambucano Oliveira Lima. Começa dizendo

– De carne mole e pele bobalhona
Ante a própria vaidade se extasia
Sendo Oliveira, não dá azeitona
Sendo Lima, é quase melancia.

E finda com esse terceto horroroso

– Eis, em resumo, essa figura estranha:
Tem mil léguas quadradas de vaidade
Por milímetro cúbico de banha.

Como não quero brigar com meio Recife, quando chegar a hora, vou doar (com alguns acréscimos) para quem esteja disposto.

VINICIUS DE MORAES, diplomata e poeta. Às vésperas da Segunda Guerra, voltando de Oxford com a esposa (da época) Tati, precisou de ajuda em Portugal. Na Embaixada do Brasil, omissão total. A duras penas, conseguiu passagens com amigos que moravam por lá. Mas, antes de partir, deixou na mesa do embaixador Araújo Jorge esse bilhete

‒ Meu navio larga às seis
Muito obrigado por tudo
Que Vossa Excelência não fez.
Espero imenso não vê-lo.
Da próxima vez

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

“INVESTIGAÇÃO SOBRE UM CIDADÃO ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA”

Este é o título de um clássico do cinema italiano, dos anos 70, “relativamente esquecido, mas terrivelmente atual.”

Elenco: Gian Maria Volontè, Florinda Bolkan, Massimo Foschi

A trama mostra a dificuldade que tem as instituições competentes, na hora de proceder inquéritos, que envolvam figuras importantes do meio político.

Trata-se de um filme italiano, de 1970, dirigido por Elio Petri e escrito por Elio Petri e Ugo Pirro.

Em um momento de perturbação política interna na Itália, um Inspetor do alto escalão da polícia italiana, com reputação ilibada, fama de incorruptível, mas reacionário, recebe a tarefa de reprimir os dissidentes políticos. Dentre eles está sua amante Augusta Terzi (Florinda Bolkan), que é por ele assassinada, por motivos outros.

Ele começa a testar os limites da polícia, vendo se irá ser acusado pelo crime. Assim, começa a plantar pistas óbvias que o identificam como o assassino da mulher, e vê seus colegas ignorando-as, seja intencionalmente ou não. Nenhum colega seu acredita que seja ele o assassino. E desviam o curso das investigações.

O filme é levemente baseado em Crime e Castigo, de Dostoiévski e aborda o abuso e corrupção do poder e da moral.

Uma denúncia nua e crua do que acontece e permanece chocante até hoje.

A opinião pública, nem de longe admite que o Inspetor seja o assassino da amante, mesmo com indícios plantados por ele próprio. Ele atravessa o inquérito incólume.

Enquanto isso, um jovem esquerdista é incriminado pela morte da amante do Inspetor, justamente pelo policial responsável pelas investigações do verdadeiro assassino. O Inspetor assiste ao desenrolar dos fatos, perplexo diante da facilidade com que se usa a impunidade no alto escalão.

O Inspetor foi transferido da Seção de Homicídios para o Gabinete Político. Entre as salas em acesso da população civil no departamento de polícia, por duas vezes se pode ver uma placa azul com a frase, “No Estado Democrático, a polícia está a serviço dos cidadãos.”

Pouco antes, ele havia assassinado Augusta Terzi, sua amante. Ela gostava muito de simular os casos de homicídio que o Inspetor acompanhava em seu trabalho. A festa de troca de cargo foi comemorada com champanhe que o Inspetor roubou da geladeira de Augusta, após tê-la matado.

A partir daí, começa a espalhar amplas evidências de sua culpa na cena do crime e assiste cada vez mais confiante à descoberta delas, sem que ninguém da polícia o interrogue. A instituição prefere acusar o marido de Augusta, que o próprio Inspetor diz que é inocente.

Quando a polícia chega ao apartamento de Augusta e começa a analisar os indícios, um dos policiais diz que o assassino é um cretino e o Inspetor também concorda e repete “um cretino”.

Em flashback, Augusta e o Inspetor simulavam situações onde ele a interroga, como se ela estivesse presa, desempenhando o papel de pai substituto. Quando explica para Augusta que a polícia atua sobre os sentimentos de culpa dos cidadãos, que se tornam crianças quando confrontados com o Estado, ela diz que dos homens que conheceu, ele é o mais parecido com uma criança. O inspetor se irrita. Antônio Pace, o rapaz que o viu sair do prédio, é preso como agitador político de esquerda e ameaçado pelo Inspetor – até porque Augusta queria se separar dele e justificou, chamando-o de sexualmente incompetente e dizendo que Pace, o vizinho do andar de cima, era seu novo amante.

Durante o interrogatório, a coisa foge ao controle do policial, quando Pace demonstra saber que o encarregado da repressão de Estado é um assassino, e ameaça denunciá-lo.

Depois da discussão com Pace, o Inspetor (que seus pares chamam de doutor e a amante chamava de comissário) se entrega a um de seus subordinados através de uma carta onde confessa a autoria do assassinato de Augusta.

Em seguida, se fecha em sua residência, até ser acordado em sua cama por um colega, que o avisa da presença de figurões, que o esperam na sala. O Inspetor insiste em declarar-se culpado, apresentando uma após a outra as provas que o incriminam. Reiteradamente, o grupo de senhores nega a existência de provas, como por exemplo, no caso do fio de sua gravata que ele colocou na unha da vítima. Quando lhe pedem a gravata, ele diz que a destruiu porque ficou em dúvida entre confessar ou utilizar seu poder para encobrir o fato.

O Inspetor falou de uma doença contraída por aqueles que fazem uso permanente e prolongado do poder: “uma doença profissional, disse ele, comum a muitas personalidades que tem nas mãos as rédeas da nossa pequena sociedade.”

Ridicularizado e agredido, o Inspetor termina concordando com a versão dos fatos de acordo com os colegas, e brinda o seu retorno ao rebanho, com uma frase lapidar:

“CONFESSO MINHA INOCÊNCIA.”

Todos se retiram.

A história termina com a citação da frase de Franz Kafka em O Processo (1925, capítulo 9):

“Não importa a impressão que nos dê, ele é um servidor da Lei, portanto pertence à Lei e escapa ao juízo humano”.

DEU NO X

DEU NO JORNAL

DESAPROVADO EM TUDO QUANTO É CANTO

Levantamento Marca Pesquisas encomendado pelo site Diário do Poder, divulgado nesta sexta-feira (7), registra a rejeição do eleitor goiano à administração de Lula (PT) na Presidência.

O petista é desaprovado por 51,3% dos eleitores, 32,6% aprovam e outros 13,4% classificam a gestão como regular.

O resultado evidencia a tendência de queda na aprovação do governo Lula 3, após institutos como Paraná Pesquisas apontarem que até mesmo no Nordeste a aprovação do petista derrete.

* * *

Sei não…

32,6% de aprovação no valoroso estado de Goiás é um número altíssimo.

Desconfio que os pesquisadores não fizeram as contas direito…

Bom, como as coisas estão piorando a cada dia que passa, vamos esperar o resultado da próxima pesquisa.

Detalhe: a mesma pesquisa indica que o governador Ronaldo Caiado tem aprovação de 80,2% dos seus conterrâneos.