XICO COM X, BIZERRA COM I

BRILHO NO OLHAR DO AVÔ – 6 ANOS DE BERNARDO

Neto é aquela criaturinha que faz o olho da gente brilhar, quando ele chega por perto com seu sorriso moleque e sotaque de anjo. Ele pede o que quase não pode e a gente dá mesmo sabendo do quase não dever dar. Aquele bombom que maltrata os dentes, aquele chocolate ou até, crime maior, um pouquinho de coca-cola, tudo escondido do pai e da mãe. Tudo dentro daquele Contrato de Cumplicidade que em seu artigo primeiro diz: ‘Não revelar aos Pais nada do errado que seu avô comete’. Até porque quando eles forem avós farão o mesmo com os filhos do meu neto. Parece que estou vendo. A gente ensina a paz mas não resiste a uma luta de espada imaginária entre dois super heróis, ele e eu. Doces encargos do avô. Esse homem de cabelos brancos nunca cansa de ver o mesmo filminho, repetidas vezes, sabendo o final tanto quanto o neto que lhe obriga a isso. Mas, se ele gosta, é bom ver aquele mesmo filminho, repetidas vezes, sabendo o final tanto quanto ele. Contar histórias é outra tarefa própria dos avós. E a gente conta uma, duas, três, dez vezes a mesma história. Não sei qual dos olhos brilha mais, se o nosso ou o dele. Certo mesmo é que quando ele reconta pra nós a história que contamos, é nosso olho que brilha mais. E o avô ri grande que nem menino pequeno. De alegria porque percebe que ele assimilou direitinho os conceitos de união, paz, amizade, amor que a gente tentou passar nas histórias que a gente contou. E aí, inevitável, uma lágrima molha o brilho do olhar de avô. São 6 anos e ele continua a inventar cheiros para o meu jardim. Como não plantar-me num inverno de alegrias para florar risos no meu olhar de avô? Salve Bernardo, que me dá a alegria de ser avô. Feliz 6 anos, meu amiguinho/amigão, meu imenso companheiro. São 2190 dias inventando cheiros no meu pé de alegrias.

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O SERESTEIRO DA PRAIA DOS BRANCOS MORROS

]Lá vem o seresteiro anônimo pelas brancas areias da praia de Morro Branco, entre altas dunas e falésias das mais variadas cores e tons. Uma mão no ouvido e a outra apontando estrelas. Calem-se todos para que ele continue seu ofício, sua missão de cantar. Isso basta. Não importa se o entendamos, se sua voz é bela, se a afinação é perfeita: basta ouvi-lo. Pouco interessa a canção, pode até ser algo bobo: importa o cantor e sua mensagem, a esperança que nela se contém. Bobagem musical só os desalmados enxergam. Sua alma, por si só acalentada, ajuda a acalentar tantas outras, ternurizando cantigas que ouvimos e que, de tão belas, quase sempre conseguimos fazer coro. Façamos como ele: cantemos. Qualquer coisa. Alguém ficará feliz com nossa voz, por mais desafinada que possa parecer. Outros ouvirão e, quem sabe, nos acompanharão e conosco cantará. E que o seresteiro anônimo continue a alegrar as cores das noites e as areias de um branco morro, arejando as dunas das almas e afagando as falésias coloridas do coração de quem por ali vive e ama.

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SÁBADOS

Como eram bons os meus sábados, longe da escola, do professor durão e do diretor que adorava me suspender. Só porque eu pulava o muro e ia embora antes de a aula terminar. Eu que nunca botei areia no tanque de seu Gordini marrom, que ficava parado lá atrás da Secretaria, longe de seus olhos vigilantes. Sábados de altas conversas com os passarinhos e as borboletas. E, para cada sábado feliz, um domingo avexado e sorrateiro na esquina, aguardando o desamanhecer, sua hora de chegar, anunciando que a segunda-feira estava por vir. No relógio do tempo a semana é cheia de sábados passados e de outros tantos que estão por vir, sem terças ou sextas-feiras, pois o coração da gente sabe nada, nadinha, de calendários: só entende de alegrias e saudades, de flores e de partidas, de encontros e de lágrimas, de amor e desamor. Entende nada das Quintas. Nem das Quartas-Feiras. Não sabe o que é tempo. Mas adora os Sábados.

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UMA VALSA E UM SORVETE

Ele chegou na estação muito antes da chegada do trem que o levaria. Nem seu barulho nos trilhos se ouvia. Além de sempre apressado, a vontade de chegar era maior que o tempo que lhe sobrava naquele lugar distante e sem flor. Queria chegar logo no País dos Duendes cor do Céu. Um deles o aguarda para levar-lhe à praça central, onde também ela estará a espera-lo, com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar e um sorvete de umbu cajá. Daqueles de casquinha. Nem importa ter ou não açúcar. Irrelevante para ele: às favas a glicose. De mãos dadas e corações alegres, seguirão até o coreto onde anjos entoarão a Valsinha de Chico. Suas mãos desconhecem o verbo se soltar. Seus pés se entrelaçarão num dançar alegre e feliz, bem-dizendo a vida. Marcarão para o dia seguinte. Mesmo local, mesma hora, mesmo tudo. Menos o sorvete: amanhã o sorvete será de felicidade plena com cobertura de alegria e paz. Muito melhor que o de mangaba. Tão bom quanto o de umbu cajá.

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PARAÍSO

A felicidade, de surpresa, avizinhou-se, bateu-me à porta, entrou e sentou à minha frente, pertinho dos livros, entre um Bandeira e um Graciliano. Usou a cadeira de balanço em que eu cochilo como se em casa estivesse. E estava. Foi quando todas as letras deram-se as mãos, arrumaram-se entre si e formaram versos bonitos, belas prosas. Pela janela, os relâmpagos, cor de arco-íris, enfeitavam tudo o que não era terra. Foi quando percebi que todas as estrelas esqueceram de dormir e brincavam naquele céu de pré-chuva, antes que as nuvens virassem neblinas perfumadas. Na calçada, sentados ao chão, os homens conversavam e brincavam que nem as crianças que lhes tinham ensinado a recitar o verbo amar. Ao longe, mas nem tanto, ouviam-se serenatas acompanhadas por violões afinados, tão diferentes dos fuzis que se anunciam, estes usados para fim ignóbil. Estávamos em plena terça-feira de carnaval e todos torcíamos para que aquela festa não se quarta-feirasse. Aos quatro ventos, meninos brancos, pretos e pardos, buchudos e magrelos, ricos e pobres bradavam anúncios de cursos intensivos de abraços e beijos na faculdade de carinho ali próxima, na outra esquina. Todos riam e cantavam e ninguém sonhava com o Paraíso. Precisava? Existia um outro além daquele?

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ALVÍSSARAS

Pela janela embaçada, vê-se nuvens de chuva mansa, de neblina preguiçosa, se espalhando nas pétalas azuis do céu, formando carneirinhos para logo em seguida desmancharem-se e virarem dragões ou manchas parecidas com gente que nem a gente. O chão quase enxuto bem reflete a tão pouca intensidade da água que cai. O sol, companheiro inclemente, insiste em travar luta com o nublado que, de certa forma, dá esperança ao homem do sertão. Mas vão-se os dias, e a seca, renitente, permanece. Até que tudo vira breu e o céu fica escuro, pesado, carregado, como se diz. Prenúncio de coisa boa, da felicidade que está por vir. Cai o primeiro pingo, o segundo e aí já não dá mais para contar, tantos os pingos que caem. É a chuva, é o inverno avisando que está chegando. Ajoelhemo-nos, paguemos as alvíssaras e gritemos viva a São José e obrigado a São Pedro. Eu bem que achei que estava bonito para chover.

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A MOÇA DO CABELO VERDE

Lá vem ela, serelepe e fagueira, a moça do cabelo verde que todos os dias fura a fila do metrô e passa à frente de todos, com a maior cabeloverdice. As grávidas, os velhos, as mães com filho no colo, os deficientes, todos ficam para trás. Como ela aparentemente não está grávida, é jovem, não carrega um filho no colo, muito provavelmente ela é deficiente, do ponto de vista ético, sob a ótica mental e a isso se apegue para desrespeitar a todos. Só pode ser. Idade ela tem pra ter juízo. Talvez até tenha: apenas não o usa. Quando consigo entrar no vagão, já lotado, a moça do cabelo verde já está lá muito bem acomodada, sentadinha na janela, sorriso no canto da boca, celular na ponta dos dedos, como que a zombar de todos nós, pobres mortais, imprensados feito sardinha em lata. A falta de civilidade é imensa e me causa indignação. Todos os dias eu me entristeço pela quantidade cada vez maior de mulheres do cabelo verde ao nosso redor, furando fila, estacionando onde não deve, desrespeitando o direito alheio. E antes que me taxem de preconceituoso, vou logo avisando: homens também pintam seus cabelos de verde, de azul e de vermelho. Que bom se não houvesse tintura de cores extravagantes para o cabelo dessa gente.

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O ADESTRADOR DE BORBOLETAS E A PASTORA DAS NUVENS

Ele adestra borboletas, cantando alto a Poesia que ela faz acariciando sonhos e pastorando nuvens. Moram a pequena distância, ele dela, mas não se conhecem. Ela sequer desconfia que o adestrador, no exercício de seu ofício, canta seus poemas. Ele, por sua vez, não imagina que seu canto deriva da poesia que ela escreve. Nunca se viram, nunca se encontraram. Os devaneios comuns aos dois, ao contrário, vivem de mãos agarradas a passear pelo infinito do bem pensar. Estão por se encontrar. Poesia e canto não sabem viver um longe do outro. Um belo dia, tenha certeza, o som invadirá o íntimo da Poetisa que sentirá, no fundo da alma, que suas rimas se transformaram em canção, que seus versos hoje são melodia, que seus corpos foram feitos um para o outro. E aí, sonetos suavizarão seus corações, cantigas bonitas embalarão suas vidas e cantilenas perenes se espalharão pela escola do adestrador, pelos caminhos e veredas das nuvens da Poetisa. Não tenho dúvidas. Amanhã, talvez, antes do primeiro vôo da borboleta azul, logo após as reticências da palavra, assim que o silêncio penetrar a profundeza das cores e a brancura das nuvens, eles se encontrarão para provar o estar vivo da bem-querença. A harmonia prevalecerá e a melodia estará pronta para ser executada. Antes que caia a gota inicial da água em que foi transformada aquela nuvem branquinha, numa chuva de amor e carinho, num borboletar de Paz. Assim é o amor.

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TEMPO FUGAZ

Sob o céu do Poeta descansam nuvens branquinhas, preguiçosas, donas da mansidão, mas que ao primeiro assobio de vento se alvoroçam pra virar chuva. É aí que as asas se abrem, batem e alçam vôos nunca dantes voados rumo à quimera de uma vida feliz, possível para os bons, os do bem. E o verbo dever, junto com a obrigação substantiva, desaparece, pois tudo que era devido deixou de sê-lo. Nada por obrigação, tudo por prazer. Nada a lamentar. Restará apenas a saudade do ontem passado e descumprido, da tarefa recomendada e deixada de lado, do canto calado e do poema por escrever. Mas o tempo é presente, embora fugaz, e o futuro é impaciente. E ele já está ali na esquina esperando a gente, silente e indecifrável, doido pra virar passado. E ele é rápido como o vento, ligeiro como a vida.

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REVISTA DO RÁDIO

Não se conhecia maldades na casa de minha infância. Havia, logo à frente, do outro lado da rua, um imenso capinzal onde se criava vacas. A rua era nosso campinho de futebol, bola de meia, raramente de borracha. No quintal, um pé de limão e um outro de doces siriguelas, tudo vigiado por Tupã, amigo fiel de meu pai. Na tentativa de salvá-lo, quando um dia o cão caiu no cacimbão, meu pai perdeu sua Parker 51, de estimação, que escapuliu do seu bolso para fazer companhia a Tupã. Mas o melhor daquela casa é que existia, no quarto, uma cômoda antiga, escura, quatro gavetas, sobre a qual eu folheava, escondido de minha mãe, a Revista do Rádio, detendo-me na coluna em que se via vedetes daquele tempo, como Virginia Lane e Renata Fronzi, com pouquíssima roupa para os padrões da época. Que belas coxas tinha a Lane. Quantos sonhos sonhados com a Fronzi. Belos joelhos. Joelhos e coxas: tudo que nos era permitido ver. Não havia Playboy, nem Ele e Ela: apenas uma tal de Status, precursora das duas, mas recatada em relação a estas. Eram outros os tempos, sem internet, sem WhatZap, sem redes sociais. Nosso telefone, preto, pendurado na parede, se resumia a um 3-20-26. Televisão, só a do vizinho, onde víamos Renato Aragão em preto e branco, às quartas-feiras, antes de ele ir ser famoso no Rio de Janeiro. E era só. Bastava-me a Revista do Rádio, de periodicidade mensal. Um mês de espera pelas fotos das vedetes que enfeitavam meu pensar. No mais, era escola, bola de meia e inocência plena à espera da nova Revista, no final de cada mês, na casa 142 da Francisco Parreão, em frente ao capinzal, onde jogávamos bola sentindo o aroma de bosta das vacas que ali moravam.

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