Parece que Xandão caiu numa sinuca de bico.
Homenagem deste colunista para o Açude Gargalheira, 3ª Maravilha do Rio Grande do Norte, que há treze anos não transbordava.
De em ti deitar meus olhos
O meu olhar não se cansa
Percorro teu corpo todo
Até onde a vista alcança
Tua beleza é completa
E à vista deste poeta
És portal de esperança.
Contigo meu olho dança
No verde te rodeando
Na água te invadindo
No concreto bloqueando
Nas serras que são teus braços
Por todos esses teus traços
Sigo te admirando.
És lindo!
Agricultores a caminho do trabalho
Joelhos dobrados cobertos pelos trapos velhos e macios do dormir, sentada na cadeira velha de palhinha que herdou da avó Emerenciana, Alice – para os de casa, “Alicinha” – sorve os últimos goles do café torrado e pilado em casa pela mãe Dona Alice Maria, enquanto, tentando se proteger de um frio apenas imaginário, observa Nonato arrumar as tralhas para sair para mais um dia de labuta na roça. É a rotina.
Só que, essa rotina, hoje, foi emoldurada por uma insistente neblina, que mais tarde pode se transformar numa boa chuva.
Queira Deus!
E a rotina mostra a parentada de Nonato (cunhados, filhos, sobrinhos e agregados – entre eles o jovem marido de Alicinha) caminhando para a carpina e a preparação da terra que, graças às chuvas que vão cair, produzirá o básico da agricultura familiar para o sustento: milho, feijão, mandioca, batata, maxixe, quiabo e melancia.
Tudo faz parecer um filme em repetição na televisão.
A caminhada para a roça é longa, mas rápida. Um silêncio absoluto domina a fila indiana, onde, quase hábito natural, o primeiro da fila “conversa” com o último e os entremeados apenas escutam. Parece algo combinado – mas não é. Isso faz com que a caminhada pareça diminuta, para um percurso de quatro a cinco quilômetros.
No outro cenário – o da casa – Alice Maria já está no meio da jornada, que agora conta com a participação mais ativa de Licinha. A panela de feijão ferve no fogão tocado a lenha. O tempero, por hora, é apenas sal e banha de porco e alguns nacos da carne de boi separados e salgados para essa finalidade.
Licinha pegou na despensa dois generosos pedaços de camurupim (um peixe que habita o mar profundo da costa nordestina do Brasil) salgado e os transformou em pedaços menores para facilitar o cozimento e a liberação da quantidade exacerbada do sal, enquanto assa as castanhas de caju que comporão a moqueca.
Depois de assadas, as castanhas serão socadas no pilão (monjolo – para outros), peneiradas e postas de lado para receber o coentro e a cebolinha com tomates picados.
Observação: como hoje é domingo, vou parar por aqui com a preparação, para evitar atrapalhar o almoço de alguns amigos. Principalmente aqueles que já provaram dessa culinária.
No roçado, a neblina continua caindo sem atrapalhar o trabalho. Linhas de roça são limpas em poucas horas, enquanto uma dupla prepara as “covas” para o plantio da batata doce e da mandioca, ao mesmo tempo que, com dois bornais (um de cada lado) Manim vai “semeando” para o plantio das manivas e das rodelas da batata.
Nonato para e dá uma olhada no que já está pronto. Aproveita para limpar o suor salgado que lhe corre pela face. Aproveita, também, para dar um comando:
– Vamo atochar, cabrada, prumode a gente terminar esse seuviço hoje!
A carpina da área a ser plantada
O sol está quente. Muito quente. Alguns param para pegar um gole d´água e molhar a garganta – e só aí percebem que o tempo está passando e a hora do “dicumê” está se aproximando.
Durante o dia, em casa, ninguém para de trabalhar. Todos têm suas tarefas e as procuram executar com a perfeição rotineira e a filosofia do “é bom para uns e para todos”.
Para apressar o esfriamento das cascas das castanhas, Licinha cobre com uma leve camada de terra, pega uma cuia, um pedaço de madeira e um caco de telha quebrada e começa a “descascar” as castanhas, uma atividade que, pela prática dela, não demora muito.
Nisso, Alice Maria começa a pilar as castanhas assadas, numa forma de apressar o preparo do almoço dos “trabaiadores no roçado”.
O almoço logo fica pronto: moqueca de camurupim, feijão de corda, farofa de cuscuz de milho, pedaços de rapadura e duas cabaças com água fresca tirada da quartinha que ficara na janela para esfriar.
Licinha prepara tudo num caçuá. Põe nos cambitos colocados na égua Bonita e parte para a roça, onde os “trabaiadores” a esperam atônitos e já com as tripas roncando. A chegada dela é uma festa. Todos param de trabalhar e caminham para uma sombra de juazeiro que serve de refeitório.
Colheres, pratos de ágata, farinha e o aviso forte de Licinha:
– Essa moqueca tem que dá pra todos!
A sobremesa, pedaços de rapadura. Caneca d´água e o direito a um rápido descanso na sombra que serviu de refeitório, enquanto chega a hora do segundo expediente da jornada repetitiva de todos os dias.
Na casa, Alice Maria espera o retorno de Licinha para a refeição das duas, sentadas no chão da “sala de jantar” sobre um surrão de palha. A mesa é posta nas próprias panelas e a comida servida com colheres de pau. Diferentemente dos “trabaiadores” na roça, a sobremesa das duas é o caldo da moqueca misturado a uma poaca de farinha seca.
Depois, em vez do descanso de direito, a limpeza das panelas e pratos e a preparação para a noite que chegará. E o dia seguinte.
Que vídeo!!!!!! Na cara !!!!!!! pic.twitter.com/oQjYsOPzWd
— Médicos Pela Liberdade (@MedicoLiberdade) April 7, 2024
Tudo mundo sabia que a possível eleição de Lula representaria um período de revanche contra todos aqueles que lhe colocaram na cadeia. Todos nós devemos nos lembrar que durante o papo inicial de uma entrevista que lhe daria a correligionários, num determinado momento ele disse que “queria fuder o Moro”. No esteio desse caminho de ódio, Deltan Dallagnol foi cassado pelo TSE, com parecer favorável de Benedito Silva, aquele mesmo do tapinha na cara que disse “missão dada é missão cumprida”. Ressalve-se que Dallagnol não teve nenhum processo administrativo contra ele e teve uma determinação da TER-PR dizendo que o mesmo não tinha restrições.
O assunto dos últimos tempos é o caso de Sérgio Moro. Cotejado pelo PODEMOS de Álvaro Dias para ser candidato a presidente, Moro embarcou nessa proposta, mas acabou concorrendo ao cargo de senador, sendo eleito com milhões de votos e agora, o PT, certamente por interesse do presidente e o PL, certamente por não perdoar ele ter saído do governo Bolsonaro, entraram com esse pedido de cassação e isso só não foi avante porque faltava um juízo para compor o colegiado. O juiz foi nomeado pelo presidente e seu voto, lógico, foi favorável à cassação.
Quando o sistema judiciário de um país passa a ter dono, ou seja, passa a ser subordinado ao presidente da república, os direitos individuais, a equidade e justiça social deixam de ser meios para o equilíbrio democrático para se transformar numa caricatura grotesca do estado de direito. Na Venezuela, quem manda no judiciário é Maduro e lá todos agem para mantê-lo no cargo indefinidamente. Aqui, o filho de Lula que esta semana encheu de porrada sua esposa, ao que foi divulgado, disse que o pai dele manda na justiça. Qualquer pessoa de bom senso, imparcial, sabe que as peripécias judiciais para tirar Lula da cadeia são semelhantes àquelas que o presidente Maduro usa desde sempre.
Nesse sentido, o objetivo desse texto é apontar alguns erros cometidos por Moro para chegar nessa situação extrema. O primeiro deles foi deixar a vaidade interferir nas suas decisões enquanto juiz. Claro, que tudo que ele mostrou jamais vai deixar de ser uma comprovação de toda corrupção praticada por Lula e seus correlegionários. Foi vergonhoso ver e ouvir depoimentos de pessoas envolvidas, como Joesley Batista, Marcelo Odebrecht, Antônio Palocci, dentre outros. Moro acreditou, assim como Bolsonaro, que a luta contra o sistema seria vencida. Ledo engano. A operação Mãos Limpas que ele usou como referência também foi engolida pelo sistema na Itália.
Eu queria deixar claro que nunca entendi aquelas conversas com Deltan como algo pernicioso. Eu sempre disse que o que ouvi ali era uma conversa de pessoas dispostas a combater o crime, ao contrário das conversas dos investigados que tratava de praticar crimes. Mas, entendo que ter saído do cargo para ser ministro de Bolsonaro foi uma escolha equivocada. Moro era um juiz experiente, mas como político era um cego por natureza. Sua primeira tentativa foi lutar para que Fernando Bezerra Coelho, investigado por desvios de valores da ordem de R$ 5 milhões, não fosse designado como líder do governo no senado. Perdeu e passou a ver o quão seria difícil conviver com políticos que ele tinha condenado.
A hostilidade do ambiente político passou a desgastar Moro e, acredito, foi nesse ponto que ele percebeu que não adiantaria ser ministro porque pouco ele teria capacidade de resolver, mas com a possibilidade de ser presidente talvez fosse mais lógico o jogo político. Saiu do governo e com isso externou fragilidades que deveria ter permanecido de forma interna no governo ou no partido.
Agora, o que mais me chocou foi a procura dele por um ser asqueroso como Gilmar Mendes para ouvir algo como “a coisas mais certa que Bolsonaro fez foi lhe tirar de Curitiba!”. O caro poderia ter enfrentado o processo de cassação com altivez. Morrer de fome ele não vai porque sua esposa se elegeu como deputada federal e ele, particularmente, tem um currículo muito bom a ponto de atrair convites da iniciativa privada.
Infelizmente, Moro fraquejou e na tentativa de manter o cargo foi pedir auxílio na fonte da sua derrocada como juiz. Foi o STF contando com apoio de decisões de Gilmar Mendes que a Lava Jato foi devidamente enterrada. Não custa lembrar que Gilmar Mendes voltou favorável a prisão em segunda instância, em 2016, mas quando seu chefe foi preso, em novembro de 2019, Gilmar Mendes voltou contra a prisão em segunda instância. Não custa lembrar que como ministro do TSE, Gilmar Mendes deu provimento a cassação da chapa Dilma – Temer, mas com o impeachment de Dilma, ele correu para salvar Temer.
Foi este ser abjeto que Moro procurou abrigo. É triste constatar que Moro DesMOROnou. Não é um herói que morre por overdose, mas um que sucumbe ao poder do sistema.
Condenado em duas instâncias, Lula finalmente se entregava à polícia há 6 anos, em 7 de abril de 2018, após se entrincheirar em sindicato do ABC paulista, para cumprir pena por corrupção e lavagem de dinheiro.
* * *
Não custa nada ressaltar as razões da condenação:
Corrupção e lavagem de dinheiro.
Acusações falsas, segundo ele, que, como é de amplo conhecimento de todos os brasileiros, só fala a mais pura verdade.
Foi com dor no coração
Que eu deixei o meu lugar.
Mote de Normando
Registrei aquela cena,
Na mente igual uma tela,
Mãe chorando na janela
Com a minha irmã pequena.
Tive tanta dó e pena
Que até me faltou o ar,
Pra trás evitei olhar
Disfarçando a emoção,
Foi com dor no coração
Que eu deixei o meu lugar.
Jr Adelino
Era dia vinte e seis
De junho de oitenta e sete…
A saudade, essa gillete,
Cortou-me a primeira vez.
Mamãe com sua altivez
Disse: – Vou lhe abençoar!
Vendo meu pai abraçar
A viola e o meu irmão.
Foi com dor no coração
Que eu deixei meu lugar.
Wellington Vicente