Depois do Dia dos Reis Magos, arrumações do gabinete de estudos revelam fatos, fotos, feitos e falas que pareciam fixados no baú do esquecimento, mas que saltam, agora, para o cotidiano existencial, exigindo novas análises memoriais, como se tudo fosse apenas uma simples questão de começo. Alguns ainda parecem ser de muita valia para os momentos que estamos vivenciando, com o emergente acordo Mercosul x União Europeis. E alguns ressaltam angústias antigas que persistem, de incômodas consequências para todos. Alguns ainda apontam para ontens sobreviventes, merecendo, abaixo, ser explicitados, a data não sendo mais relevante:
a. A maior tragédia do ser humano contemporâneo está na sua dominação pela força dos mitos, tornando-o sem uma soberana capacidade de discernir e discordar, indispensável no trato da coisa pública e dos procedimentos profissionais particulares. Compreensivelmente, muita gente está mitificando os seus dirigentes, para se arvorarem de primogênitos de deuses. Olvidando-se todos que. no palco da vida, há coisas, mil coisas, que custam bem pouco, mas acarretam efeitos extraordinários. Um telefonema, por exemplo. Um e-mail de agradecimentos. Ou um atendimento fraternalmente personalizado, quando o assunto merecer mais importância. Procedimentos que diferenciariam o agora de um passado majestático, , tecnocrático e pernóstico, até bem pouco tempo sofrido pelos que não portam de cabeça baixa.
b. Nada ameaça mais uma democracia que a gestão daqueles que desconhecem a tese fundamental: em toda democracia, as respostas são difíceis diante de uma demanda facilmente induzida. Nos casos estaduais, nada mais oportuna que uma análise despreconceituosa de todos, sem apegos a cargos e funções, deixando-se refletir diante da seriedade de propósitos dos parlamentares eleitos. Estratégias e táticas bem definidas e discutidas, contínua postura dialogal e um ver-melhor-o-derredor, bem poderiam constituir os balizamentos necessários para um a favor ou contra dos que legislam em prol do todo.
c. Nossa crise brasileira, que também se incorpora a uma crise mundial, é profunda, muito profunda. Prenúncio do fim de uma era, início de uma nova fase nacional, onde quase todo mundo está ainda despreparado para um assumir consequente. A ausência de uma profissionalidade efetivamente comprometida com a transformação do hoje está levando inúmeros despreparados a uma não conformação com o fortalecimento do setor político, gerando um outro componente naquele caldo cultural que carrega dupla tendência: uma, a de ser hipercrítica em relação a tudo aquilo que desagrada; a outra, a de ser subcrítica diante daquilo que concorda. E os hiper e os sub não estão ampliando a cidadania da Nação brasileira. Estão, sim, deixando os políticos sem proposições criativas, com uma frágil consciência acerca da própria máquina partidária. E plenos de um mandonismo inoportuno, detentor de poder decisório quase absoluto, que somente faz aumentar o número daqueles que consideram o absolutismo como caminho natural para o desenvolvimento nacional, única saída para garantir a lucratividade do Grande Capital.
d. A hora de reinventar-se chegou. Ultrapassar os obscurantismos técnicos, sociais, políticos, religiosos e culturais é prova maior de querer uma democracia cada vez mais solidificada. Caso contrário, outras situações poderão advir, com prejuízos para quase todo mundo. A la Venezuela, por exemplo.