JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CINTILOGRAFIA DO MIOCÁRDIO

Cláudio Manuel, filho do grande José Cláudio (os dois pintores), é mais conhecido como Mané Tatú. Um apelido que vem desde os tempos em que podia pegar o bicho do mato, e comer, sem cometer crime inafiançável. Foi fazer esse exame, Cintilografia do Miocárdio, para “avaliar o fluxo sanguíneo nos vasos e artérias que irrigam o coração”, e contou como foi.

Lembro de outro amigo querido, João Ubaldo Ribeiro, autor de Viva o Povo Brasileiro e cadeira 34 da Academia Brasileira de Letras. Estávamos todos em Ipanema, grupo grande (Millôr e companhia), almoçando na cobertura de Eliene e Chico Caruso – gênio desenhista, da Globo. Foi a pessoa mais engraçada que conheci. E decidiu contar um exame na próstata que fez. Levantou e passou mais de uma hora explicando. O exame de Mané Tatú lembrou as agonias do João Ubaldo. Como escreveu tudo e me mandou vou dividir aqui, com os leitores, a narrativa dessa experiência.

“Foi como a maratona. Dei entrada na recepção. Uma amiga ficou nas cadeiras, depois chegou junto. Acompanhamento até pagar, de 1.900 por 1.805. Moça simpática, Cintia, colocou a pulseira para identificar pacientes em atendimento. Entramos nós três na área das salas e cadeiras e máquinas. Alaska é mais quente. Conferir nome, data nascimento, etc., pulseira.

“A amiga foi convidada a sair por causa das radiações. Ficou vindo me ver, de vez em quando, não sei como deixaram. Foi bom porque o celular fica sem sinal. Alex, o enfermeiro, me levou para colocar bata nua. Uma coisa ridícula. Depois colocar o acesso, foi dor demais, errou, veia estourou, tapei os olhos, sangue. Eu disse porra, puta que o pariu, tá doendo caralho. Tirou. Ele disse abra o olho só quando eu terminar. Tentou outra veia e, milagre, acertou. Finalmente limpou tudo, entrada na mão direita. Aplicou soro gelado. Aplicou contraste. Dez voltas no recinto, para espalhar a droga. Fui pra sala de espera, etapa A.

“Tomar três copos d’água. Uma hora de espera. Sala com seis adultos mulheres e homens, todos de bata. Todos igualmente com acessos. Das 13:00 às 16:00hs. Chamados sra. Fulana, sr. Beltrano, e assim a fila andava. Seu Cláudio. Fui lá. Banheiro, xixi. Medo. Nervoso. Primeira vez na xscam. Deitado. Imóvel. Não pode respirar fundo. Não pode tossir. Não pode mexer. Vai começar. Eu disse pare, quero tossir. Vai começar.

“Começou. Fique imóvel por 12 minutos. Pode fechar o olho. Mas não durma. Demora anos, esses 12 minutos. Terminou. Me ajuda a levantar. Sala de espera, uma hora.

“Seu Claudio, segunda etapa. Esteira com fios e contraste. Sem bata. Chega o médico, Dr. Eduardo Paixão. Olá, boa tarde, aguenta andar? Sim, pouco. Quando cansar avisa, ok. Eletrodos. Contraste novamente. Começou. Olha pra frente. Segura sem fazer força nas mãos. Tudo bem com o senhor? Sim. Acabou. Vá pra sala de espera.

“Etapa 3. Mais uma hora de espera. Terceira máquina. Deitado. Mais um copo de líquido. Doze minutos imóvel. Terminou. Tira acessos. Pode ir. 16:40hs saímos. A amiga disse que dormiu, acordou, foi lá me ver e tal. Tinha uma senhora de uns 80 anos, bem abusada. Que demora! Que demora! De três em três minutos ela dizia Mônica Brito. Disse que foi operada em Atlanta por dr. Pacífico. Pedi licença para peidar.

“Aí falei, de maneira educada, minha senhora preciso ir lá fora para rezar. Ela não entendeu e disse não pode. Reze dentro da área. Resultado. Fui rezar (digamos assim) quatro horas depois. Que sufoco. Abraços. Mané, como eu previ, teu exame foi normal. Está indo bem. Fique tranquilo. Não estou escondendo nada. Tudo está sendo feito com critérios e cuidados. Para garantir sua segurança, o médico André Valença respondeu”.

Em resumo, nosso Mané sobreviveu. Escapou, talvez seja uma descrição mais adequada. João Ubaldo, faltou dizer, não tinha nada. O exame foi inútil. A humilhação, na dedada que tomou, desnecessária. Com Mané Tatú deu-se algo semelhante. Está em plena forma. Pronto pra outra. Viva Mané!!! O risco é ter que repetir, qualquer dia desses, acontece.

P.S. No Mercado de Campo de Ourique (de Lisboa, nosso preferido), em meio a cerejas do Fundão e melões Pele-de-Sapo, apareceu agora côco. Alvíssaras. Vendido, aqui, por 14,50 euros o quilo. Maria Lectícia comprou um que tinha cerca 1,1 quilos. Traduzindo, saiu por mais de 100 reais. E a gente reclamando quando, em Boa Viagem, o barraqueiro cobra 2, 3, 5 reais por um… A explicação, para o preço, é que “vem do Brasil”. Deus do céu. Amargo côco.

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NOTÍCIAS DE PORTUGAL

Lisboa. Seguem mais notícias da terrinha que, de alguma forma, lembram nosso Brasil.

ASSALTOS. Começou no interior, como em Covas (Alto Minho), com ladrões assaltando cemitérios. Durante a noite. Para levar adornos e artigos religiosos. Só que, dali, estão passando a também procurar casas. Ocupadas, não só as vazias. A paz desses lugares mais remotos está em crise; e o risco, agora, é ver isso também nas cidades maiores. É bom rezar.

AUTISMO. O jornal PUBLICO informa que o secretário da Saúde dos Estados Unidos, Robert F. Kennedy Jr., pediu ao Centro para Controle de Doenças (CDC) um estudo sobre as relações entre vacinas (ele é contra todas elas) e autismo. A partir de artigo pelos centros científicos já considerado fraudulento, do ex-médico e ex-cientista Andrew Wakefiel (que ganhou 400 mil libras para assinar esse estudo). Quando, na base de dados médicos da PUBMED, se vê centenas de investigações (uma delas com 1,2 milhões de crianças) provando não haver qualquer relação. Ainda bem.

BOFETADA. A filha de 18 anos, no jantar, pede que se faça a partilha dos bens da mãe. O pai de 41, como resposta, lhe deu bofetada na cara. Segundo ele “foi um castigo leve, sua intenção era corrigir a filha”. O Tribunal de Almeida decidiu aplicar, a esse pai, multa de 860 euros (seis mil reais). Engraçado é que, desse montante, coube à filha só 300 euros (2 mil reais). Indo, os restantes 560, ao Estado. Por qual razão?, o Tribunal esqueceu de dizer.

BOLSA FAMÍLIA DE PORTUGAL. São os “Cartões Sociais Eletrônicos”, utilizados pelos mais pobres. Hoje, apenas 39 mil pessoas. Só que o número vem aumentando. Ainda longe, claro, dos 20,5 milhões de famílias cadastradas no Bolsa Família do Brasil.

CARDEAL TOLENTINO. Manchete do PUBLICO diz “O poeta e teólogo Tolentino de Mendonça vence prêmio Eduardo Lourenço 2025”. O prêmio, enorme no mérito literário, em dinheiro é modesto, comparado com o Nobel. Apenas 7,5, contra 800 mil euros (8 milhões de coroas suecas). Mas é significativo, até pela homenagem ao filósofo Eduardo Lourenço; que, para muitos, é quem mais merecia o prêmio Nobel de Literatura dado a Portugal.

CASAS PENHORADAS. Manchete do TSF informa: “Comprar casas penhoradas já não é mais barato: preços estão ao nível do mercado imobiliário”. Uma forma de adquirir imóveis a bom preço foi sempre ir aos leilões judiciais dos imóveis com dívidas. O site do Ministério da Justiça, gerido pela Ordem dos Solicitadores e dos Agentes de Execução, informa que, até agora, se conseguia comprar cada imóvel por 85% do seu valor de mercado. Só que a falta de moradias está elevando muito, esse percentual, e não se pensa que vá melhorar. Pena, para possíveis compradores.

EMPREGOS. Se o leitor for português, trata-se de uma boa notícia. A Noruega, considerado “país menos corrupto da Europa” (e quarto do mundo), está oferecendo 14 mil empregos. Com salários médios de 5.473 euros (35 mil reais). Quem se interessar, basta procurar na internet a rede EURES. Sem exigência de vistos de trabalho. A relação inclui soldadores, cozinheiros, enfermeiros, motoristas de caminhão, auxiliares de enfermagem, entre outros.

EUTANÁSIA. O PÚBLICO LX noticia que o “Suicídio assistido”, já aprovado pela Assembleia da República (o Congresso de Portugal, que não tem Senado), ainda não foi validado pelo Tribunal Constitucional. Discute-se lá 3 cláusulas que os portugueses não sabem quais são. É um debate complicado.

FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE LISBOA. Acaba de abrir concurso para selecionar 15 estudantes estrangeiros. Para se candidatar, precisa só falar português e inglês. Brasileiros podem usar as notas do ENEM. Quem estiver interessado, aproveite.

IDOSOS. Nos últimos três anos morreram, em Portugal, 757 idosos, sozinhos em suas casas (455 homens, 302 mulheres). É o preço da solidão.

JUDICIÁRIO. Primeira página do PÚBLICO declara: “É grave a interseção do poder judicial no processo democrático”. Dentro, em longa matéria, está que “A judicialização das políticas é uma das mais graves ameaças à democracia”. E a gente pensando que era só no Brasil…

MÃES ESTRANGEIRAS. Manchete principal de O PÚBLICO diz “Em 3 distritos (cidades), quase metade dos bebês são filhos de mães estrangeiras” – Algarve, Lisboa, Setúbal. E, com a presença crescente de imigrantes, esse número tende a ser cada vez maior. Em seis anos, mais que dobrou o número de bebês de brasileiras nascidos em Portugal. Só em 2024, foram 9.683. E acabam de ser descobertas Redes de Imigração ilegais em 17 freguesias (bairros) de Lisboa, que fabricam milhares de atestados falsos de residências e com testemunhas repetidas. Há hoje dezenas de processos sendo julgados, para punir os responsáveis, no Tribunal Central Criminal de Lisboa.

Não é um cenário simples. A experiência europeia começa a se fazer sentir em Portugal. Na Bélgica bairros inteiros, como o de Molembeel, são hoje ocupados sobretudo por mulçumanos. Em Paris, estão nos Banlieus ou bairros da periferia. Em Portugal locais como Cova da Moura e bairros próximos, nos subúrbios de Lisboa, são tomados por imigrantes de Angola, Cabo Verde e Moçambique. Que, ao menos, falam português. Mas há também a imigração hindustânica, nos bairros históricos, cuja maioria não fala português (nem vai falar). Por toda Europa há 100 mil pessoas esperando ser formalmente admitidas como imigrantes. Suspeita-se que, por trás de muitos, possa estar o jihardismo do Estado Islâmico.

São imigrantes diferentes daqueles de nossa história. Só para lembrar filhos de japoneses, no Brasil, não falam a língua de seus ancestrais. Só sabem português. Os pais, em casa, falavam japonês entre eles, apenas, jamais com os filhos. Para que se integrassem na nossa cultura. Já os imigrantes de agora não pretendem fazer parte dos seus novos locais. Ao contrário instalam, no novo mundo, pequenos pedaços de suas terras natais. Um cenário complicado, para os da terra. Que cada vez mais, em todos os países, são contra essa imigração. Basta ver o resultado das últimas eleições, em Portugal, com o crescimento do Chega. E com a derrota dos socialistas, responsáveis por deixar a imigração disparar de 5% para 20% no país.

MORADIAS DE APOSENTADOS. Os Norte-americanos são, depois dos brasileiros, aqueles que mais adquirem moradias no interior de Portugal. Para ocupar, quando se aposentem. Os da Califórnia preferem zonas de praias. Os de Miami ou Orlando, Cascais. Os mais urbanos, Lisboa e Porto. Também estão crescendo espaços de habitação “Co-living” ‒ imóveis com áreas pequenas e cozinhas comunitárias, lavandarias comuns e salas de trabalho usados junto com outras pessoas. Por conta do baixo custo. No Brasil ainda não temos isso, graças.

ORÇAMENTO. Não apenas aqui no Brasil o orçamento é um arranjo. Em Portugal, “despesas relacionadas com a área da Defesa” não contam mais como gastos do governo. Pior é que a própria Comissão Europeia está requerendo adesão a essa “Cláusula de Derrogação Nacional”. Querem que todos os outros países façam o mesmo. As contas do governo por toda parte são, cada vez mais, obras de ficção.

PRESENTES. Assim como Deputados, funcionários do parlamento agora só podem aceitar presentes de valor igual ou inferior a 150 euros (aproximadamente mil reais). Por conta de novo Código de Ética e Conduta dos Funcionários Parlamentares, que acaba de ser aprovado.

RAPARIGAS. Manchete do PÚBLICO LX diz “Rapazes votam mais na extrema direita do que raparigas”. Duas observações. Uma. Como nos jornais do Brasil, aqui não há “direita”, é sempre “extrema-direita”. Nem há “extrema-esquerda”, é sempre só esquerda. Outra é que o título, mesmo sabendo nós que se trata de mocinhas, ainda causa estranhezas aos brasileiros.

SERVIÇOS DE TAXI. Comemora-se, este ano, os 100 anos dos primeiros taxis em Portugal; criados, em 22/04/1925, por Fernando Casimiro Manso ‒ a Cooperativa Lisbonense de Choffeurs. Num tempo em que se via, pelas ruas, só elétricos (bondes), carroças e uns poucos automóveis. Eram 11 veículos da marca Citroen, mais conhecidos como “Taxis Palhinhas”, por terem bancos revestidos por palhas trançadas. Com 20 cavalos, faziam até 70 quilômetros por hora. E esse número inicial logo aumentou para 100 veículos. Uma novidade, literalmente, revolucionária no país.

SUS DE PORTUGAL. Os imigrantes estão indignados com os médicos portugueses, que não falam suas línguas. E, como eles não falam português, simplesmente não conseguem dizer o que sentem. Uma balbúrdia. Do nada surgiu, agora, proposta que parece satisfazer a todos. O de por, em cada unidade de saúde, um “Google tradutor”. Espera-se que resolva. As novas tecnologias, quem diria?, permitindo que os humanos se entendam.

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ANISTIA

Lisboa. Início dos anos (19)70, na mais dura fase da Ditadura Militar (de 1964), comprei um pequeno veleiro e fui registrar na Capitania dos Portos (era, e continua sendo, obrigatório). O nome que escolhi foi “Ann’s Tear”. Traduzindo, a “Lágrima de Ana”. Só que lia-se Anistia. Para que da praia se pudesse vê-lo, todo branco, nas águas de um mar com mais fraternidade.

Na véspera do registro, por precaução, fui conferir no dicionário. E só então percebi que “tear”, além de “lágrima”, também pode ser traduzido por “buraco”. Assim, dependendo de quem lesse, poderia ser “Lágrima de Ana” ou “Buraco de Ana”. Para evitar esse risco registrei só como “Ann’s Tia”. Mistura sem muita inspiração de inglês e português, a “Tia de Ana”. Mas, na praia, todos entendiam a mensagem. E apreciavam o navegar doce daquele Anistia.

Voltemos ao presente. Segundo o senador Eduardo Girão (Novo-CE), desde 1822, nossa História registra mais de oitenta anistias no Brasil. Entre elas de sequestradores, assaltantes e assassinos. Lembro de uma. O caso se deu de 2 a 4/12/1959, passando a ser conhecido como a Revolta de Aragarças. Uma tentativa de golpe feita por oficiais da Aeronáutica e do Exército para derrubar o governo JK. Foi quando tivemos o primeiro sequestro de avião no Brasil, um Constellation de Panair, que decolou do Santos Dumond (Rio) na direção de Manaus e sobrevoava Barreiros (na Bahia). Levava 46 pessoas (38 passageiros). A revolta deu em nada. Que nem a ONU, nem o Exército, nem a opinião pública, ninguém apoiou, levando os revoltosos a fugir para países vizinhos.

Sufocado o movimento, mais tarde, JK tratou de providenciar anistia para os revoltosos. Nosso padrinho de casamento, encontrávamos com ele sempre em seu apartamento no Rio. E, um dia, conversei sobre esse episódio. Então relatou fato curioso. Disse que, quando foi assinar o documento da anistia, os cabelos de seu braço levantaram. Como o pelo dos gatos, quando têm medo. Como se fosse um prenúncio. Não assinou e devolveu a caneta à mesa. Os cabelos voltaram ao normal. Pegou de novo a caneta e, novamente, os cabelos levantaram. Era como uma antevisão do futuro.

Assinou, assim mesmo, por pressão dos amigos. Para poucos anos depois, logo ao início da Ditadura de 1964, ver seu mandato de Senador ser cassado e perder os direitos políticos (em 08/06/1964). Por mãos de alguns dos anistiados por ele, em Aragarças, que foram voz ativa nessa violência. Perguntei se estava arrependido de ter assinado a tal anistia, respondeu que não. Segundo ele, o Brasil precisava mesmo se reconciliar.

Esse tema da anistia voltou a debate quando estávamos na Comissão Nacional da Verdade. Durante os trabalhos, discutimos a questão de punir os responsáveis por torturas, mortes e desaparecimentos forçados de 1964. Antes de seguir, bom lembrar que precederam no mundo, a nossa Comissão Nacional da Verdade brasileira, outras 40 comissões semelhantes. Mais notória sendo a da África do Sul, criada em 1994 por Nelson Mandela e sob direção de Desmond Tutu ‒ um arcebispo da Igreja Anglicana que foi prêmio Nobel da Paz dez anos antes.

E nenhuma dessas 40 comissões anteriores foi criada com o fim específico de fazer justiça. Ou de por, na cadeia, os responsáveis por torturas e mortes. A ideia era, basicamente, só recontar a história do que se passou; e, também, preparar as bases para uma transição menos traumática, em cada país, entre os horrores de antes e os novos tempos.

Tanto que a já referida Comissão da África do Sul tinha só três subcomissões: violação a direitos, reparação e anistia. O que se buscava, sobretudo, era o conhecimento da verdade. Aquilo que aconteceu, de fato, naquele passado triste.. Para quem confessasse o que fez, sendo garantida anistia automática. Valendo notar que não houve uma única prisão, no curso ou por conta (depois) de todas essas outras comissões, em nenhum país.

Com relação à anistia ampla e recíproca, concedida no Brasil aos dois lados naquele tempo (permitindo voltar ao Brasil Arraes, Brizola e outros), é comum dizer que a Lei da Anistia (nº 6.683) foi votada, em 28 de agosto de 1979, por pressão dos militares. Sobretudo para proteção deles próprios. Com certeza foi assim. Ocorre que houve outra Lei da Anistia, posterior no tempo, da qual pouco se fala. Como se nunca tivesse existido.

Foi a única exigência feita pelos militares, nas negociações da transição. Para beneficiar os responsáveis pelo RioCentro, que se deu na noite de 30 de abril de 1981. Posterior, portanto, à primeira lei (que é de 1979). Tancredo concordou. Por ser algo necessário, para o país. Morto, coube a Sarney honrar seu compromisso. O que foi feito com a Emenda Constitucional nº 26, de 27 de novembro de 1985 (art. 4º, com sete parágrafos). Votada por um Congresso livre de quaisquer pressões. O mesmo que elegeu Tancredo, opositor civil ao Regime Militar. Uma regra não apenas mais recente, no tempo, como também de nível superior ao das leis ordinárias, posto que passou a constar da própria Constituição.

Membros de nossa Comissão (menos eu) pretenderam recusar dita anistia, para que todos os responsáveis ainda vivos (bem poucos) fossem julgados, condenados e presos. Na votação das “Recomendações”, na Comissão Nacional da Verdade, votei a favor dela. Textualmente, assim ficou registrado: “Baseado nas mesmas razões que, em 29 de abril de 2010, levaram o Supremo Tribunal Federal, no julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 153, e com fundamento em cláusulas pétreas da Constituição brasileira, a recusar, por larga maioria (sete votos a dois), essa tese”. Em razão do que nenhum dos envolvidos, de parte a parte, poderá mais ser punido. A menos que o Supremo modifique seu entendimento. A reação da imprensa foi de amplo apoio a essa posição de reconhecer e validar a anistia. Com Editoriais de todos os grandes jornais do país, a favor.

Essa minha posição, a favor da anistia, não é portanto nova. Vem de bem antes. O Brasil, hoje, é outro. Nossas prioridades, outras. Mas somos um país conturbado. E, sobretudo, precisamos de paz. Algo cada vez mais difícil de acontecer. Que o governo politiza a questão, como um meio de impedir que adversários sejam candidatos. E aqueles que deveriam responder por isso mais que todos, no Supremo, são os que mais promovem a radicalização e o confronto. Como se tivessem um ódio ancestral, no coração; sangue, nos olhos; e falta de qualquer piedade, roendo seus corpos. O que é muito ruim.

Por isso, amigo leitor, reitero aqui uma ideia simples. A de que num país fraturado, como o nosso, nada é mais importante, necessário e urgente, que promover a paz social entre os brasileiros. Com uma grande anistia. Política, claro, e não da roubalheira que hoje se espraia. Deixo aqui minha opinião. Cada um pense como quiser, tem direito, afinal vivemos numa Democracia. Será? Para encerrar, lembro poema recente (Exílio) do amigo português Manuel Alegre que diz:

Havia uma casa.
Havia uma pátria.
Éramos vinte ou trinta nas margens do Sena
Onde o vento cantava
Uma canção estrangeira.

É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

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CONVERSAS DE ½ MINUTO (41) ‒ ESCRITORES

Lisboa. Mais conversas, hoje só com escritores e afins, em livro que estou escrevendo (título da coluna).

ALBERTO VENÂNCIO, da Academia Brasileira Letras – ABL. Perguntei, no passado que passou,

– Amigo, o que é preciso para entrar na Academia?

– Primeiro entrar, depois ser eleito.

ANTONIO CARLOS SECCHIN. Na Academia Brasileira de Letras, candidato pediu seu voto com um soneto lastimável. Secchin preparou resposta, na hora, Homero ou Petrarca?

– Amigo, seu soneto é um colosso,
Isso eu faço questão de lhe dizer.
Porém votar está virando osso
Cada vez mais difícil de roer.

Como escolher entre Homero e Petrarca?
Melhor um narrador ou um sonetista?
Todos deviam entrar nessa arca,
Cabe um topázio e cabe uma ametista.

Todavia, o comboio é bem restrito:
São quarenta lugares, nada mais.
Se pudesse, confesso, bem aflito,
Duzentos eu faria imortais!

Agora, amigo, revelo sem jeito
Voto em você, mas num próximo pleito.

* * *

Manuel Bandeira dizia que um poema de Racine, composto por 12 versos monossílabos, seria impossível de igualar: Le jour n´est pas plus pur que le fond de mon coeur (O dia não é mais puro que o fundo do meu coração). Secchin conseguiu essa proeza memorável, e talvez até superou, no enorme poema Luz:

– Ao ver
o não
que sai
da dor
o som
da voz
já vai
no sim
no tom
do céu
não vi
mais luz
do que
no sol
que há
em mim.

* * *

ARIANO SUASSUNA, da ABL. Em uma de suas aulas-espetáculo disse, de nosso país,

‒ Alemanha bebe cerveja
Já Brasil bebe Pitú
Alemanha toma na taça
O Brasil toma na rima.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, poeta. Tinha barco a vela que batizei com verso de seu Poema de sete faces (aquele do “Mundo mundo, vasto mundo), que era “Mais vasto é o meu coração”. Mandei foto e ele respondeu:

‒ Meu verso num barco ‒ haverá maior prêmio para um poeta?

DOMÍCIO PROENÇA, escritor. Marcos Vilaça (presidente da ABL) recebeu convite para falar, em São Paulo, sobre a literatura brasileira. Sem tempo para escrever, explicou ao amigo que estava numa enrascada. Sem dizer nada ele, dia seguinte, lhe entregou o discurso já pronto. Depois, Vilaça disse como foi:

‒ Seu Domício, você foi aplaudidíssimo.

EDUARDO GALEANO, escritor. Em seu livro Os filhos dos dias, escreveu:

‒ Dezembro, 11.

No final de 2010, o escritor José Paulo Cavalcanti concluiu sua Pesquisa de muitos anos sobre alguém que sonhou ser tantos. Cavalcanti descobriu que Pessoa não abrigava cinco, nem seis: levava cento e vinte e sete hóspedes em que corpo magro, cada um com seu nome, seu estilo e sua história, sua data de nascimento e seu horóscopo. Seus cento e vinte e sete habitantes haviam assinado poemas, artigos, cartas, ensaios, livros… Alguns deles tinham publicado críticas ofídicas contra ele, mas Pessoa nunca havia expulsado nenhum, embora deva ter sido difícil, suponho, alimentar uma família tão numerosa.

EMÍLIO DE MENEZES, poeta, da ABL. Morreu amigo dos dois conhecido como Enxada. E Emílio informou a Machado de Assis, então presidente da ABL:

– MACHADO, ENXADA FOI-SE.

FERNANDO SABINO, romancista. Informado pelo filho de que Otto, Paulo Mendes Campos e Hélio Pelegrino estavam na Europa, seu Domingos (pai de Oto) não se conteve:

‒ E é tempo de jaboticaba, por lá?

* * *

Chega um jovem escritor com seu primeiro livro, de 800 páginas, e pede:

‒ Por favor, mestre, dê sua opinião sobre minha obra.

‒ Perdão, mas não tenho tempo.

‒ Então escreva o prefácio.

‒ Se não vou ler, como posso fazer isso?

‒ Pelo menos dê o título.

Sabino achou que era demais e respondeu à altura:

‒ Tem tigres?

‒ Como?

‒ No seu livro tem aqueles animais da África?

‒ Não.

‒ E tubas?, como nas bandas do interior.

‒ Também não.

‒ Então esse título poderia ser Nem tigres, nem tubas.

‒ E o senhor vá para a puta que o pariu.

‒ Vou, com prazer, desde que não tenha que ler a merda do seu livro.

FRANCISCO SEIXAS DA COSTA, Escritor e embaixador de Portugal na ONU, no Brasil e outros países. Anos 70, estava em sua sala no Ministério dos Negócios Estrangeiros de Lisboa e toca o telefone:

‒ Pode fornecer o telefone da casa do embaixador (e deu o nome)?

‒ Não prefere ligar para a central?

‒ Sou filho do embaixador. Ou me quer dar o número ou não quer.

Como esse pai era seu amigo (preferiu não dizer o nome), perdoou a grosseria. Procurou e informou, ao jovem que ligava. Sem agradecimentos, por isso. Dia seguinte, um colega:

‒ Já sabes do filho do embaixador “fulano”? Suicidou-se ontem.

Conferiu a hora, foi pouco depois do telefonema que recebeu.

GILBERTO FREYRE, sociólogo. No solar de Santo Antônio dos Apipucos (Recife), para José Lins do Rego o “Vaticano do Recife”, era usual receber pessoas ilustres ‒ de Jânio Quadros a Carlos Lacerda, do cineasta italiano Roberto Rosselini ao conde inglês sir John Russel. Servindo sempre, a todos, seu famoso Conhaque de Pitanga. Preparado por ele mesmo com pitangas vermelhíssimas, colhidas em seu pomar e colocadas em garrafas com cachaça de cabeça. Mais canela da casa e um licor de rosas fabricado por freiras do Convento do Bom Pastor (Garanhuns), que exigia fossem virgens. Quanto ao sabor, não há consenso. Segundo lenda, o romancista norte-americano John Roderigo dos Passos bebeu uma garrafa inteira sem reclamar. Enquanto Rubem Braga provou só meio cálice, fez muxoxo e disse “prefiro uísque”. Naquela tarde a liturgia e a pompa, na sala, eram as mesmas. Ocorre que sua mulher interrompeu a conversa mostrando, a todos, um envelope fechado:

– Querido, correspondência para Gilberto Freire sem ipslon. Que faço?

– Devolva, destinatário desconhecido.

Admitindo fosse algo importante, ou mesmo alguma conta para pagar, insistiu:

– Mas não seria bom abrir, antes, para saber do que se trata?

– Magdalena, é crime violar correspondência alheia.

* * *

Apesar de brigar com Oswald de Andrade, sempre o elogiava, reconhecendo ter sido fiel aos ideais da semana de 22. E ele próprio contou essa história, numa conferência. Quando morreu o cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva (Lampião), Oswald reclamou:

– Puxa, e por que não aproveitaram para também matar Gilberto Freyre?

HUMBERTO WERNECK, cronista (e contador de histórias). Em seu discurso de posse na Academia Mineira de Letras, comentando o fato de que muitos engordam depois da posse na Academia Brasileira:

‒ É mais fácil entrar na Academia que naquele fardão.

JESSIER QUIRINO, poeta. Fotografou na Feira do Rangel (bairro do Cristo Redentor), em João Pessoa, cartaz de uma empresa desentupidora de fossas com essa placa que é verdadeira poesia:

‒ Limpa fossas “A Rainha da Merda”.

JORGE AMADO, romancista. No livro Toda a saudade do mundo (A correspondência de Jorge Amado e Zélia Gattai), palavras de Jorge Amado:

– “Ontem jantávamos, à noite, no Leite… No outro extremo da sala, numa mesa grande, jantava uma família. Dessa mesa saíram duas meninas, de uns dez ou onze anos, e vieram me pedir autógrafo num caderno de notas (eram, pelas idades, Lia e Hebe – irmãs logo abaixo de mim). Dei o autógrafo e cumprimentei, com a cabeça, o pessoal da mesa. Pai e mãe das crianças. Muito bem. Jantamos lauta e esplendidamente. Boa comida e refrescos de mangaba e cajá. Sobremesa, café. A família da outra mesa retirava-se já, nós nem notamos quando saíram. Chamamos o garçom para pagar mas, em vez da conta, ele trouxe uma garrafa de champagne Viúva Clicquot, francesa legítima. Serviu-nos, declarando que o jantar nosso estava pago, incluindo champagne, conhaque, licores e tudo o mais que quiséssemos, pelo doutor José Paulo Cavalcanti, meu leitor e pai das duas meninazinhas. Diante de que Paulo e Dóris Loureiro, logo acompanhados por Tânia e Carlos Pena, puseram-se a cantar o hino de Pernambuco”.

Meu pai teria gostado, se lesse.

JORGE LUIS BORGES, romancista. Em 1955, um ano depois da morte de Evita (que o prestigiava), Perón demitiu Borges de uma sinecura na Biblioteca Nacional de Buenos Aires. Reação de Borges:

‒ Perón é um miserável.

Mas não durou muito, no poder; que, logo, foi para o exílio. Voltou depois brevemente, ao governo, para morrer em 1973. Pediram opinião de Borges, sobre ele, na esperança de que fosse generoso. Resposta:

‒ Perón é um miserável morto.

ROBERTO DA MATTA, antropólogo. Dei parabéns por ter recebido o prêmio Machado de Assis (votei nele), da ABL. Respondeu:

‒ Você é o melhor amigo de infância que fiz depois de velho.

* * *

Lembrava sempre, ao mestre Onésimo Teotônio Almeida, provérbio popular italiano atribuído a um autor célebre:

‒ Il Dante dice:
Si la forza é bene,
Avante con il pene
Si la forza mingua,
Avante con la lingua
Si l’esforzo è nulo,
Avante con il culo.
Ma… sempre avante!

RUBEM BRAGA, cronista. Era de Cachoeiro de Itapemirim, como Roberto Carlos. A Ditadura Militar proibiu Oswaldo França Júnior, piloto da Força Aérea Brasileira, de voar. Sob acusação de ser subversivo. Decisão cruel porque não sabia fazer outra coisa, na vida. Ruben, com sua conhecida ironia, observou:

‒ Ainda bem que não era Oficial de Infantaria. Poderiam tê-lo proibido de andar a pé.

RUY CASTRO, da ABL. Carioca da gema, foi contratado como jornalista para passar algum tempo em São Paulo e voltou só 16 anos depois. Perguntei:

– Por que demorou tanto?, amigo.

– É que o Rio nos seduz e São Paulo nos suborna.

XICO BIZERRA, poeta e músico. Certo dia, viu o doido de estimação da rua subindo num poste. E o interpelou:

– Que vai fazer lá em cima, doidinho?

– Vou chupar manga.

– Mas isso não é uma mangueira.

– Eu sei, é um poste, a manga está no meu bolso.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

UMA GRANDE HISTÓRIA

Essa é a história improvável de um menino que trocou sua infância pela aventura (quase insensata) de conquistar o mundo. Por saber, desde cedo, qual roteiro estava prometido para ele – o de escapar das entranhas do Brasil popular e profundo para ser um dos grandes personagens de seu país.

Em bem conhecido livro escrito há exatos 50 anos, Surveiller et punir, Michel Foucault dizia que ao ver riscos deixados na neve era capaz de saber os pesos e as habilidades dos esquiadores. Razão pela qual concluiu “A identidade é uma trajetória”. O que vale para o presente caso. Aqui, neste livro, se fala dos caminhos percorridos por João Carlos Paes Mendonça. O que faz lembrar o poeta do rio Guadalquivir, Don Antonio Machado Ruiz, em Proverbios y cantares:

“Caminhante, são tuas pegadas
O caminho e nada mais
Caminhante, não há caminho
Se faz o caminho ao andar”.

Falava de barcos sem nenhuma rota, nas águas em frente, só com “estrelas no mar” pelas quais se guiam os navegadores. Deixando, atrás de si, espumas que podem ser seguidas. Como uma estrada. Uma vereda. Um caminho. E lembro, pela proximidade nos temas, salve António Gedeão (na verdade Rómulo Vasco da Silva Carvalho) que, em Impressão digital, escreveu:

“Inútil seguir vizinhos
Querer ser depois ou antes
Cada um é seus caminhos
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São Gigantes”.

Uma bela definição, “cada um é seus caminhos”. O dos esquiadores na neve, de Foucault. O dos navegadores, no mar de Machado. Os que definem o personagem desse livro, a partir de Gedeão, ao mesmo tempo como Sancho e Quixote. O Escudeiro na compreensão de que, para sobreviver na atividade econômica, deveria jogar as regras do mercado. E fez isso bastante bem, não há dúvida, tanto que é hoje um dos mais importantes empresários do país. Mas foi também o Cavaleiro Andante, nas ações sociais, em que igualmente se destacou de maneira exponencial. Cumprindo, na vida, pelo menos três compromissos principais. A ver:

O primeiro compromisso é íntimo, com o ser correto numa dimensão ética. Razão pela qual sempre mereceu respeito de todos e cada um dos que cruzaram com ele, nesse mundão de meu Deus. Desde muito jovem, que já estava trabalhando na loja do pai quando todos em volta, na sua idade, ainda jogavam bolas de gude. E pensou generosamente, sempre, sem limites, cercas ou fronteiras.

O segundo compromisso é com o coletivo. Nos comentários econômicos que publica nos jornais, por exemplo, não se apontará um sequer em que tenha defendido interesses pessoais. Ou de suas empresas. São sempre temas ligados a algo mais amplo, o interesse público. Como o embate contra as desigualdades regionais. A falta de racionalidade no planejamento da ação governamental. Mais recentemente, a necessidade de desburocratizar o país. A preocupação com o futuro. E nunca em tom de frustração, de lamento, de perda, sentimentos hoje banalizados em nossas elites. Ao contrário, demonstrando sempre confiança no futuro. A mesma que teve quando saiu, sem sair, de Serra do Machado.

O terceiro compromisso, aquele que considera hoje mais relevante, é com o social. Em razão do que vai passar pela existência deixando marcas a perdurar. Ele, que veio de baixo e ascendeu pelo duro suor do rosto, sentia no coração que seu dever seria o de permitir que tantos jovens, como os que um dia foi, tivessem a chance concreta de ter inclusão social a partir de educação e ensino de ofícios. No sonho implausível de escrever seus próprios destinos. Uma missão, literalmente, redentora. E faz isso já por quase todo o Nordeste, como adiante se verá melhor nessas folhas.

Em Serra do Machado seu Zezinho, com rosto que parecia fazer parte da paisagem, apontou a casa de sua família dizendo “João nasceu aqui”; e confirmou, em seguida, “com 9 anos ele já tomava conta da loja do pai”. A imagem talvez seja uma chave para desvendar aquela trajetória que é sua identidade. Indicando que se pode partir, sem nunca partir realmente. Sua presença, naquela pequena cidade, era um resgate da infância que não teve. Um como que retorno às origens da família, aos sonhos e às memórias de um tempo sem volta. Um compromisso com crianças quase sem futuro. Provando que difícil nem é vir de um lugar perdido no mapa, como Serra do Machado, para ser cidadão do mundo. Difícil, mesmo, é vir de Serra do Machado e não esquecer disso. Sem se perder no caminhar.

Robert Frost (em Poemas completos) escreveu: “Alguns dizem que o mundo acaba em fogo/ Outros dizem que em gelo”. No seu caso, não é o mundo que finda, mas começa, com o fogo – o livro e a história adulta dele próprio. No tanto em que as chamas, ao destruir tudo que tinha construído até então, valem como um convite a começar de novo. Com ânimo redobrado. Com uma força que vem de dentro. E esse fogo haverá de perdurar em torno dele, para sempre, nas gerações que virão. A partir de seu exemplo.

No fundo, este livro revela uma trajetória nada comum, a de um homem incomum. Razão pela qual é com alegria e justiça que se vê agora, em livro, a saga majestosa de João Carlos Paes Mendonça.

*Prefácio para O grupo e a trajetória de JCPM, livro lançado nesta segunda (12/05/2025).

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A ARTE DE CONVERSAR

Os homens, no começo, comunicavam-se por gestos. Ou símbolos. Até hoje, ao menos alguns gênios. Como Rubem Braga, que era de Cachoeira de Itapemirim, a terra de Roberto Carlos. E, todas as madrugadas, falava com Millôr Fernandes (os apartamentos eram próximos) mexendo os braços, como aprenderam na marinha. Millôr começava:

‒ B/o/m/ d/i/a/.

E Rubem, exagerando como sempre,

‒ B/o/m/ d/i//a m/e/u/ c/a/r/o/ c/o/l/e/g/a/ d/e/ p/r/a/ç/a/s/ e/ d/e/ m/a/d/r/u/g/a/d/a/s.

Saudades dos amigos queridos. Só que esse tipo de comunicação logo foi substituído pelas palavras. Também aqui havendo problemas, com relação às distâncias, que a voz ia só até onde o ouvido pudesse escutar. Cito um caso. Emilio Menezes, na Academia Brasileira de Letras, odiava o confrade Oliveira Lima ‒ por Gilberto Freyre definido como Quixote Gordo. Quando estava no Rio, não era sempre, Oliveira e sua mulher, Flora, todas as tardes saiam de braços dados para caminhar em Copacabana. Emílio ficava na esquina do edifício e, quando passavam, dizia com altura de voz suficiente para que Oliveira, pobre dele, pudesse ouvir

‒ Aí vão a Flora e a Fauna da literatura brasileira.

Com o tempo, essa comunicação foi mudando. E conversas, entre pessoas próximas, passaram a se dar também por formas diferenciadas. Seguem três exemplos, em conversas de que participei com outros amigos, todos especiais na minha vida. E, com cada um deles, aprendi muito. Sobretudo vendo a vida por outros olhos, mais serenos e tranquilos, compreendendo a beleza que se pode ver na natureza, nas obras dos homens, nos gestos. Grandes personagens.

O primeiro foi Noberto Bobbio, de Turim (Itália), para Luigi Ferrajoli (L’itinenario di NB: della teoria generale del diritto alla teoria dela democrazia) “maior filósofo teórico do Direito e maior filósofo da política”. Fui seu primeiro tradutor, no Brasil (texto inicial, Diritto e Forza). Nossas conversas ocorreram sempre via cartas; hoje, diria Pessoa, em “tintas remotas e desbotadas” (Álvaro de Campos, O esplendor dos mapas). Até cheguei a convidá-lo para vir ao Recife. Respondeu de maneira curiosa, dizendo não, preferia ficar em casa, “que já começo a sentir as primeiras mordidas da velhice”. Apesar disso viveu bem e só nos deixou em 2004, com 94 anos.

O segundo foi Carlos Drummond de Andrade, a partir de 1985, dois anos antes do seu fim. A relação começou quando, na Capitania dos Portos, registrei o nome de um pequeno barco a vela, que tinha, usando verso de seu Poema das sete faces (aquele do “Mundo, mundo, vasto mundo/ Se eu me chamasse Raimundo/ Seria uma rima, não uma solução”), que era “Mais vasto é o meu coração”. E mandei foto dele ao mar, navegando. Respondeu com bilhete, que até hoje guardo, “Meu verso num barco ‒ haverá maior prêmio para um poeta?” A partir daí, conversávamos com frequência às noites. Por telefone. Andava já longe dos tempos em que se divertia falsificando a assinatura do ministro da Educação, seu chefe Gustavo Caponema, em bilhetes que enviava para os amigos. Estava, desde a morte da filha única Julieta (câncer), já desencantado com a vida. Por vezes repetia frase que antes escrevera, “do meu passado só restam mortos” (Claro Enigma). Não durou muito depois de se sentir sozinho e nos disse adeus em 1987.

O terceiro foi o uruguaio Eduardo Galeano. Nossas conversas se deram sempre a partir de e-mails em que se assinava HUGALE ‒ uma espécie de heterônimo a partir do nome, eduardo HUGhes GALEano. Das definições que costumava lembrar me encantou uma que citava sempre, do amigo Fernando Birri, sobre a utopia: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos e se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais o alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”. Estávamos acertando uma vinda sua à praia da Lagoa Azul, para provar do mar de Pernambuco, quando começou a sofrer com um câncer injusto. Ao encerrar conhecido poema (O direito de sonhar), escreveu que “Neste mundo…/ Seremos capazes de viver cada dia como se fosse o primeiro/ E cada noite como se fosse a última”. E assim se deu, pena, sua última noite ocorreu em 2015.

Só que, hoje, tudo vai sendo substituído pela internet. Que ela é quase Deus; por ter, como ele, os dons da Ubiquidade, da Onisciência e da Onipotência. Sem contar que, depois da inteligência artificial, as coisas vão ficando ainda pior. E já pressinto aquele dia inevitável em que vai aparecer, na telinha do computador, um cidadão que tenha como endereço eletrônico OTODOPODEROSO@CÉU.COM, em mensagem dizendo

‒ Bons dias, amigo José Paulo, estou à sua espera para jantar.

Se assim for, e quando for, estou preparado para responder

‒ Não posso, escusas, que vou encontrar com um neto.

Para, espero, ele responder

‒ Lamento não ter tido um, fiquei só com o Filho, pena para mim. Considerando suas palavras, então, vamos deixar nosso encontro para o próximo ano. Graças. Adeus.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

A DEUSA CORRUPÇÃO

Vyshareth era deusa da corrupção, da crueldade, da decadência e da morte. Descrita, nos livros de mitologia, como “astuta, cruel, maliciosa, misteriosa, odiosa, rancorosa”. Mas não é dela que se falará, por aqui.

O título da coluna se inspira no ministro do STJ (que por muitos anos fez parte de nosso TRF da 5ª Região, onde foi Presidente), Marcelo Navarro Ribeiro Dantas. Vi foto de uma placa, em praia do Rio Grande do Norte, e perguntei se seria aquela na qual está sua casa. Dizia

‒ BAR CÚ DO MUNDO.

Ele reagiu como um poeta

‒ Se fosse na minha praia (Pirangi), deveria ser BARCO DO MUNDO.

Usando o sistema do ministro, para definir este pequeno artigo, teríamos então como título certo aquele pelo qual os cidadãos de bem deste país tanto anseiam, ainda,

‒ ADEUS À CORRUPÇÃO.

Durante algum tempo até pareceu que andávamos no caminho certo, com a Lavajato. Questão central, mais que problemas formais como foro mais (ou menos) adequado, é que sobretudo incomodava muitíssima gente. O Poder Econômico, com as maiores empreiteiras e grandes grupos empresariais do país. A Classe Política, com parlamentares em risco, muitos deles presos. Dirigentes partidários, quase todos já condenados. Até ministros do Supremo que recebiam propina, como “O amigo do amigo de meu pai” ‒ todos sabem quem é. Seria necessário acabar com essa tentativa de moralização, e logo, quem essa Força-Tarefa pensa que é? O Brasil precisava, na visão utilitária desses, voltar a ser o que sempre foi, um paraíso da corrupção. E dos corruptos. E assim se deu, ao fim. Pena.

A prisão de Collor agora ocorrida, nesse contexto, é quase uma ironia. Vemos (quase) todos os condenados, processados ou envolvidos naquelas práticas eticamente deploráveis, em cargos públicos. No centro do poder. Um deles, mesmo condenado a 400 anos, passeia em Copacabana, faz selfies, dá entrevistas às televisões e já diz que será candidato no próximo ano (2006). Com a convicção íntima de que jamais voltará às cadeias. Só Collor (e Renato Duque, dois num mundo), em cana. É injusto. Ou todos os corruptos na cadeia, ou todos na farra, diria se vivo estivesse o amigo Millôr.

Um sistema como o nosso, onde o mau exemplo vem de cima, tem consequências deploráveis. Essa roubalheira do INSS por exemplo, hoje nas páginas de todos os jornais, aconteceu somente porque os beneficiários acreditavam permanecer impunes. A começar pelo próprio ministro. Em divertida charge de J. Caesar, um cidadão pergunta “‒ Roubaram os aposentados no INSS, como os ladrões chegaram lá?”. E outro responde “‒ Foram nomeados”. É isso. Com os precedentes espraiando suas consequências. Dizem os jornais que até um irmão do presidente da República é chefe de uma das instituições beneficiadas. E não acontece nada com ele?, cabe perguntar. O sangue vale como proteção? Só vão para cadeia os peixes pequenos?

Nesse passo, bom lembrar o Sermão do Bom Ladrão proferido, em 1655, pelo padre António Vieira. Na Igreja da Misericórdia (Conceição Velha, Lisboa), perante D. João IV e sua corte. Palavras suas: “O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Uns furtam debaixo do seu risco, estes sem temor nem perigo: os outros se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam”.

Até coisas simples parecem não incomodar os poderosos. Um ministro do Supremo vai num avião da FAB ver, em São Paulo, um jogo do Corinthians. Depois volta, naquele avião enorme com um só passageiro, em viagem não republicana. Tudo custeado pelo povo brasileiro. E não vê nisso nada demais? Todos sabem que está errado, só ele não. Ele e seus colegas do Supremo. Quem pode, pode, no íntimo diz (dizem). Já se preparando para viajar, de novo, no próximo jogo. E tudo protegido por sigilo de 5 anos decretado pelo Presidente da República, sem razão decente para determinar tal sigilo.

É constrangedor ver corruptos de outros países, como o Peru, sendo condenados e presos por conta da mesma roubalheira da Odebrecht que aqui já não incomoda os poderosos. E a reação do governo é risível. Concede asilo a uma condenada de lá e a traz para sua nova casa em avião da FAB, tudo pago com recursos do povo brasileiro. Por solidariedade humana?, como dizem. Ou porque ameaçou abrir o bico e contar quem ajudou na operação, em nosso país?, segundo alguns jornais. Eis a questão. Nunca se saberá, com certeza.

Em resumo, ainda sonho com o dia em que o Brasil vai virar um país mais limpo, mais correto, mais honesto que o de hoje? Será pedir demais?, amigo leitor. E já que de Vieira falei, nesse texto, encerro com ele no mesmo Sermão: “Nem os reis podem ir ao paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao inferno sem levar consigo os reis”. Ao menos isso.

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FRANCISCO, JÔ, VILAÇA

Uma procissão de mortos. Vida injusta, amigo leitor, que os três eram mesmo especiais. Deus do céu, nesse mundo de hoje, quando tantos outros fariam menos falta… Mas segue a vida. E aqui vão, sobre cada um deles, umas poucas palavras desimportantes.

1. PAPA FRANCISCO. Numa cantoria, os amigos João Paraibano e Sebastião Dias (saudades deles) encerraram um dos baiões de abertura (em sextilhas, sempre sobre um tema específico), dizendo

– O Papa da Argentina
Deixa a gente muito grata
Em vez de um anel de ouro
Preferiu anel de prata
Parece que ele não gosta
De usar broche nem gravata.

Esses cantadores… Papa usando broche? Ou gravata? Como é que pode? O próprio Francisco responde (numa entrevista sobre Tomás de Aquino): “Pedimos ao Senhor a capacidade de sorrir, a vida tem sempre algo para se sorrir. O senso de humor é um certificado de sanidade. O senso de humor humaniza. Humaniza tanto…”.

2. JÔ SOARES. Numa conversa, Jô disse

– Maior sonho que tenho é o de ser Papa. Mas isso não posso, e é pena.

A ele expliquei que o Vaticano era uma Monarquia. Há dois tipos delas. Uma sanguínea, como a Inglaterra, onde só podem ser escolhidos aqueles de sangue nobre. “Azul”, assim se diz (embora seja tão vermelho como o nosso). Se chamam Reis (ou Rainhas). Enquanto a outra Monarquia é por votos (um só país, o Vaticano), dirigida por Papas.

Para ser um deles, precisa somente ser batizado. E recordei, a Jô, o Cânon 332 do Código de Direito Canônico: “Se o eleito não tiver caráter episcopal, será imediatamente ordenado Bispo”. Fosse ele e seria, então, Bispo Jô. E, em seguida, Papa (com o nome que escolhesse).

Sobre quem pode eleger, nisso teria que tomar providências. Expliquei que o Canon 33 do mesmo Código de Direito Canônico restringe, o colégio eleitoral, aos “Cardeais da Santa Igreja Romana com exceção daqueles que, antes do dia da morte do Sumo Pontífice ou do dia no qual a Sé Apostólica ficar vacante, tenham completado 80 anos”.

Naquele tempo, não lembro mais quantos eram. Hoje são 136, dos quais 108 nomeados por Francisco. Dito isso sugeri ao Gordo que bastava ele conseguir, em Roma, apoio para que os cardeais votassem nele.

– Quero não.

– E por que?, homem.

– Vai dar muito trabalho.

E preferiu abdicar do sonho para continuar vivendo a vidinha boa que levava no seu belo duplex de Higienópolis (bairro nobre de São Paulo). Viva Jô.

Este colunista sendo entrevistado no Programa Jô Soares

3. MARCOS VILAÇA. Nas sessões da Saudade do querido Vilaça, na Academia Brasileira de Letras e também na Academia Pernambucana de Letras, comecei dizendo

‒ Vilaça e eu não tínhamos nada em comum; e, portanto, tínhamos tudo em comum.

Explico melhor. Referi o momento em que nos conhecemos, em 1969, quando nosso Brasil vivia os mais duros anos da sombria Ditadura de 1964. Vilaça ocupou cargos importantes, em nosso estado e no país. Entre eles o de ser uma espécie de ministro da Cultura, quando foi Presidente da Fundação Pró-memória; diretor dos Centros Sociais Urbanos; ou diretor da Caixa Econômica Federal. Depois, ainda foi Ministro do TCU (e seu Presidente).

Enquanto eu apenas queria mais Democracia. O que me levou a ser proibido de estudar, no Brasil; e, depois, também proibido de ensinar. Sem contar ameaças do CCC e outros incômodos. Sobre esse tempo dr. José Paulo pai, me vendo calado (jamais esquecerei), disse

‒ Meu filho, se incomode não que um dia você ainda vai por tudo isto no seu currículo.

Mas essas diferenças jamais interferiram em nossa relação. Por fora da pompa e circunstâncias, prevaleceram sempre as relações pessoais. O que nos levou a ser compadres pelos dois lados. Maria do Carmo e ele, padrinhos de nosso casamento e dos filhos; Maria Lectícia e eu, padrinhos nos casamentos dos filhos dele.

Conto apenas um episódio, ocorrido naquele tempo, para dar exemplo de nossa relação. Era eu presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito da Universidade Católica. E, certa vez, chegou por lá um militar da PM sem farda, em roupas civis, que disse

‒ O comandante da PM quer falar com o senhor semana próxima, no escritório dele.

Talvez por conta de processo que respondia por lá (depois cancelado, por envolver militar que frequentava um Hospital psiquiátrico, qualquer dia conto isso melhor). Respondi

‒ E onde está a intimação?

‒ O convite é de boca.

‒ Já que de boca é diga ao comandante, de boca também, que não vou.

Desapareceu do lugar e voltou 20 minutos depois, com (agora) uma intimação. Era para ir no dia seguinte, às 6:00hs da manhã, ao quartel da Polícia Militar.

‒ Agora sim, diga ao comandante que amanhã estarei na sua sala, com muito prazer.

Não sei se ele percebeu a ironia na resposta. E a hora foi uma espécie de vingança. Tanto que fiquei esperando, sentado, desde aquela hora bem cedo, até o meio da manhã, quando o comandante afinal chegou. Minha preocupação era só o fato de ser comum, naquele tempo, que opositores do governo desaparecessem como por encanto. E fiquei preocupado que algo assim também pudesse acontecer comigo. Então passei na casa de Vilaça, entreguei a ele a tal intimação, e disse

‒ Amigo, fique com esse papel. Se amanhã não aparecer em casa até a noite, você sabe onde estou. E, por favor, diga isso aos velhos.

Assim eram nossas relações que, com o passar do tempo, ficaram mais e mais sólidas. E por que digo isso?, agora. Para indicar que, mesmo em tempos duros, as pessoas podiam conviver bem. Havia mais compreensão. As relações pessoais eram prevalentes.

Passam os anos e chegamos ao Brasil de hoje, amigo leitor. Radicalizado. Irritado. Desalentado. Onde as pessoas têm dificuldades para conviver. Até dentro das famílias. Com sangue nos olhos. O passado era melhor que o presente. Pobre de nós. Pobres país. Saudades de um Brasil que não existe mais.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (40) ‒ PROFESSORES

Mais conversas, hoje só com professores e afins, em livro que estou escrevendo (título da coluna).

ANATÓLIO JULIÃO, cientista social. Fundação Joaquim Nabuco. Conferência de Per-Erik Nilsson, principal Ombudsman da Suécia (Justitieombudsman, escolhido pelo Congresso). Como só falava sueco, junto dele estava um tradutor. Na hora das perguntas levantou Anatólio, filho do grande Francisco Julião (das Ligas Camponesas), e dirigiu-se à mesa dos trabalhos

– Como fazemos?, Presidente, eu falo e o tradutor traduz?

– Se preferir, primeiro o tradutor traduz; e, depois, o senhor fala.

Tumulto na sala, com todos gozando Anatólio. Cinco minutos depois, tentou falar mas não conseguiu, pois um gaiato gritou

– Cale a boca, idiota, que o tradutor ainda não traduziu nada.

Outros cinco minutos de algazarra. O que surpreendia todos era a tranquilidade de Anatólio. Como se aquilo tudo não fosse com ele. Novamente em paz, o recinto, afinal começou

– Dr. Per-Erik Nilsson.

E desembestou a falar em sueco. Era o único no recinto, afora o Ombudsman e seu tradutor, a falar essa língua. Aprendeu quando era porteiro de inferninho, em Estocolmo, acompanhando o pai exilado. E falava como se estivesse por cima da carne seca. Tinha mesmo razão, então se viu, naquela pergunta de antes. Primeiro ele falou; e depois o tradutor traduziu, aquilo que foi por ele dito, para a plateia de ignorantes ali presentes. Ao encerrar olhou para mim e disse, baixinho,

– Ri melhor quem ri por último.

CELINA PINA, mulher do dr. Sizenando Carneiro Leão. Antônio, seu filho querido, iria ser doutor pela Sorbonne. A realização de um sonho. Dia da viagem e o Aeroporto dos Guararapes estava cheio com família, empregados, periquito, amigos, cachorro, vizinhos, o mundo inteiro para dar adeus a Toinho. Na hora do embarque, a velha o chamou para conversar

‒ Queria lhe dar três conselhos, filho. Um, estude muito para ser o primeiro lugar da classe. Dois, de noite, não saia para beber nem raparigar. Três, e sobretudo, nunca diga a ninguém que nasceu em Pernambuco.

‒ Minha mãe, os dois primeiros conselhos até entendo, mas esse terceiro?

‒ É por ser muita falta de educação contar vantagem.

CRISTOVAM BUARQUE, ministro da Educação. E candidato (com meu voto), dia 30, à Academia Brasileira de Letras. Num táxi em Dakar (Senegal), considerando que a poligamia naquela terra é autorizada por Maomé (ele próprio me contou essa história), perguntou ao motorista

– Quantas esposas o senhor tem?

– Uma só. E pode me dar muitos filhos, ainda.

– Quando ficar velha, troca por outra mais nova?

– Não, doutor. Posso até casar de novo mas ela é muito boa, para mim, mantenho as duas.

– E você não acha errado ter várias mulheres?

– Não. Errados são vocês, no Brasil; que, quando a mulher fica velha, mandam embora e casam com outra mais nova.

– E quem foi que lhe disse isso?

– Eu que vi.

– Onde?

– Nas novelas da Globo.

FLAVIO BIERRENBACH, ministro do STM. No antigo Ginásio Mackenzie. O professor de português Nestor Costa, vulgo Expressinho, disse qual seria a prova. Uma redação sobre o que cada um gostaria de ver publicado no dia seguinte ao da sua morte. Flávio tirou 10 com texto de só três linhas

– Morreu ontem em São Paulo com 99 anos, baleado na porta da Catedral da Sé, o ex-presidente da República Flavio Bierrenbach. Socorrido na escadaria, o extinto ainda teve tempo de balbuciar três palavras: FOI O CORNO.

JOAQUIM SÍLVIO CALDAS, colega de classe na Faculdade de Direito da Católica e juiz do Trabalho. Certo dia chegou seu pai, o Professor Caldas. Comprou um Renault caindo aos pedaços e veio pedir, ao padre Cassiano, para benzer. Assim foi feito. Ocorre que ao sair de lá, na esquina da Dom Bosco com a Rua dos Médicis, bateu num poste com perda total. Indignado com a ineficiência da tal benção, poucos minutos antes, voltou à Faculdade para reclamar

– Bati com o carro, padre.

– Lamento.

– Mas o senhor acabou de benzer ele.

– Era para benzer? Então desculpe, entendi errado. O que dei, a seu pobre veículo, foi uma Extrema Unção.

MÁRIO HENRIQUE SIMONSEN, economista. Numa conferência, em São Paulo, estudante dirigiu pergunta à nossa mesa

– Professor Mário Henrique Simonsen…

Mário interrompeu

– Meu filho, considerando o salário miserável dos professores, o que é que você tem contra mim?

PESSOA DE MORAES, professor. Armando Monteiro Filho, secretário de Viações e Obras Públicas de Pernambuco (que contou essa história), estudou com ele no Salesiano. E, condoído pela penúria financeira do antigo colega, o nomeou para cargo na secretaria. Com a missão de preparar editais de Concursos Públicos. São enormes, até hoje. Primeiro deles, para vigia de escola, Pessoa redigiu em uma única linha

– Precisa-se de vigia. Requisitos, insônia e boa pontaria.

Mais nada. Constrangido, dr. Armando transferiu o velho amigo para cargo em que causasse menos danos.

* * *

Na Televisão Universitária encheu o peito e, com aquela modéstia bem sua, encerrou programa que tinha por lá, Supremum Organorum, olhando para a câmera

– O Brasil precisa de Pessoa de Moraes!!!

Dia seguinte mandei telegrama (naquele tempo, não havia zap)

– Perdão, Mestre, mas discordo. O que o Brasil precisa, mesmo, é de pessoas de moral.

Dona RACHEL CORREIA DE CRASTO (registrada só como Rachel, depois de adulta entrou com ação para completar seu nome), educadora. Cursei todo o primário com ela, na primeira turma do Instituto Capibaribe (uma experiência pensada por ela e Paulo Freire). Quis sempre ser freira. E viveu toda vida como uma, verdade seja dita. Aposentada, e já com mais de 70 anos, chamou para conversar em seu modesto apartamento na Rua das Graças

– Meu filho, queria lhe pedir um favor.

– Diga, dona Rachel.

– Casamento é coisa séria. As pessoas se lançam em aventuras, você sabe como é.

– Sei.

– É o seguinte, só agora sinto que estou preparada para casar.

– Sim?

– E queria que você me arranjasse um noivo.

UNIVERSIDADE DE HARVARD. Na placa de avisos, um chamava atenção. Convocando, quem quisesse ir, para reunião do Partido Comunista. Dentro do próprio campus, Democracia é isso. Fui, por curiosidade. E vi quando um militante pediu a palavra

– Sugiro eliminar o prefeito de Cambridge (cidadezinha, onde fica a Universidade, separada de Boston pelo Charles River). Essa morte iria chamar atenção para nossa causa.

– Sou contra, ele é amigo, melhor encontrar outra forma de protestar.

E seguiu, sem conclusões, esse debate inacreditável. Como o número de espectadores (que não participavam da reunião) no anfiteatro era grande perguntei, a um colega próximo, se alguém ali era da polícia. Ele

– Quase todos.

Fosse aprovada, tal proposta, e provavelmente iriam ser presos. Na hora.

* * *

Uma das tarefas que assumi, coordenando projeto da Unesco, foi dar curso em Harvard. Aproveitei para visitar a Winthrop House, um dos edifícios em que alunos se hospedavam; e onde residi, por algum tempo, quando estudava lá. Estava quase igual. Diferente só as árvores em volta, agora bem maiores, tendo então portaria. Como não havia ninguém lá tentei chegar ao primeiro andar, onde ficava o apartamento que ocupei. Foi quando, já no meio da escada, veio um porteiro ‒ com mais de dois metros e cara de poucos amigos

– Está procurando alguém?

– Sim.

– Quem?

– Eu.

Ele, primeiro, pareceu não entender. Mas logo riu e disse, com simpatia,

– Espero que encontre.

VENUSA SÁ LEITÃO, professora de português. Fim do biriba que semanalmente jogava com minha mãe e outras amigas, no Prado, e constatou que seu carro havia sido levado por um amigo do alheio. O filho foi buscar, para prestar queixa na delegacia e levá-la de volta. Passando pelo Shopping Center Recife, decidiu entrar

– Vamos embora, mãe.

– Depois. Agora, vamos passear pelo estacionamento.

– Por quê?

– Tem muito carro, por aqui.

Inútil argumentar com mãe obstinada. Ficaram percorrendo as filas, bem devagar, com janelas abertas e ela tocando na chave. Até que ouviu um bip.

– Pode parar.

Procurou, encontrou, e foi embora guiando seu querido carrinho. Só não se sabe o que aconteceu com aquele pobre ladrão ao descobrir que o carro foi roubado por algum colega desalmado.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

OPINIÕES, PALAVRAS E VOTOS

Recife. Já de volta. Lisboa, que para o amigo Fernando Pessoa era só “uma eterna verdade vazia e perfeita” (Lisbon Revisited), agora é passado. Ir é bom, mas voltar é melhor. Muito melhor. E começo essa primeira coluna no retorno lembrando, por sua importância institucional, a cassação da Deputada Federal Carla Zambelli pelo TRE de São Paulo. Na mesma linha dura do Supremo. Alinhados, os dois. Algo preocupante pela carga ideológica que traz.

Fundamento dessa medida, segundo a Folha de São Paulo, foi não apenas o uso de uma arma (para o qual, aliás, tinha licença); mas, especialmente, o “abuso na liberdade de expressão”. Não, amigo leitor, você não está lendo errado. Falar, nos tempos atuais, passou a ser algo perigoso. Arriscado. De quem não tem juízo. Sobretudo se for contra o sistema. Sigamos no exame do caso.

Fundamental, numa Democracia, é o direito que todos temos (ou deveríamos ter) de dizer o que quisermos. Afinal, de que adianta uma consciência livre se não podemos falar?, eis a questão. Obedecendo aos limites fixados na lei, claro. Respondendo, sempre, nos casos de Calúnia, Injúria e Difamação ‒ arts. 138, 139 e 140 do Código Penal.

Com relação a parlamentares, esse direito foi sempre amplíssimo. Em regra que formalmente, no essencial, não vem mudando. Basta ver nossa Constituição de 1967, que dizia: Art. 34. “Os Deputados e Senadores são invioláveis no exercício do mandato, por suas opiniões, palavras e votos”.

Também a seguinte, de 1969: Art. 32. “Os Deputados e Senadores são invioláveis no exercício do mandato, por suas opiniões, palavras e votos, salvo no caso de crime contra a honra”. Ambas, nos sombrios anos do autoritarismo de 1964.

Chegando a nossa atual Constituição de 1988, já na Redemocratização, que define o tema com quase as mesmas palavras: Art. 53. “Os Deputados e Senadores são invioláveis, civil e penalmente, por quaisquer de suas opiniões, palavras e votos”.

Conformando esse espectro das Imunidades Parlamentares, os estudantes de Direito Constitucional aprendem que elas, usando palavras de Georges Burdeau (Traité de science politique), são “privilégios que garantem o livre exercício do mandato”. E correspondem a uma proteção contra atos praticados no cumprimento específico de suas funções (“irresponsabilidade”) ou mesmo estranhos às atividades parlamentares, como crimes comuns (“inviolabilidade”).

Aprendem também que essas imunidades não são muito diferentes, de um país a outro ‒ em alguns poucos exemplos Itália (art. 68 da Constituição), França (art. 26), Espanha (art. 71), Japão (art. 51). Na Inglaterra, o mesmo direito que tem o parlamentar de dizer o que quiser sem ser processado, tem também qualquer cidadão, desde que em espaços públicos e com os pés fora do chão (como se estivesse num púlpito) ‒ devendo por isso falar sobre bancos de praça, caixotes ou mesmo prosaicos lenços. Já vi no Hyde Park, em Londres, um cidadão pulando enquanto, no ar, falava (muito) mal da rainha. Num de seus cantos, por lá, funciona um Speakers Corner (esquina dos oradores) onde, todos os domingos pela manhã, pessoas comuns (e alguns excêntricos) se reúnem para falar de assuntos diversos, sobretudo religiosos e políticos. Com total liberdade.

Aprendem mais os estudantes que essa regra tem variações, por vezes melhor definindo responsabilidades; como na Alemanha (art. 46, único país que admite limitação no direito de falar), onde os parlamentares respondem sempre que ocorra “injúria infamante”; ou acentuando o corporativismo, como no caso do Brasil (art. 53), onde o parlamentar pode ser preso apenas em flagrante de crime inafiançável ou em processo instaurado com autorização do poder legislativo (uma regra pouco usada, nos outros países). Em todos os casos sendo reconhecida doutrinariamente, essa imunidade, como uma garantia da própria representação política.

Sabemos hoje que a proteção amplíssima dos parlamentares, na versão que agora dá à Constituição o Supremo, passa a ter limites. Não tem limites, pela Constituição. Mas tem, segundo o Supremo. O de não se poder fazer “críticas que ameacem a Democracia”. Mas quem define quais seriam essas críticas ou de que ameaças se trata?, esse o problema.

Já vivemos isso, antes. Na Ditadura Militar de 1964 as garantias formais para o Parlamento, como vimos, eram as mesmas de agora. Só que nada se podia dizer que ameaçasse a “Segurança Nacional”. Nem falar de censura ou torturas. Muito menos de mortos e desaparecidos políticos. E quem definia isso?, meus senhores. Os próprios militares, claro. O sistema. O direito era absoluto, na Constituição; e seletivo, nas mãos do tal sistema.

A história se repete mesmo, volto a dizer. E não só como farsa. Provando que mais razão tinha o florentino (Maquiavel, O príncipe) que o prussiano (Marx, 18 Brumário). Antes, a liberdade para falar era só um mito, hoje também. Antes era a “Segurança Nacional”, hoje a “Democracia”. Antes, o que os militares quisessem, hoje o que os ministros do Supremo querem (ou concedem).

A Deputada Carla Zambeli sustentou que nosso sistema de votação não é seguro. Esse o seu excesso, segundo o TRE. E a ironia é que não mentiu. Porque, em todas as Democracias importantes do primeiro mundo, urnas são auditáveis. A partir de 1990 foram sendo introduzidos, em todos os países, com um mesmo padrão ‒ o DRE (Direct Recording Eletronic); sendo admitidas, no Brasil, só em 1996. Mas, a partir de 2015, quase todos os países do planeta passaram a ter urnas auditáveis. Enquanto nós, não.

O próprio Congresso determinou isso, em 2015, com a Lei 13.165 ‒ estabelecendo a auditagem das urnas. Só para ver o Supremo dizer que a Lei não valia, para ele. Pela razão, quase inacreditável, de que “permitiria a identificação do votante”. Um sistema que não permite isso em nenhum lugar do planeta, mas que poderia se dar no Brasil. Como?, senhores.

Sem contar que, nas Democracias que se prezam, quem faz leis é o Poder Legislativo; enquanto, no Brasil, valem só as leis reconhecidas ou criadas pelo Supremo. Conformando um novo Poder Legislativo, por fora da Constituição.

Carla Zambelli (946.244 votos) é (ou era) deputada. E não lhe valeu a imunidade conferida pela Constituição. Pior é não ser a única sofrendo punição. No caso dela, é o TRE. Na mesma linha, agora pelo próprio Supremo, o Deputado Federal Daniel Silveira está preso por fazer críticas aos ministros da Casa. E o Deputado Federal Marcel van Hattem sendo processado por dizer que um agente da Polícia Federal mentiu. Tudo funcionando como uma ameaça do tipo “cuidado, senhores; é mais prudente, para sua saúde, ficar calado”. Perdão, amigo leitor, mas isso não é Democracia.

Clemenceau dizia “A Democracia? Vocês sabem o que é? O poder dos piolhos de comerem os leões”. (Pequena filosofia de bolso). Só que, no mundo real, ganham sempre os mais fortes. Os poderosos do sistema. Vamos ter que dizer, nesse estranho tempo em que vivemos, apenas o que os leões da Justiça Eleitoral e do Supremo permitirem. Sem críticas, claro. Em resumo, é isso.