Mais conversas, hoje só os cemitérios e afins, em livro que estou escrevendo (título da coluna).
BLAISE PASCAL, filósofo. Cristão assumido, no leito de morte, um amigo disse
‒ Você, finalmente, irá encontrar o Pai.
‒ E tomara que eu esteja certo.
EÇA DE QUEIROZ, escritor. Em Túmulos, disse
‒ Durante a vida o egípcio tendo por pensamento, por consciência, por fim supremo do ser a ideia da morte, construía casas de barro e túmulos de granito!
FELIPA ALMEIDA MENDONÇA, jornalista. Começou entrevista, ao jornal Público, dizendo
‒ O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem.
O que lembra belo soneto do frei António das Chagas (António Fonseca Soares), no Século XII, Conta e tempo
‒ Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou, do meu tempo, dar-lhe conta.
Mas como dar, sem tempo, tanta conta
Eu que gastei, sem conta, tanto tempo?
Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado, e não fiz conta.
Não quis, sobrando tempo, fazer conta
Hoje, quero fazer conta, e não há tempo.
Oh vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em fazer conta.
Pois aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar, de prestar conta
Chorarão, como eu, o não ter tempo…
FERNANDO PESSOA, poeta. Em caderno de viagem (hoje guardado com zelo) está texto inédito seu que começa dizendo
‒ Cada palavra dita é a voz de um morto.
* * *
E, em O marinheiro, disse
‒ Por que é que se morre?
Talvez por não se sonhar bastante.
GEORGES CLEMENCEAU, presidente do Conselho da França na Primeira Guerra. Um jornal belga noticiou sua morte. Clemeceau respondeu, a seu editor,
‒ Li no jornal, que Vossa Excelência tão superiormente dirige, a notícia de minha morte. Como é uma fonte geralmente bem informada, tenho de concluir que deve ser verdade. Sendo assim, e estando agora no outro mundo, não necessito mais da leitura de seu conceituado jornal e por isso peço-lhes a fineza de riscar meu nome da sua lista de assinantes.
HENRIQUE DE RESENDE, advogado. No Cemitério de Cataguazes (MG) está esse epitáfio, em seu túmulo, escrito pelo próprio
‒ Contra sua vontade, bem se entende,
Sempre amando a vida como outrora
Aqui repousa Henrique de Resende
Que preferia repousar lá fora.
INSCRIÇÕES TUMULARES. Seguem algumas de pessoas famosas
* CONAN DOYLE. No Cemitério de Minstead (Inglaterra)
‒ Verdadeiro aço. Lâmina afiada.
* DOROTHY PARKER, atriz americana. Disse à revista Vanity Fair, em 1925, qual seria seu epitáfio
‒ Desculpe a minha poeira (o meu pó).
* EDGAR ALLAN POE. Na parte de trás do cemitério de Westminster (Estados Unidos), uma referência a seu mais famoso poema
‒ Disse o corvo, nunca mais.
* EVITA PERON. No cemitério da Ricoleta (Buenos Aires), longa citação que começa dizendo
‒ Não chores por mim.
* FRANK SINATRA. No Desert Memorial Park da Califórnia (Estados Unidos)
‒ O melhor ainda está por vir.
* KARL MARX. No Cemitério de Highgate (Londres)
‒ Os filósofos têm interpretado o mundo de várias maneiras. O ponto, contudo, é mudá-lo.
* STHENDHAL. No Cemitério de Montmarte, Paris (França), está o que escreveu para ser posto em seu epitáfio
‒ Escreveu, amou, viveu.
Na verdade queria também que constasse, e não foi atendido, “adorava Cimarosa, Mozart e Shakespeare”.
* WILLIAM SHAKESPEARE. Na Igreja da Santíssima Trindade, em sua cidade natal Strafford-upon-Avon (Inglaterra)
‒ Abençoado seja o homem que poupar essas pedras e maldito o que mover meus ossos.
Por fim, não está no seu túmulo mas foi a última frase que disse HUMPHREY BOGART,
‒ Nunca deveria ter trocado scotch por martini.
LULA ARRAES, médico (e filho do governador Miguel Arraes). Anotou esse epitáfio escrito por um poeta de Timbaúba (Pernambuco)
‒ Aqui jaz
Para seu deleite
Sebastião Uchoa Leite.
MANUEL BANDEIRA, poeta. Escreveu esse Último poema
‒ Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
E a paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
Chespirito, (Roberto Gómez Bolaños) década de 80, interpretando Napoleão Bonaparte, num diálogo com um soldado que chaga do campo de batalha e surpreende-se ao ver Napoleão vivo:
Soldado: – Acabo de passar por um combatente francês morto e ele era a cara de vossa alteza.
Napoleão assustado: – Ele tinha a mão direita oculta sob o casaco, assim ?
Soldado: – Não !!!
Napoleão aliviado: – Graças a Deus ! – Não era eu !!!!
Sempre que me arrisco a tecer comentários aqui na coluna do Mestre Cavalcanti, me sinto inseguro pois, por mais que me esforce minha linhas sempre me soam algo ridículas.
Mas como dizia Jarbas Passarinho, “às favas com os escrúpulos da consciência”. Em frente.
Faço aqui singela contribuição aos epitáfios geniais; criados por e para personalidades relevantes. Este jamais fará parte de qualquer coletânea, sobretudo porque feito para personagem irrelevante e desprezível que hoje ocupa a principal cadeira de certo palácio em Brasília. Lá vai: “Aqui jaz esquecido, aquilo que jamais deveria ter nascido”
P.S: Desculpe, mestre, mas não resisti…
Mas nasceu. E está solto. É isso. Há braços.
Belas conversas à beira do derradeiro repouso.
O meu epitáfio, já escolhi:
‘Sem vontade, cá estou,
E daqui não sairei,
Não me acordem, que estou
Sonhando o que nunca sonhei’
E assim vamos juntando as pérolas raras da Literatura do Epitáfio
Grato Mestre Zé Paulo por mais esta contribuição.
Brito