Ao explicar o plano que propôs ao governo Lula de auxílio pró-empregos dos gaúchos, o governador Eduardo Leite (PSDB) explicou: “como houve na pandemia”.
Sem mencionar Bolsonaro, claro.
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Claro.
Leite coalhado é muito macho, macho mesmo, mas sua coragem não chega a tanto.
Não seria besta de citar na sua explicação o ex-presidente como exemplo.
O desfalecer das coisas e dos seres, humanos ou não, é isso que a vida é. Ou, a volta à origem de tudo: o barro. Nossa matéria prima.
A vida, tanto quanto o sol de cada dia, também se põe. Atinge o ocaso. Desfalece, e, a partir de então, deixa de ser e de existir. Descolore.
No início, as cores são fortes. Firmes. Vibrantes.
O corpo humano chega ao mundo trazendo luz (“as mães são o caminho: dão luz”), envolto na cor vermelha vibrante do sangue… e volta ao barro sem o sangue da chegada. Leva consigo lágrimas da convivência, dos dias e das noites, das derrotas e das vitórias, das tristezas e das alegrias.
Leva consigo o colorido da vida.
A casa caiada de branco, portas e janelas pintadas de um azul forte, formava a moldura alegre e vibrante do pé-da-serra verdejante, com ipês vermelho e amarelo. A beleza da retina e a visão perfeita dos olhos humanos.
O tempo passa. A beleza primaveril vai embora com a chegada de uma nova estação.
Os anos se sucedem, e, hoje a casa já não tem mais a beleza que um dia teve. Tudo em volta está descolorido, gerando uma tristeza ímpar.
A rosa evoluiu do botão vibrante e despetalou-se
Jardim eletrizante que ajudava o vento formar uma aurora boreal, bem próximo de nós. Ao nosso derredor, como se parte de nós fosse. E era, porque nossos olhos estão em nós. Cintilados pela cor da rosa do jardim, que ainda em botão, nos encanta, exalando um perfume único (“… mas as rosas não falam, as rosas simplesmente exalam, um perfume que roubam de ti…”) e na cor vermelha do sangue. Sangue da vida e da existência.
É primavera!
Mas, quem disse que as rosas precisam da primavera?
Ao contrário. A primavera é que precisa das rosas. Das cores, do perfume e da vida, em pétalas.
Despetalada, a rosa não tem vida. Esmaece. Descolore.
“Voltarás ao barro”!
O ser de luz veio ao mundo, tendo como caminho a Mãe. Ela foi escolhida e por dias e meses guardou no ventre a vida em formação. Uma vida de cor e cores transformadas em momentos de alegria: “o crescer e multiplicar-se” apenas no sentido da vida. A partilha do pão da vida e das cores são tarefas divinas. Somos apenas e tão somente, os caminhos, até que voltemos ao barro, nosso princípio, meio e fim.
Há algum tempo, meu prezado amigo Goiano Horta, compartilhou comigo uma manchete de um jornal de Petropólis, datado do final do século XIX. O jornal falava da enxurrada que matou centenas de pessoas. Geralmente, quando chega janeiro a água leva sonhos, casas, animais, carros, esperanças, etc. na cidade maravilhosa e adjacências. A gente vê o poder público “comovido” dizer que está implantando projetos para acabar com o sofrimento do povo e o resultado são recursos mal empregados, desviados, e o povo sofrendo e perdendo vidas.
A questão da seca do Nordeste não foi diferente disso. Desde D. Pedro II que se falava em combater a seca no Nordeste, em desenvolver projetos que mudança as condições climáticas da região e a transposição do rio São Francisco era o projeto mais viável que se dispunha. O PT passou 13 anos construindo canais e prometendo entregar água na região. Nunca entregou um canal e somente no governo passado a água do Velho Chico chegou as torneiras enferrujadas do povo nordestino.
É sabido que havia a chamada “indústria da seca”. É sabido que os recursos destinados ao combate à seca no Nordeste nunca passaram de migalhas distribuídas na forma de cestas básicas, cadastros em frentes emergenciais, programas sociais puramente eleitoreiros. A presença dos carros pipas se somava ao cenário tétrico da sede e, entre 2018 e 2022 isso foi, absurdamente, reduzido, mas, recentemente, vi um senador aqui do estado pousando junto a uma comunidade que acabara de receber um carro pipa.
A economia mundial foi abalada, nos seus mais sólidos fundamentos, com a pandemia e todos acreditavam, baseados em projeções de agências de análise de risco, que o Brasil não sobreviveria. Nosso produto caiu menos do que economias maiores, nossa inflação se comportou mais rapidamente do que noutros países e o Brasil cresceu em meio aquela crise. Eu digo sempre: destruir é bem mais simples do que construir ou reconstruir. Com a pandemia eu acreditava que a gente levaria pelo menos uns 10 anos para recuperar empregos, renda, equilibrar contas públicas. Algumas coisas dessas chegaram mais rápido e, na minha cabeça, a política adotada pelo ministro Paulo Guedes, nitidamente, mostrava que era possível ter um Brasil diferente.
Agora a gente vê a destruição da economia gaúcha e diga-se: por absoluta negligência de Dilma Rousseff que teve a oportunidade de conhecer um projeto que favorecia o controle das enchentes no Rio Grande do Sul e não fez nada. O Rio Grande do Sul, diga-se de passagem, apresenta problemas econômicos desde o governo Yeda Crusis. Apesar dos recursos disponíveis, o descontrole fiscal do estado sempre foi palco de um cenário econômico duvidoso. Agora, a gravidade é muito maior.
Estamos falando de um sistema produtivo que perdeu seus insumos, suas instalações e sua capacidade de gerar receita. Estamos falando de um estado que não dispõe de recursos para quitar sua parcela de dívida com a União e, embora o governo tenhas suspendido a dívida por três anos, o governador já disse que esse prazo é insuficiente. E com razão. A economia se desenvolve mediante o consumo e para consumir é preciso renda, mas a fração maior da renda disponível é paga pelo setor público. Se pensarmos em setor público federal, tudo bem, mas aquilo que depender do estado e das prefeituras não é passível de contabilização.
O Rio Grande do Sul está experimentando o calor da solidariedade humana. De todas as regiões do país, chega ajuda humanitária, mas no curto e médio prazo, o estado precisa de recursos para reconstruir a infraestrutura e só pode contar com a União. Lógico que a iniciativa privada tem seus recursos próprios para retomar suas atividades, porém isso precisa ser feito de forma absolutamente planejada. Não adianta refazer uma planta e se ela não vai gerar receitas.
O pior de tudo isso é que essa catástrofe pega o país com descontrole nas contas públicas, com abandono das metas fiscais e com descredito por parte de investidor estrangeiro que tem, sistematicamente, retirado recursos da Bolsa de Valores. Em síntese: a chuva torrencial do Rio Grande do Sul, vai respingar no resto do país e acho bom refazermos projeções de crescimento econômico.
O “governador biônico” Paulo Pimenta é tão espaçoso que tirou do Ministério da Defesa e passou à Secom a gestão dos voos militares para levar repórteres interessados às áreas atingidas pelas enchentes.
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“Gestão dos voos militares” nas mãos do petralha ardido.
Eu vim rever o lugar Que fui nascido e criado, O tempo estava estiado, Logo começou nublar. Ouvi trovão ribombar Lá no Letreiro de Lano, Um velho paroquiano Agradecia, sorrindo, Uma garoa caindo No agreste pernambucano.
Leio e vejo por imagens que o atual interventor – seriam “fake news, oh good”, ou melhor “salvador” do RGS foi, em primeira providencia, a uma churrascaria degustar alguma coisa que sobrou do belo churrasco gaúcho, carnes nobres a depender de onde foi, ou de onde trouxe tais acepipes.
Creio ser volta as origens…
Talvez não existam mais gado nobre por lá, mas, como não ir a origem e não sentir o cheiro da carne na brasa, já que em Brasília não existem, por melhor que sejam, tais restaurantes ao nível de nosso RGS.
Pouco importa que sua função atual seja uma “montanha” de problemas; tornar o estado de pé, com vidas perdidas ou perdas significativas levem rodos a recomeçar.
Importante mesmo é o churrasco, delicioso e tão bem feito no estado, onde hoje chafurdam os mesmo bois, povo e animais degustados.
Quem sabe começar com turismo?
Pessoas seriam levadas as áreas alagadas e, se encantariam com o estado arrasado?
Talvez comer carne de animal resgatado?
Cavalgar o cavalo Caramelo? ”
Tomar umas das poltronas de do avião, ao invés de cestas básicas para um “tour” à calamidade??
Acredito que muitas possibilidades passam por sua cabeça, enquanto entorna um copo de vinho sabe se lá de onde, mas ele pode garantir que é bom…
Que saudades o atual interventor deve ter se suas origens!
Começar como começou talvez nos dê a orientação: nada vai acontecer!
Como nada aconteceu ao longo da catástrofe… apenas povo ajudando povo, sem churrasco ou comício, contentando-se com o que podiam comer, apesar do presidente os considerar em paraíso…
Tudo o que escrevi acima é bobagem… ser o “salvador do estado “ não é suas prioridades ou de quem o nomeou…
Trata-se simplesmente de política, onde seus “acertos” serão glorificados, seus erros serão de outros e, assim quem sabe entronado novo governador.
Assim, segue o baile! *
* Mestre Peninha deve se lembrar dos “Velhinhos Transviados” e seus álbuns!
Lula e Paulo Pimenta, durante evento em São Leopoldo (RS)
O brasileiro tem sido exemplar em sua resposta à tragédia das enchentes que engoliram todo o Rio Grande do Sul. Seja na atuação dos voluntários que colaboram com os resgates, seja na ação de empresas e entidades da sociedade civil organizada, seja no volume massivo de doações de alimentos, roupas e outros itens de primeira necessidade provenientes de todo o país, a solidariedade demonstrada nesses dias é motivo de orgulho. O mesmo, infelizmente, não se pode dizer da atuação daqueles que nos governam.
Não falamos, obviamente, do aparato estatal como um todo. Não há como ignorar a importância do efetivo das Forças Armadas, dos órgãos de segurança, dos bombeiros, da Defesa Civil, tanto do Rio Grande do Sul quanto de estados que enviaram equipes; nem de profissionais da linha de frente em serviços como os de saúde atuando nas centenas de municípios gaúchos atingidos. Já a cúpula do poder federal, apesar de algumas ações que correspondem ao mínimo esperado em uma situação de tragédia, parece muito mais interessada em capitalizar em cima da agonia dos gaúchos e preservar a própria imagem.
A máquina de propaganda governamental, por exemplo, não hesitou em transformar em espetáculo o resgate de um cavalo, elevado a “símbolo da resistência” em meio a inúmeros dramas humanos e histórias notáveis de resiliência entre os gaúchos. A primeira-dama posou sorridente dentro de um avião da Força Aérea Brasileira, com cestas básicas nos assentos, devidamente “protegidas” por cintos de segurança afivelados. Enquanto isso, o Ministério da Verdade petista se empenhava em usar até mesmo o poder de polícia para calar quem divulgava informações posteriormente confirmadas como verdadeiras – caso das multas aplicadas a caminhões que levavam donativos, apesar de a ANTT falar em “casos pontuais” – e até mesmo quem fazia críticas legítimas à atuação do poder público, comparando-o à resposta oferecida pela iniciativa privada. Na última quarta-feira, entretanto, Lula e seu governo conseguiram descer ainda mais na escala da indecência.
O presidente transformou em comício sua visita à cidade de São Leopoldo, para anunciar medidas de ajuda aos gaúchos. Usou a cartada racial a que a esquerda recorre com frequência para dividir o país, atacou seu antecessor, disse querer disputar mais “umas dez eleições” e disparou piadinhas, entre aplausos e gritos de guerra, em um clima que em absolutamente nada condiz com a situação atual pela qual passa a maioria dos habitantes do Rio Grande do Sul, e que exigiria sobriedade, não o circo montado não por acaso na cidade que é um dos principais redutos petistas do Rio Grande do Sul. O espetáculo, ainda por cima, serviu para formalizar uma outra forma de exploração política da tragédia gaúcha, mais sorrateira e mais sórdida.
Em São Leopoldo, Lula empossou seu censor-chefe, o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Paulo Pimenta, como secretário extraordinário de Apoio à Reconstrução do Rio Grande do Sul, um novo órgão que ninguém sabe exatamente o que fará, mas que dará muita visibilidade a Pimenta. O deputado federal licenciado, eleito com os votos de 223 mil gaúchos em 2022, não tem experiência no gerenciamento de catástrofes; seu campo é a propaganda, o que vem bastante a calhar diante da necessidade de promover a imagem do governo federal como o grande protagonista da ajuda ao Rio Grande do Sul. Ainda mais relevante é o fato de Pimenta ser o pré-candidato petista ao governo do estado em 2026, e ganhar um palanque antecipado com o novo cargo, cuja criação não foi nem mesmo avisada antecipadamente por Lula ao governador gaúcho, Eduardo Leite.
O drama dos gaúchos que perderam tudo, para Lula e seu entorno, não passa de mais uma oportunidade de autopromoção e de movimentações eleitoreiras. O governo federal tem papel fundamental na reconstrução do Rio Grande do Sul, mas não com sensacionalismo, nem com espetáculo, muito menos com “intervenções brancas” e politicagem rasteira. No entanto, pedir sobriedade e respeito às competências de cada ente federativo é demais para quem está convicto de que tudo no país deve servir a seus interesses particulares.
Emília Viotti da Costa nasceu em 28/2/1928, em São Paulo, SP. Historiadora e professora, ficou conhecida como “grande dama da historiografia nacional”. Seu livro Da senzala à colônia (1966) é considerado referência obrigatória no estudo deste período. Lançou novos rumos na análise histórica da diáspora africana e da escravidão no Brasil e América Latina.
Filha de um português com uma brasileira com formação política, empresarial e artística. Seu avô foi presidente das províncias do Paraná e Maranhão e senador pelo estado de São Paulo, em meados do século XIX. Concluiu o curso de história pela USP-Universidade de São Paulo, em 1951. Em seguida cursou história medieval, moderna e contemporânea na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ituverava, SP, em 1951-1953. Continuou os estudos de história na École Pratique des Hautes Études, em Paris, no período 1953-1956, através de uma bolsa de estudos concedida pelo governo francês.
De volta ao Brasil, retomou os estudos na USP, onde concluiu os cursos de mestrado e doutorado e foi professora de 1964 a 1969. Defendeu tese de livre-docência intitulada Escravidão nas áreas cafeeiras, aspectos econômicos, sociais, políticos e ideológicos da transição do trabalho servil para o trabalho livre, renovando as pesquisas sobre a Abolição. Em 1968 fez severas críticas a reforma universitária promovida pelo governo ditatorial; realizou palestras sobre “A Crise da Universidade” e debateu o tema, em programa de TV, com o Ministro da Educação, Tarso Dutra. Foi presa no ano seguinte junto com outros colegas; aposentada compulsoriamente pelo AI-5 e afastada da USP.
Não podendo mais lecionar aqui, mudou-se para os EUA, onde foi professora de história da América Latina nas universidades de Yale, Tulane e Illinois no período 1973-1999. Retornou ao Brasil e passou integrar o Conselho Consultivo da USP, enquanto lecionava na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Mais tarde recebeu o título de professora emérita desta faculdade e da Universidade de Yale, onde foi também diretora do Programa de Estudos da Mulher e do Conselho de Estudos Latino-Americanos.
Além do citado Da senzala à colônia, publicou Da Monarquia à República: momentos decisivos, pela Editora Unesp, analisando o processo que levou à República, na tentativa de compreender a subsequente marginalização de amplos setores da população brasileira; Coroas de glória, lágrimas e sangue, pela Cia. das Letras, uma reconstrução das maiores revoltas de escravos, ocorrida na Guiana inglesa em 1823. Seu último livro O Supremo Tribunal Federal e a construção da cidadania (2001), pela Editora Unesp, colocou o poder judiciário em primeiro plano ao analisar a história política do Brasil.
Sua carreira acadêmica no exterior permitiu formar pesquisadores norte-americanos que se tornaram importantes brasilianistas, entre eles John French e Barbara Weinstein, que foi fazer seu doutorado em Yale sobre a Argentina e, com as aulas de Emília, acabou optando por pesquisar o Brasil e declarou: “Ela me mostrou que o país oferecia um campo rico para investigar questões da história do trabalho e que era impossível entender a classe operária sem estudar a trajetória dos empresários”.
O filósofo Jézio Gutierre considera que uma das suas preocupações centrais foi entender questões contemporâneas do Brasil olhando para aspectos do passado. “Emília se incomodava com historiadores que se debruçavam sobre a história antiga sem pensar nas consequências à vida contemporânea”. É desta perspectiva que Emília via e estudava a História.
De uma conversa com sua colega, a historiadora Zilda Márcia Grícoli Iokoi, a respeito das manifestações que sacudiram o Brasil em 2013 e 2015, brotou a preocupação, levantada por Emília, que as escolhas feitas por cidadãos de um país estão ligadas diretamente à concepção de mundo da qual se dispõe. A partir daí, para entender como esse processo de seleção se dá, nasceu o livro A escrita do historiador: cosmovisões em conflitos, organizado pela colega historiadora e lançado pela Editora Unesp em 2018. A reunião de artigos presta uma homenagem à professora Emília Viotti da Costa, que, falecida em 2017, não pôde ver o trabalho concluído. Segundo sua colega “Para ela, as questões eram mais amplas e resultado de desigualdades mais profundas, de resquícios coloniais”.