DEU NO JORNAL

NÃO ESPERE NADA

Damares Alves (Rep-DF) diz que até abriu o Diário Oficial da União para ver se tinha saído a demissão de Rui Costa (Casa Civil), enrolado no escândalo de corrupção dos respiradores fantasmas.

Em vão.

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Esperar que o governo lulo-petralha puna corruptos e ladrões, é igual dar conselho a doido:

Tempo perdido.

O chefe do bando é modelo e padrão.

ALEXANDRE GARCIA

LULA VOLTA A INVENTAR NÚMEROS SEM PÉ NEM CABEÇA – E O POVO APLAUDE

Lula disse que 12,3 milhões de crianças foram mortas na Faixa de Gaza.

Lula disse que 12,3 milhões de crianças foram mortas na Faixa de Gaza

O presidente Lula, consultando uma colinha, disse que queria homenagear 12,3 milhões de crianças bombardeadas na Faixa de Gaza. Toda a população de Israel e da Palestina, somada, dá 14 milhões; como pode haver 12,3 milhões de crianças bombardeadas? E o pior é que a plateia que ouviu isso aplaudiu, entusiasmada; não tinha a menor noção de coisa nenhuma. Para onde vai a nossa democracia desse jeito? O topo está desinformando e a plateia, desinformada, acha bonito.

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Irã ameaça Israel, mas não consegue nem proteger seus quartéis

Falando em Oriente Médio, o Irã disse que vai “esbofetear” Israel, que atacou cirurgicamente um consulado do Irã, em Damasco, capital da Síria, matando dois generais e outros integrantes da Guarda Republicana iraniana que estavam lá em um núcleo de organização de ataques bélicos a Israel. Mas os iranianos é que estão sendo esbofeteados. Dois quartéis foram atacados dentro do Irã pelos sunitas, que são contra o governo iraniano, xiita. São as frações dentro do grande Estado muçulmano. E eles têm bases no Paquistão; já tinham atacado também uma delegacia e mataram 11 integrantes das forças iranianas, que revidaram atacando com mísseis as bases sunitas em território paquistanês.

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Maduro cria estado dentro da Guiana para tentar unir venezuelanos

Maduro assinou uma lei que cria um estado venezuelano dentro do território da Guiana: o estado de Essequibo. O próximo passo será invadir a Guiana. O ditador também está cercando a embaixada da Argentina, mas Javier Milei diz que não vai levar desaforo mesmo fora de casa. Isso é muito típico de ditadores: quando estão enfraquecidos internamente, inventam perigos fora das fronteiras para tentar unir o povo. Galtieri fez isso na Argentina contra os ingleses, ao invadir as Ilhas Malvinas ou Falklands. Agora, essa ameaça à Guiana e as hostilidades contra a embaixada da Argentina pretendem unir o povo da Venezuela, que terá eleição no meio do ano. Uma eleição, aliás, em cuja lisura ninguém acredita, embora Maduro tivesse assinado acordos com outros países em Barbados, prometendo eleição limpa. Mas até o governo brasileiro está criticando Maduro por estar seguindo a linha de Ortega, da Nicarágua: quem for candidato adversário é cortado. Se bem que aqui no Brasil, cá pra nós, também não pode. Não temos moral para falar dos outros.

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Documentos do Twitter divulgados por jornalista americano mostram o que já sabíamos

A esse respeito, aliás, temos o caso do X, ex-Twitter, do Elon Musk: um jornalista americano divulgou documentos mostrando tudo aquilo que nós, brasileiros, já sabemos sobre essa campanha de censura contra a direita no Brasil. Nunca devemos nos esquecer do que está escrito no parágrafo 2.º do artigo 220 da nossa Constituição: “É vedado todo e qualquer tipo de censura política, ideológica ou artística”. É bom lembrar todos os dias, está escrito lá. Faça uma busca na sua internet e decore isso.

DEU NO JORNAL

O MACHÃO ESPANCADOR DE FÊMEA

Implacável, a internet resgatou post lacrador, já apagado, de Luis Claudio Lula da Silva, filho do presidente acusado de espancar a ex-mulher, em que associa a bolsonaristas crimes contra mulher, inclusive agressões.

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Os pertinazes leitores desta gazeta escrota irão descobrir este post do espancador Lulazinho, com certeza.

O primeiro que mandar pra cá pra gente publicar, vai ganhar de Chupicleide um beijo na bochecha!

DEU NO X

DEU NO X

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

APOLÔNIO PREÁ

Para Violante Pimentel

Chamava-se Apolônio Boaventura de Jesus, mas era mais conhecido como Apolônio Preá, ou apenas Preá. Matador de aluguel, conhecido pelo bom serviço que fazia na arte de despachar cristãos para a terra do além. Gabava-se do bom serviço que fazia: seu doutor! Tenho tirocínio e maestria no meu ofício. Faço serviço melhor que muito doutor médico com suas poções, sinapismos e beberagens, na minha arte.

Nascera em Cacimba do Mato Dentro nos idos tempos de antanho. Já molecote, bem puxado para o pardavasco entrou em quizília com um desafeto e passou o desinfeliz na lâmina de sua “Coqueiro”. Serviço de primeira. O vitimizado não teve tempo de dizer ai, antes de entregar a alma pra Deus, Nosso Senhor! Dessa rezinga de tempos de moleque investiu-se no cargo de matador de aluguel, e era bem pago pelos serviços prestados.

Com a fama de valente, de sujeito que não levava desaforos para casa, sentou praça em São José. Sua sala, naqueles tempos, pratrasmente de muitos verões, quando política se resolvia na bala e na ponta de faca, tornou-se cabo eleitoral, juiz, promotor, júri e carrasco daqueles a quem era encomendada morte matada. O cliente apresentava o nome, o tipo do sujeito e a espécie de morte. Preá, como todo bom servidor estipulava tabela de preço no ofício de sua arte, e ainda brincativo, preguntava para o cliente se tinha algum recado a mandar pro falecido de morte contratada e com firma passada em cartório.

Mas, deu também de apresentar ares de funcionário público de alto escalão. Coisa nanica, tipo surra de cipó de boi, ou mesmo de lâmina de fação, nem se dava o trabalho de pessoalmente despachar o corretivo. Mandava um de seus moleques qualquer fazer o serviço, pagava o jornal do trabalho subalternista e ia gozar licença prêmio na casa de sua amiga Maria Veludo.

Valente que só a peste, olhos de um verde claro que mais parecia caninana em noite de lua cheia, quando as bichas estão com o cio aberto, andava meio cambaio, pra lá e pra cá. Falava todo cacarejoso, de peito estufado, voz de entupir sala e saleta. Também era conhecido pelo seu educativismo com mulher moça e moça mulher. Pedia benção às senhoras cujas bocas muitos verões já haviam esquecido e era devocioneiro de José e São Lifôncio, apesar de não machucar piso de igreja pra mais de vinte anos.

Vivia em sua casinha na entrada de um capoeirão, criando galinha, cabra e porco, além de um roçado de aipim, feijão e milho. Era a sua mantença, fora os serviços de finadismo que dava conta quando contratado por algum figurão que queria se livrar de um desafeto, seja em briga de terra, de política, ou de qualquer outro assunto, como perda de donzelismo. Só não dava finalmência em ladrão de moça. Até elogiava o ladronismo do sujeito. Mesmo com ares superiores, não enjeitava nenhum serviço. Trabalho graúdo, desses de aparecer em gazeta de primeira página, dava de pessoalmente o serviço. Trabalho nanico, mandava algum dos afilhados, pois era padrinho de muitos moleques em São José, principalmente daqueles moleques cujos pais eram desconhecidos, ou tinham paradeiro incerto, ou daqueles filhos de moças de casas suspeitosas.

Bom caçador, gostava de ter em sua mesa, carne de alguma caça, fosse anta, tatu, ou mesmo onça, que, segundo os mais velhos da cidade era de muita sustança. Nas suas caças, sempre que trazia bicho mais graúdo, não se esquecia dos afilhados, ou dos velhos a quem sempre prestava algum ajutório. Naqueles dias bons, quando Preá caçava, os velhinhos tinham certeza de gosto de gordura na mesa.

Apolônio Preá, no entanto, tinha um segredo. Era temente de lobisomem, visage de menino pagão, ou qualquer abusão de noite trevosa, principalmente em noite de corisco, quando as lacraias de fogo de Nosso Senhor Jesus Cristo cortavam o céu de São José. Certa noite desabou uma tempestade na cidade, justo na hora que Preá voltava de um serviço de despachamento de um graúdo da política da cidade de Mocambos. Mal abriu a porta e aquela chama de corisco alumiu toda a sua casa. Nesse alumiar, Preá viu a figura de um menino comedor de terra que tinha virado anjo pra mais de vinte anos.

Sabedor de toda raça de encantado, de toda marca de visage, seja dentro de casa, em porta de cemitério, ou mesmo em estrada de chão, ao meio dia, horário mais apropriado para esses abusões e provocativismo do povo já pertencido ao barro do cemitério, encalistrou e sentiu um frio que correu da ponta da nuca, passado pelo cavername do peito e chegando no dedão do pé.

Tentou chamar alguém. Sua voz grossa de não respeitar nem sala de doutor médico, nem de desembargador jubilado saiu fininha, quase um sussurro, gaguejando um ora pro nobis aprendido nos seus verdes anos de menino quando um cura de Cacimba de Mato Dentro ensinou a ele e aos demais moleques, a garatujar o nome e algumas rezas em latim em homenagem aos santos de sua devocionice. Nem pernas Preá tinha mais. Só pensava na visage, quando sentiu um arrepio na carcunda e logo pensou em lobisomem. Mal acabou de pensar, sentiu uma mão grande e peluda tocar seu ombro e escorrer pelo espinhaço, até quase perto de suas partes subalternas.

Aí era demais. Nunca que um Apolônio Preá, matador de fama contada e cantada iria permitir tamanho sem-vergonhismo com sua pessoa. Tirou seu “Coqueiro” da cintura, chamou pelos santos de sua devoção e esfarinhou aquela mão que escorria pela sua cacunda a poder de “toma, safardana”. Quando avivou o pavio do lampião de querosene começou a rir do seu próprio medo. Na noite trevosa e cheia de vento, não reparou que havia deixado a vassoura de piaçava atrás da porta que, com o vento caiu e derrapou pela carcundinha do Preá, de alto a baixo.

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

O GATO E A ONÇA

Essa fábula é muito antiga, do tempo em que os bichos falavam. É escarrada e esculpida a realidade em que vivemos.

O Gato era famoso entre os animais pela sua agilidade, e um certo dia, estando à beira de um rio para beber água, lá foi encontrá-lo a Onça, um dos animais mais perigosos e traiçoeiros da floresta.

– Bom dia, mestre Gato; como vai você?

– Vou bem, obrigado, comadre Onça; e você?

– Não ando bem. Ando muito triste ultimamente.

– Triste por que, comadre? Será que eu posso ajudá-la?

– Mestre Gato, você é o único bicho que pode me ajudar. Sinto-me assim, porque ouço sempre falar da sua habilidade para saltar, e eu não sou capaz de fazer o mesmo. Você pode me ensinar a saltar igual a você?

Mostrando-se gentil, o Gato respondeu:

– Ora, comadre, é só esse o seu problema? Não se aborreça! Vou lhe ensinar, sim. Podemos começar agora mesmo!

– Claro que sim, disse a onça muito satisfeita.

Começou então a mais estranha aula desse mundo: O Gato exibia todos os tipos de saltos que podia executar, e a Onça procurava imitá-lo da melhor maneira possível. Saltavam de um lado para outro, subiam nas árvores e de lá pulavam para o chão, davam saltos de altura, de extensão, e o Gato mostrava que era de fato um mestre. Depois de algum tempo, a Onça já estava saltando quase tão bem quanto o professor.

O Gato, solícito, ensinou à Onça todos os seus saltos, e ela aprendeu logo, passando a fazê-los com perfeição.

Mas o plano da Onça era outro. Queria devorar o Gato.

Depois dos saltos que aprendeu com o Gato, a Onça ficou faminta e resolveu atacá-lo. Preparou-se para saltar em cima dele e devorá-lo, mas, o Gato percebeu e foi mais ágil, pulando para trás e driblando os movimentos da Onça, que caiu dentro de uma fossa que transbordava.

Tal qual um jogador de baralho que guarda uma carta na manga da camisa, o Gato guardava consigo um salto secreto que não ensinava a nenhum outro animal, principalmente à Onça. Esse segredo era guardado a “sete chaves”.

Com o salto do Gato para trás, a Onça rolou por terra e caiu numa fossa que transbordava. Desapontada e demonstrando revolta, disse para o gato:

– Ora, Mestre Gato, este salto você não me ensinou!!!

Triunfante, o Gato respondeu:

– Não sou tão tolo assim, que, ao menos, não reservasse um salto secreto para me livrar das suas garras e de sua falsidade!
Nem tudo aquilo que o professor aprendeu na vida, ele ensina aos alunos.

E com outro salto de mestre, o Gato sumiu no mato, deixando a Onça machucada e “a ver navios”.

O instinto animal faz com que ele perceba quem lhe quer bem e quem o rejeita. Da mesma forma, o ser humano também distingue as pessoas que lhe querem bem, daquelas pessoas mesquinhas, fingidas, interesseiras, egoístas e invejosas, que não suportam o sucesso de ninguém. São verdadeiras artistas.

Por isso, a lição transmitida por essa fábula deve ser guardada a sete chaves, contra pessoas falsas e traiçoeiras.

Ficou a lição. Não se deve confiar em Onça. É imprescindível ao Gato que nunca ensine a ninguém sua jogada de mestre.

DEU NO JORNAL

LULA AFUGENTA O INVESTIDOR

Editorial Gazeta do Povo

O presidente Lula, com macacão da Petrobras, durante cerimônia na Refinaria Abreu e Lima, em janeiro de 2024.

O presidente Lula, com macacão da Petrobras, durante cerimônia na Refinaria Abreu e Lima, em janeiro de 2024

Um dos principais desafios de uma economia emergente é atrair recursos estrangeiros; trata-se de tarefa duríssima, pois os países em desenvolvimento não apenas competem entre si, mas também precisam convencer o investidor de que são um destino melhor que economias desenvolvidas, mais sólidas e confiáveis. Com os juros norte-americanos ainda bastante altos para os padrões daquele país, conseguir trazer dinheiro do exterior tem sido ainda mais difícil, já que a tendência é a da chamada “fuga para a segurança” – as perspectivas, que eram de seis cortes nos juros americanos em 2024, agora são de apenas três cortes, com o início do ciclo de afrouxamento previsto apenas para o segundo semestre deste ano.

Mesmo diante de um cenário em que os títulos norte-americanos parecem mais atrativos, no entanto, um país emergente pode superar ou intensificar esta dificuldade. Uma nação que tenha uma economia pujante, em crescimento, com liberdade econômica e empresas vibrantes, com perspectivas promissoras, terá um mercado de capitais atraente a ponto de ser ao menos levado em consideração por investidores em busca das melhores opções para aplicar seu dinheiro. Infelizmente, não é o caso do Brasil.

No primeiro trimestre de 2024, a B3 brasileira teve o pior desempenho em uma lista com 41 índices de cerca de 30 países, incluindo economias desenvolvidas e emergentes. A queda de 4,53% não chega a ser grande em termos porcentuais, mas se dá em um momento no qual a maioria dos outros índices medidos – 33 de 41 – teve alta de pelo menos 1% no mesmo período, com alguns resultados notáveis entre emergentes. A saída líquida de dinheiro da B3 no trimestre foi de R$ 21,2 bilhões, movimento capitaneado especialmente por estrangeiros, com grandes bancos internacionais recomendando venda ou exposição baixa a certos papéis brasileiros.

Há alguns fatores externos contribuindo para este fenômeno, como as incertezas sobre o crescimento chinês, que por sua vez têm efeito sobre empresas de commodities, que constituem parte importante do índice brasileiro de ações. No entanto, a principal razão para a fuga é interna, e está no Palácio do Planalto: o presidente Lula e seu intervencionismo irremediável, que já causou dano à Petrobras, à Vale e pode ainda fazer um bom estrago em outras estatais e ex-estatais em que o governo ainda tem participação acionária relevante. É o voluntarismo do governo que está na raiz da recomendação do Goldman Sachs para que investidores deixassem de lado as ações de estatais brasileiras.

A petrolífera sofreu com a decisão de não mais pagar dividendos extraordinários, revertendo uma política que vinha sendo adotada nos últimos anos e contrariando até mesmo o presidente da estatal, Jean Paul Prates, que defendia uma solução de meio termo – a pressão sobre o Conselho de Administração veio diretamente de Lula. Já a Vale, privatizada ainda nos anos 90 do século passado, trocará de CEO após Eduardo Bartolomeo ter sido fritado pelo presidente da República e perder o apoio da maioria dos conselheiros – um dos que eram contrários à mudança renunciou ao posto e afirmou ter havido “manipulação” e “nefasta influência política”.

Outra gigante, a Eletrobras, tem resistido com mais força às investidas petistas, mas pode sucumbir se o Supremo Tribunal Federal derrubar um trecho da lei que permitiu a privatização da empresa de energia. A legislação aprovada pelo Congresso Nacional prevê que ninguém terá mais de 10% dos votos, ainda que tenha participação acionária maior. Lula foi ao STF alegando que este trecho seria inconstitucional, e a questão ainda não foi definida. Se o governo vencer, isso não significaria apenas a possibilidade de maior ingerência petista na Eletrobras, mas traria uma enorme insegurança jurídica a todo o ambiente de investimentos no Brasil, pois muitos investidores resolveram comprar ações da empresa confiando no que dizia a lei, feita justamente para afastar as interferências políticas da administração da Eletrobras privatizada. Se a lei pode ser revertida neste caso, quem haverá de garantir que o mesmo não ocorrerá em outros casos?

Lula já afirmou que, para ele, as empresas precisam atender aos interesses não da população ou de seus acionistas; não devem se guiar pela busca do bem comum ou pelo desenvolvimento das regiões onde atuam; devem é estar ao serviço do “pensamento de desenvolvimento do governo brasileiro”, leia-se o seu governo. E falou de modo genérico, sem nem sequer diferenciar entre estatais e privadas, até porque seu comentário havia sido motivado por decisões de negócio da Vale. Enquanto Lula pensar e agir assim, não poderá reclamar ao ver os “dinossauros”, como chamou os investidores, levando seu dinheiro – não só o do mercado de capitais, mas também o do investimento direto, que também está em queda no Brasil – para outros países, promovendo lá o crescimento que poderia estar ocorrendo aqui.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

LEMBRANÇAS DA DITADURA

Passados 60 anos do golpe, e 10 anos do fim de nossos trabalhos na Comissão Nacional da Verdade, anoto, para não passar em branco essa data, umas poucas lembranças:

1. DOIS PERSONAGENS. Depois de conhecer os fatos, mudou a dimensão que tinha de ao menos dois personagens daquele tempo. Um foi o presidente Geisel, que hoje considero apenas um carniceiro. Na Guerrilha do Araguaia, por exemplo, pouco mais de 20 guerrilheiros foram presos sob a promessa de que, depois de prestarem depoimentos, suas vidas seriam garantidas. E acabaram todos mortos. Por ordens superiores. Geisel foi quem deu o nome da operação, “Limpeza”. Limpeza de gente. Daqueles homens e mulheres que ficaram plantados naquelas terras, para sempre.

Outro personagem foi o ministro do SNI, Golbery do Couto e Silva. De quem tenho, hoje, impressão positiva. Era alguém diferente, que compreendia bem como a história se escreve. Criou o SNI, não apenas para fiscalizar os opositores do regime. Sobretudo, para controlar os seus, especialmente capitães e majores que não mais obedeciam aos generais. Veja-se, por exemplo, as explosões das bancas de jornais, tentativa de disseminar o terror. Ou o caso do Riocentro, programado para ser um morticínio. Outro dia conto algumas histórias dele. Como, por exemplo, a de quando evitou que Brizola fosse morto.

2. A CHAGA DA CORRUPÇÃO. É comum se dizer que, naquele tempo, não havia corrupção. Com o exame do que ocorreu, se pode hoje dizer, uma falsa lenda. Sem qualquer dúvida. Pouco depois de 31 de março, já o Brasil conhecia sua primeira Comissão Geral de Investigações – CGI (Decreto 53.897/64, extinta pelo Decreto 54.609/64). Ainda não contra a corrupção. Apenas para demitir servidores públicos que tivessem vitaliciedade ou estabilidade. E que ficaram contra o Golpe, nem seria preciso dizer.

Mas a segunda CGI (Decreto–Lei 359/68, extinta só pelo Decreto 82.961/78) foi criada precisamente para promover o confisco dos bens adquiridos, de maneira ilícita, no exercício da função pública. Por serem tantos casos que era mesmo necessário fazer algo. Definido, o enriquecimento ilícito (art. 6º), como “aquisição de bens, direitos ou valores… sem idoneidade financeira para fazê-lo…; “ou quando não houver comprovação de sua legitimidade”.

Esta segunda CGI tinha poderes (art. 38) para apurar quaisquer atos de corrupção. Sem que se conheçam, hoje, as investigações realizadas. Tudo destruído, essa foi a decisão dos poderosos da época, é pena. Mas foram muitos casos. Até porque, diferente fosse, e nem razão haveria para criar uma CGI assim. Aqui mesmo, em Pernambuco, um marechal, diretor da Caixa, enriqueceu apostando com os empresários da construção Fernando Rodrigues e Lynaldo Uchoa de Medeiros. “Aposto que não sai o financiamento”, e ele “Tá apostado”. O financiamento afinal saia, liberado pelo próprio, e o Marechal enriquecia. Quem viveu aquele tempo se recorda.

A evidência de corrupção ampla, no período, não para por aí. No início de 1969, começava a nascer a Operação Bandeirantes – OBAN. Pensada para ser o braço clandestino dos órgãos de segurança. E responsável por boa parte das torturas e desaparecimentos forçados que se deram, na época. O ato (informal) que celebrou sua criação deu-se em 01/7/69, contando inclusive com a presença de figuras das elites políticas (Abreu Sodré, Paulo Maluf) e empresários de São Paulo.

Tanto foi o sucesso (na versão das forças de segurança) do empreendimento que, em fevereiro de 1970, o major Waldyr Coelho (chefe de Coordenação de Execução da Central de Operações da OBAN) sugeriu, ao Comando do II Exército, a criação de uma OBAN específica contra a corrupção (documento ACE 16.645–70, Arquivo Nacional). Que era grande, claro. Sem sucesso.

Naquele tempo, a ideia de combater a corrupção se limitava a punir os que recebiam grana. Sem atingir empreiteiros ou militares que lhes davam cobertura. Talvez porque todos fossem velhos companheiros da Ditadura. Hoje é diferente. Nossas prisões passaram a ser frequentadas, também, por donos de construtoras e agentes políticos (que substituíram, na periferia do poder, aqueles militares). Pena que só por breve tempo, depois o Supremo decidiu que melhor irem todos para casa. Ou voltar a exercer cargos públicos. Sem esquecer que também estão, hoje, tentando cancelar suas multas. Uma vergonha, perdão por dizer.

Corrupção, pois, havia sim. Muita. No fundo, um desvio da própria natureza humana. Praticada, indistintamente, por homens e mulheres, pretos e brancos, civis e militares. Só que, nos anos de chumbo, não se sabia dos submundos do poder. Por conta da censura. Completa (quase). Enquanto, hoje, há liberdade na informação. Essa é a maior diferença. E ainda bem.

3. A ALMA HUMANA. A terceira lembrança diz respeito a pessoas. E faço isso contando o caso de dona Luiza Gurjão. Na Comissão Nacional da Verdade, encontramos restos de dois corpos. Um deles, pelas anotações que tínhamos, provavelmente seria de Bergson Gurjão, que desapareceu na Guerrilha do Araguaia. Convidamos sua mãe para fazer o teste do DNA. Dona Luiza, quando chegou, disse ter certeza de ser seu filho, era mesmo, e completou

‒ Faz muitos anos, descobriram que eu tinha câncer. Com pouco tempo de vida. Mas, aos médicos, disse que só morreria depois de enterrar meu filho. Para mim, era missão. E essa fé acabou recompensada.

Mais tarde pusemos os poucos ossos que sobraram, depois dos exames, em caixão com areia. Para ficar mais pesado. E mandamos, bem vedado, para dona Luiza. Foi o velório mais festivo que já se viu, nas redondezas, todos contentes por ver a mãe realizando seu sonho de enterrar o filho. No fim do enterro, pediu a palavra.

‒ Esse é o dia mais importante de minha vida. Aqui está Bergson (e apontou para o caixão, na cova). Pertinho dele (indicou um espaço vazio), bem ao lado, ficarei eu. Os dois juntos, pela eternidade. Muito obrigado a todos.

Pouco depois jantou com a família, foi dormir feliz, em paz, e não acordou.

PENINHA - DICA MUSICAL