JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

NOTÍCIAS DE PORTUGAL

Lisboa. Algumas notícias colhidas por aqui.

1. Salário mínimo da função pública em Portugal é, hoje, de 875 euros. Mais de 6 mil reais. Os brasileiros, ao saber disso, vão chorar.

2. Desde 01 deste mês os tuk-tuks dos turistas estão banidos das 337 ruas que compõem o Centro Turístico de Lisboa. Confusão grande.

3. Nas Assembleias Municipais (nossas Câmaras de Vereadores), mulheres são apenas 31,2%, sem se conseguir aumentar esse número. No Brasil não é muito diferente.

4. A empresa Pinker, que opera uma espécie de Uber próprio, definiu que só terá motoristas e passageiros mulheres. Ocorre que o Instituto de Mobilidade dos Transportes (IMT) recusou licença, necessária para começar a operar, por considerar que o privilégio fere a regra constitucional da igualdade dos sexos. E agora?

5. Manchete do Diário de Notícias precisa ser explicada: “Carteiristas duplicam no Porto e em Lisboa”. É que ditos “carteiristas” são nossos bem conhecidos assaltantes de celulares e batedores de carteiras, nas ruas.

6. O Hospital D. Estefânia foi condenado pelo Tribunal Administrativo de Lisboa a pagar 1,4 milhões de euros (10 milhões de reais) por negligência em parto, pela qual a criança acabou com “paralisia cerebral profunda”. Movida essa ação em 2011, só agora teve sentença. Também na terrinha o Judiciário é lento.

7. Dois terços das vagas para médicos de família não foram preenchidos, no último concurso. E 4 enfermeiros pedem, por dia, licença para emigrar. Um mercado de trabalho aberto, para brasileiros.

8. Cada trabalhador do Serviço Nacional de Saúde – SNS, em Portugal, tem em média 30 dias de falta, por ano.

9. Fátima Fernandes (52 anos) doou seu rim à filha, Carla Fernandes, no hospital Curry Cabral (em Lisboa). Ficou famosa declaração da filha, ao jornal Público, “Foi a segunda vez que minha mãe me deu a Vida”.

10. Nos Boletins de Saúde Infantil, sai o amarelo, uma novidade faz pouco introduzida para atender movimentos que são contra a discriminação de sexo; voltando, como regra, as cores tradicionais ‒ azul e rosa.
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11. Novidade aqui é o “Trisraw”, bicicleta com 3 rodas e um sofá na frente. Ciclistas voluntários põem nele doentes, físicos e mentais, e saem a passear pela cidade nos fins de semana. Velhos também. Importante por ser, Portugal, o país da comunidade europeia com maior número de idosos, dois deles para um jovem. As fotos, com alegria visível no rosto dos conduzidos, são comoventes.

12. Experiência que faz muito sucesso, na França, acaba de ser implantada com força em Portugal. Velhos agora podem vender suas casas e continuar a morar nelas. Com o instituto do usufruto. O valor de venda é menor que o real, mas em troca o cidadão tem grana à disposição. Para usar, ou doar a um filho. E viver bem, onde sempre viveu, sem ter que mudar. Se morrer logo, é lucro para o investidor. Ao contrário, se sobreviver muito, grande vantagem para ele.

13. O partido Chega propôs reduzir o número de Deputados (Portugal não tem Senado), na Assembleia da República, para o mínimo constitucional de 100. Curioso é que, apesar desse número, a Assembleia tem hoje 230 deputados. Como pode? Apesar de perguntar a muitos professores e jornalistas, aqui, ninguém até agora conseguiu explicar a razão.

14. Empresas de cigarro estão lançando maços sem tabaco, à base de ervas. Com a vantagem de poder ter aromas; o que é vedado, nos cigarros normais, pela Comunidade Europeia.

15. Carreiras universitárias que, em Portugal, oferecem maiores remunerações, são saúde, informática (era mesmo de prever) e, surpreendentemente, matemática.

16. Em Portugal 26% das classes, nas escolas, tem menos de 10 alunos. E, 40%, menos de 15. Algo tem que mudar, claro. Mas não há coragem para fazer isso.

17. Clamor em Portugal. O Tribunal de Relação de Lisboa, por maioria, “causou espanto” ao libertar Luis Vallejo (60 anos), condenado por abusar de duas clientes na freguesia de Algueirão. Sem sequer considerar que uma delas gravou diálogo que teve, com esse médico, na ocasião do abuso.

18. O Tribunal de Lisboa invalidou prova na apreensão de 251 quilos de cocaína por emigrante da República Dominicana. Fundamento foi terem sido tiradas fotos, dos emigrantes, sem suas autorizações ou de autoridade judicial. O Jornal Publico não informa se a cocaína foi devolvida aos traficantes.

19. Na reação aos imigrantes, cada vez maior em toda a Europa, o constitucionalista Jorge Miranda defende que Portugal só deixe entrar imigrantes que falem português.

20. Empresários portugueses, ante as repetidas ameaças de Trump, reagem adaptando conhecido provérbio “Esperamos que sejam mais vozes que nozes”. OBS: Uma breve explicação, em complemento. O provérbio português certo é “São mais as vozes que as nozes”. Lembrando que, como se diz na terrinha, “com varas batem-se as nogueiras, faz-se grande estardalhaço e às vezes as nozes que caem são poucas”.

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VIVA MARCOS VILAÇA!!!

Como reverenciar um homem como Marcos Vilaça?, eis a questão. Talvez não com arrogância, por exemplo indicando ter sido professor em muitos centros, com destaque para a Faculdade de Direito do Recife.

• Nem ter feito conferências em numerosas universidades, no mundo inteiro, de Moçambique a Helsinki.

• Nem ter sido Ministro do Tribunal de Contas da União, em que foi presidente.

• Nem referindo suas 182 condecorações e medalhas, incluindo todas as mais expressivas no Brasil, além de uma dezena de honrarias estrangeiros.

• Nem, por fim, indicado seus 76 livros publicados. Entre os quais cito Em Torno da Sociologia do Caminhão – quando, pela primeira vez, se estabeleceram as implicações sociológicas das migrações no Brasil. Coronel, Coronéis, quando traçou perfil dos interiores de nosso país; num tempo em que a política, tão diferente de hoje, ainda se fazia com engenho e arte. E Itinerário da Corte, pela honra de ter escrito seu prefácio. Sem esquecer os 15 livros publicados no estrangeiro – em português (de Portugal), alemão, espanhol, francês, inglês e italiano.

• Com tantos inacreditáveis títulos, e em palavras de Manuel de Barros (O Livro sobre Nada), “Há histórias tão verdadeiras que às vezes parecem que são inventadas”.

Dizendo isso, e quando nos deixa, prefiro começar pelo começo.

• Marcos Vilaça nasceu em Limoeiro e em Nazaré da Mata, ao mesmo tempo, isso não se discute. Prova de que já pode ser considerado uma espécie de Deus, por ter o dom da ubiquidade. O de estar em dois lugares, ou mais, ao mesmo tempo. Faltando só descobrir a palavra para dizer o que ele é. Talvez Nazareiro. Ou Limomata. Ou coisa parecida.

• Consta que Vilaça falou das duas cidades, e de sua companheira de antes e depois da eternidade, a Ledo Ivo. Dizendo assim: “Amar cidades, várias./ Amar mulheres, só uma”. Maria do Carmo, claro. Mas Ledo se atrapalhou e escreveu (em Recife): “Amar mulheres, várias./ Amar cidades, só uma, Recife”. Acontece.

• Marcos era filho de dona Evalda. Uma dama letrada e ilustre que gostava de usar, quando podia (e era quase sempre), a palavra pletórico. Sem restrições. E muito corretamente. Que de dona Evalda se pode dizer, sem medo de errar, ser mesmo pletórica em tudo.

• E filho do professor Antônio Vilaça. Conta-se que ele, então seminarista, acabou vizinho de dona Evalda em Limoeiro. “O pecado mora ao lado”, como na peça de George Axelrod. Ela jovem, bela, e muito interessada no conversar dele. Dando-se que o professor desistiu ligeiro das vocações religiosas. Trocando a contemplação celeste por uma vida terrena plena. De virtudes e pecados. Muitas e poucos. Entre estes, o de falsificar whisky. Trocando os líquidos (vi com os próprios olhos, como fazia). O que lhe permitia saborear malte escocês transladado para garrafas de Drurys; enquanto seus convidados, coitados, aceitavam as ofertas de Johnnie Walker, em garrafas antes vazias, e agora cheias do líquido nacional. As aparências enganam.

• Já no batismo, seus pais fizeram questão de afirmar o caráter do filho. Marcos Vinicius Rodrigues, como se vê no próprio nome, é um homem plural. E Vilaça, também se vê no nome, é singular. Plural e singular, pois. Múltiplo.

• Vilaça teve, nessa vida, uma trajetória improvável. Que começou nos interiores de nosso Brasil, popular e profundo, para findar em louros acadêmicos. Na Academia Pernambucana de Letras. Na Academia Brasileira de Letras, também. A do fardão majestático. Conta-se até que um taxista, conduzindo Aurélio Buarque de Holanda todo paramentado, não se conteve e perguntou: “Sois Rei?”. Sem esquecer a Academia Portuguesa de Letras. Somos confrades em todas elas; o que, para mim, é um (grande) prêmio.

• Lembro de bilhete que lhe mandei num aniversário do passado:

‒ Vilaça amigo
Ouve o que digo
Tô com saudade
Da mocidade
Da vida rude
Da juventude
Da vida boa
De andar à toa
E da maçada
De fazer nada
Com a indolência
A impertinência
A competência
E a experiência
Dos desenganos
Dos verdes anos.

• Agora findaram seus anos, todos; aqueles do passado, verdes; e os mais recentes, maduros, também. O coração dói, na memória do amigo querido. Saudades dele. Viva Vilaça!!!. E boa maneira de fazer isso é lembrar versos de Mia Couto (em Incertidão de Óbito),

“A vida
É um prematuro sonho.

Só morre
Quem nunca viveu”.

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O AMIGO XANHA

Lisboa. Mais um se foi, Alberto Vinicius Melo do Nascimento (Xanha), em 11 de dezembro do ano passado. O enorme poeta Marcelo Mário Melo recomenda (em Manifesto da esquerda vicejante) que “devemos lembrar nossos mortos, não pelas chagas de seus martírios, mas por seus jeitos de rir”. Assim seja. E conto agora uma história que fala nesse que partiu. Tem sua graça e vai estar no meu próximo livro (Conversas de ½ Minuto). Vamos a ela.

Na Ditadura 18 estudantes, que a combatiam, estavam presos e em greve de fome. Já 11 dias haviam se passado. Por cautela foram trazidos para o quartel da PM, no Derby, onde havia um hospital militar. Médicos informaram que, até 12 dias, não haveria problemas para a saúde. Entre 12 e 18, provavelmente. A partir daí, com certeza. Era preciso encerrar a greve, na proteção dos próprios presos.

Fomos negociar com eles. Airton Soares, velho amigo e líder do PT na Câmara dos Deputados (pouco depois, ele e Beth Mendes seriam expulsos do partido por terem votado em Tancredo), que veio de São Paulo só para isso. E eu, companheiro de tantos na universidade (e amigo próximo de alguns), representando a OAB.

Nosso argumento era que o protesto já tinha produzido seus resultados políticos, tanto que os jornais vinham dando a notícia com destaque. Seguir, ante os riscos para a saúde, não fazia sentido. Às dez da noite, alvíssaras, tudo certo. Fomos falar com o comandante da PM, ainda em seu gabinete e rezando para que tivéssemos sucesso. Ocorre que, encerrada essa greve, todos queriam jantar

– Comandante, por favor providencie.

– Claro.

Pediu para chamar o cozinheiro e um ajudante

– Doutor, o homem já foi pra casa.

– Veja o que tem na despensa.

– Está fechada, com cadeado, e quem tem a chave é ele. Só amanhã de manhã.

– Onde mora?

– Ninguém sabe.

Sugeri

– Comandante, por favor, vamos comprar ao menos um cacho de bananas.

– Nem pensar. Comida de fora? E se tiverem uma intoxicação?

– O senhor manda um ajudante conosco, providenciamos o dinheiro, ele mesmo escolhe e compra as bananas.

Nesse momento, um médico do quartel o chamou para conversar. E o comandante

– Perdão, senhores. Mas, antes de se alimentar, eles vão ter que fazer exames médicos e ser avaliados. Até para decidir o que podem ingerir.

– É desumano, comandante.

– Também acho. Mas, infelizmente, vai ter que ser.

E assim ocorreu. Voltaram a se alimentar só no outro dia, pela manhã. Chico de Assis (grande poeta) me confessou, mais tarde,

– Passar 11 dias, dentro de uma greve de fome, não teve nenhum problema. Só que do fim da noite e até a manhã seguinte, querendo comer, foi um verdadeiro suplício.

E Alberto Vinícius (Xanha), que estava do seu lado, confirmou

– A vontade que tive foi me suicidar.

No fim, como ensina o pai de Fernando Sabino, “tudo acabou bem”. E seguiu a vida, até agora, quando foi encontrar os seus. Saudades do amigo Xanha.

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CONVERSAS DE ½ MINUTO (39) ‒ MÉDICOS

Lisboa. Mais conversas, hoje só com médicos e afins, em livro que estou escrevendo (título da coluna).

ANA VASCONCELOS, advogada. O médico olhou para ela com olhos de pena

‒ Você tem câncer, Ana.

‒ Qual o tratamento?

‒ Nenhum, infelizmente.

Decidiu ir a São Paulo e foi confirmado, esse diagnóstico, por junta com mais quatro médicos. Melhor voltar e morrer no Recife. Só que não conseguia suportar essa espera e decidiu abreviar sua história. Melhor o fim do espanto que um espanto sem fim. Como não tinha coragem para se jogar de um edifício, ou dar tiro na cabeça, escolheu fazer isso dentro de seu carro. Entre segunda e terça, madrugada (sem ninguém na rua para ser atropelado), em reta que começava na Ponte Giratória e findava em muro de concreto grosso, da Marinha, no Porto do Recife. Lugar perfeito para um acidente automobilístico. Deu uma última olhada para o “Capibaribe, meu rio,/ Espelho de meu sonhar” de Austro Costa, fez o sinal de cruz e acelerou seu velho Gol até chegar na velocidade máxima. Os braços, ao segurar o volante que tremia, estavam já dormentes (foi quando teve a sensação de que morreria sem dores). E viu aquele muro se aproximar. Faltava pouco. Só que um pneu voou e o carro começou a dar voltas. Sem capotar, sorte dela. Até que parou. Saiu, era inacreditável, estava de frente para o tal muro, a menos de um palmo. Então pensou

‒ É coisa de Deus. Ele não quer que eu morra e me trouxe aqui para dizer qual missão reservou para mim.

Olhou em volta e viu que, ali, havia só marinheiros e mulheres tentando sobreviver. Seu público não seriam aqueles homens, com certeza. Decidiu criar uma instituição memorável, a Casa de Passagem – dedicada a abrigar, proteger e ensinar ofícios dignos a prostitutas que eram depois colocadas no mercado de trabalho. E Ana bem, sem mais notícias do tal câncer, enquanto começaram a morrer os médicos que deram aquele diagnóstico. Na última vez que a vi disse, brincando,

‒ Ainda não morreu?, amiga.

‒ Que nada, Zé Paulo, e já decidi, só morro depois de enterrar os cinco médicos que me condenaram.

‒ Até agora…

‒ Quatro já foram, só falta um.

Ana morreu só bem mais tarde (em 2009), aos 64 anos, vítima de um infarto fulminante. Descanse em paz.

ANTÔNIO MOTA BARBOSA, professor de patologia geral (genética). Na Faculdade de Medicina UFPE (Recife), dava aula no necrotério. E dirigiu-se aos alunos

‒ Esse é um teste para ver se vocês têm compromisso real com a medicina.

Foi dizer e enfiar o dedo indicador no pulmão aberto do cadáver, após o que pôs na própria boca, assim como estava, cheio de sangue

‒ Agora quero ver quantos serão capazes de fazer isso.

Metade da classe foi embora, na hora, enquanto a outra metade repetiu seu gesto. E ele

‒ Estou vendo que o compromisso com a medicina de vocês, que ficaram, é mesmo real. Porque o dedo que enfiei no cadáver, e veio sujo com sangue, era o indicador; e o que pus na boca foi outro, o dedo médio.

CARLOS ROBERTO MORAES, cirurgião cardíaco. Perguntou

– Quantos charutos você fuma?, por dia.

– Só um. Mas todo charuteiro mente muito.

JOSÉ CUNHA FILHO (Rato), construtor. Sua santa mulher, Ana Lúcia (Iuca), pede que vá ver o médico. Depois de muita insistência, ele afinal consente. E, ao entrar na sala, Rato

– Doutor, o senhor tem direito a uma pergunta.

Espantado com frase tão insólita, e vendo a desgraça dos exames na sua frente, o médico

Dr. Rato, o senhor já comprou seu jazigo?

JOSÉ SARNEY, presidente da República. Estávamos na ABL. Como esbanjava saúde, Flora Gil não resistiu

‒ Presidente, que cara boa!

‒ Minha filha, quem vê cara não vê radiografia.

MOACYR GUIMARÃES, funcionário público, pai do médico André Valença. Quando fazia visitas, em dado momento, dizia sempre ao dono da casa

‒ Já comi
Já bebi
Nada mais
Me prende aqui.

E ia embora.

ODACÍRIO DA TELHA, empresário. Caruaru, na época da Segunda Guerra. Marcou viagem ao Recife, de trem, para o dia seguinte. Seu Teixeira (história contada pelo filho Marcelo) pediu

– Pode levar encomenda?

– Claro, compadre.

– Entrego na hora do embarque.

Manhã cedo e lá estava seu Teixeira, na estação, com a encomenda. Era um doido. Que, depois de férias com a família, tinha que ser devolvido à Tamarineira – único hospício então funcionando em Pernambuco. No bolso de sua camisa, pôs dinheiro para qualquer necessidade. Perto do meio-dia, o trem chegou em Vitória de Santo Antão. Todos saltaram para almoçar. Problema é que o doido dormia pesado, foi bomba demais que tomou, algum antecedente do Rivotril. E Odacírio teve que ficar no vagão, com calor e fome; para evitar que ele, acaso acordasse, pudesse fugir. Fim da tarde, chegam à Estação Central do Recife. Junto da penitenciária (hoje, Casa da Cultura). Foi quando soube que a Tamarineira ficava longe. Teve que gastar dinheiro, o que era contra seus princípios, com carro de praça. Chegou irado. Com o doido acordado, sem mais efeitos dos remédios que tomou. Entraram. Odacírio entregou o doido. Pretendeu entregar, melhor dizendo. E o Diretor

– Qual o nome do paciente?

– Sei não (seu Teixeira esqueceu de dizer).

– O que ele tem?

– Não tenho a menor ideia.

Problema é que o doido olhava para o Diretor, pelas costas de Odacírio, fazendo gestos com o dedo rodando na orelha, e apontando, como que dizendo ser ele o maluco. Afora outros gestos, agora com as duas mãos, sugerindo levar o homem para dentro. O Diretor veio falar com ele

– Seu nome é?

– Odacírio da Telha, a seu serviço, trabalho em Caruaru no ramo de tijolos e telhas.

– O nome do paciente?

Deu seu próprio nome. E completou

– Ele já tem ficha, é só o senhor conferir.

O Diretor fez isso. Voltou com ela na mão. E, para confirmar, perguntou a doença

– Transtorno de Bukovsky, um tipo especial de esquizofrenia delirante.

Era fácil, para ele, que (quase) todo maluco sabe o mal que tem. Ele, pelo menos, sabia. O Diretor mandou levar Odacírio para sua cela (a que era do doido). E este, indignado, resistiu bravamente. Foi necessário recorrer a uma camisa de força. O diretor

– Seu Odacírio, pode ficar tranquilo que o paciente será muito bem tratado.

– Obrigado. E até a próxima.

O azar de Odacírio é que o doido tinha um sonho, ou mania, ou delírio, de ir ao cinema Coliseu que ficava bem pertinho dali. Agora, estava solto e com dinheiro para isso, aquele posto no bolso da camisa. Foi, pagou a entrada, com o troco ainda comprou pipoca e assistiu, satisfeito, ao filme do dia. No fim, um problema, onde iria dormir? Então voltou à Tamarineira, explicou o ocorrido e pediu sua cela de volta. Foi a sorte de Odacírio.

OSCAR COUTINHO, clínico geral. Comentei matéria segundo a qual “fazer exercício traz riscos para a saúde”. Respondeu, brincando,

‒ Verdade. Muitos enfartam ao andar no Parque da Jaqueira (Recife), mas nunca vi ninguém morrendo em mesa de bar.

PLANOS DE SAÚDE. Liga para mim alguém, não sei quem seria, e pergunta

‒ Aqui é o gerente do plano de Saúde… qual é o nome do senhor?

‒ Esqueci.

E desliguei

REINALDO OLIVEIRA, cirurgião (e artista consagrado no Teatro de Amadores de Pernambuco). Tinha que dar um depoimento, sobre ele, para a televisão. E fiz isso, na hora

‒ Reinaldo é nosso rei
Ele nos dá seu perdão
Manda em nosso coração
E faz o que não farei
Pensa o que nunca pensei
Ele diz o que não digo
Ele canta eu não consigo
Ele solto é um perigo
Só faltou o Oliveira
Essa fé tão brasileira
E o abraço mais amigo.

SILVIA LAURENTINO, PHD em Neurociência. Fim de conferência na Academia Pernambucana de Letras, sobre a Memória, e levanta-se o engenheiro Salmen Giske

‒ Tenho uma pergunta importante para a senhora.

‒ Pois não.

E ele, depois de algum tempo em silêncio,

‒ Esqueci.

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JK ASSASSINADO?

Lisboa. Durante o tempo em que andei longe das folhas, ocupado em coisas muito importantes (pegar tanajuras, o mar, os netos), houve no país notícias de topo tipo. Uma delas chamou atenção por estar na primeira página de nosso Jornal do Commercio, mês passado, “INVESTIGAÇÃO SOBRE MORTE DE JK RETOMADA”. Não só nele. O Globo é explícito, “O governo Lula decidiu reabrir o caso”. Estadão, “O governo Lula e a Comissão reabrem o caso”. E Folha de São Paulo, na mesma linha, “Laudo faz governo Lula retomar caso nebuloso de morte de JK”.

Nessas matérias se vê que a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos (do Ministério dos Direitos Humanos), com membros do PT nomeados em Brasília por esse mesmo governo Lula, está correndo o país a fazer audiências públicas e a tentar reabrir um caso, segundo ela, “cercado de controvérsias desde as primeiras investigações”. Indicando a possibilidade de “sabotagem mecânica, tiro ou envenenamento do motorista”.

Antes de seguir na argumentação, devemos perguntar se objetivo dessa comissão será mesmo chegar à verdade. Ou apenas reavivar no país um clima de confronto ideológico, sobretudo por interesses políticos ou partidários. Mas vamos aos fatos.

Em 2014 apresentamos, em cerimônia realizada no CCBB (Brasília), o laudo da perícia que fizemos na Comissão Nacional da Verdade. Depois de mais que um ano de estudos. Fato curioso é que, quando estávamos nos preparando para essa apresentação ao público, alguns jornalistas da Folha e do Estadão nos informaram que a Comissão da Verdade de São Paulo acabava de apresentar laudo próprio, indicando que JK teria sido assassinado.

Considerando que estávamos tornando público nosso laudo naquele momento, e se quisessem mesmo apurar a verdade, o mínimo que se deveria esperar é que PRIMEIRO estudassem nosso laudo; para DEPOIS, já considerando tudo que dissemos, apresentar o deles. Aceitando ou rejeitando o nosso.

Sendo mesmo de esperar que a posição atual, na Comissão do Governo Lula, seja basicamente a mesma, naquele tempo, da Comissão de São Paulo. Por serem formadas por quase as mesmas pessoas.

Vamos, então, aos principais aspectos do laudo que firmamos na Comissão Nacional da Verdade:

TRÊS MORTES EM SEQUÊNCIAS. Morreram, em pouco espaço de tempo, menos de um ano, as três maiores lideranças civis da oposição no Brasil: JK, 22/08/1976, no Rio; João Goulart, 06/09/1976, em Mercedes (Argentina); e pouco depois Carlos Lacerda, 21/05/1977, no Rio. Por conta disso a ideia de que tenham sido assassinados por agentes do Governo Militar se alastrou, no imaginário coletivo. Mas o que aconteceu de fato?, eis a questão.

LACERDA E JANGO. Com relação a Lacerda, sua família sempre acreditou que a morte se deu por problemas de saúde. Um câncer que o roeu, sem piedade, por quase três anos. E o deixou, em boa parte desse tempo, numa cama de hospital. Sem maiores interesses numa investigação. Para seus familiares, ninguém perderia tempo na eliminação de um já quase cadáver.

Jango morreu com enfarte, algo até esperado em obeso com largo histórico de problemas cardíacos. E o caso continua inconcluso – com fragmentos de seus ossos, ainda hoje, sendo analisadas por laboratórios especializados em Portugal e Espanha. Para identificar a presença (ou não) de cianureto. Confirmando (ou não) a tese de que teria sido envenenado. Sem muitas esperanças de que algo seja encontrado. Bom lembrar que nenhum depoimento que coletamos, na Comissão Nacional da Verdade, teve mínimos de seriedade capazes de nos levar a considerar respeitável essa hipótese.

O CASO JK. O terceiro caso é JK. No momento de sua morte, para o povo brasileiro, a mais nítida esperança de volta à democracia numa eleição direta. A Comissão Nacional da Verdade examinou, com extremo rigor, todas as implicações do caso. E apresentou Laudo, em 22/4/2014, com 139 páginas. Firmado por 5 renomados peritos (os melhores da época, segundo a PF) que trabalharam, nele, desde 2012. Examinando 23 perícias e afins, já antes realizadas. Mais 298 negativos de fotos referentes a imagens do caso. E fazendo novos exames.

Acompanhei todos os trabalhos realizados no caso, de perto e com atenção, por uma razão de foro íntimo. A de ser ele padrinho no casamento, de Maria Lectícia e meu. E o fato de muito gostar dele, como pessoa. Sempre nos encontrando, quando íamos ao Rio. Segue-se uma tentativa de resumir esse Laudo em linguagem mais facilmente compreensível pelo grande público.

RODOVIA PRES. DUTRA, quilômetro 165. Era domingo e JK voltava para casa. Mais tarde que gostaria, no começo da noite, já quase escuro. As colisões dos veículos ocorreram numa reta próxima de Resende (Rio). Com o Opala de JK e o Ônibus da Viação Cometa (com quem se chocaria, inicialmente) indo na direção São Paulo/Rio de Janeiro. Enquanto na outra pista em direção contrária, Rio de Janeiro/São Paulo, vinha um caminhão SCANIA carregado com 30 toneladas de gesso. Foi ele o responsável pelas mortes de JK e seu motorista, Geraldo Ribeiro.

Era plana, gramada e sem guard-rails, a área de separação entre as duas pistas. E também planos os acostamentos e as áreas adjacentes (mais de um quilômetro), em ambos os lados. Certo que, fosse mesmo um atentado, e certamente o local escolhido para isso deveria ser outro. Provavelmente uma curva, junto a precipício. Em que o carro, fora de seu trajeto regular ao sair da estrada, e só por sua situação geográfica, ofereceria um concreto risco de morte.

ABALROAMENTO. Para quem planeja um atentado, último veículo do mundo que se utilizaria para provocá-lo seria um ônibus. Lento. E cheio de passageiros (40), testemunhas oculares da tragédia. Bem mais eficiente seria um carro sem placa, de vidros escuros e rápido. Valendo lembrar que o ônibus estava em velocidade menor que a do Opala. E na sua trajetória normal. A batida entre esse ônibus e o Opala, em que estava JK, se deu com seu veículo invadindo a faixa da esquerda, por onde trafegava o ônibus. Talvez, um cochilo do motorista. No chão, ficaram marcas dos pneus, como prova do desvio que teve o Opala na sua rota normal, que seria seguir em frente. Sem registro de nenhuma outra marca no chão. Basta ver as fotos. E a versão de que o carro de JK teria sido tocado por outro veículo não se sustenta. Dado que únicas marcas de abalroamento, no Opala, são rigorosamente coincidentes com as que ficaram no ônibus.

TRAJETÓRIA DEPOIS DO ALBARROAMENTO COM O ÔNIBUS. O Opala, dirigido pelo motorista Geraldo Ribeiro, se desgovernou após esse primeiro abalroamento. Ultrapassou o canteiro central e avançou na direção da pista contrária. Dali, numa situação normal, seguiria em frente. E caso continuasse nessa trajetória, depois do acostamento, entraria em uma área plana e de mato baixo. O que causaria para o veículo danos de pouca monta. Alguma pedra que arranhasse a lataria ou um pneu furado, no máximo.

Segundo o Laudo, entre o abalroamento e o choque com a carreta Scania, se passaram 2 segundos. Ou cerca de 45 metros. Os peritos sabem que o tempo médio de reação humana, em casos de acidente, é cerca de 1,5 segundos. E o que ocorreu?, então. Provavelmente deu-se que o motorista do Opala, passado o breve instante de torpor com o abalroamento no ônibus, terá reagido virando à direita. Para impedir que o veículo fosse além do acostamento. Como se quisesse evitar danos (caso seguisse em frente) ao veículo. E no desejo de retomar sua viagem, normalmente. Passaria à esquerda do caminhão pelo acostamento, assim pensou, e voltaria depois à pista.

Era o que desejava. Só que por azar, muito azar, não conseguiu realizar essa operação. Chocando-se, a parte frontal direita de seu Opala, com a parte frontal direita da carreta Scania, que vinha em sentido contrário; sendo, então, arrastado por 30 metros. Por pouco não conseguiu, é pena. Com um mínimo de sorte não se tocariam, os dois veículos. Como dizia Saint-Exupéry (Citadella), “A ocasião que falta é aquela que conta”.

OUTRAS HIPÓTESES. A versão de que o Opala foi vítima de bomba, posta no veículo e disparada à distância, também não é crível. Por não haver qualquer resíduo de plástico ou pólvora, no chão da estrada ou no veículo. Como se daria, caso tivesse havido mesmo uma explosão.

Igualmente, a versão de um tiro de precisão na cabeça do motorista de JK não se sustenta. Primeiro, porque o crânio de Geraldo Ribeiro, segundo se vê nas fotos da época (apresentadas no Laudo), não tinha qualquer lesão. Muito menos por furo de bala. Segundo porque, caso tivesse o motorista sido atingido por uma bala no crânio, e jamais poderia, logo após o abalroamento com o ônibus, ter alterado conscientemente a trajetória do veículo em que estava, dobrando à direta. Como fez. Com lucidez. Ainda pensando escapar ao acidente sem maiores consequências.

BALA. Num dos últimos exames, foi localizado pequeno objeto de metal dentro do crânio do motorista de JK. Uma bala!, para muitos. Prova do assassinato!, não faltará quem diga. Esse objeto acabou encontrado em uma fenda larga, nesse crânio, medindo em linha reta cerca de 10 centímetros. Com bordas claras – prova de ter sido fratura posterior, no tempo. Até porque todas as fotos, que constam das primeiras perícias, revelam um crânio intacto, amarelado. E fraturas similares são comuns, depois do óbito, com o passar do tempo. Dada a fragilidade dos ossos em decomposição.

Já o metal do referido instrumento não era um composto de liga de chumbo, próprio dos projéteis de bala. Mas ferro doce. O mais simples e mais barato. Tendo, aquele objeto, diâmetro muitas vezes menor que o de um projétil de revólver 38 (dado se afastar pudesse vir a ser usado calibre menor, num atentado). Sem contar que, nesse caso, seriam provavelmente projéteis 44, 45, ou ainda maiores.

As fotos desse objeto, comparadas com um projétil 38 (ou 44, ou 45), não permite dúvidas. Provando o Laudo se tratar, na verdade, apenas de um cravo – exatamente similar aos usados para pregar a seda, normalmente de segunda categoria, que fica por dentro da madeira dos caixões funerários. Rigorosamente igual aos cravos que prendiam aquela seda no caixão em que foi enterrado seu motorista. Cravo do caixão, meus senhores, e nunca uma bala.

RESUMO. Não há dúvida, pois, de que se tratou mesmo de um acidente automobilístico (quem tiver maior interesse no caso basta acessar, pela internet, o site da Comissão, com a íntegra do Laudo e seus anexos). Não assassinato, só acidente. Cabendo, ainda, uma última palavra. Para dizer que a história tem suas tramas. Seus designíos. E seus mistérios. Porque o Regime Militar certamente ficaria feliz em ver morto JK. Um risco a menos. Mas é como se o destino, esse “Deus sem nome” como queria Pessoa (carta a Henry More), tivesse agido antes. Essa é a verdade.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (38) ‒ CEMITÉRIOS (II de II)

Mais conversas, hoje novamente só os cemitérios e afins, em livro que estou escrevendo (título da coluna).

INSCRIÇÕES TUMULARES. Seguem algumas de pessoas famosas

* ÁLVARES DE AZEVEDO, poeta.

‒ No vaso impuro corrompeu-se o néctar
A argila da existência desbotou-me…
O sol de tua glória abriu-me as pálpebras
Da nódoa das paixões purificou-me.

* MÁRIO SOARES, presidente da República de Portugal.

‒ Só é vencido quem desiste de lutar.

* RUSSELL J. LARSEN, da Marinha. Ganhou o concurso da lápide mais visitada no cemitério de Logan (Utah),

‒ Cinco regras a seguir pelo homem para uma vida feliz:

1. É importante ter uma mulher que ajude em casa, cozinhe de tempos em tempos, limpe a casa e tenha um trabalho.

2. É importante ter uma mulher que te faça rir.

3. É importante ter uma mulher em que possa confiar e não minta.

4. É importante ter uma mulher que seja boa na cama e que goste de estar contigo.

5. É muito, mas muito importante, que estas quatro mulheres não se conheçam ou podes terminar como eu.

* XICO BEZERRA, poeta e músico. Já deixou escrito aquele que será seu epitáfio

‒ Sem vontade, cá estou
E daqui não sairei,
Não me acordem, que estou
Sonhando o que nunca sonhei.

MARCELO MESEL, médico. No Cemitério dos Ingleses (Recife), viu essa pixação

‒ Ensina-se inglês às almas de outros cemitérios.

MARCELO NAVARRO RIBEIRO DANTAS, ministro do STJ. Mandou passagem de livro (Racconti quotidiani) escrito pelo mestre italiano Andrea Camilleri

‒ Vita mortuorum in memoria est posita vivorum (a vida dos mortos está na memória dos vivos).

E outra, de Antonio Manzini Sellerio, no próprio título do último livro de série policial sobre Rocco Schiavone

‒ Il passato è um morto senza cadavere (o passado é um morto sem cadáver).

MARK TWAIN, escritor. Em 1887, a imprensa londrina publicou que havia morrido. Seu comentário

‒ A notícia de minha morte é um pouco exagerada.

MAURÍCIO MENNA BARRETO, cirurgião plástico. Na Capela dos Ossos, um dos mais conhecidos monumentos do Convento e Igreja de São Francisco de Évora (Portugal), bem na entrada, anotou essa placa

‒ Nós ossos
Que aqui estamos
Pelos vossos esperamos.

ONÉSIMO TEOTÔNIO ALMEIDA, professor da Universidade de Brown (Estados Unidos). Recebeu foto do túmulo de um cemitério argentino com esse epitáfio

‒ Senhor, recebe-a com a mesma alegria com que eu te a envio.

OTTO LARA REZENDE, escritor. Eram quatro amigos inseparáveis que formavam grupo inspirado nos Quatro Cavaleiros do Apocalipse, personagens descritos na terceira visão profética do apóstolo João, está no livro bíblico da Revelação ‒ fome, guerra, morte, peste, que acontecerão antes do fim dos tempos. Agora eram os Quatro Cavaleiros de um Íntimo Apocalipse ‒ Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos e Otto, o que mais gostava de conversar no grupo. Um dia Sabino entregou, a Otto, epitáfio que escreveu para ele ‒ por implicância, recusado pela família

‒ Aqui jaz Otto Lara Resende,
Mineiro ilustre, mancebo guapo!
Deixou saudades isso se entende:
Passou cem anos batendo papo.

TÚMULO NO CEMITÉRIO DE SANTO AMARO (Recife).

‒ In Memoriam de Camilla Pessôa de Lacerda resignação no sofrimento, coragem na adversidade, honradez nos compromissos, aversão às maledicências.

VICENTE LOBÃO, juiz de futebol. E, antes, goleiro tricampeão de Pernambuco pelo glorioso Náutico. Em junho de 1959 morreu num lugar de má fama. Enfarte, parece. Esmaragdo Marroquim, do Jornal do Commercio, destacou João Pedrosa para tirar fotos desse lamentável acontecimento. Pedrosa era presença obrigatória em literalmente todos os casamentos da cidade. Ele, sua Leicka, seus tiques nervosos e sua imensa capacidade em causar confusão. Como nunca teve pressa, nesta vida, voltou ao jornal sem a foto, que o corpo já tinha saído numa ambulância. Esmaragdo

‒ Seu Pedrosa, pegue Mata-Sete e só volte aqui com a 3×4 do morto. Loooogo!!!

Mata-Sete era um desses faz-tudo, espevitado e raquítico, que se encontram em todas as redações. Logo chegaram ao necrotério, que ficava em uma entrada lateral do Pronto-Socorro, na Rua Fernandes Vieira. E encontraram o corpo, inerte e solitário, que jazia sobre a lousa fria. Gorduchão, Lobão era mais pesado do que deveria. Sem contar que, depois de algumas horas, todo corpo endurece. É o rigor mortis, assim dizem os entendidos. Seria difícil fazer a foto, que Mata-Sete não tinha braço para levantar o cidadão. Mas Pedrosa encontrava solução para todos os problemas. Então se equilibrou sobre dois banquinhos e anunciou a estratégia

‒ Eu grito vá!, você dá um golpe de caretê na barriga do homem, ele vai um pouco para frente, você sapeca um pescoção na nuca dele, se abaixa, eu tiro a foto e a gente se manda.

Dito e feito. Só não contavam é que ao fim da operação, precisamente na hora em que o flash espocou, o morto desse um berro monumental,

‒ Uaiiii…,

e saísse correndo. Era o vigia, que dormia, pois o corpo já tinha seguido para o cemitério. Fomos sabendo aos poucos o resto dessa história. Esmaragdo acabou ficando sem sua foto. Pedrosa quebrou a perna, coitado, ao cair dos bancos. Mata-Sete virou pai-de-santo ‒ com fama de ter mãos milagrosas, capazes de ressuscitar defunto. E o vigia se queixou, ao delegado, de ter sido covardemente agredido, mas seus agressores nunca se soube quais foram. Só o pobre do Vicente Lobão cumpriu, religiosamente, seu destino de defunto. Era São João. Nessa noite, segundo se comentou, um grande balão colorido subiu aos céus e nunca mais voltou.

WALTER COSTA PORTO, ministro do Tribunal Superior Eleitoral. Indo para o Ceará escreveu num guardanapo da Transbrasil e entregou, a Henrique Ellery, o epitáfio que desejava para ele próprio

‒ Aqui neste pequeno horto
Jaz sem nenhum conforto
Walter Costa Porto.

WILFRED GADÊLHA, jornalista. É dele essa definição, a partir de locais do nosso estado,

‒ Jesus foi um pernambucano arretado que nasceu na Estrada de Belém, fugiu com a família para São José do Egito, viveu em Nazaré da Mata, morreu em Nova Jerusalém e, depois de morto, foi morar no Alto do Céu.

ANO NOVO. Bons anos, amigos leitores. Para todos. Para sempre. . E agora os netos, o “mar salgado” (Pessoa, em Mensagem), a rede e os livros me esperam. Razão pela qual encerro, por breve tempo, essa participação aqui. Para voltar a escrever só depois do Carnaval. Se Deus quiser, claro. E, generoso como é, espero queira mesmo.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

COM A PALAVRA, OS LEITORES

O melhor, para quem escreve, é sentir a reação dos leitores. Seguem palavras deles, entre as tantas que recebi (aqui apenas trechos, pois a maioria trazia mensagens extensas), sobre artigo que escrevi na última semana dizendo como foram os negros anos da Ditadura Militar de 1964 e o terror do CCC, uma espécie de KKK tupiniquim. A favor ou contra, não importa, leitor aqui diz o que quiser. Sem nenhuma censura, claro, essa é a beleza da Democracia. Como em versos que escrevi lá atrás,

‒ Tem conversa sem um fim
Conversa na lei do cão
É um bom, outro ruim
Esse mundo é mesmo assim
Viva tu e viva mim
Viva Dom Sebastião.

Isso posto, vamos a alguns dos comentários:

ANTÓNIO DE ABREU FREIRE (da Universidade de Aveiro, Portugal): “Eu e outros companheiros europeus que ensinavam na PUC do Rio fomos obrigados a deixar o Brasil. O mesmo avião, tinha 2 motores a hélice, fez escala em São Paulo, onde recolheu outros indesejáveis, entre eles Fernando Henrique Cardoso, e nos despejou em Santiago do Chile. Estava lá Josué de Castro, com sua maleta de medicamentos para se manter vivo. Quase todos os companheiros desse tempo já zarparam do último cais para uma outra dimensão. Todos nós zarparemos também, um dia, cá deixando quem cuide do futuro”.

ANTÔNIO TORRES (imortal da ABL): “Na noite daquele 13 de dezembro (do AI5), estava no lançamento do livro 10 em Humor com Millôr, Stanislaw Ponte Preta, Ziraldo, Jaguar, Henfil, etc, no Bar Veloso, que depois virou Garota de Ipanema. Aí chegou um primo, chamado Humberto, que trabalhava no Jornal Nacional da Globo, com a notícia do AI-5. E tudo perdeu a graça”.

Desembargador EDILSON PEREIRA NOBRE (imortal da ALRN): “É preciso que muitos jovens, velhos no pensamento, tenham ideia mais clara do valor da democracia”.

FÁTIMA DINIZ: “Bom relato, melhor ainda porque nos relembra esse período que vivemos e nos anima para lutarmos contra a volta dessa época tenebrosa. No entanto, diante disso, não entendo como você não usou os seus brilhantes textos na época do impeachment da então presidente Dilma em que o ex, graças a Deus!, presidente fez a perversidade, a desumanidade, enfim o crime de em pleno voto homenagear o torturador Ustra na presença da própria torturada. Um horror!!!!”

FERNANDO GONÇALVES: “Fui amigo também de Cândido e seus irmãos Carlito (aviador já falecido), Célia, Clarice (médica já falecida que morava em Caruaru), Cláudio e Celso (professor UFPE e afilhado de meus pais). O Álvaro e a Dona Elinor eram amigos de meus pais e moravam perto da gente”.

Ministro FLÁVIO BIERENBACH: “Li sua crônica desta semana com lágrimas nos olhos”.

GIOVANI MASTROIANNI: “Tive irmãos, processados, que sofreram nas mãos de defensores da legalidade. Nem de processos penais escaparam, embora absolvidos, sob a alegação de tentarem descarrilar um trem de passageiros. Enterrei os livros que os manos costumavam ler. Hoje em dia devem ter sido diluídos com as intempéries da natureza. Não sobrou uma só página”.

GIRLEY BRAZILEIRO: “Na minha colação de grau fizemos tudo às escondidas. O paraninfo foi Celso Furtado e o homenageado era Dom Helder. Faça ideia da situação”.

HELENO VENTURA: “Na Faculdade de Direito da UFPE, também tive colegas proibidos de estudar. Época difícil. As portas da Harvard, amigo José Paulo, lhe fizeram bem”.

JOÃO FRANCISCO: “Há quase 60 anos, quando o Brasil vivia um regime militar, a cidade do Recife foi palco de diversos atentados. Mas a incursão do dia 25 de julho de 1966 entrou para a história, com bomba em pleno Aeroporto dos Guararapes. Houve excessos por parte dos militares? Evidente que houve; porém, repito, era uma guerra assimétrica. Hoje eles estão no poder e as liberdades acabaram. Posso ser preso pelo que coloco aqui pelo inquérito do final do mundo ‒ o atual A1-5”.

JORGE GEISEL: O preço da liberdade é a eterna vigilância, alertou Thomas Jefferson. Que estejamos vigilantes para não cairmos na armadilha do autoritarismo das normas excessivas, disfarçado de segurança coletiva para defesa da Democracia de fancaria”.

Desembargador JOSÉ LÁZARO GUIMARÃES: “É muito importante lembrar aquele tempo terrível. Lembrei de Cândido, vítima da ditadura, em ação contra a União, que julguei procedente, na JF-BA, por volta de 1983.

JOSÉ NIVALDO JÚNIOR (imortal da APL): “A única coisa que aproxima José Paulo do comunismo é o gosto por charutos cubanos”.

MARCO ALBANEZ: “Sincera e francamente, não tenho nem ideia do quê você pensou, como ministro ‒ quando estava no palanque ‒, vendo os militares, hoje, melancias, lhe prestando continência… (pensei, mestre, que o futuro de um povo deve se construir olhando mais que tudo para a frente). Sem comparação ao meu caso, 1970, já que tive ajuda do então Capelão do Exército padre João Barbalho, meu padrinho…”.

MARCOS ANDRÉ M. CAVALCANTI: “Hoje, o AI-5 está sendo reeditado sem precisar decretar, pelo STF/TSE e o governo Lula. A famosa ditadura alertada por Ruy Barbosa. Contra ela, não se tem a quem recorrer”.

Desembargadora MARGARIDA CANTARELLI (imortal da APL): “Quem não viveu esse tempo, não tem a menor ideia. Gerson Maciel e Egídio, meus professores queridos, sem poder mais dar aulas. Cheguei a visitar Candinho no hospital, levando uns lanchinhos. Depois, o perdi de vista. Quantas lembranças vieram com seu artigo”.

RAUL CUTAIT (do Hospital Sírio Libanes, SP): “Tempos tristes. Contemporâneos universitários que fomos, na fase da vida onde se começa a descobrir o que é liberdade, sob todos os aspectos, a pressão e a repressão da ditadura militar, com mortes de colegas e amigos”.

TEOLINDA GERSÃO (escritora portuguesa): “Nessas andanças de juventude e nos perigos que correu, o caráter moldou-se e o destino também. Festejamos agora 100 anos do nascimento do nosso Mário Soares, a quem nunca agradecemos bastante”.

WELLINGTON SARAIVA: “É extremamente importante que esses relatos se façam, para registro histórico e para que esses pedaços de verdade ajudem a construir e manter nossa ainda um tanto frágil democracia”.

XICO BIZERRA: “Elucidativas as palavras do Mestre José Paulo. Retrata razões para que sequer pensemos na volta ao passado, no retrocesso que seria reviver os tempos sombrios do período abordado”.

* * *

NATAL. O risco de recitar versos, nessa época do Natal, está bem descrito (em Versiprosa) pelo mestre Drummond

‒ Menino, peço-te a graça
De não fazer mais poema
De Natal.
Uns dois ou três, ainda passa…
Industrializar o tema, eis o mal.

Mas peço licença para lembrar o amigo Fernando Pessoa (no Cancioneiro), ao escrever sobre esse Natal

‒ Nasce um Deus. Outros morrem. A verdade
Nem veio, nem se foi: O Erro mudou
Temos agora outra eternidade
E era sempre melhor a que passou.

E é mesmo uma injustiça não lembrar também Carlos Penna Filho (Natal)

‒ Sino claro sino
Tocas para quem
Para o Deus menino
Que de longe vem…

E que lhe ofereces, velho pescador?
Minha fé cansada,
Meu vinho, meu Pão,
Meu silêncio limpo.
Minha solidão!

Que o Natal consiga tocar no coração de todos e cada um dos brasileiros num tempo tão complicado, em que desejamos sobretudo paz. O país reconciliado. Mais fraterno. O silêncio e a solidão de um povo dando vez a um riso limpo. Feliz Natal!!!

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

DITADURA E CCC

Em 1968, num 13 de dezembro como hoje, foi assinado mais um Ato Inconstitucional, agora o AI 5, rasgando o resto de direitos que ainda sobreviviam entre nós. Assim começou a mais dura fase da ditadura de 1964. Como a meninada de hoje não tem a menor ideia de como foram aqueles anos decidi celebrar ao contrário, essa data, relatando episódios curiosos (entre tantos) que então vivi. Devo estar ficando mesmo velho, ao querer lembrar do passado que passou.

Tudo começou nesse mesmo ano aziago de 1968, tinha 19 anos e estudava (terceiro ano) na Faculdade de Direito da Católica. Uma instituição privada. Só que nunca paguei nada, por lá, em razão de Bolsa de Estudos concedida, pela universidade, por conta das notas. Nesse ano fui eleito presidente do Diretório Acadêmico. E nada era mais importante, naquele tempo, que ir em busca, como no título de Boucovsky, da “Dor lancinante da Liberdade”. Mesmo sabendo que pedir Democracia, naqueles negros tempos, tinha seus riscos. Nem de longe se comparando com a moleza de agora.

Fui à Itália (onde meu pai tinha grandes amigos juristas) e França (Sorbonne), pensando continuar o curso por lá. Que, segundo informavam, os militares não permitiriam que continuasse por aqui. Sem sucesso, nessas tentativas de novo lugar para estudar. Ano seguinte, 1969, comecei a receber dezenas de cartas diárias do CCC (Comando de Caça aos Comunistas). Não era, nunca fui, mas isso os membros dessa espécie de KKK brasileira não queriam nem saber. Bastava ser a favor da Democracia e, automaticamente, para eles o cidadão era comunista. E queriam seu sangue.

Tinha um amigo, Cândido, que sofreu atentado em frente ao Museu do Estado. O pessoal da Rural Willy verde de X-9 (todos que viveram aqueles tempos lembram dela) chegou atirando. Cândido, sem ter como reagir, ficou por trás de coluna, se protegendo das balas, em um posto de gasolina que fica bem na frente. Até quando correu para o mangue, na esperança de escapar, e levou um tiro nas costas que cortou sua medula. Não morreu, ainda bem, mas ficou hemiplégico.

Decidi que algo assim não aconteceria comigo. Iria reagir, com certeza. Razão pela qual passei a andar armado. Um problema, que punha o revólver nas costas, segurado pelo cinturão, o que era incômodo. Sobretudo quando estava sentado nas carteiras, que arranhava o local. E o engraçado é que não sei atirar. Nunca dei um tiro, na vida. Não tenho revólver, nunca tive, nem lembro de onde esse veio.

Certa manhã, na Faculdade, um grupo que sabia ter gente que era do PCC me viu. E o que parecia ser chefe, por ironia um amigo, disse: “Zé Paulo, mesmo, está com medo”. E todos começaram a rir.

Achei que era demais. Fui até o grupo, encostei o cano do revólver na testa desse amigo e disse “Medo nenhum. Só peço uma coisa. Se um dia for minha vez, por favor venha na frente. Que o primeiro tiro vou dar em você”. Ele se ajoelhou no chão, dizendo “por favor, por favor”, quase chorando, fui embora e nunca mais tive problemas por lá.

Quando voltava para casa, de noite, por vezes havia pessoas estranhas circulando em volta do edifício. Nesses casos continuava, sem parar, e ficava no carro, andando, até bem tarde. E dormia só quando iam embora.

Sabendo disso tio João Suassuna (irmão de Ariano e casado com uma irmã de meu pai, Raquel), emprestou uma chave. De apartamento que tinha na Rua dos Navegantes, imediações do Corta Jaca. Quando esse pessoal aparecia de noite, ia dormir lá. Não era operação simples.

Primeiro, deixava o carro longe, para que ninguém tivesse ideia de onde estaria. O apartamento ficava no quinto andar. E era preciso que ninguém soubesse de minha presença, no edifício. O que despertaria suspeitas. Por isso, preferia subir pelas escadas; que, no elevador, poderia cruzar com algum morador. O apartamento era quente mas não podia abrir as janelas, para entrar o ar; que, então, alguém vendo saberia haver gente no local.

Mas calor não era o maior problema. Quando usava o banheiro, não podia dar descarga. Que vizinhos iriam saber, pelo barulho. O que deixava o local com um cheiro pouco agradável, fazer o quê? Para dormir, outros problemas. Que, no local, não havia móvel nenhum. Deitava no chão, claro. Sem travesseiro, o que era péssimo. Foi quando aprendi a usar os sapatos, para isso. Punha um por cima do outro, com as solas para baixo, e funcionava. Dormia bem. Dia seguinte, dava descarga e saia logo, novamente pelas escadas, até pegar o carro.

Depois, tudo seguiu seu roteiro. Fui mesmo proibido de estudar, no Brasil, pelos militares. Mais tarde, também de ensinar; pude fazer isso apenas em 1984, às vésperas da redemocratização, no Mestrado da Faculdade de Direito do Recife (uma Universidade Federal). Mas, logo depois de ser cassado, ganhei Bolsa de Estudos, com tudo pago, para Harvard. Maior universidade do mundo. “Malhas que o Império tece”, palavras de Pessoa (O menino de sua mãe) para definir o Destino. E acabou tudo bem.

No primeiro 7 de setembro depois do fim da ditadura, em 1985, eu era ministro da Justiça. Apenas 16 anos depois, do ponto de vista do tempo histórico quase nada. Estava ao lado do presidente Sarney, no palanque, para o desfile. E os militares batiam continências, para nós. Foi um dia mágico, já contei isso antes, em que me reconciliei com o país, com a bandeira, com o hino, com aqueles homens marchando, sobretudo quando vieram os ex-combatentes. Chorei muito tempo. E compreendi que o bom futuro se constrói olhando só para a frente.

Paro por aqui. Até porque isso que relatei é nada, ante amigos que foram torturados ou mortos. E conto essa historinha só para que os mais jovens saibam o valor da Democracia. Camões, no seu Os Lusíadas, falava no Velho do Restelo “com saber d’experiências feito”. Assim se diga, pois, que contei o que vivi. Como na conhecida quadrinha dos interiores nordestinos,

O caso eu conto
Como o caso foi
Porque homem é homem
E boi é boi.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (37) ‒ CEMITÉRIOS (I de II)

Mais conversas, hoje só os cemitérios e afins, em livro que estou escrevendo (título da coluna).

BLAISE PASCAL, filósofo. Cristão assumido, no leito de morte, um amigo disse

‒ Você, finalmente, irá encontrar o Pai.

‒ E tomara que eu esteja certo.

EÇA DE QUEIROZ, escritor. Em Túmulos, disse

‒ Durante a vida o egípcio tendo por pensamento, por consciência, por fim supremo do ser a ideia da morte, construía casas de barro e túmulos de granito!

FELIPA ALMEIDA MENDONÇA, jornalista. Começou entrevista, ao jornal Público, dizendo

‒ O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem.

O que lembra belo soneto do frei António das Chagas (António Fonseca Soares), no Século XII, Conta e tempo

‒ Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou, do meu tempo, dar-lhe conta.
Mas como dar, sem tempo, tanta conta
Eu que gastei, sem conta, tanto tempo?

Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado, e não fiz conta.
Não quis, sobrando tempo, fazer conta
Hoje, quero fazer conta, e não há tempo.

Oh vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em fazer conta.

Pois aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar, de prestar conta
Chorarão, como eu, o não ter tempo…

FERNANDO PESSOA, poeta. Em caderno de viagem (hoje guardado com zelo) está texto inédito seu que começa dizendo

‒ Cada palavra dita é a voz de um morto.

* * *

E, em O marinheiro, disse

‒ Por que é que se morre?
Talvez por não se sonhar bastante.

GEORGES CLEMENCEAU, presidente do Conselho da França na Primeira Guerra. Um jornal belga noticiou sua morte. Clemeceau respondeu, a seu editor,

‒ Li no jornal, que Vossa Excelência tão superiormente dirige, a notícia de minha morte. Como é uma fonte geralmente bem informada, tenho de concluir que deve ser verdade. Sendo assim, e estando agora no outro mundo, não necessito mais da leitura de seu conceituado jornal e por isso peço-lhes a fineza de riscar meu nome da sua lista de assinantes.

HENRIQUE DE RESENDE, advogado. No Cemitério de Cataguazes (MG) está esse epitáfio, em seu túmulo, escrito pelo próprio

‒ Contra sua vontade, bem se entende,
Sempre amando a vida como outrora
Aqui repousa Henrique de Resende
Que preferia repousar lá fora.

INSCRIÇÕES TUMULARES. Seguem algumas de pessoas famosas

* CONAN DOYLE. No Cemitério de Minstead (Inglaterra)

‒ Verdadeiro aço. Lâmina afiada.

* DOROTHY PARKER, atriz americana. Disse à revista Vanity Fair, em 1925, qual seria seu epitáfio

‒ Desculpe a minha poeira (o meu pó).

* EDGAR ALLAN POE. Na parte de trás do cemitério de Westminster (Estados Unidos), uma referência a seu mais famoso poema

‒ Disse o corvo, nunca mais.

* EVITA PERON. No cemitério da Ricoleta (Buenos Aires), longa citação que começa dizendo

‒ Não chores por mim.

* FRANK SINATRA. No Desert Memorial Park da Califórnia (Estados Unidos)

‒ O melhor ainda está por vir.

* KARL MARX. No Cemitério de Highgate (Londres)

‒ Os filósofos têm interpretado o mundo de várias maneiras. O ponto, contudo, é mudá-lo.

* STHENDHAL. No Cemitério de Montmarte, Paris (França), está o que escreveu para ser posto em seu epitáfio

‒ Escreveu, amou, viveu.

Na verdade queria também que constasse, e não foi atendido, “adorava Cimarosa, Mozart e Shakespeare”.

* WILLIAM SHAKESPEARE. Na Igreja da Santíssima Trindade, em sua cidade natal Strafford-upon-Avon (Inglaterra)

‒ Abençoado seja o homem que poupar essas pedras e maldito o que mover meus ossos.

Por fim, não está no seu túmulo mas foi a última frase que disse HUMPHREY BOGART,

‒ Nunca deveria ter trocado scotch por martini.

LULA ARRAES, médico (e filho do governador Miguel Arraes). Anotou esse epitáfio escrito por um poeta de Timbaúba (Pernambuco)

‒ Aqui jaz
Para seu deleite
Sebastião Uchoa Leite.

MANUEL BANDEIRA, poeta. Escreveu esse Último poema

‒ Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
E a paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

BRASIL, O FUTURO E AS ILUSÕES PERDIDAS

Lisboa. Seguimos na visão do Brasil, com parte de texto escrito em prefácio para livro de Marcos Vilaça (Itinerário da Corte, 1996). Depois de ver o passado, agora o futuro “que eu sem conhecer adoro” (Pessoa, Caeiro, O Guardador de Rebanhos). E começo já dizendo que a nova ética, que estamos a construir, deveria ser de inclusão. Sobretudo social. Mas pouco a pouco perdemos, como país, o sentimento do coletivo. E esse amanhã é incerto.

Nossos filhos estão fora das escolas ou se formando em quartos fechados. Crianças que encontram amigos nos Estados Unidos, na França ou no Japão, pelas telas de computadores ou celulares, embora sejam cada vez menos capazes de convidar seus vizinhos de porta para jogar bola juntos; que encontram pessoas diferentes, mas não procuram seus iguais; que conhecem o mundo, mas talvez não conheçam a sua terra. O que preocupa, porque os novos padrões de solidariedade social de que tanto precisamos provavelmente serão menores que os atuais.

Talvez tudo se passe por outros caminhos, é certo. Ou, quem sabe?, tenhamos apenas o inexorável resultado do progresso. Mas talvez estejamos assistindo a algo ainda pior ‒ à institucionalização da apartação, à sagração do indivíduo, ao nascimento de uma democracia de solidão.

Nosso futuro tem como cenário um surto conservador nas sociais-democracias, a deterioração das economias socialistas nos primeiro e segundo mundo, e o fim do ciclo nacional-desenvolvimentista no terceiro mundo. Sem que se saiba se caminharemos em direção à consumação da globalização, a integrações regionais ou mesmo a algum tipo de retorno aos nacionalismos, cada vez mais evidente.

Em meio a tantas incertezas, nossas elites vivem a perplexidade de não ter alternativas; de não ter projetos; de já não ter sonhos que valham a pena cumprir. Incapazes de exercer sua função histórica de antecipação aos fatos. Não por acaso um dos autores da moda continua sendo Hobsbawm (A Era dos Extremos), com sua visão pessimista dos novos tempos. E em todas as esquinas cada vez mais, como realidade política, o que se vê é o surto das igrejas evangélicas e messiânicas.

Apesar de tudo, é hora de acreditar em novos tempos, para estabelecer relações entre o Brasil dos shopping centers e o Brasil dos excluídos; entre os setores de ponta da economia e sua base fordista; entre o aumento de renda dos assalariados e um mínimo de recursos para os sem emprego e sem salário. Porque já começa a germinar, no coração do indeterminado cidadão comum, a semente da indignação nacional.

Só que tudo ainda é indefinido. O controle à corrupção deixou de ser prioridade, sobretudo por conveniências ideológicas. Estamos por exemplo de acordo que é inadiável reformar o Estado, mas essas reformas de alguma maneira antecipam um novo papel que deveriam exercer no desenvolvimento nacional, e isso não vem sendo sequer conversado. Parecemos condenados a optar entre o protecionismo despudorado de nossa antiga economia e a submissão às novas regras do jogo internacional; entre o discurso repetitivo da modernidade neo-liberal e o terceiro-mundismo de nossa esquerda ortodoxa; entre o adesismo e o ressentimento.

Por fim, falta decidir como (ou se) será possível conciliar políticas compensatórias e estabilidade; como (ou se) vamos apostar algum dia na educação, como instrumento de cidadania; e como (ou se) será possível operar reformas sociais contra a base conservadora que se apoderou do congresso e da mídia. Sem contar que ainda corremos o risco de, se a escolha for copiar servilmente instituições e políticas de países já ricos, sermos apenas mais pobres, mais dependentes, mais desiguais e mais tristes que eles.