XICO COM X, BIZERRA COM I

URSINHO DE OLHAR TRISTE

O ursinho Paul, de olhar triste e com o nome bordado em sua roupa azul clara, repousava solitário na cadeira 17-A do avião. Alguma criança o esquecera ali. Na pressa para descer ao chegar em seu destino, provavelmente a mãe da criança esquecera o bichinho na poltrona. Seu pequeno dono talvez dormisse àquela hora e só sentiria sua falta na esteira da bagagem, no interior do aeroporto quando acordasse. Tarde demais. Com o ursinho na mão, olhei para um lado e para o outro na esperança de encontrar seu dono por ali. Nada. Nenhuma criança estava por perto. No avião, feito um ‘abestalhado’, mas cheio de boas intenções, fui do início ao fim do corredor procurando pela criança que pudesse ser dona do ursinho Paul. Perguntava, aflito, a todas as crianças embarcadas, se por acaso era uma delas a dona do ursinho. Em vão. Uma mãe se antecipou ao filho e respondeu um ‘não’ tão antipático que quase me arrependo de ter tentado ser bom. Quando já no meu destino e sem nada a fazer, desci e levei Paul para casa. Ainda hoje o tenho. Lembro sempre de um outro ursinho, este de minha Mariana, que nunca foi por ela esquecido em nossas viagens de avião. Este nunca me pareceu triste. Seu nome, esqueci, mas não era Paul.

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XICO COM X, BIZERRA COM I

UM SOLITÁRIO E SORRIDENTE HOMEM

De todos os homens, aquele que semeia versos, ora borboleta, ora pássaro, é o mesmo que também sabe colher luzes e reunir perdidos sons, acolhendo todos os tons em seu tímpano feliz. Sempre com um sorriso a enfeitar seus lábios. Ninguém a ajudá-lo, tantos a lhe atrapalhar. Nas horas vagas, solitariamente, devora brisas e transforma em luz as hostis imagens. E nos trilhos de sua espera, em meio a tintas e aquarelas, a estação é sempre a do chegar, nunca a de partir. Ele desconhece a palavra adeus. A primavera é mais flor quando aquele homem, sorriso estampado no rosto, bondade guardada nas mãos, canta, voa e zune os poemas mais ternos nos outonos e invernos, tecendo sonhos nos verões cheios de sol. Quem é aquele homem que vive a sorrir? E se todos os homens aprendessem a sorrir, como sorri aquele homem, espalhando alegria no meio do mundo?

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XICO COM X, BIZERRA COM I

AQUI PR’OCÊS, Ó!

O projeto estava pronto, com a genialidade do arquiteto que fez o painel desenhado que se debruça ao longo do espaço externo do restaurante, dividindo o ambiente refrigerado daquele outro, ao ar livre. Uma mureta de vidro, encabeçada por pequena jardineira, era tudo o que queríamos. E tivemos. Transparência visual. Tudo feito com o cuidado de possibilitar aos frequentadores o aproveitamento integral das paisagens andantes que por ali trafegavam, indo ou vindo para a praia bem próxima. Tivesse Vinícius passado por ali, teria que pluralizar e alterar o título de sua música Garota de Ipanema, transformando-a em Garotas do Pina, tantas eram as belezas que por ali trafegavam. Mas uma maldita loja de construção pôs em promoção um tal de porcelanato. Pior: a mulher do dono do restaurante encantou-se com as vantagens oferecidas e, ao invés do transparente muro de vidro, afixou ali uma detestável parede, uma mureta de 60 centímetros, de cimento e revestido pelo tal do porcelanato, impedindo a contemplação integral, de nossa parte, daquelas que por ali passavam. Ficamos limitados à parcialidade visual que o ambiente passou a oferecer, permitindo-nos, apenas, o vislumbre da parte acima da cintura daquelas ‘praieiras’. E o ‘andar térreo’? Seria compatível com a beleza apurada na ‘sobre-loja’? Nunca saberemos, submetidos que estamos a esta tortura visual, dúvida atroz. Tanto me revoltei que deixei de frequentar o tal restaurante e, sempre que por lá passo, não resisto e, conjugado com o gesto característico, grito aos quatro cantos: aqui PRA VOCÊS, Ó! Pena que o caldinho de peixe que eles serviam era tão bom!

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A CHITA DO VESTIDO DE MINHA AMADA

Ficou escuro e quase não se via o caminho. Mais parecia uma vereda, uma senda. Da última vez que o céu nublou, demorou mais de 20 anos para desnublar. E a cada dia ficava mais fechado o tempo. Mas um dia o sol raiou. Como sei que qualquer hora outro sol raiará e amanhã será outro dia. Mas quando será o amanhã? Parei, cauteloso, esperando tempo bom, mesmo sabendo que não adianta ficar parado no acostamento no aguardo de bom tempo: tem que botar o carro na estrada, ainda que ela seja estreita e cheia de catabis, encarar o perigo e chegar ao destino final. Redobrar os cuidados, faróis acesos, que o perigo mora perto, mas seguir é preciso, sempre acelerando, cantando e sorrindo, quando possível. Dona Alzira, a costureira, aguarda o corte de chita que eu levo pra fazer um vestido pra minha amada ficar mais bela do que ela já é. Se eu ficar parado no acostamento esse vestido jamais a vestirá. E a chita é muito bonita para se perder em um embrulho só porque o tempo escureceu. Logo eu, que nunca tive medo do escuro e que por tantos escuros já passei … Melhor seguir, cantando e sorrindo, mas sempre atento às negras nuvens e às assombrações. Vai passar. . .

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XICO COM X, BIZERRA COM I

TEATRO FEDERAL

CENAS DE SEXO EXPLÍCITO, SEM-VERGONHICE E INDECÊNCIA

UMA TRAGICOMÉDIA EM TRÊS obscenos ATOS

(REPUBLICANDO, com pequenas atualizações, pela pertinência temporal):

ATO 1

Na sala de estar, avó e neto em frente à TV, acompanham uma reunião da Câmara Federal, onde seus membros, do ‘Alto’ e ‘Baixo’ clero, reputação abaixo do nível do mar, ambos, se engalfinham numa elegante e respeitosa discussão de amabilidades:

– Conceda-me um aparte. Vossa Excia. é um Ladrão!

– Não lhe concedo o aparte. Exijo a presunção de inocência. Ladrão é Vossa Excia.!

– Com todo o respeito, Vossa Excia. é um Corrupto!

– Data vênia, Corrupto é Vossa Excia.! Fui julgado apenas em duas instâncias colegiadas. Minha corrupção não tem trânsito em julgado.

Propõe a Avó:

– Menino, melhor desligar essa TV. A discussão é inócua. As duas Excelências estão com integral razão. Ambos falam a verdade: são corruptos e ladrões.
Num canto da tela, outros engravatados (colarinhos brancos eivados de escuras manchas), sem prestar atenção aos ‘elogios’ entre colegas, celulares nos ouvidos, conversam e riem entre si.

– O homem está falando e ninguém presta atenção, vovó. Riem de quem, dos brigões?

– Não, meu querido. Riem de nós que os colocamos lá. Sorriem do povo.

* * *

ATO 2

Trocam de canal e assistem a uma sessão de um Tribunal que se diz Supremo, cujos integrantes exigem tratamento de Excelência mas agem de forma a não merecê-lo. A população, verdadeira Excelência, vive a ser por eles insultada. Sob negras togas, mudam o entendimento sobre o mesmo assunto diversas vezes num espaço de tempo diminuto, contrariando o bom senso e todas as regras do Direito, expondo o povo à insegurança jurídica que a eles, ‘donos da Lei’, convém.

* * *

ATO 3

Enojados, após irem ao banheiro para uma sessão de vômito em dueto, avó e neto desligam a TV, dão-se as mãos e vão até a banca de jornal mais próxima. Compram uma revistinha imoral, de putaria explícita. Quase tanto quanto. Quase.

* * *

Fecha-se a cortina, apagam-se as luzes. Faz-se breu no País. Escuridão total.

* * *

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FALAR COM DEUS

Eu também, a exemplo de Leandro Gomes de Barros e do Poeta Maciel Melo, quis bater um papo com Deus. Fiquei com mais vontade ainda depois que ouvi Gil cantar sua música que trata disso. Eu queria apenas a resposta a alguns porquês: a justificativa para tão poucos com tanto e tantos com tão pouco; a razão de ser de a balança da Justiça nem sempre pender para o lado injusto; a partida de pessoas queridas antes do prazo desejado. Apaguei a luz, calei-me, folguei os nós dos sapatos e joguei a gravata no lixo. Deixei nus corpo e alma, mas de nada adiantou. Ele estava muito ocupado cuidando de quem precisava, apartando brigas, dirimindo conflitos, apaziguando as pessoas que gostam de guerra. Estava lá pras bandas do Oriente em busca de Paz. A exemplo dele, não encontrei essa Paz tão necessária. Talvez por isso, Deus não tenha tido tempo de me ouvir, não quis conversa. Seu Chefe da Casa Celestial explicou-me que Ele estava muito ocupado com coisa séria e eu era um Poeta, disse-me, feliz por natureza, e que, por isso, não precisava daquele encontro. Eu era quase feliz, respondi-lhe. Faltava-me esse bate-papo. Remarquei a audiência. Quem sabe terei melhor sorte e esclarecerei minhas dúvidas todas. Talvez até faça um Poema. Ou uma música. O líder de sua bancada na Câmara do Céu, barbas brancas quase arrastando na terra, garantiu-me o encontro. Dois ‘dedim’ de prosa com Ele não me fará mal. Tomara que não demore muito e eu me encaixe na Agenda de Deus.

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VERSOS DERRADEIROS

Nossos versos nunca serão derradeiros. Outros virão, porque a Poesia jamais será jogada ao léu e sempre precisará ser lida. Diante do infortúnio, nós, passarinhos cantantes, vamos poetar, nos juntar em bando e fazer com que os do mal passem. Torcer para que eles levem na bagagem suas mazelas, preconceitos e maldades e aí, felizes e de asas soltas e canto livre, possamos brindar a liberdade e a alegria. Versar e cantar, toda a vida, toda hora, pois toda hora é hora de cantar. Se o tempo é nublado e o horizonte cinzento, pintemos um sol claro e um céu bem azul, da cor da nossa esperança, com nuvens mais que brancas, da mesma cor de nosso amor e de nossa coragem. Misturemo-nos, pretos e brancos, ricos e pobres, todos. Água e Óleo só não se juntam apenas nas frias leis da Física (ou da Química, nem sei). Se juntam, sim, na lei dos homens de bem, onde é proibido proibir. Mesmo que escrevamos os versos mais tristes esta noite, ainda assim eles cairão na alma como no pasto cai o orvalho e contribuirão para um amanhecer feliz. Discordar de Pablo Neruda? Jamais! Juntemo-nos. Apaguemos a escuridão. Passarinhemos!

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GARÇOM

Quando quis entrar no bar o garçom chato estava acabando de baixar a pesada porta. Ainda insisti, sedento que estava, mas ele é mesmo muito chato e disse um NÁO tão NÁO que eu fui parar no bar vizinho. Ainda bem que este estava aberto. Menos mal que todos os bares sejam iguais. Mudam os tira-gostos, a temperatura da cerveja amiga e o humor do garçom. Ainda bem que aquele garçom chato é exceção. Normalmente, os garçons são cúmplices, de tão solidários. E escutam nossas queixas, e enchem nossos copos, e até bebem conosco se a nossa solidão assim exigir. A palavra, antes engasgada na garganta, flui feito espumas ao vento, como dizia o Poeta. Basta haver quem as ouça. E a palavra solta alivia a dor, prepara o peito para mais um verso. Ou para outra saudade. Ou para a mais nova canção que está por brotar. Ou, ainda, na pior das hipóteses, para uma dose saideira, que nunca é a derradeira. Deus abençoe os Garçons. Principalmente os que não tem prazer em baixar a pesada porta do bar e que não aprenderam a dizer não.

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CAIXINHA DE ESTRELAS

Abri lentamente a caixinha de meu guarda-estrelas sem mexer no papel prateado que embrulhava a lua. Deixei-os lá, papel e lua, e retirei, uma a uma, as estrelas de todas as cores que ali dormiam. Percebi que a lua não gostou daquela solidão e a ela devolvi as estrelas roxa e vermelha. As demais, com elas fiquei e levei-as a passear. A estrela branca me indicava o caminho da Paz e segui seu roteiro. No meio do caminho ela sonhou com Dom Helder e desapareceu nas asas de uma pombinha. A estrela verde, levei-a, a seu pedido, para ver o verde mar. Encantou-se com um peixinho cor-de-rosa e sumiu na primeira onda. À azul mostrei o céu e ela se apaixonou por um arco-íris que acabara de se abrir e se embrenhou no meio de tantas cores. Restou-me a amarela, que não resistiu ao primeiro apelo e chamamento do Senhor Sol e a ele foi-se unir. Voltei ao guarda-estrelas, desembrulhei a lua, guardei-a bem junto ao peito e até hoje ela me faz companhia todas as noites, alegrando meus momentos. As estrelas roxa e vermelha, deixei-as guardadas na caixinha para quando a Lua se cansar dos meus afagos e resolver morar em outros céus. Espero que elas não tenham a sorte que as outras tiveram, encontrando complemento às suas belezas e qualidades e por elas me trocando. Aliás, melhor pensando, que elas encontrem rosas e ametistas, vermelhas e roxas, e sejam felizes.

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DONA JUSTA ESTÁ NUA

Procura-se roupa decente para vestir a Justiça. Qualquer pano, qualquer trapo ou retalho que não seja uma toga. Sem venda a lhe tapar os olhos, despida de princípios de pesos justos em sua balança e com a espada embainhada contra os costados do humilde povo, a outrora honrada dona Justiça desfila nua pelas ruas, palácios e tribunais, pelas esquinas sinistras do Planalto, escarnecendo a todos e assumindo sua porção prostituída de caráter duvidoso que não resiste ao menor tilintar de moedas à sua frente. A origem do metal vil que corrompe – diretamente ou não, é o que menos importa: de Empresários ou Políticos provenientes, ele perverte da mesma forma e avilta com a mesma força. Pobre de quem nela um dia acreditou. Dona Justiça hoje habita o mais degradado dos cabarés e se entrega, lânguida e voluptuosamente em lascívia permanente com os poderosos e seus interesses inconfessáveis. Dona Justa está nua e sua venda a esconder-lhe a visão nada mais é que uma fraude.

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