JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

BRINCAR É FAZER POESIA INFANTIL

Os navegadores

(Ludoterapia é uma técnica psicoterápica de abordagem infantil que se baseia no fato de que brincar é um meio natural de auto-expressão da criança.)

Este pequeno e reflexivo texto tem a pretensão de, poeticamente, nos levar de volta aos anos da infância. Como se estivéssemos num passeio de gôndola nas águas de Veneza.

Queremos passear pelas boas lembranças e reviver as peraltices praticadas durante anos – que acabaram modulando nosso caráter e a maioria das nossas atitudes quando adultos.

– Mãe, deixa eu ir bem ali, fazer uma coisa?

Preocupada com o modelo educacional e com a construção do homem a partir de uma criança, a (minha) Mãe argumentava:

– Ali aonde, e fazer o que?

E nós, incutidos em falar apenas as verdades, respondíamos:

– Fazer um pouco de cerol!

E ela, vigilante, asseverava:

– Vá, mas volte logo!

E lá íamos nós, dispostos a caminhar cerca de 5 Km, com duas e até três lâmpadas queimadas para coloca-las na linha do trem, esperar a passagem do dito cujo, e, depois apanhar o pó de vidro que seria adicionado à cola e se transformava no cerol para a pipa (no meu Ceará, também chamada de “arraia”).

Na parte da tarde, depois de uma boa soneca pós-almoço e a feitura dos deveres de casa da escola, era sentar na ponta da calçada com pedaços de cacos de louça, extrair o pó para limpar todos os botões do time. Ali, os nossos times já recebiam os nomes de Santos, pelo excesso de botões pretos (Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Abel), o Flamengo, Vasco, etc., conforme a preferência de cada um.

Quando o sol esfriava, a pelada na rua. O dono da bola e o mais velho da rua escolhiam os times. Às vezes eram jogadas várias partidas de 10 gols. Quem fizesse os 10 gols primeiro, era o vencedor e o perdedor dava lugar para outro time.

Fora disso, era jogado o “gol à gol” – com bola de meia, com dois jogadores de cada lado. Um chutava e o outro defendia. Tudo acabava quando a escuridão da noite dizia: cheguei! Ou, quando a mãe aparecia no portão e determinava: chega! Tá na hora de entrar para banhar!

A pintora de telas imaginárias

A noite chegava, e tudo voltava à rotina: quem não tinha televisão em casa, se dirigia para uma praça onde havia um televisor público, ou pegava um tamborete e se postava pelo lado de fora na janela do vizinho – quando o vizinho era bom e amigo. Quando não era uma boa vizinhança, a janela sequer ficava aberta.

Os anos passavam, os pelos pubianos apareciam nos meninos e nas meninas, a fase ludoterápica e a idade mudavam. As meninas encontravam mais motivos para se postarem diante dos espelhos, observando o crescimento dos seios e o arredondamento das ancas, e ambos momentos avisavam que uma mulher estava chegando. Chegava a hora de trocar de brinquedos. Nada mais de bonecas ou casinhas de ensaios de culinária. Chegara a hora dos bebês.

E, assim, tirando uma “bobagenzinha” daqui e colocando outra dali, estava sendo posto um ponto final nos bambolês, nas petecas, nos escorregas, nos balanços, nas corridas do saco e noutras tantas brincadeiras que, desapareceram e abriram espaços para os “xópis centeres” da vida moderna.

A professora disciplinadora

Até mesmo as meninas, que um dia se auto-afirmaram como “fessoras”, proferindo aulas imaginárias para turmas idem, começaram a aparecer nos xópis, com saias que mal cobrem as calcinhas e são usadas, especificamente, para possibilitar a amostragem das tatuagens nas curvas das coxas roliças, muito bem depiladas e provocativas.

As mudanças visceralmente intempestivas nada mais são que o exagerado consumo de uma cultura globalizada e, lamentavelmente, descaracterizada, como em mais de uma oportunidade opinou Ariano Suassuna. É uma cultura deturpada, com valores estereotipados que destroem mais que constroem.

A master chef

A partir daí as cenas mudaram nos palcos da vida dos teatros das famílias. Pais, tanto quanto mães, deixaram de ser o “porto seguro” de alguns, e se transformaram nos chatonildos e castradores de plantão. Os narizes, que antes acompanhavam as cabeças no ato obediente, tomaram posições horizontais e se exacerbaram num enfrentamento que está destruindo aquela poesia infantil da convivência.

– Você vai aonde filho(a), posso saber? Pergunta a mãe.

– Não te interessa. Que saco! A vida é minha! Responde o(a) antes obediente filho(a).

É assim, ou não é?

A poesia macia de Cora Coralina na vida do jovem, foi substituída pelo texto real de Plínio Marcos.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O CABARÉ DA ZEFA

Cabaré da Zefa com publicidade explítica

Acertei o corte da máquina de aparar grama. Vou cortar baixo e, já nesse primeiro parágrafo peço desculpas para aqueles que não usam esse tipo de palavreado chulo – são os que costumam cagar em pé.

Nos idos anos 50, 60 e até meados dos anos 70, quase a totalidade da moçada que namorava não exercia a cultura atual de “pegar a namorada”. Quem “pegava” tinha consciência que estava fazendo algo fora do hoje “politicamente correto” – uma das muitas coisas que acabaram emprenhando nessa geração – e sabia que precisava assumir. Isso é: casar para sustentar o bruguelo.

Mas, quem só ficava nos amassos e se conformava em voltar para casa com a cueca melada e o saco dolorido, precisava recorrer à duas soluções: 1 – descascar uma banana chamada Maria; 2 – ou arrumar uns trocados para bancar a troca de óleo. Foi a geração que mais teve punheteiros nesse Brasil e a que ajudou disseminar a prostituição, transformando as xanas em “produto de consumo” e não “ponte para o amor”.

Não faz muito tempo, puta é alguém de respeito. Muitas putas saíram do puteiro para constituir família. Hoje, em segredo, famílias probas e respeitáveis.

Mulheres aguardando clientes no Cabaré da Zefa

Na Bela Vista, um bairro de Fortaleza habitado por famílias da classe média, existia uma travessa e, nessa travessa, uma única casa pintada com um verde musgo, com muro alto e um portão sempre trancado. Ali morava a respeitável senhora Dona Josefa, viúva que resolveu reconstruir a vida após a morte do marido.

Com a chegada da escuridão e das mariposas, aquele lugar soturno se transformava no “Cabaré da Zefa”, o mais depravado puteiro que existia na periferia.

Quem ali chegasse e não fosse desconhecido, sabia as regras rígidas da casa. E sabia olhar, de imediato, para uma recomendação escrita na parede e iluminada por duas boas lamparinas:

“As putas estão aqui, todas à disposição, e não fazem nada de graça. Não procure quem você deixou em casa.” – Assina, Zefa.

Aviso mais claro que esse, ninguém vai encontrar nem nas prateleiras das bodegas (“Fiado, só amanhã”). Frequentador do ambiente sabia que, ali, tudo era pago e tinha um preço.

Tabela oficial: “Mulher nova, coxuda, com peito grande e duro” – 20 mil réis, com pagamento adiantado. A senha que afirmava que o pagamento fora feito, era um rolo de papel higiênico cor de rosa quase morrendo e um sabonete Eucalol.

Quem pagava mais alto recebia um rolo de papel higiênico branco e um sabonete Phebo. A mulher se dirigia ao “Caixa”, recebia e conduzia o “cliente”. E aproveitava para marcar a hora. Uma hora!

Radiola toca discos – acionada por moedas

E a tabela ainda continha: “mulher magra, com pouco peito, pouca bunda, mas que finge desespero na hora do orgasmo aos gritos de “mais, mais, quero mais” – 15 mil réis; mulher “fria”, gorda, que fica lixando as unhas na hora do sexo – 10 mil réis.

“Empresária” das mais bem sucedidas na venda das xanas das outras, Zefa “só pegava homem” depois de encerrar o caixa do dia, pois não dava trela para ser enganada por ninguém. Nem pelas “operárias”, nem pelos “consumidores”.

Passava o tempo aproveitando para escutar as músicas bregas de Orlando Dias, Núbia Lafayete, Cláudia Barroso, Cauby Peixoto, Miltinho, Evaldo Braga e a turma que, sem saber, fazia a alegria de qualquer cabaré brasileiro. Cada ficha para acionar o bracinho que pegava o disco e levava para tocar, custava 1 mil réis. Quem comprasse 3 cervejas, ganhava uma ficha para acionar o disco.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O BEIJA-FLOR DA VOVÓ – MEU TIO!

Vovó, mãe da minha mãe, era uma negra de descendência africana que nasceu em Pacajus, interior do Ceará, onde, por muitos anos viveram os índios paiacus. Pele negra, que ficou mais negra ainda pela constante e obrigatória convivência sob o sol e o calor abrasador – sem que uma coisa implique a outra.

Vovó era filha de Nanahme – quinta geração dos índios paiacus – e teve duas filhas por conta do convívio com os negros vindos da África. Assim, em nada nos diminui ou ofende o termo “afrodescendente”. Realmente o somos. Somos legítimos descendentes de negros africanos.

A necessidade de “sair de baixo da saia rodada da mãe” fez com que Vovó procurasse um rumo na vida. Aprendeu a fazer tudo que era necessário para viver, aonde vivia. Cozinhava, lavava roupa, matava galinhas, fazia fogueiras, torrava café, fazia farinhada, tangia animais, criava galinhas e tinha extrema habilidade com a foice, o machado ou com a vassoura. Aparava filhos, netos e bisnetos. Era uma parteira leiga – daquelas do lençol grosso e encardido mas sempre limpo.

O marido só vivia para ela e para o trabalho. Os dois fumavam no mesmo cachimbo. Era minha Avó quem cuidava das tarefas “domésticas” – enquanto a parte que exigia mais esforço físico, ficava com o Avô.

Foi a Avó quem construiu no final da casa, e onde ficava a cozinha, um girau onde lavava as panelas de alumínio, as panelas de barro, os alguidás e os pratos, também de barro. Ali, debaixo do girau, quando caía algum resto de comida dos pratos que estavam sendo lavados, os pintos comiam. Caroços de feijão cozidos, sementes de melancia, de maxixe, de tomate, de quiabo – ao serem molhados pela água que caía da lavagem dos pratos e panelas, nasciam. Antes de frutificar, floravam.

Do que florava, quando as galinhas não comiam, alguns pássaros se regozijavam. Faziam a festa, num ambiente totalmente doméstico. Entre alguns pássaros, começou a aparecer um beija-flor.

Vovó, nesse tempo, não tinha idade tão avançada. Assim, pensar que ela estava caducando ao ouvi-la “conversar” com o beija-flor, nunca nos pareceu justo. Mas ela conversava, sim. E até insinuava que o beija-flor respondia:

– Quer mais um pôquim, d´água bixim?! Quer meu fii?

E entendia que respondia, e atendia ao pedido da minúscula ave. Aquele beija-flor, sem documento cartorial, sem qualquer papel, passou a ser “filho” da Vovó e, portanto, meu tio. Exigente, matriarcal e dominadora por excelência, minha Avó até fazia questão que os netos – sem exceção – pedissem a bênção diária ao “tio” voador. E não ganharia o naco diário de rapadura, o neto que não pedisse a bênção ao bixim.

A noite chegou e algumas horas depois, um novo dia. Louça do café para lavar, feijão para limpar retirando os gorgulhos, lavar e botar no fogo. Uma rápida passada pelo girau e Vovó não viu o beija-flor. Pegou a vassourinha e foi tentar enganar a si própria, fingindo que limpava o quintal. Nova vassourada e nova olhadela para debaixo do girau. Agora uma olhada mais demorada. Não viu o beija-flor. Olhou, olhou e procurou mais demoradamente. Não viu nada.

– Meu Deus dos céus, por onde andará o meu bixim?!

Cuidando da montaria para seguir para a labuta na roça, o Avô, sem saber muito do que se tratava, ralhou:

– Tá falando sozinha, véia?

– Que nada hômi, é meu bixim que num tô veno!

– Véia, derna de quando, um passarim que veve avuando, soltim nas capoeiras, é teu?

– É meu sim. Eu dô água, dô de cumê, dô meus óios espiando pra ele, admirano, banhano, entãosse é meu, sim! É mais um fii que crio!

O Avô amuntousse no animal e foi trabaiá. A Vovó continuou resmungando e, quando o sol começou a esquentar, de foice na mão foi pegar uma caminhada de lenha prumode fazê o dicumê. Tinha muita lenha na latada, que o Avô nunca deixava faltar. O que a Avó queria mesmo, era um motivo para sair para procurar o beija-flor.

Saiu, procurou e nada encontrou. Almoçou com o Avô, deitou rapidinho para uma madorna, mas o barulho dos chocalhos nas cabras e bodes no chiqueiro acabou acordando a Avó. Pegou a foice de novo e foi apanhar mais lenha – mas ela mesma assumira que era apenas um pretexto para procurar o beija-flor.

Entre entristecida e ansiosa, Vovó pisava em tocos, gravetos, touceiras de ortiga e em quem mais aparecesse pelo caminho. O barulho da corrida de um teiú sobre as folhas secas assustou Vovó, como se estivesse num pesadelo. Aquilo lhe chamou a atenção, e ela voltou a observar os galhos com mais interesse. Via besouros mangangás, calangos das costas verdes, chapéus de marimbondos e até cobras verdes. Mas não conseguia ver o que procurava: o “seu” beija-flor.

Por não ser primavera, não havia flores. Esperava encontrar o “seu” beija-flor pousado num galho qualquer, voando, rodopiando e fazendo aqueles voos tão rápidos que só os experientes conseguem vê-los.

Assim, como que uma ação divina, o vento soprou mais forte. Galhos balançaram, folhas se afastaram e Vovó teve a atenção chamada por um ninho minúsculo. Num galho muito fino (que dificultava o acesso de cobras), lá estava um ninho que Vovó conhecia. Um ninho de beija-flor.

Usando a foice, Vovó procurou um galho ainda maior e o cortou, deixando nele um gancho. Teve a feliz ideia de abaixar o galho para conferir se era realmente o ninho do “seu” beija-flor.

Difícil saber, mas para ela, era o ninho do “seu” beija-flor e aquela era a única justificativa possível para o desaparecimento momentâneo dele da floração dos tomateiros nascidos debaixo do girau. Alegre e mansamente foi soltando o galho puxado com o gancho, até ter certeza de que o “seu” beija-flor não perceberia que alguém se aproximara da sua futura cria.

Chegando à casa de volta, Vovó jogou caroços de milho no quintal e acabou pegando uma das maiores galinhas do terreiro. Colocou vinagre numa tigela, aparou sangue e mergulhou a galinha abatida na água quente para a devida limpeza. Preparou uma galinha à cabidela para comer com o véio, que não demorou chegar e foi logo se abancando na mesa posta também na cozinha.

– O que tem prumode cumê, véia?

Um sorriso largo, escondendo as lágrimas derramadas na tristeza com o repentino desaparecimento do “seu” beija-flor, chamou a atenção do Avô.

– Galinha? Galinha à cabidela? Hoje é niversário de quem, muié?

– Véio, num é niversário de ninguém. É que tô avuando de alegria cuma um beija-flor, apois encontrei o meu bixim. O danisco vai sê papai e eu vô sê Avó de novo e tu, meu véio, vai ser Vovô de novo!

– Amém véia! Eu já tavo atarantadim catua tristeza, teu chôro dento de casa, se entristeceno pelos cantos, sem nem querê dá uma cachimbada cum teu véio!

– Véio, ante de cumê vamo rezá. A gente tá precisano de agradecê a Deus pela graça alcançada!

– A graça de tê comida na nossa mesa, né véia?!

– Não véio, por causa de que eu encontrei o meu bixim. Tomara que os meus netim nasça tudo dereitim, cagraça de Deus!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O ALIMENTO – DO SEMEAR AO CONSUMO

Mesa brasileira com alimentos

Hoje, segundo estimativas oficiais do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), somos neste Brasil continental, 211,8 milhões de pessoas. Éramos, também oficialmente, em 2018 (último censo oficial divulgado), 209,5 milhões.

A “pandemia” do C-19 provavelmente mudou muita coisa e alterou esse somatório, mas nada que atingisse a soma do milhão. Pesa contra esse somatório, o alheamento e as próprias dificuldades de acesso de muitos para o registro oficial de nascimento ou óbito. Com isso pretendo dizer que existe uma provável margem de erro para mais ou para menos nessa contagem divulgada.

Carnes de qualidade produzida no Brasil

Somos um país continental e nunca fomos satisfatoriamente bem administrados no sentido amplo e público da palavra. Por anos somos castigados pelas intempéries das secas ou pelo dissabor causado pelo excesso de chuvas – que, no final, acabam tendo influência de alguma forma no contingente populacional. E esse depende da produção de alimentos.

Com a mais absoluta certeza, nesse atual governo, tampouco nos próximos três ou quatro atingiremos o patamar desejável da autossuficiência na agropecuária ou nos outros sistemas produtivos de tudo que se come. Mas, há a certeza de que também não seremos no continente sul-americano, uma nova Venezuela. Essa sim, está numa distância pequena para se transformar num novo Darfur do Sudão. Sabemos que há um certo exagero nisso.

Felizmente, no Brasil, tudo que se planta, dá. Brota. Frutifica e quase tudo é comestível. Também felizmente, o atual governo federal está

O feijão importante na culinária brasileira

aproveitando a qualidade do solo brasileiro, os erros e os acertos praticados nos governos anteriores e “está dando conta do recado”. Está apostando no apoio oficial e necessário ao “agro” e na iniciativa privada através de financiamentos e diversos programas que estão dando sustentação a cada ano, ao aumento da produção em todos os setores. Além do alto percentual da produção brasileira que é exportada.

Dito isso, sem que sejamos “donos da verdade” recorro aos tempos da minha infância, quando criança podia aprender a trabalhar e trabalhar sem ser considerado explorado ou trabalhador escravo, voltamos à roça onde aprendemos semear maniva de mandioca e ramas de batata doce.

A experiência de meu Avô no manejo com as coisas da roça, do semear ao colher após a inicial preparação da terra, fez de mim uma pessoa que cedo aprendeu a gostar do cheiro da terra molhada pela chuva. Fez de mim, entender que uma simples minhoca é um forte aliado da natureza em prol da humanidade. Fez de mim compreender e acreditar que, na terra, tudo que for semeado de bom, vai dar bons frutos e uma colheita farta.

João Buretama me chamava, dizendo assim:

– Vem cá meu filho. É assim que se corta e prepara a maniva da mandioca. Procure semear na terra com o “olho” da maniva olhando para o céu, esperando a chuva e o sol, os dois amigos de qualquer lavoura.

Eu olhava e aprendia. Pedia:

– Vô repare se estou fazendo certo!

Dependendo da qualidade da mandioca e do período plantado, quando chega a hora da colheita, algumas folhas começam cair ou o agricultor percebe a mudança do solo no pé da mandioca. O chão fica mais alto, como se estivesse “rachando”. Na verdade está dando espaço para a raiz da mandioca que cresceu e virou tubérculo.

Manivas de mandioca prontas para a semeadura

Colhida a mandioca, como se formassem uma cooperativa, os agricultores se reuniam e combinavam a “farinhada” para aproveitar a mão-de-obra da vizinhança.

Centenas de linhas plantadas garantiam uma farinhada de pelo menos duas semanas transformadas num acontecimento festivo. Aquele que tivesse mais mandioca para fazer farinha, era responsável, também, por abater o boi para o dia do encerramento da farinhada.

Rama da batata doce pronta para ser amarrada e semeada

Procedimento parecido era feito com a batata doce, componente importante na alimentação do nordestino. Rica em nutrientes, a batata doce é servida no café da manhã, quase sempre cozida para ser comida com o próprio café ou com leite.

Na semeadura, o que se requer é conhecimento do que vai ser plantado. No florescimento das muitas ramas, outras nascem como se fossem “galhos”. Cada junção do “galho” é um local apropriado para semear. Uma cova com cerca de três metros de comprimento e aproximadamente 30 centímetros de altura é a “cova ideal” para o plantio da batata doce.

Fiz isso enquanto fui criança, morando com meus avós. Era a necessidade da família que estava sendo atendida. Não havia exploração, pois o que plantávamos e colhíamos, era para o nosso próprio consumo e sustento.

Hoje, num mundo hipócrita semeado e construído pelos “politicamente corretos”, a infância pode servir para vários tipos de exploração – inclusive “avião” no transporte de drogas. Como um grande número desses “politicamente corretos” engrossa a fila de usuários, essa ação é aceita e compreendida. Vida que segue.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

SEU JULIM E O DIA DAS CRIANÇAS

Seu Julim e o prazer em fazer a felicidade dos outros

Dia da criança como muitos nunca tiveram.

Depois do almoço preparado por Joana, que resolvia abater três ou quatro galinhas bem cevadas no quintal, e algo mais que se fizesse necessário para preparar a cabidela, arroz novo torrado e socado no pilão, e depois lavado na arupemba (uma espécie de peneira fabricada pelos indígenas) sem tirar aquele gosto de queimado, farinha seca crocante, feijão de corda verde com quiabo, maxixe e jerimum, além de um gostoso pirão escaldado.

Tava pronto o almoço para os parentes e a meninada que se preocupava mais nas brincadeiras da roça que em ganhar presentes da Estrela, como acontece hoje. Se bem que os brinquedos da Estrela foram substituídos pelos celulares, tabletes e autorizações para baixar os aplicativos.

As crianças têm novos hábitos. Os pais são outros. A maioria afeita à transferir responsabilidade na estruturação da família. Escancaram as portas para o Estado, e depois usam uma lupa na procura do culpado.

Almoço servido e comido, as redes são armadas na latada e no alpendre comprido da casa. É naquela rede que a gente ficar tacando o pé na parede, e aproveita pra coçar as frieiras dos dedos nas beiradas da rede tijubana e ficar escutando aquele rangido do armador como se fora um besouro mangangá.

Não tive e jamais terei vida melhor. Que aconteçam tantos e tantos Dia da Criança.

No finzinho da tarde, com o sol ainda morno, mas de quando em vez a gente escutando o barulho do chocalho preso no pescoço do bode no chiqueiro, a cadela Pintada se despedaçava na direção da porteira e se danava à latir. Chamando a atenção de todos que estão no alpendre se balançando nas redes.

– É seu Julim!

Apois, Seu Julim, em todo Dia das Crianças se dava ao trabalho de selar um burro formoso e trotar mais de dez léguas – tudo prumode ter o prazer de contar histórias e algumas estórias para a criançada. Tinha até criança que se banhava e arrumava todim, butando brilhantina nos cabelos, prumode ficar assentado e quietinho escutando as estórias de Seu Julim.

Logo que apeava do burro e o acomodava para descansar e beber água, Seu Julim achava bonito e educado cumprimentar os adultos da casa, um por um, e só então dizia o que fora fazer.

Antes de deitar na rede para balançar, Vovô João Buretama tinha a obrigação de preparar o tamborete que Seu Julim usaria para sentar e entreter a criançada. Também fazia questão de manter algum tição aceso em brasa no fogão. Era o tição que Seu Julim usaria para acender o fumo do cachimbo.

Tamborete posto e Seu Julim sentado. Agora era picar e socar o fumo no cachimbo, enquanto as crianças se aproximavam, uma a uma para sentar numa roda em forma de arena.

Tição no cachimbo e uma sugada. Tição de novo no cachimbo, até que a brasa quebrava e caía. Mas o fumo do cachimbo estava aceso.

– “Era uma vez, um Rei de uma cidade muito distante!…….”

– Seu Julim, essa estória aí o sinhô já contou!…… garantia Moisés, um dos mais antigos que já desfrutara das tardes do Dia da Criança em pelo menos três oportunidades.

– Já contei? Mas vou contar de novo, pois você drumiu antes deu acabar de contar!

Longe dali, com a penumbra da noite chegando, o sonoro e triste cântico do vem-vem dava a garantia que todos estavam mesmo era na roça, e não num shopping cheio de barulho e escadas rolantes. Muito movimento, mas sem a vida que nos faz bem e amamos.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A DIFÍCIL MAS ETERNA E APRECIADA DOÇURA DO MEL

Mel de abelha só sabe fazer o bem

Os tempos estão amargos. Precisamos adoçar isso um pouco, e falar de mel. Falar da doçura do mel, passeando um pouco e rápido pela dificuldade de “fabricar” algo tão doce e benéfico para a saúde. Benefício sem nenhuma contraindicação. É doce e só faz o bem.

Hoje viajaremos na doçura do mel. Com o devido cuidado, para não nos lambuzarmos.

“O mel é um produto natural obtido a partir do néctar das flores e de excreções da abelha. Além de ser um ótimo adoçante natural, este alimento é cheio de benefícios porque conta com ação antimicrobiana, capaz de impedir o crescimento ou destruir micro-organismos e assim proteger contra doenças.”

O mel com “industrialização” apenas na embalagem

Dito acima, o mel é um produto do néctar das flores visitadas e polinizadas pelos vários tipos de abelhas que o Único Poderoso colocou no mundo. Cada tipo com sua resistência de habitat, capacidade produtiva diferenciada, e motivação recebida da Natureza, em especial na estação primaveril.

Sem flores não haverá mel. Quanto mais o humano (???!!!) destruir a natureza inviabilizando a visível existência das estações climáticas no planeta, sem árvores, menos abelhas teremos e o mel será transformado em algo de acentuado amargor diferente.

Veja o que garante a Nutricionista TATIANA ZANIN a respeito dos benefícios do mel para a saúde humana:

“O mel possui propriedades nutritivas e terapêuticas que trazem vários benefícios à saúde. É rico em antioxidantes que protegem o corpo e o coração do envelhecimento, auxilia na diminuição da pressão sanguínea, dos triglicerídeos e do colesterol, contém propriedades contra bactérias, fungos e vírus, combate a dor de garganta e a tosse e pode ainda ser usado como adoçante natural.

No entanto, mesmo com todos esses benefícios, o mel deve ser consumido com moderação, já que ainda é rico em calorias e açúcar. A substituição do açúcar puro pelo mel em alguns alimentos ajuda a manter os níveis de açúcar no sangue estáveis e pode trazer muitas vantagens para a saúde. Algumas dessas vantagens são:

1. Aumentar as defesas do corpo – Os compostos presentes no mel conferem poder antioxidante, o qual ajuda na proteção do corpo. Entre os benefícios, destaca-se a redução do risco de infarto e derrames, promoção da saúde dos olhos, além de auxiliar no tratamento de alguns tipos de câncer, como o de rim, impedindo a multiplicação das células cancerígenas.

2. Melhorar a saúde do coração – O mel traz benefícios à saúde do coração pois é capaz de aumentar o fluxo sanguíneo e reduzir a formação de coágulos. Esse processo ajuda na diminuição da pressão arterial, prevenindo assim doenças do coração.

3. Melhorar o colesterol e diminuir os triglicerídeos – O mel pode ser um bom aliado no combate ao colesterol alto, pois diminui os níveis de colesterol “ruim” (LDL) e aumenta o colesterol “bom” (HDL) do corpo. Ainda, o mel pode ajudar a diminuir os níveis de triglicerídeos porque pode ser usado como substituto do açúcar. Geralmente, dietas ricas em açúcar e carboidratos refinados causam aumento dos níveis de triglicerídeos, aumentando o risco de doenças do coração e diabetes tipo 2.

4. Combater bactérias e fungos em feridas – O mel possui propriedades que reduzem o tempo de cicatrização, pois é capaz de esterilizar feridas reduzindo a dor, cheiro e tamanho, promovendo, assim, a sua cura, sendo considerados eficaz e até melhor do que alguns curativos.

Pode ser também uma ótima opção para tratar úlceras nos pés de diabéticos pois combate os germes e ajuda na regeneração dos tecidos. O mel também já vem sendo usado para curar lesões de herpes oral e genital, já que reduz a coceira e funciona tão bem quanto as pomadas encontradas na farmácia. Também pode tratar bactérias resistentes a antibióticos, úlceras e feridas a longo prazo após a cirurgia e queimaduras.

5. Aliviar a dor de garganta, asma e tosse – O mel reduz a inflamação e inchaço da garganta e dos pulmões, sendo eficiente ainda nos casos de gripe e resfriado, melhorando o sono. É indicado tomar duas colheres de chá de mel na hora de dormir, pois o doce faz com que mais saliva seja produzida. Isso melhora a mucosa da garganta protegendo contra a irritação, reduzindo e aliviando a tosse, sendo, em muitos casos, mais seguro e eficaz que alguns xaropes.

6. Melhorar a saúde gastrointestinal – O mel é um prebiótico muito potente que nutre as bactérias boas que vivem no intestino. Logo, é benéfico para a digestão e para a saúde em geral. Além disso, também pode ser usado para tratar problemas digestivos, como diarreia e é eficaz no tratamento para as bactérias Helicobacter pylori, causadoras de úlceras gástricas. Ainda, outro chá que pode ser feito para combater a má-digestão é de mel com canela, pois esses dois alimentos naturais ajudam a melhorar o processo digestivo como um todo.

7. Ajudar na memória e ansiedade – O uso do mel em substituição ao açúcar vem sendo associado com a melhora da memória e dos níveis de ansiedade. Além disso, estudos indicam que o mel também pode melhorar a memória de mulheres na menopausa e pós-menopausa.

8. Tratar hemorroidas – O mel possui propriedades antimicrobianas, anti-inflamatórias, analgésicas e cicatrizantes, que reduzem o sangramento e aliviam a dor e a coceira causadas pelas hemorroidas. Para esse efeito, basta misturar mel, azeite de oliva e cera de abelha e, depois, aplicar na região.

9. Combater a obesidade – Devido às suas propriedades, o mel melhora o controle de açúcar e gordura no sangue, reduzindo o estado inflamatório e auxiliando na manutenção do peso.” (Tatiana Zanin).

E… quem faz esse mel ser tão doce?

A abelha “engenheira do doce mel

Os especialistas afirmam que existem várias espécies de abelhas, sendo necessária, às vezes, a mudança de nome dessas espécies, de região para região deste país continental. Abelha africana, jandaíra, araçá, uruçu, mandaçaia, tiúba, jataí, contando ainda os marimbondos chapéu, amarelo e outras espécies, todas produzindo mel.

Cada espécie de abelha “trabalha” com tipo diferente de flores, de onde extrai o pólen. São chamadas também de “abelhas operárias” e recebem comando da “abelha rainha” – mesmo tipo de vida da Rainha da Inglaterra. Reina, mas não manda nada.

Marimbondo chapéu ou marimbondo de fogo

O marimbondo produz mel. Não se tem informação afirmando o consumo do mel produzido pelo marimbondo – sempre em menor quantidade que o produzido pelas abelhas. Provavelmente, por conta das diferenças entre as colmeias.

Do marimbondo se tem informação dizendo da dor provocada no ser humano pela “ferroada” desse mosquito. Quem já teve a má sorte de ser ferroado pelo marimbondo não faz nenhum elogio.

Eu mesmo, criança e ainda morando em Queimadas, quase perdi um primo por conta de uma ferroada do marimbondo chapéu. Um só marimbondo não. Vários. Foram ferroadas nos lábios e nos olhos. A falta de cuidado adequado levou à uma infecção, e essa causou problema grave para a visão.

Colmeia do marimbondo chapéu

Distante da intenção de procurar mel (e era fácil encontrar enxames de arapuá, uma abelha preta que constrói colmeia nas árvores semelhante ao cupinzeiro), a infância premiava a meninada com a diversão do “caçar com baladeiras” – alguns até contribuíam com rolinhas, juritis, camaleão, teiú, nambus para completar o “dicumê”, quase sempre feijão com nada – e era isso que a levava à mata.

Comum encontrar cobras verdes, cobras de cipó, libélulas, gafanhotos, calangos, mané-magos, louva-deus e também muitos marimbondos.

Criança que sabe ser criança, “não bole com marimbondo”, era o que aconselhavam os avós, quando pegávamos a baladeira e o bornal com pedras e outros apetrechos apropriados para aquela divertida obrigação de caçar.

Marimbondo não ficava fora do caminho. Avistado, ninguém se atrevia e mexer. Quando se atrevia, mexia e saía de perto.

Marimbondo da febre

Entretanto, havia nas Queimadas uma espécie rara de marimbondo desconhecida para um sem-número de pessoas mas, conhecida pela meninada, principalmente a que andava pelas matas caçando aves ou filhotes ainda nos ninhos para criar. Era criado com a intenção do entretenimento, sem qualquer tipo de maldade com as pequenas aves.

Essa espécie de marimbondo construía uma colmeia em forma de pera, mas os “afuleimados” garantiam que se assemelhava a um seio de menina. Pequeno e rijo. Era ali que viviam os marimbondos que, ferroando alguém, provocava febre. Provavelmente, era uma espécie que tinha alguma serventia para os pesquisadores. Essa espécie, ninguém se atrevia à saber se produzia mel ou apenas ferroava.

Mas, entre todas essas espécies de abelhas ou marimbondos que produzem mel, uma espécie em especial chama a atenção de duas comunidades: a comunidade indígena, que faz uso do mel para fins terapêuticos; e a comunidade dos pesquisadores, que há anos tenta descobrir a forma habitacional em função do pequeno porte da abelha e a sua real utilidade medicinal para a saúde humana.

Comumente é conhecida como “abelha mosquito” e é o seu tamanho minúsculo que causa curiosidade. Escolhe os lugares mais fáceis de serem encontrados, tanto para viver quanto para produzir.

A abelha mosquito escolhe o jucá ou pau-ferro para construir suas colmeias. Constrói no miolo dessas árvores a sua colmeia e ali produz e se reproduz, sem a preocupação de ser incomodado. Mas os indígenas sabem a forma para extrair o mel medicinal da abelha mosquito.

A abelha “mosquito” de mel medicinal preferido pelos indígenas

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A PRAÇA

Toda e qualquer cidade tem seu ponto de referência. Seu ícone, ainda que não seja o ponto principal da cidade.

Em Recife, por exemplo, temos o “Marco Zero”; em Salvador temos o “Pelourinho”; no Rio de Janeiro temos a “Cinelândia”; em Ribeirão Preto temos o “Bar Pinguim”. Até em Palmares/PE, temos o local da roubalheira, onde funciona a roleta do Cu-Trancado.

Assim, em Fortaleza não poderia ser diferente. Com tantos lugares repletos de passagens históricas, de momentos de glórias – mas o ícone será sempre a Praça do Ferreira. Era ali que muitas coisas aconteciam, aconteceram e continuarão acontecendo. É o coração da cidade.

Ali, onde hoje é o ponto mais importante e “falado” da cidade, um dia já foi tão insignificante que poucos se preocupam em saber. Foi um areal onde existia apenas umas poucas e crescidas árvores (mongubas e castanholas) e uma cacimba. Ainda sem denominação oficial, a famosa Praça do Ferreira era conhecida por “Feira Nova”, por ser ali que acontecia uma feira nos finais de semanas.

Por volta de 1842, a praça já recebera novo nome: Praça Dom Pedro II, denominação sugerida pelo próprio construtor e então presidente da Câmara – Antônio Rodrigues Ferreira, boticário, que aproveitou para instalar seu primeiro “negócio” na então Rua da Palma, hoje conhecida como Rua Major Facundo.

Esse comércio de medicamentos manipulados ganhou fama. Era na frente ou dentro do próprio estabelecimento, que passou a ser conhecido como Botica do Ferreira”, que a maioria das pessoas cultivou o hábito de se encontrar, transformando-o numa referência local. E isso foi o ponto inicial para que a Botica do Ferreira, após mudar de lay-out, se transformasse na hoje Praça do Ferreira, a partir do ano de 1871.

Antiga foto de urbanização da Praça do Ferreira no século XIX

Fortaleza crescia. Novos bairros se formavam a partir de pessoas tangidas dos lugares onde nasceram pela escassez de trabalho, principalmente aqueles voltados para a agricultura.

Influenciadas pelo fato do movimento abolicionista de 1882, em Redenção, distante dali por apenas 55 km, famílias, agora “livres da escravidão formal”, partiram em busca de novos rumos. Como Fortaleza não ficava tão distante, esse foi o local mais procurado.

A população da capital cresceu (não apenas por esse motivo) e novos bairros surgiram na periferia. Mas, o “ícone” ainda era a já Praça do Ferreira.

A partir de então as necessidades foram impondo as reformas. Lojas comerciais, cafés e demais pontos de encontros e reuniões. Quiosques foram erguidos. A política chegou e passou a ter importância de alta relevância na cidade. E a Praça do Ferreira era o local escolhido para a solidificação das parcerias. Três novos pontos surgiram. Na realidade, três quiosques onde se tomava café e conversava: Café do Comércio, Café Elegante e Café Java.

Novo lay-out da Praça do Ferreira onde já aparece o relógio

A então gestão pública ganhou o seu quinhão. Foi ali que surgiu o primeiro ponto de funcionamento da fiscalização, erigido pela Companhia de Luz.

Por sua vez, a mesma gestão municipal tomou a iniciativa de privatizar e gradear a secular cacimba que atendia o serviço de água para a comunidade. Sobre a cacimba mandou instalar um cata-vento para facilitar o bombeamento da água. Foi construído ali, também, um jardim que deu novo visual à Praça do Ferreira.

Finalmente, a partir de 1920, o então prefeito Godofredo Maciel resolveu dar uma forma urbanística definitiva para a praça. Mandou demolir os quiosques, haja vista que perderam a importância no desenvolvimento da cidade. Em seguida mandou ladrilhar a imensa área e aproveitou para construir um famoso coreto, que anos depois seria demolido pelo município e ali colocado o famoso relógio que, reformado por várias vezes, enfeita o principal cartão postal do centro de Fortaleza.

A atual Praça do Ferreira

Após ter sido em 1839 um imenso areal, em 20 de dezembro de 2001, pela lei municipal 8.605, a Praça do Ferreira foi oficialmente declarada Marco Histórico e Patrimonial de Fortaleza.

Durante anos, a hoje Praça do Ferreira foi palco de fatos e momentos históricos que marcaram a vida fortalezense. Surgiriam nos anos seguintes os bares, cafés, agências bancárias, cinemas em lugares onde antes, existiam apenas o Boticário Ferreira e sua significativa importância para as decisões políticas, sem esquecer os membros que compunham a Padaria Espiritual.

Chegaria sem demora a época do abrigo, costumeiro ponto de encontro e discussões de assuntos da política, da segurança da cidade e, principalmente, do futebol. Chegariam os hotéis Savanah e o Cine São Luiz para somar à vida noturna e boêmia da cidade ao lado do já existente Excelsior Hotel e Clube do Advogado – esses dois últimos na esquina da Rua Guilherme Rocha, mas voltados para a Praça do Ferreira.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O PARTO E O PATO

A “parteira” e o bebê

Tudo tem seu começo, meio e fim. Tudo que tem vida passa por essas escalas da Natureza. O ciclo vital.

Menino ainda, sem conhecer o prazer de fazer e a alegria de ver nascer, levei algum tempo para entender a “diferença” entre o sentar à mesa para uma refeição em família, e o entrar na camarinha para ver uma criança nascendo.

Era assim naquele tempo que está distante. Só permaneceu na memória e na poesia da saudade. E, da mesma forma, era ali naquele não ter nada de nosso, que a Fé semeava a esperança para nos premiar com a colheita de dias melhores. Cada criança que nascia, era a forma prática da colheita da esperança.

O choro era o bom anúncio do resultado daquela torcida empurrada pelos “força”, mais “força”, tá nascendo. Aguenta firme!

Antes, o cenário mostrava uma bacia de ágata com água quente e uma jarra com água fria para a necessidade de “esfriar um pouco”. Uma tesoura com pouco uso, mas muito antiga, era o único instrumento cirúrgico usado por Dona Tina (Esmerantina Costa), madrinha e comadre de quase todas as famílias daquele povoado. “Parturiou” quase todas as mulheres e aparou quase todas crianças que ali nasceram.

Bacia de ágata usada na assepsia do recém nascido

– É um menino!

Um anúncio feito em estridente grito por Dona Tina, encerrava a expectativa do nascimento de mais um rebento, ornamentado pela possibilidade de boa saúde da criança e da mãe. O futuro não lhes pertencia – mas, naquele instante, era reforçado pela esperança semeada pela Fé, de que tudo seria só felicidade.

A tesoura que cortava o cordão umbilical – nunca se teve notícia de infecção

O corte e a sutura do cordão umbilical acompanhado pela imersão na água para a assepsia, coroavam o trabalho de parto de Dona Tina em “Donana” (Ana Beatriz) que, automaticamente, se transformava em “Comadre Tina”.

Abraços e parabéns e a primeira mamada da nova mãe. Sem charutos nem champanhes, na cozinha o furdunço era intenso na preparação do enorme pato “cevado” especialmente para aquele momento de alegria.

– “Donana” num pode cumê pato, gente!

Era o principal conselho da agora Comadre Tina. A solução era abater aquela galinha, também cevada com carinho para a oportunidade. Por três dias, só “Donana” comeria daquela galinha de parida. Mas, o que ela mais gostava era de beber o caldo.

Três ou quatro mulheres preparavam o “dicumê festivo”, enfeitado e reforçado por uma paçoca de castanha de caju com charque, as duas socadas num pilão batido a quatro mãos. A paçoca substituía a farinha seca – mas continha parte dela. O arroz colhido na pequena roça fazia parte de tudo. Torrado e pilado, além de posteriormente lavado e escorrido na “arupemba”. Tinha sabor especial. Aquele gostinho de queimado sem ser “queimado”.

O pato que pagava o pato

– Já mataro o pato?

Era a pergunta feita por Comadre Salustiana, convidada especialmente para comandar a cozinha naquele dia – por conta dos trabalhos de parto de “Donana”.

– Inda não!….. respondeu Abigail, ocupada em preparar a paçoca no pilão.

– Apois adindonde que tá o danisco?

Quis saber Salustiana, já portando uma faca e uma bacia com um pouco de vinagre.

– Tá ali, amarradim, o coitado! Respondeu toda pesarosa Abigail.

Com tantas auxiliares naquele dia especial, preparar o almoço para alguns convidados não era tarefa difícil. Parto feito, pato abatido e comida a caminho da mesa. Sangrar o pato, cortar e fazer o molho pardo, naquele lugar parecia ser muito mais fácil que fazer um parto. O parto é a primeira etapa e o pato a consumação.

Pato ao molho pardo

Chegava a hora do servir. Salustiana serviu às crianças (a mim, inclusive) e mandou que fossem para o alpendre da casa. Quem quisesse mais, poderia vir pedir.

Finalmente, a oração. Oração pela chegada de mais um rebento com saúde. Oração pela pronta recuperação da mãe – já em preparativos para daqui a dois meses começar a fazer mais um. Era assim que a coisa era naquele interior cearense.

Almoço comido. Todos alegres e satisfeitos. Agora era esperar o café, mas quem quisesse ir embora ficava à vontade.

– Compadre Augusto, vosmecê aceita batizar meu menino?

– Depende compadre. Cuma é o nome que vosmecê quer botar nele?

– “Getúio”, compadre!

– Eita meu compadre! Bom nome. Bem escoído. Nome de Presidente da República!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O SENADINHO DO ANGICO

Na sombra do angico transformada em Senado e Câmara tudo era aprovado

O forte aroma da floração primaveril do angico tangido pelo vento era um convite para alguns sentarem à sua sombra e usufruírem do local, usando como assentos os cambitos e as cangalhas.

Era ali também que, o jumento “Feliciano” e o burro “Dourado” descansavam e aproveitavam para ruminar suas rações de capim misturadas ao milho e colocadas à disposição.

Uma gamela com água, também aproveitada pelas galinhas transformava o desenho imaginário do local numa fazenda. E não era uma fazenda. Era a casa de Raimundim de Maria de Horácio – onde também morava uma reca de meninos, todos “descobertos” no calor dos galanteios das duradouras noites de lua cheia.
Era ali usufruindo da sombra do angico, que se reunia o “senadinho” do lugar. Era onde se sabia de tudo e, também, onde se resolvia tudo. Desde o início da colheita do feijão ou do milho de cada roça cooperativada, até o plantio da maniva, ou carpina interativa e coletiva da vazante – quiabo, melancia, batata doce e alguns pés de abóbora.

Debaixo daquele angico era também aonde se abatia, limpava, cortava e vendia o porco, o bode, o carneiro ou o boi para o consumo da comunidade. Lavagem e limpeza de vísceras não eram permitidas para evitar a proliferação de moscas, ratos e outros insetos roedores. Enfim, aquele angico tinha o mesmo papel que hoje tem o shopping ou a Associação Comercial de cada cidade.

Nas tardes de sábado o local era preparado para receber um encerado de caminhão, enquanto o fole de Seu Tôquim animava e promovia gratuitamente o melhor forró pé-de-serra dos arredores.

Com o suor escorrendo pelo sovaco e pescoço ensebados, homens e mulheres se grudavam, e alguns casais envolvidos, continuavam dançando sem perceber que o frege terminara. Sanfona, fole, pandeiro, triângulo e um bumbo furado, que servia apenas como cenário, pois não emitia qualquer som.

Nas manhãs de domingo, a feirinha comunitária. Macaxeira, farinha seca, rapadura, galinha da terra, peru, carne de boi, de porco e de bode. Fumo, cachaça e até comprimidos para qualquer meizinha.

De tarde, o local se transformava com a chegada do rádio Transglobe à bateria, para a transmissão do jogo do Maracanã ou Pacaembu nas vozes inconfundíveis de Jorge Cury, Doalcei Bueno de Camargo ou Fiori Gigliotti e ainda Waldir Amaral. Na Rádio Assunção Cearense, as vozes de Ivan Lima, José Santana, Jurandir Mitoso e alguns anos depois, de Paulino Rocha e Gomes Farias.

Na segunda-feira começava tudo de novo:

Coçar frieira na beirada da rede. Subir na árvore para fazer uma necessidade fisiológica tentando fugir dos porcos e das galinhas. Tomar banho nu no açude, jogando “galinha d´água”. Beber água fresca da quartinha. Surrão. Caganeira de chicote. Bicho de pé. Balançar na rede, tocando o pé na parede e escutar o ranger do armador. Pirão de farinha seca. Beber caldo no prato sem colher. Cheirar rapé e ao espirrar, dizer: “Armaria”. Cachimbo de barro. Amarrar sabugo de milho no pescoço do cachorro. Assoviar pra provocar o glu-glu do peru. Esperar o cântico do vem-vem e botar o angu para a graúna.

Matar a cobra e mostrar o pau. Pescar no açude com anzol de alfinete. Caçar e pegar “mané-mago” (libélula) nas árvores. Atiçar cachorro vira-lata pra pegar teiú no mato. Passar creolina para matar bicho no lombo do cavalo. Acender a lamparina e andar feito alma com a dita cuja no meio da noite.

Deitar na sombra da catingueira. Cortar unha das mãos e dos pés com canivete. Peidar dentro d´água na hora do banho no açude. Cangalha. Cambito. Chicote. Chifre pra aboio. Caranguejo uçá. Rapadura melada. Alfenim. Batida de cana. Manteiga de garrafa.

Leite mugido. Chiqueirar cabras e bodes. Camaleão. Rola-bosta. Cobra de duas cabeças. Besouro mangangá. Cavalo do cão. Sibite. Graúna. Bem-te-vi. Potó. Muçum de açude e de lagoa.

Debulhar milho e feijão. Plantar maniva. Raposa. Capote. Cabaça d´água. Terrina para água dos animais. Sal em pedra. Torrar café no alguidá. Mão-de-pilão. Pano de coar água no pote. Panariço. Gurgumio. Cajuína. Assar castanha no caco. Espinho de bananeira. Moita de mofumbo. Caminho d´água. Sabão Pavão. Óleo Pajeú. Grude na colher. Ferro à carvão para passar roupa. Anil e goma para camisa de cambraia de linho.

Viver. Cantar. Passar o anel. Brincar de manjô. Pião. Caçar passarinhos. Comer jumentinha. Montar a cavalo e campear o boi. Galo de campina. Alpargatas. Trempes. Pão sovado. Voo rasante da coruja. Rasga mortalha. Calango a galope. Cantoria. Cordel de mimeógrafo. Papel de embrulho. Lápis na orelha. Manteiga à retalho. Caderno de fiados. Bicada pra tomar banho e cusparada no pé do balcão. A “do Santo” na bicada. Tira-gosto de cajá embu. Sirigüela inchada. Arapuca pra pegar sabiá. Foice. Pedra de amolar machado. Cabaça d´água. Beber água na caneca no mesmo cantinho que a velha babona bebia.

O viver na roça que faz o verdadeiro pacote da saudade.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

OS “PÚBERES” E AS “ADÚLTERAS”

Antigo “Curral das Éguas” em Fortaleza dos anos 40/50

Costumo dizer que as muitas coisas boas do passado ainda não dobraram a esquina da curva do tempo. Se a visão falha, a memória ainda permite lembrar e, assim, terminamos vendo. Ainda dá para ver que, naquele tempo de pureza e pessoas boas, andar de bicicleta e tocar o sinal pedindo passagem, ou viajar uma pequena distância num Jeep Willys era melhor que ir à Disney, onde as crianças são iniciadas em putarias.

Eu escrevi “putarias”. Talvez eu não quisesse escrever “putarias”. Mas escrevi, e é assim que vai ficar. E, já que falei em Disney e escrevi “putarias”, tal qual a Disney, era no “Curral das Éguas” onde os púberes eram iniciados nas putarias do sexo.

Naquele tempo, beijar na boca, só se fosse escondido de muitos – e muitas namoradas não permitiam. Achavam que engravidariam. Aquilo significava para elas, uma iniciação à incitação sexual. Como dizemos hoje, a chegada nas “preliminares”, onde meninas e meninos ficam excitados e molhadinhos, se não tiverem sido “orientados” para outras preferências.

E foi por conta dos muitos que não conheceram o “Curral das Éguas” ou locais iguais, que chegou forte entre nós essa idiotice de “orientação sexual”, em vez de “opção sexual”. Estão querendo nos empurrar goela à baixo, termos que têm outro significado, e querem que aceitemos como eles querem. Estudei foi no Liceu do Ceará, na época em que havia professores que, ao mesmo tempo eram autores de livros da língua pátria.

“Orientação” vem de “orientar”. “Orientar” que dizer “ensinar”. E sexo sem um mínimo de amor é a mesma coisa que cagar. Não precisa de “orientação”. Ninguém ensina ninguém a fazer sexo. Agora, “opção sexual”, é o direito que qualquer um tem de praticar sexo da forma que lhe convier. De forma ativa ou passiva, embora tenha crescido muito o número dos que preferem a fungada no cangote – e eu não tenho nada contra. O que estou tentando dizer é que, orientação é uma coisa e opção é outra. Querem que troquemos os significados. Ninguém vai me obrigar a isso.

Pois, foi ali no “Curral das Éguas”, hoje bairro Moura Brasil, que dei minhas primeiras “pimbadas” – naquele tempo ninguém comia a namorada com a facilidade que come hoje. Precisávamos satisfazer nossas taras nos cabarés, nos chatôs, nas casas de putarias – e precisávamos pagar para fazer sexo que não fosse com a própria mão ou nas jumentinhas da capoeira no sertão.

Hoje, se o namorado não procura logo sentir o cheiro da “xana” no primeiro encontro, para aprovar ou não a depilação total feita com cêra quente, a namorada manda andar e procurar algum gay.

E, como a memória ainda funciona bem, lembro bem de como eram as “suítes” onde o pau cantava na xana de Xolinha. Tinha que pagar antes o valor estipulado pela Cafetina. Era xis pelo tempo pretendido da transa, e xis pelo “serviço” da prostituta. Compunham o cenário da suíte: um rolo de papel higiênico (toalha esterilizada e para o casal, nem pensar), uma bacia de ágata, um pedaço de sabão, e uma jarra com água – chuveiro íntimo com ducha antes e depois da fudelança, é coisa dos tempos que querem confundir “orientação” com “opção”. Era um tal de ouvir o “choque-choque” da água batendo no saco!…..

Nas noites do Curral das Éguas todos os gatos eram pardos

Sem preliminares. Era o que dizia a mulher, pois ela precisava atender outras pessoas e faturar o dela para pagar as contas, pagar a parte do cara que arrumara a vaga para ela no prostíbulo, além de precisar comprar calcinhas novas e atraentes.

Muitos não conheceram a Fortaleza desses tempos. O “Curral das Éguas” funcionava e existiu durante décadas numa área que ficava atrás da Estação Ferroviária e da Cadeia Pública e Santa Casa de Misericórdia. Foi ali que muitos conheceram as principais doenças venéreas que perturbavam, mas não matavam como as doenças dos tempos modernos.

Com a chegada da modernidade trazendo os cinemas “Drive-in”, e junto os carros com ar-refrigerado e os preservativos (que antes eram chamados de “camisa de vento”); a liberação de funcionamento dos motéis até ao lado dos templos religiosos, não teve outro caminho para o “Curral das Éguas” e os iguais, que não fosse a falência.

Uma verdadeira “putaria” que fizeram com os contumazes frequentadores. Ali, muitos conquistaram as atuais esposas e com elas construíram probas famílias, apenas confirmando que a honra nunca esteve entre as pernas. É algo conhecido em meio à família e vive no lado esquerdo do peito.

Ponto de honra do “Curral das Éguas”: afastado dali por cerca de 50 metros, a Polícia mantinha um Posto Policial e quase não intervia naquele frege ou no puteiro. Desentendimentos por conta de embriaguez e briga entre putas por conta daquele homem que “pagava mais” por uma “pimbada”, era coisa comum. Mas, continuava sem intervenção policial. Era crime hediondo vender a única droga que existia com facilidade naqueles tempos: maconha.

Dia desses retornei à Fortaleza para rever familiares e ouvi de um sobrinho policial militar: “Tio, não existe mais o Curral das Éguas. A putaria agora é na cidade inteira, incluindo os apartamentos de edifícios com coberturas.”

Bairro Moura Brasil – um dia foi o Curral das Éguas

Agora, o que jamais vão conseguir substituir é o “Serviço de Autofalante Rosa do Lagamar”, funcionando graças à uma irradiadora de três bocas, espraiando mensagens românticas e músicas idem, com variação da preferência musical. Ali, onde muitos anunciavam (pagando) que a noite estava começando e acabavam de chegar “no pedaço”, era comum escutar a sofrência cantada por Orlando Dias: