WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

INTERESSEIRA

Quem namora mulher interesseira
Morre velho e não paga as contas dela!

Mote de Júnior Monteiro

Para ter o que quer, ela se arruma,
De um jeito atrevido e saliente.
“Diz pro besta, você na cama é quente,
Seu rojão é veloz igual um puma!”
O perfume que ela se perfuma,
É de mil para lá, a bagatela,
E ele para agradar “a cinderela”
Gasta até o que não tem na carteira,
Quem namora mulher interesseira
Morre velho e não paga as contas dela!

Jr. Adelino

Ela diz: – Meu amor, és minha vida!
Sem você não tem graça o meu viver.
Meu querer só procura o teu querer,
Meu desejo no teu acha guarida.
Ontem mesmo eu passei na avenida
Na vitrine avistei uma “aquarela”
Êita! Roupa aprumada e a parcela
É mais baixa que aquela lá da feira.
Quem namora mulher interesseira
Morre velho e não paga as contas dela!

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

UM PASSEIO NO FUTURO

Arte do amigo e conterrâneo Luiz Rabelo

Usando um aplicativo
Envelheci trinta anos
E vi os terríveis danos
Em meu rosto, outrora altivo.
Fiquei muito pensativo
Com minha senilidade,
Percebi a vaidade
Ao lado me consolando:
– Meu senhor, tá acabando
Seu tempo de validade!

O tempo me projetou
Na rapidez de um passe
E fez com que eu passasse
Por onde ninguém passou.
Perguntei: – Onde é que estou?
Na terra dos marcianos?
E uns seres soberanos
Tentavam me explicar:
– Vais chegar neste lugar
Só daqui a trinta anos!

Quase sonhando acordado
Com meu retrato na tela,
Vendo a tristonha aquarela
Fiquei impressionado.
Quis voltar ao meu passado
Para me sentir seguro,
Entre a dúvida e o apuro
Comecei a me benzer
Para nunca mais querer
Passear pelo futuro.

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

CENSURA

Doutor, não cale o poeta,
Deixe o poeta cantar!

Mote de Zé de França

Seu doutor, não prive a fala
Que ecoa nas emoções…
Dos sofridos corações
Cujo a solidão faz sala.
Não cale aquele que cala
O sofrer e o penar…
De quem sofreu por amar
E foi taxado de pateta,
Doutor, não cale o poeta,
Deixe o poeta cantar!

Jr. Adelino

Deixe que as suas rimas
Sigam pela amplidão,
Que as cordas do bordão
Façam duetos com as primas.
Deixe falar sobre climas,
De sertão, agreste e mar,
Da beleza do luar,
Das orações do profeta.
Doutor, não cale o poeta,
Deixe o poeta cantar!

Wellington Vicente 

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

O SOM DA CHUVA

Mote deste colunista:

Como é bonito o tinido
Da chuva sobre o telhado.

A chuva é a mensageira
Da bonança pro roceiro
É o bem mais prazenteiro
Para o povo da ribeira
Que quando olha a biqueira
Colhendo o que foi mandado
Por Deus Pai santificado
Fica muito agradecido
Como é bonito o tinido
Da chuva sobre o telhado.

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

SÃO JOÃO DAS ANTIGAS

Tinha muito mais beleza
Meu São João de antigamente.

Mote do Poeta Natan

No meu tempo de menino
Assim que junho chegava
O meu rádio só tocava
Som do Trio Nordestino.
Com trajes de Virgolino
A quadrilha era envolvente
Fazendo com que a gente
Percorresse a redondeza.
Tinha muito mais beleza
Meu São João de antigamente.

Bandinha do Genivaldo
Solava Jorge de Altinho
Eu, com o dinheiro curtinho,
Bebia Pitú com caldo.
Não tinha conta, nem saldo
Mas dançava sorridente
Que o rádio de Zé Vicente
Tocava “Dona Tereza”.
Tinha muito mais beleza
Meu São João de antigamente.

“Pitiguari”, “Chililique”,
“Na Emenda”, “Rio Una”,
(Dancei ouvindo a “riúna”)
“Severina Xique-xique”.
Zabumbeiro no repique
Fazia o forró mais quente
E o sanfoneiro na frente
Foleava com destreza.
Tinha muito mais beleza
Meu São João de antigamente.

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

SAUDADE POÉTICA

Recorte da capa do LP “Repentes e Repentistas”, dos poetas Zé Vicente da Paraíba, pai deste colunista, e Passarinho do Norte. Gravadora Rozenblit, Recife, 1973. Arte do amigo Michelângelo Wandrol.

Em um banco na calçada,
Depois da hora da janta,
Meu pai tocava a viola
Já cansado da garganta.
No canto que ele cantava
Hoje a saudade é quem canta.

Poeta João de Lima

A minha se agiganta
Quando vou a casa dele.
Recito uns versos que um dia
Eu fiz inspirado nele.
Volto sem ter avistado
Nem a viola e nem ele!

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

OPINIÃO

São João que tem sertanejo,
Por lá eu não boto os pés!

Mote de Hélio Crisanto

Sou fã de Tião Carreiro,
De Vieira e Vieirinha,
De Inhana e Cascatinha,
Marciano e João Mineiro.
Mas em junho o meu veleiro
Segue por outras marés:
Vou à terra dos Condés
Para ouvir um realejo.
São João que tem sertanejo,
Por lá eu não boto os pés!

O resto do ano eu fico,
Curtindo no meu cantinho:
Pena Branca e Xavantinho,
Milionário e Zé Rico.
Mas em junho, até explico:
Quero ouvir dez Capilés,
Uns trinta Flávios Josés
Animando este cortejo.
São João que tem sertanejo,
Por lá eu não boto os pés!

Léo Canhoto e Robertinho
Eu curti na juventude.
Mas em junho? Amigo, ajude.
Quero ouvir Jorge de Altinho!
Santanna, Alcymar, Novinho,
Amazan, com seus cordéis,
Agradáveis decibéis
Trazendo o que mais desejo.
São João que tem sertanejo,
Por lá eu não boto os pés!

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

O SERTÃO DA MINHA INFÂNCIA

Foto de Dora Rodrigues

O sertão de antigamente
Não sai do meu coração.

Mote de Zé de França

Do sertão rústico de outrora
Sou ainda o arremedo,
Nesse tempo eu tinha medo
De papangu e caipora.
Se em casa, alguém de fora
Apontasse no portão…
Eu corria feito o cão
Pois tinha medo de gente
O sertão de antigamente
Não sai do meu coração.

Jr. Adelino

Duma limpa de barreiro,
Dum terço no mês de maio,
Do milho enchendo o balaio,
Da fogueira no terreiro.
Do aboio do vaqueiro
Conduzindo a criação,
Rádio tocando baião,
Coco, ciranda e repente.
O sertão de antigamente
Não sai do meu coração.

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

FARDO DE POETA

Todo poeta carrega
Um fardo de sentimento.

Mote de José Zilmar/PB

Dentre os seres naturais
Foi ele o requisitado
Para viver num reinado
De cores passionais
Gosta daquilo que faz
Sem pensar em pagamento
Todo relacionamento
Para ele é uma entrega
Todo poeta carrega
Um fardo de sentimento.

Seus amores do passado
Nunca deixam sua mente
Mesmo que sirvam somente
Para deixá-lo inspirado
Sofrer parece seu fado
O verso é seu alimento
A pena seu instrumento
A musa sua colega
Todo poeta carrega
Um fardo de sentimento.

Quando o poeta se inspira
Os anjos na amplidão
Capricham na afinação
Cada um na sua lira
A terra que tanto gira
Diminui o movimento
Até o mar violento
Fica bom pra quem navega
Todo poeta carrega
Um fardo de sentimento.

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

MINHA MÃE

Noventa anos de idade
Da minha mãe Enedina.

A filha de João Maurício
E de Tercília Francisca,
Fez o bem, seguiu à risca,
Do trabalho fez ofício.
Enfrentou o sacrifício
Duma mulher nordestina
E foi esta campesina
Quem me apontou a verdade.
Noventa anos de idade
Da minha mãe Enedina.

Casou-se em sessenta e três
Com o poeta Zé Vicente
E me trouxe à luz contente
No ano sessenta e seis.
Wélio quis sua vez
Na região agrestina,
Em sessenta e nove assina
Seu ingresso na cidade.
Noventa anos de idade
Da minha mãe Enedina.

Foi por Jesus escolhida
Pra cuidar dos genitores,
Seus afagos protetores
Tiveram ao final da vida.
Teve a saúde atingida
E só por obra divina
Passou pela sabatina
De toda adversidade.
Noventa anos de idade
Da minha mãe Enedina.

Mãe exemplar, amorosa,
Diante dos empecilhos,
Sempre mostrou aos seus filhos
A forma mais respeitosa.
Da vida religiosa
Fez incansável rotina,
Por isso Deus determina
A sua longevidade.
Noventa anos de idade
Da minha mãe Enedina.

Altinho-PE, 16 de maio de 2023.