CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A HEROÍNA DO REGINALDO

Marlúcia nasceu em União dos Palmares, filha de trabalhadores rurais descendentes dos quilombolas, onde Zumbi organizou o Quilombo, a República de Palmares com os escravos fujões na Serra da Barriga que durou cem anos.

Morena bonita, com ares de felicidades, sorriso constante nos lábios. Menina, perambulava pelas ruas. Foi criada tomando leite de cabra. Era a mais rechonchuda do povoado. Quando ela completou 10 anos, seu pai resolveu morar na capital em busca de melhor qualidade de vida, foi morar numa invasão de terrenos no Vale do Riacho Reginaldo, onde construiu uma casa de taipa num arruado. Sua infância foi marcante. Líder das meninas e dos meninos, ela jogava ximbra, subia em pé de árvore, brincava de polícia e bandido.

De repente veio a adolescência, aos 15 anos pegou um corpo bonito, tornou-se mulher. Os homens ficavam cheios de desejos quando olhavam para aquela menina-moça exuberante, sensual, sapeca, cheia de energia, mas tinham receio do severo pai. Certo dia, Zezinho, um jovem caminhoneiro ao voltar de uma longa viagem avistou Marlúcia, o coração bateu forte. A menina que ele conhecia brincando, correndo nas ruas, trepando nas árvores, havia se transformado numa deslumbrante moça. Ele foi se achegando, se achegando, até que Marlúcia concordou namorar. Depois de dois anos entre namoro e noivado, foi marcado casamento para o dia 28 de dezembro. O jovem caminhoneiro atrasou-se na viagem, não chegou no dia marcado, mesmo assim houve festa, não se estragaram a bebida e comida. O casório aconteceu no dia 31 de dezembro.

Quatro dias depois do casamento Zezinho partia para outra viagem. Marlúcia, sem avisar, pela manhã estava pronta, para surpresa do marido sentou-se na boleia do caminhão. Foi a primeira das inúmeras viagens, percorreu todo o Brasil com seu companheiro. Logo aprendeu a dirigir, tornou-se excelente motorista, melhor que o Zezinho. Assim passaram-se onze anos, só não dirigiu o caminhão na época de dar à luz.

Um bonito amor também chega ao fim; houve a separação. Marlúcia foi tentar sua vida no Rio de Janeiro, ficou na casa do irmão. Logo estava trabalhando de cabeleireira para dar sustento aos filhos. Casou-se novamente, uma bela mulher fica sozinha se quiser. Com alguns anos a saudade foi maior, voltou e fixou residência em Maceió, trabalhando de manicure e cabelereira. As vicissitudes da vida fizeram acabar o novo casamento.

Marlúcia alugou um salão numa espécie de mercado de artesanato no bairro da Jatiúca. Ela fez negócio, estabeleceu-se, passou mais de quatro anos à frente de seu aprazível salão de beleza. Os turistas adoravam quando iam às compras de artesanato, encontravam um salão de beleza bem equipado e bem servido pela simpatia e competência de Marlúcia.

Quando em certa manhã ouviu o grito de fogo; ao perceber que o mercado estava em chamas, seu coração pulou, conseguiu retirar do salão alguns equipamentos. Acontece que as chamas cobriu seu salão. Ela tentou entrar no fogaréu, mas os bombeiros proibiram, dois militares seguraram seus braços. Marlúcia tentava se desvencilhar para enfrentar o inferno. Chorava ao ver o fogo acabar seu salão. Perdeu tudo, não tinha seguro.

Nada na vida lhe foi fácil. Com muito trabalho a ajuda do pai equipou uma sala da casa do Reginaldo, onde hoje, a vistosa e bonita quarentona, mãe de 2 filhos, atende a clientela.

Certa tarde, seu salão estava cheio quando entrou um meliante de revólver na mão exigindo dinheiro e celulares de todos. Marlúcia pediu calma ao ladrão que apontava a arma, ela levou seus clientes para um lugar seguro dentro da casa, voltou para negociar com o assaltante. Começou a conversar calmamente com o assaltante, de repente, tirando o apurado do bolso do avental, falou firme, gritando:

– Você não vai mexer com meus clientes. Tome aqui meu celular, tome meu dinheiro. E sabe de uma coisa, puxe para fora daqui seu cabra safado!!!!

O assaltante assustado deu um pique, disparou numa corrida pela calçada sequer olhou para trás. Os clientes aliviados bateram palmas. Assim é Marlúcia, uma heroína brasileira.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

FELIZ 2025

Anos atrás enviei aos amigos uma mensagem de ano novo com frases bem humoradas. Recebi várias respostas, gostaram. Esse ano repito a mensagem adicionada, complementada por alguns escritores, nem sei mais quais as minhas frases originais.

Segue a mensagem:

Amigos, que em 2025:

Se existir guerra, que seja de travesseiro.
Se for pra prender, que seja o cabelo.
Se existir fome, que seja de amor.
Se for pra atirar, que seja o pau no gato-t-ó-tó
Se for para esquentar, que seja o sol.
Se for para atacar, que seja pela pontas.
Se for para enganar, que seja o estômago.
Se for para armar, que arme um circo.
Se for para chorar, que seja de alegria.
Se for para assaltar, que seja a geladeira.
Se for para mentir, que seja a idade.
Se for para algemar, que se algeme na cama.
Se for para roubar, que seja um beijo.
Se for para afogar, afogue o ganso.
Se for para perder, que seja o medo.
Se for para brigar, que briguem as aranhas.
Se for para doer, que doa a saudade.
Se for para cair, que caia na gandaia.
Se for para morrer, que morra de amores.
Se for para violar, que viole um pinho.
Se for para tomar, que tome um vinho.
Se for para queimar, que queime um fumo.
Se for para garfar, que garfe um macarrone.
Se for para enforcar, que enforque a aula
Se for para ser feliz, que seja o tempo todo.

Recebi vários agradecimentos, entre eles um especial do meu querido escritor, romancista, Ignácio Loyola Brandão:

“Carlito, meu amigo,

Mandei para dezenas de pessoas seu texto de bom ano. Um sucesso sem precedentes. Maria Medeiros, atriz portuguesa que mora na França e é uma pessoa incrível, maravilhou-se. Mas a melhor resposta foi a do Chico Buarque. Ele agradeceu e complementou com um lado malicioso.

Se for pra cheirar que seja a flor.
Se for pra fumar que seja a cobra.
Se for pra picar que seja a mula.

Abraços. Ignácio Loyola Brandão”.

Pronto, agora sou parceiro de Chico Buarque em mensagem de ano novo. Em 2025 não esqueçam esse recado para adocicar a vida. Um excelente ano novo, é o desejo de Carlito Lima……e Chico.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A BELA DA CAMBONA

Claudinha, a bela

Osório costumava usar terno, vestia-se elegante, bigodinho delineado e uma conversa cativante. Representante comercial, trabalhava viajando no meio do mundo. Vendia todo tipo de relógio, pulso, parede, despertador, ponto. Embolsava boas comissões das fabricas de São Paulo, excelente vendedor, conversador, simpático, convencia os clientes, lábia fina para negócios e para as mulheres. Ao retornar à Maceió, Osório entrava em maratona sexual na ânsia de engravidar a esposa, Claudinha, a bela. Consultaram médicos, fizeram exames. Nenhuma anormalidade, o casal em excelente saúde física.

Osório adorava a boemia, frequentador assíduo da Zona de Jaraguá, encrenqueiro, bebia, fazia arruaça, chegou a ser preso envolvido em briga. Entretanto, naquele fim de ano Osório comportou-se, era questão de honra engravidar a bela e gostosa esposa, Claudinha, a bela. Passou uma semana e meia de amor nos braços, abraços, carinho e amor da esposa, quase não saiu de casa, visitou poucos clientes. Claudinha, depois do amor, ficava deitada, pernas levantadas, pés nas paredes, instrução do médico para engravidar. Logo depois do ano novo Osório partiu para longa viagem na região do Cariri. Meado de janeiro apareceu a menstruação de Claudinha, uma tristeza, ficou deprimida, raiva do marido. Maldizia o sangue que acabava o sonho de ser mãe.

Ao cair da tarde, a bela triste, tinha apenas uma diversão, debruçar-se sobre a janela apreciando o movimento das ruas da Cambona, bairro aprazível. Os homens gostavam, fantasiavam peripécias nos fartos seios de Claudinha, beleza estonteante, atraente. As mulheres enciumadas, despeitadas, chamavam-na de sem-vergonha, quenga, entretanto, jamais alguém viu caso de traição.

Certa tarde o coração de Claudinha bateu mais forte ao reconhecer um ex-namorado da adolescência, Serginho. Ele ao avistar sua ex-namorada cumprimentou-a com vasto sorriso, parou, dois dedos de prosa na janela, continuou o caminho até sua casa à beira da Lagoa Mundaú. Toda tarde o jovem estudante de medicina, Serginho, saía em busca dos amigos e diversões de férias, passava invariavelmente pela janela de Claudinha. Certa vez, em conversa rápida, a serelepe informou que o marido estava viajando para as bandas do Cariri e convidou Sérgio para discreta visita noturna.

Combinaram entrar pelos fundos da casa às 19:00 horas, ela deixaria a porta aberta, conversariam no quintal. Entusiasmado com a aventura, Sérgio às 19:00 horas estava em frente ao portão do quintal. Não precisou bater, Claudinha, pontual, abriu o portão. Os dois se atracaram, muitos beijos, muitos desejos presos desde que eram inocentes namorados. Deitados no quintal fizeram amor noite à dentro. Serginho saiu da casa de madrugada e assim repetia várias noites frequentando o quintal da casa da Cambona.

Certa vez, uma vizinha percebeu um vulto entrando no quintal da Claudinha, ficou na espreita, reconheceu. A vitalina foi ao pai de Sérgio, alertando o perigo que o filho corria, o marido era valentão, arruaceiro; sabendo do chifre, não ia deixar por menos. Dr. José chamou o filho em particular. No quarto, o pai tirou do bolso três notas de R$ 100,00 (cem reais), lhe entregou, foi contundente no argumento: “Meu filho, Maceió tem quase um milhão de habitantes, desses, 500 mil são mulheres; dessas pelo menos 500 estão disponíveis no site da Internet. Procure uma delas, menos Dona Claudinha, meu filho, mulher casada tem gosto de bala!!!

Desde essa dia, Serginho não mais retornou ao quintal, percebeu o perigo da aventura. Dois anos depois, Osório largou a jovem esposa, arranjou outra, fez dois filhos. Claudinha terminou abraçando a carreira de GP (Garota de Programa). Serginho, hoje conceituado médico, recorda, nunca esqueceu as aventuras daquelas férias de verão, do quintal, dos beijos de Claudinha, a bela da Cambona.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A MÃE SOLTEIRA DA PESCARIA

Bairro da Pescaria – Maceió

Rosário tentou todos os meios, rezou muito, mas não conseguiu engravidar. Seu sonho era um filho, consultou médicos da cidade do Recife, Rio de Janeiro, Aracaju, ninguém conseguiu diagnosticar, não havia problema com seu corpo, mostravam os exames. Ela não se conformava, marcou consulta para o fim do ano com o mais competente médico do Brasil, Eucimar Coutinho em Salvador. O marido, André Bandeiras, também apresentava normalidade nos exames, mistério da medicina. A esperança de Rosário era o médico baiano.

O jovem casal vivia em certa harmonia, os dois trabalhavam, tinham uma vida simples, sem gastos supérfluos, cada qual com seu carro. Queriam apenas um menino para reinar naquela casa confortável, bem decorada, na praia da Pecaria. Certo dia, Rosário sentiu alguma mudança no comportamento do marido, não sabia o que era, o instinto feminino despertou-lhe sensação de suspeita de alguma coisa estar acontecendo. Numa noite sua sensibilidade instintiva inspirou algumas perguntas ao marido.

Pelas respostas vagas, evasivas sem convicção, Rosário teve certeza, havia alguma coisa no ar além dos urubus, pombos e nuvens passageiras. Começou a investigar suas roupas, números de celulares, nenhum vestígio, nenhuma pista deixada. Convenceu-se, era apenas ciúme de mulher sem filho ou coisa parecida. Quando, num entardecer André lhe telefonou avisando, chegaria um pouco mais tarde, visitava um cliente. Após atender, ela deixou o celular em cima da mesinha, continuou a ver um filme na televisão. Certo momento escutou pequeno barulho no celular, colocou-o ao ouvido, o marido não havia apagado o telefone, ficou pasma ao ouvir André conversar com nítida clareza.

“… preciso ver coisas novas, viajar pelo mundo, sou muito novo, casei-me cedo, mas o que quero nesse instante minha querida é fazer amor com você Aída, quero você cada dia mais. Terei cerca de duas horas para lhe amar no motel maravilhoso Jacarecica. Vou lhe pegar em frente as Lojas Americanas”

Interrompeu a conversa, o celular de repente ficou mudo, desta vez desligou. A cabeça de Rosário virava, ela tentava acalmar-se, entretanto, a emoção forte, quebrou jarros, cristais, o que tinha por perto. Chorou, se acalmou. Primeira providência, procurou na agenda o número do telefone do Almeida, marido de Aída. Cobriu o telefone com um guardanapo, falou bem devagar.

– É Seu Almeida? – ao confirmar, prosseguiu – Olhe sua mulher nesse momento está com um amante no Motel Jacarecica.

Desligou o telefone sem dar tempo de Almeidinha falar. Rosário entrou no quarto do casal, juntou as roupas do marido, fez três trouxas de calças, camisas, paletós, cuecas, bermudas, deixou-as na varanda da casa. Ficou esperando André, sem lágrimas. Eram oito e meia da noite quando ele chegou com fisionomia preocupada, tentando apresentar normalidade, foi perguntando.

– Tudo bem querida? – sorriu amarelo.

Ela explodiu, gritando com toda raiva acumulada.

– Tudo bem é a p.q.p., você é um canalha, um safado, ouvi toda a conversa com a vadia da Aída, você esqueceu de desligar o celular. Agora saía dessa casa antes que eu faça uma besteira. – apontou-lhe o revólver novinho, presente de casamento de seu pai.

André entre surpreso e desesperado, gritava.

– Não atire Rosário, não acabe minha vida, guarde esse revolver, me perdoe querida, eu explico.

– Covarde! Suas trouxas estão na portaria, desapareça da minha frente ou dou um tiro nos seus cornos.

André abriu a porta, pegou as trouxas, escafedeu-se, nunca mais pisou na casa.

Naquela mesma noite, Rosário tomou um banho de banheira, relaxante, colocou um vestido preto, perfumou-se, pintou-se, foi à guerra, saiu na noitada. Hoje, é conhecida boemia da cidade, dá para quem quer, tem apenas uma dúvida, não sabe quem é o pai do filho que leva na barriga. Ela diz para todo mundo, tranquila.

– Quero ser mãe solteira, criar meu filho correndo aqui no bairro da Pescaria, pescando nesse mar lindo e maravilhoso de minha infância.

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ESPERA ANSIOSA

Igor entrou na puberdade com muito hormônio e a libido aperreando, porém, duas paixões, desde menino, baixavam seu fogo: velejar e nadar. Morava perto do Iate Clube Pajussara onde guardava o barco, desde cedo aprendeu o manejo das velas, foi campeão juvenil de snipe. Descia o barco da garagem, velejava pela enseada, bordejava, virava, encantava-se com o mar verde esmeralda. Solitário no barco olhava ao longe as casas pequeninas.

Quando não navegava, acordava cedo, vestia o velho calção de banho, corria em direção ao mar, mergulhava na água tranquila, pequenas marolas, nadava rumo ao infinito, de repente, retornava à praia. Depois do mergulho matinal, Igor tomava um bom café, colocava os livros na pasta, pegava o bonde ou ônibus rumo ao Colégio Diocesano no Centro de Maceió.

Pela tarde estudava numa puxada do quintal, depois caía no mundo, jogar futebol, ximbra, botão, roubar mangas e cocos dos sítios vizinhos, muitos amigos, juventude livre e solta.

Certa tarde Igor terminou de estudar, deu vontade de fazer xixi, abriu o quarto de empregada que ficava no quintal; tomou um susto ao ver Lindaura, a copeira, nua como veio ao mundo entrando no chuveiro, deu-lhe uma paralisia ao olhar a bela morena, precisou algum tempo para fechar a porta. Emocionado subiu os degraus do quintal para casa, em sua cabeça, em seus pensamentos, ficou forte a imagem do corpo de Lindaura. Sertaneja, 27 anos, abandonada pelo marido, trabalhava em casa de família para poder sustentar o filho, morava com os avós em Bebedouro, bairro da periferia.

Na tarde seguinte, Igor saboreava uma doce pinha na varanda do quintal, Lindaura se achegou provocando: “Vou tomar banho, pode olhar se quiser, mas só olhar, está ouvindo?” O jovem ficou excitadíssimo, esperou Lindaura entrar no seu quarto, apanhou um livro, dirigiu-se ao quintal, olhava para os lados, desconfiado, como quem pratica um mal feito, seu coração aos pulos, aproximou-se, abriu a porta, ficou encantado, o sangue ferveu nas veias ao ver Lindaura embaixo do chuveiro se esfregando com sabugo. Retornou ao seu quarto, sua mente via apenas Lindaura esfregando coxas e nádegas com sabugo e sabão. Naquele instante ele homenageou ao Deus Onã.

Segredo entre os dois, toda tarde havia a liturgia do banho de Lindaura no quintal. Passaram mais de três semanas nesse ritual, Igor não suportou o segredo, se gabando contou a Paulinho, seu melhor amigo, o que estava acontecendo em suas tardes. Paulinho também quis ver a mulher nua. Igor recusou, o amigo chantageou, ameaçou espalhar para todo bairro. Na tarde seguinte, Lindaura tomou um susto ao ver dois jovens abrirem a porta do quarto, toda ensaboada, gritou. -“feche a porta.”. Ela não gostou, a partir desse dia trancava a porta à chave para tomar banho. Uma tristeza para o adolescente Igor que “ficou de mal”, sem falar com o amigo Paulinho. A imagem de Lindaura alimentava os sonhos, as fantasias de Igor, ele a olhava com ar de pidão, ela sorria matreira.

Meses passaram, no dia do aniversário de 14 anos de Igor, sua mãe caprichou num bolo de velas, convidou amigos e amigas, saiu cervejinha, cuba libre, dançaram ao som de Ray Conniff. Final da festa, hora de dormir, ao partir para o quarto, Igor esbarrou-se com Lindaura limpando a sala, ela sorriu oferecida, -“amanhã vou lhe dar meu presente, me espere às oito horas da noite na praia por trás dos Sete Coqueiros.”

Durante todo o dia seguinte não saía da cabeça de Igor o encontro marcado com Lindaura. Às 7:30 da noite Igor já estava sentado na areia branca da praia, esperando. O céu brilhava de estrelas, os minutos passavam devagar no relógio. Deu oito horas ela não apareceu, de ansioso passou a decepcionado. Eram mais de oito e meia quando ouviu um “psiu” e sentiu um abraço por trás. Lindaura deitou-se na areia, cochichou no ouvido do patrãozinho:

– É meu presente de aniversário.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A CRÔNICA DA ALARI

Servi ao Exército Brasileiro por 16 anos. Dos tempos da Academia Militar das Agulhas Negras tenho ainda muitos amigos-irmãos. Hoje lendo a crônica da Alari, esposa do Coronel Rubião, meu colega de turma, me emocionei e peço licença a meus leitores para passar em minha coluna o que Alari Torres, nossa grande cronista, escreveu.

* * *

QUE SAUDADES! – Alari Romariz Torres

Comecei a conviver com o pessoal do Exército Brasileiro em 1963. Casei-me com um Tenente do EB, vindo da Academia Militar das Agulhas Negras. Passei a morar em vilas militares e conhecer muita gente boa. Eram tios do coração dos meus filhos.

Havia no ambiente militar carinho e respeito entre as famílias. Os salários eram bons e os quartéis tinham granja, armazém reembolsável e outras vantagens. Apesar de não termos planos de saúde, éramos atendidos por médicos e dentistas dos quartéis. As festas de Natal e São João eram famosas e fartas. O que mais me empolgava era o planejamento e a organização com que as reuniões eram realizadas. Tudo muito certo, desde os lugares reservados para os participantes, até o quantitativo da comida, que nunca faltava.

As viagens de Oficiais e Praças também eram bem certinhas. Eles recebiam diárias e não havia excesso de economia para prejudicar o deslocamento dos indivíduos e suas famílias.

Tudo era muito farto e os Soldados que entravam nas Forças Armadas comiam bem. Recebiam fardas e aprendiam um ofício. Depois que cumpriam o tempo de serviço exigido por lei, sempre iam trabalhar nas empresas da cidade.

Em Garanhuns, Pernambuco, havia um bonito trabalho social, chamado MUNDICO. Trinta meninos de escolas públicas iam para o quartel no horário em que não estudavam. Aprendiam a trabalhar e recebiam aulas de Moral e Cívica. Nos dias de feira, quando ouvia alguém me chamando para ajudar, era um deles com certeza.

As famílias militares conviviam nas vilas em completa harmonia. Havia ônibus para levar as crianças nas escolas. Todas eram filhos de Praças e Oficiais, que se tornavam amigos. O esporte era praticado nas vilas e rapazes e moças viravam atletas no meio civil.

O relacionamento do pessoal militar com a comunidade local era muito bom.

Nas festas eram convidadas autoridades e todos se davam bem. Havia uma organização chamada “Amigos do Quartel”, da qual participavam pessoas selecionadas da sociedade.

O ensino militar é muito bom. Há colégios militares com um ensino qualificado. Pela primeira vez na vida, vi um filho meu terminar um programa anual antes do fim do ano, em outubro. O resto do ano era para revisar. No fim do ensino médio, os alunos eram aprovados em qualquer vestibular. Além de serem preparados para a vida.

Não posso reclamar da vida que vivi no ambiente militar: fiz bons amigos, meus filhos ganharam tios e primos. Tudo só nos trouxe felicidade.

Acho, entretanto, que militar não combina com política. Estou assustada com os acontecimentos ocorridos nos últimos tempos. Os repórteres civis xingam as autoridades militares, num completo desrespeito. De General a Praças estão envolvidos em escândalos. Alguns já foram presos. Até os salários serão retirados. Uma completa desmoralização!

As verbas dos quartéis estão sumindo. Elas são desviadas para outros Ministérios. Até a comida para os Soldados é pouca. As festas inexistem. A maioria dos jovens não pede mais para servir.

O Ministro da Defesa, que é um civil, não defende a categoria, os Oficiais estão calados, suas famílias sofrem, os direitos adquiridos são cortados, os seguros são subtraídos.

Sinto saudades do Exército do meu tempo!

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MARIA EMÍLIA CLARCK

Deus quando elaborou o projeto da raça humana, colocou nesse mundo a mulher como a criatura mais semelhante à sua imagem. A mulher é o estágio do ser humano mais avançado, perto do sublime, do divino.

O homem quando se viu um ser complementar da mulher, Deus apenas o fez um procriador, com inveja e sendo mais forte inventou as conquistas, as guerras, para que ficassem no trono reinando o mundo, sem dar chance à companheira. O homem mandava e desmandava, assim foi iniciado o mundo. As mulheres aguentaram essa iniquidade por todos os séculos, por toda história desde que o mundo é mundo, com algumas exceções, Cleópatra, Maria, Joana D’Arc, Rainha Victória, entre poucas.

Até que no século XIX, as mulheres se rebelaram, iniciaram o movimento com reivindicações de ingressar o mercado de trabalho e votar. Mulher era para ficar em casa tomando conta dos filhos e das galinhas. Deu-se início a Revolução Feminina. A maior revolução da humanidade não foi a Queda da Bastilha, nem a Russa, foi a Revolução das Mulheres no século passado, exigindo seus lugares dentro da sociedade.

Ainda estão batalhando, vencendo preconceitos e intolerâncias. No dia em que as mulheres tiverem mais poder, mais comando, mais liderança; o gênero humano será mais digno, mais honesto, mais feliz, o mundo menos hipócrita. Digo isso porque acompanhei e continuo atento a evolução feminina de minha geração. Assisti as mulheres se infiltrarem no mundo das artes, dos empregos, da política. E como melhorou!!!

Dentro as mulheres de minha geração tenho uma amiga especial que sempre admirei seu trabalho tenaz no mundo da dança, do ensino e da produção artística. Essa mulher chama-se, Maria Emília Clarck, a Dama do Ballet. Desde criança a dança entrou em seu corpo, em sua alma em suas entranhas. Para se formar bailarina teve muito que estudar, cerca de dez anos, muitas horas de estudo teórico e prático diariamente. Paralelamente formou-se em Serviço Social na UFAL e Bailarina Profissional pelo Sindicato dos Artistas de São Paulo. Participou de vários cursos de pós graduação e como bailarina profissional dançou nos cinco continentes, cuja enorme relação não cabe nesse pequeno texto.

Uma mulher se realiza quando segue o seu coração! Uma mulher visionária é do tamanho de seus sonhos. Assim é Emília, com a bagagem teórica e prática aprendida em anos de ballet, resolveu há 25 anos criar a própria escola: BALLET MARIA EMÍLIA CLARCK. Sua Escola tem formado gerações de bailarinos e contribuído imensamente para a arte e a cultura de Alagoas e do Brasil. Com mais de 60 projetos realizados, suas criações misturam o passado e contemporâneo de maneira única e sensível. Como um ser humano notável, incomum, sua sensibilidade leva projetos aos mais desprovidos, aos que não têm acesso à arte, minimizando lacuna de nossa carente descabida sociedade.

O Ballet Maria Emília Clarck comemorando seus 25 anos de intensas atividades de formação artística e técnica, construindo repertórios próprios, memorialistas, produzindo documentários históricos, dessa forma contribuindo para preservação da História do Brasil. Nesse ano de 2024, a bailarina Emília Clark, contando com o apoio do marido, o médico, escritor, sociólogo, Fernando Gomes, criou e presenteia à Alagoas o espetáculo: “O MAR QUANDO QUEBRA NA PRAIA” no Teatro Gustavo Leite, dias 29 nov (sexta); 30 nov (sábado) às 19:00 e no dia 1 dezembro (domingo) às 17:00 horas. IMPERDÍVEL. Suas netas vão adorar. Finalmente declaro maior admiração e orgulho em ser amigo dessa artista, independente, laboriosa obreira e sobretudo, revolucionária, Maria Emília Clark.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

FOGO DE MORRO ACIMA, ÁGUA DE MORRO ABAIXO, E MULHER…

O tapa de Fagundes foi tão forte que Regina caiu no chão. A discussão começou quando o marido chegou bêbado, cheirando a perfume barato de mulher. Ela não aguentava mais suas cachaçadas, chamou-o de cafajeste, raparigueiro e homem fraco. Sem argumento Fagundes bateu no rosto da esposa. Regina correu para o quarto, trancou-se. Ouviu os passos em direção à rua. Ele gritou pra ela ouvir.

– Vou beber, raparigar! Mulher merda!

Regina levantou-se, recompôs-se, olhou-se no espelho, a roncha no olho não estava tão visível. Para quê chorar? Tinha certeza, o casamento havia se acabado naquele momento. Mulher bonita, nova e desejada, os homens a olhavam com malícia, entretanto, nunca pensou em trair Fagundes, que há mais de um ano entregou-se ao álcool desenfreado. Eram onze horas da noite, telefonou para Lourdinha, sexta-feira dia de barzinho com amigos. Meia hora depois, Regina, linda, alegre e solta, chegou. Beberam, conversaram, Regina estava surpresa com ela mesma, em ter coragem de sair. Certo momento as duas cochicharam.

– Não acredito, disse Lourdinha. O que aconteceu?

– O fim de um casamento, apanhei na cara, não tem volta. Estou me sentindo bem, cresceu-me um sentimento de liberdade, vou tomar um porre. Não é de tristeza, é de liberdade, acabou-se Fagundes. Vou ficar bêbada, hoje vou dar, não sei a quem, mas vou. Minha avó dizia: “Água de morro abaixo, fogo de morro acima, e mulher quando quer dar, ninguém segura”.

Ficaram às gargalhadas.

Em certo momento entrou no bar um amigo de juventude. João Paulo havia se separado, ficou célebre sua festa de descasamento. Lourdinha o convidou a sentar. Ele notou a falta de aliança no dedo de Regina, perguntou por Fagundes. Ela discretamente sintetizou a saída de casa, estava solteira. Conversaram, beberam, dançaram, cantaram até mais tarde, pagaram a conta. Regina pediu carona a João Paulo.

O carro partiu rumo à casa de Regina, Quando ela percebeu a direção tomada, abriu-se para o amigo.

– Hoje não vou para casa, essa noite eu quero outra coisa, quero que você me leve a um motel, quero amar, quero lhe dar.

João Paulo parou o carro no acostamento, olhou para ela.

– Regina você é minha amiga. Jamais me aproveitarei de um momento emocional, você bêbada. Não estou lhe rejeitando, o que mais quero nesse momento é transar com você, fique certa. Mas, jamais farei alguma coisa que você possa se arrepender. Desculpe. Quando estiver com Fagundes, resolva suas questões. Seja forte.

Regina surpresa com a atitude do amigo calou-se, casmurra ficou até João Paulo deixá-la na porta. Ao entrar em casa Fagundes dormia de roupa na cama de casal. Ela dormiu outro quarto.

Era meio-dia quando o casal se encontrou na cozinha. Regina teve a última e curta conversa com o marido.

– Vou para o apartamento de minha mãe.

Pegou a mala, entrou no táxi. Era o fim de sete anos de casamento, sem choro, nem vela. Fagundes não disse uma palavra.

Regina sofreu a dor da separação, ninguém acaba um casamento sem dor. Durante a semana trabalhou normalmente. A noite da separação ficou marcante. Regina nunca esqueceu, jamais pensou haver um homem tão gentil, cavalheiro, bom caráter. Ela dizia para si mesma, eu quero esse homem, é esse o homem de minha vida.

Três anos se passaram, Regina e João Paulo moram juntos na praia de Riacho Doce, Ela sempre lembra a história de sua avó: fogo de morro acima, água de morro abaixo… Naquele dia, só não deu porque João Paulo não quis.

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NILTON SANTOS, O BOTAFOGUENSE

Como todo bom brasileiro, Nilton Santos tem duas paixões: futebol e mulher. Por ter nascido em 29 de junho de 1958, dia em que o Brasil tornou-se campeão mundial foi batizado com o nome de Nilton Santos Silva, em homenagem ao grande “back” Nilton Santos. Tornou-se botafoguense, como o pai. Sabe tudo sobre seu time do coração, Botafogo de Futebol e Regatas. Conhece a história em detalhes dos campeonatos do Alvinegro. Na caminhada matinal na praia da Pajuçara, ele fica pensando no Brasileirão contando os pontos na cabeça e os próximos adversários. Tem convicção que será campeão nesse ano. O Botafogo está jogando com alegria e objetividade. Os botafoguenses estão vivendo no céu. Se não bobear, como ano passado, será um campeão! Pensa!

Nilton Santos, feliz da vida, assiste sempre aos jogos do Botafogo pela televisão num motel ao lado de uma GP (Garota de Programa).

Não quer amante, dá complicação, prefere garotas de programa. Paga pelo descompromisso, pelo silêncio e pelos carinhosos serviços prestados. Terça-feira passada, jantou em casa, saiu dizendo para mulher que iria assistir ao jogo Botafogo x Vasco com os amigos no Bar do Pelado. Ele havia armado um esquema com a Paulinha, gente fina.

Houve um problema, Paulinha telefonou, não dava para acompanhá-lo, mas deu o link de um site, com garotas de alto nível. Nilton ao conferir no celular as acompanhantes, gostou da Penélope, pensando na Penélope Cruz, acertou com a moça pediu que ela pegasse um táxi até o motel.

Nilton Santos estacionou seu carro dentro do motel preferido. Havia uma enorme televisão. Pediu uma dose de uísque, estava cedo para o jogo, ligou a televisão para assistir notícias.

Em pouco tempo tocou o interfone. Nilton Santos ficou encantado ao abrir a porta, deslumbrou-se, mulher bonita, alta, olhos amendoados, boca carnuda que nem a Angelina Jolie, acertou com o táxi para buscá-la no final do jogo. O mulherão sentou-se no sofá pediu licença, acendeu um cigarro. Ele notou a voz rouca daquela linda mulher, pensou, é cigarro.

Foi quando iniciou o jogo Vasco x Botafogo, Nilton Santos grudou-se na televisão prestando maior atenção, nervoso, tomando uísque que nem refresco, torcia desesperadamente quando Penélope se achegou de banho tomado, cabelos molhados, enrolada numa toalha, juntinha ficou. No segundo gol do Botafogo de Luiz Henrique, durante a emoção, ele beijou os grossos lábios da acompanhante. Ao acabar o primeiro tempo ela deitou-se, de bruços, Nilton Santos não resistiu, deu um pinote por cima e foi às vias de fatos, ela mordia o travesseiro. O intervalo durou 10 minutos. Relaxado Nilton Santos assistiu à vitória por 3 x 0. Fim de jogo, no momento dos abraços notou alguma coisa esquisita em Penélope, não conseguiu segurar a surpresa quando percebeu, saiu o grito inesperado:

– Você é homem!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Depois de momentos de discussão, Penélope abriu o site em seu celular, mostrou escrito: “Penélope, linda bi, passiva ou ativo.” Nilton não quis confusão, pagou o acertado, incluindo o taxi de volta. Tomou banho, vestiu-se, foi para casa alegre, Seis pontos de diferença iria ser campeão. Mas, Penélope não saiu de sua cabeça.

Nilton Santos não consegue esquecer aquela mulher, aliás, aquele homem, sente o hálito de sua boca, toda noite sonha com Penélope olhando seus olhos, sorrindo, sente nos lábios, os beijos molhados. Já decidiu nos próximos jogos do Botafogo, estará sentado, bem comportado na poltrona de sua casa, Na verdade qualquer psicólogo de mesa de bar, tem o diagnóstico. O botafoguense quer revê-la, mas está com medo, fazendo força para esquecer Penélope.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

REBECA, A MULHER INESQUECÍVEL

– Não case com Rebeca, você vai ser o maior corno do Estado.

Plínio ouviu esse conselho várias vezes depois que anunciou e convidou os amigos para casamento no ano novo.

Verdade seja dita, em seus 25 aninhos, Rebeca, morena dos lábios grossos, expirava sensualidade por todos os poros, tinha um requebro provocativo, os homens davam em cima da jovem, ela não rejeitou. Em resumo, Rebeca gosta de homem, nunca escondeu. Certa festa de batizado, ela foi apresentada ao pacato Plínio, 43 anos, celibatário por convicção. Ele achava o casamento muito complicado. Gostava de garota de programa. Dizia ele que pagava o sossego, o descompromisso.

Rebeca entusiasmou-se com aquele coroa calmo de uma beleza máscula, queixo quadrado, olhos sonhadores. Encantada, conversou alegre, divertida puxando risadas com Plínio, um convicto religioso. Marcaram encontro, ele interessado no traseiro maravilhoso, tiveram conversas agradáveis, inconsequentes. Quem podia com o feitiço e encantamento de Rebeca? Na primeira oportunidade estavam aos beijos nas esquinas, até que chegou a hora da onça beber água, uma noitada no motel. Plínio transformou-se. Não conhecia as variações e possiblidades em torno do tema, Rebeca ensinou tudo, sábia de nascença.

Plínio ficou acostumado, já não podia viver sem os carinhos da jovem, pediu Rebeca em casamento. Sem ligar as advertências, o casamento foi celebrado na Igreja de Santa Rita, no Farol. O casal viveu tranquilo, Plínio dedicou-se ao trabalho, professor universitário, cultura fecunda adquirida nos livros. O tempo passou normalmente, Plínio satisfeito com a esposa, um o vulcão na cama. Rebeca, ao contrário, não se acostumou com a vida de casada, tinha saudades de sua vida solta na boemia, fez força para ficar em casa sossegada, mas foi difícil se conter. Não havia completado dois anos de casados ela já dava umas fugidas, cada vez mais constantes, foi relaxando, quando Plínio descobriu, já era o maior corno do Estado. Decepcionado, expulsou Rebeca de casa. Chorona, ela pedia perdão. Em um mês vendeu a casa, teve que dividir a grana com Rebeca. Prometeu nunca mais casar. Porém, vez em quando vinham lembranças de Rebeca.

Passeando no Shopping encontrou sua prima, Eunice, quarentona, desquitada, enfermeira, independente, com uma filha jovem. Os dois se deram bem, começaram a sair. Um ano de encontros, marcaram compromisso. Plínio quebrou a jura, pela segunda vez casou-se na Igreja de Bebedouro.

Ao conhecer Joana, filha de Eunice, 20 anos, ele teve um sentimento estranho, os lábios da moça, sua pele morena, seu sorriso debochado lembrava Rebeca. Veio-lhe um sentimento de atração e lembranças dos feitos de Rebeca na cama. Evitava encarar, conversar com a enteada. Certa noite ela perguntou-lhe com malícia.

– Porquê você me evita? Não gosta de mim? Sou uma mulher adulta, não sou criança.

Plínio continuou equidistante de Joana, ao retornar à sua casa numa noite de calor em que Eunice estava de plantão, encontrou a enteada sentada à mesa, estudando, vestia apenas calcinha e uma blusa transparente. O sangue de Plínio ferveu nas veias, entrou rapidamente no seu quarto, logo a porta se abriu, era Joana com todo esplendor, sem blusa, olhou-o nos olhos, estendeu-lhe os braços.

O ex celibatário tornou-se bígamo de mãe e filha. Eunice, calada, melhorou sua vida, faz que não sabe. Plínio enche a enteada de presentes, já deu até um carro. Nas horas íntimas, muitas vezes chama a enteada de Rebeca.