CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

MÃOS TALENTOSAS (2009) – UM FILME INTELIGENTE E HUMANO

O ator Cuba Gooding Jr. intérprete do Dr. Ben Carson na telona

“Mãos Talentosas”, dirigido pelo diretor americano Thomas Carter, narra a cinebiografia de Benjamin Solomon Carson (Cuba Gooding Junior), criança pobre de Detroit, que sempre levou uma vida desmotivada, já que tirava notas baixas e não tinha perspectivas de um grande futuro. O que ele e os que estavam ao redor não esperavam era que ele, Bem Carson, se tornaria um neurocirurgião de fama mundial, e aos 33 anos, se tornaria o Diretor do Centro de Neurologia Pediátrica do Hospital Universitário Johns Hopkins. E em 1987, alcançou renome mundial por seu desempenho na bem-sucedida separação de dois gêmeos siameses. Sua história, profundamente humana, descreve o papel vital que a mãe desempenhou na metamorfose do filho.

Filho de mãe solteira, negra e analfabeta, Bem Carson, é um menino que passa por muitas dificuldades nas aulas. Ele não consegue acompanhar a sala de aula no mesmo ritmo e não tem apoio da maioria de seus professores, figuras impacientes que o consideram um caso perdido, exemplo cabal de alguém incapaz.

Sua mãe, mesmo diante de tantas limitações, surge em cena como sua maior incentivadora. Ela o encaminha para a leitura, forçando-o a entender a biblioteca como um espaço de aprendizagem a ale da burocracia da nota. Ao propor ao filho a leitura de dois livros por semana como projeto de vida, numa função empreendedora e educativa, a sua matriarca lhe permite a pavimentação de um caminho que o leva ao Hospital Anthony Hopkins, numa jornada inicialmente complexa e com fortes indícios de desistência, perspectiva turva que logo se transforma e permite ao personagem se tornar um dos mais renomados neurocirurgiões de sua época.

Benjamin (seu nome completo), é fruto de um lar marcado por abandono. No trabalho de sua mãe, a casa de uma viúva, teve a oportunidade de aprimorar a leitura. Em sua caminhada de muito estudo, investigação científica e aplicação de metodologia da pesquisa diante de cada caso médico que lhe vinha como desafio, Bem Carson consegue alcançar metas muito além daquilo que inicialmente havia planejado para sua vida.

Seu auge foi em 1987, quando alcançou renome numa cirurgia delicada que marcou para sempre a vida de todas as pessoas envolvidas, a separação de gêmeos siameses, unificados pela parte superior da cabeça, um processo considerado inimaginável para muitos profissionais de seu segmento. Foram árduos cinco meses de preparação, num procedimento que durou em média 22 horas e contou com apoio de 70 profissionais de saúde. Aos 33 anos, tornou-se chefe da neurocirurgia pediátrica, tendo ficado conhecido por introduzir o coração dos pacientes à hipotermia, estratégia que manteve o coração dos bebês parados, evitando perda de sangue e, consequentemente, dando chance ao processo de reconstrução do sistema circulatório do cérebro de cada um dos gêmeos separados nesta jornada revolucionária.

Interessante observar que mesmo pressionado pelo desestímulo que vinha de vários lados de seu cotidiano, o anseio pela pesquisa e pelo conhecimento era algo integrado no protagonista, uma figura que precisou de orientações para conseguir driblar as suas incertezas. Quando criança, Ben se envolveu com uma pesquisa sobre rochas que o levou a ler, analisar, desenvolver senso crítico e pesquisar para aprimorar as suas habilidades interpretativas. Ademais, em Mãos Talentosas: A História de Ben Carson, podemos observar como a questão da leitura, tema polêmico e geralmente desanimador, é um forte elemento empreendedor em nossas vidas. No filme, compreendemos que ler não é devorar e memorizar bibliografias, mas assimilar o seu conteúdo e aplicar na transformação da informação em conhecimento. Via de inclusão social, a leitura permite a ampliação do nosso repertório cultural, dando maior embasamento para o que produzimos dentro de nossas respectivas áreas de atuação cidadã.

Sem curva dramática exponencial demais, tampouco pontos de virada emocionantes, o roteiro de John Pielmeier para Mãos Talentosas: A História de Ben Carson segue um fluxo linear, com alguns flashbacks explicativos, se mantendo no mesmo nível do começo ao fim. Apropriado por pessoas no campo da administração, psicologia, pedagogia e até mesmo no meio dos doutrinadores evangélicos, o trajeto biográfico de Benjamin Carson é uma narrativa de numerosas possibilidades reflexivas, tendo no entretenimento um produto acima da média, com bons momentos dramáticos, desempenho esforçado do elenco e concepção estética dentro de seus limites, não sendo uma obra-prima do cinema, mas contendo em si méritos que atendem ao que a sua estrutura propõe. Dentro os principais pontos de vista, como já mencionado, é uma história para pensarmos superação, mas também a importância da leitura como meio canalizador de novas aprendizagens sempre, bem como desenvolvimento do raciocínio.

Aqui, concluímos que ler não apenas decodificar símbolos, mas generalizar, sintetizar, propor hipóteses para o que é debatido, num diálogo com aquilo que está escrito e exposto para nossa interpretação. Em seus 86 minutos, Mãos Talentosas: A História de Ben Carson funciona como uma narrativa de entretenimento médio, estruturada por um tecido dramático coeso e simples, sem grandes momentos para a história da dramaturgia, mas com uma trama que evita o tom novelesco geralmente prejudicial da linguagem de muitos telefilmes. O direcionamento narrativo é direto, objetivo, prende o espectador e permite reflexões sobre as nossas vidas, independente do ponto em que nos encontramos localizados, tanto para quem começou o seu projeto de vida por agora quanto para aqueles que já estão avançados, firmes, isto é, estabelecidos nesta vida em que nada é uma certeza absoluta e tudo pode mudar num segundo. Lembra-se da pandemia que nos pegou em 2020? Pois é, prova cabal de que nada pode ser mais tão estagnado como pensávamos.

Um filme inteligente e humano. História de um homem que fez história como médico, pobre e negro.

Fica a reflexão.

Trailer Oficial de Mãos Talentosas

História de Ben Carson

CPB notícias – Entrevista exclusiva com Dr. Ben Carson – Parte 01/04 – exibida na TV Novo Tempo

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JOÃO DO MORRO (POR ONDE ANDA?)

João do Morro em lançamento do CD 10 anos de sucesso

Há mais de catorze anos surgia no Morro da Conceição, bairro da Região Metropolitana do Recife, João Pereira da Silva Junior, fenômeno artístico João do Morro, cronista musical da periferia, que com suas músicas irreverentes e escrachadas, misturando pagode e “swingueira”, deu nova cara e moral ao Morro da Conceição, com seu estilo musical balaiado.

Hits recifenses como “Papa-Frango”, “Frentinha”, “Raparigueiro”, na época, invadiram as rádios locais e tornaram sucesso de vendas nas carrocinhas de CDs piratas circulando por todo Recife e nos vídeos veiculados no You Tube, conta no MySpace e no Twitter.

JOÃO DO MORRO era o Rei das Paradas dos bailes da periferia e da classe média alta. A cada canto por onde se olhava via-se uma carrocinha de vendas de CDs piratas tocando “Papa-Frango!”

Segundo João do Morro, em entrevista à Folha de S. Paulo (na época que ainda se poderia chamar de jornal), sua inspiração vinha de várias vertentes musicais: “Peguei um pouco de cada coisa. Um pouco da personalidade do Zeca Pagodinho, que fez sucesso, mas não perdeu a cabeça. De outras coisas, peguei a postura de palco. O deboche veio dos Mamonas Assassinas e Tom Cavalcante. Mas, desde 1992, quando descobri Bob Marley, gosto de reggae, já fiz uma versão ‘enrolation’ de ‘No Woman No Cry’, porque não falo inglês.”

Depois de ganhar muito dinheiro nos shows e eventos locais, João do Morro some das paradas de sucessos misteriosamente, restando-lhe apenas um documentário realizado em 2010, sob a direção de Mykaela Plotkim e Rafael Montenegro, ganhador de vários prêmios.
Do Morro?

“O cantor João do Morro, fenômeno da cena cultural do Recife e personagem central de “Do Morro?”, é um dos raros casos na música pernambucana, que dialoga e transita com fluidez entre as boates das áreas nobres e os bailes da periferia. O filme mostra a trajetória do artista, discutindo as polêmicas em que se envolveu, os mecanismos contemporâneos de divulgação da cultura e o rompimento das fronteiras geográficas e sociais pelos músicos da periferia”, comenta o documentário abaixo.

Onde está o artista talentoso e irreverente que projetou o Morro da Conceição?

Clip da Música Papa-Frango – Tema – João do Morro

Documentário sobre João do Morro

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A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO (1988) – OBRA-PRIMA DE MARTIN SCORSESE

Cartaz de A Última Tentação de Cristo, filme polêmico de Martin Scorsese

Talvez o filme mais polêmico da filmografia do cineasta Scorsese, A Última Tentação de Cristo, uma adaptação cinematográfica do controverso romance The Last Templation Of Christ, do escritor grego Nikos Kazantzakis. É um filme de ficção que não se baseia nos quatro Evangelhos e na vida de Jesus Cristo, que é amplamente conhecida pelos cristãos. Estrelado por Willem Dafoe, ator principal do ótimo (Platoon – 1986) de Oliver Stone e outras atuações em filmes memoráveis, junto com Harvey Keitel, Barbara Hershey, David Bowie e Harry Dean Stanton, formam um quinteto memorável nessa obra-prima

O filme retrata a vida de Jesus Cristo e sua luta com várias formas de tentação, como medo, dúvida, depressão, relutância e luxúria. Em outras palavras, explora Jesus como um ser humano sujeito ao pecado, para ver mais de sua natureza física e as lutas que ele teve com ela em vez de sua natureza espiritual. Também podemos vê-lo aplicar os ensinamentos que ele deu aos israelitas durante seu tempo aqui na terra e a sua vitória vitoriosa das lutas do pecado. Além disso, os temas do pecado, culpa e redenção foram explorados nesta história fictícia com total liberdade às crenças e dogmas religiosos. No mais, o filme deve ser creditado por sua busca honesta e sincera da verdade, especialmente porque investiga como o próprio Jesus Cristo teria lidado com o pecado, a culpa e a tentação.

A sequência final do filme foi considerada blasfema e controversa por muitos cristãos em todo mundo, pois mostra Jesus, enquanto crucificado na cruz, sendo tentado por Satanás, casar-se com Maria Madalena e viver uma vida de homem comum. Mas depois, ele pede perdão a Deus e Ele o aceita mais uma vez como o único filho de Deus ao saber do erro que ele cometeu. Embora essas cenas tenham feito os cristãos protestarem e lutarem para que o filme fosse banido em alguns países cristãos, o longa de Scorsese oferece ao espectador uma forma de investigação especialmente no que diz respeito a como Cristo, que é percebido ser um ser humano perfeito, teria reagido às mesmas situações que passamos na vida.

Se o espectador abrir a mente ao ver A Última Tentação de Cristo e deixar de lado suas crenças religiosas puramente cristãs, apreciaria um filme grande, comovente e honesto sobre Jesus Cristo durante sua vida aqui na terra se Ele estivesse sujeito às mesmas condições de um homem comum, particularmente, tentação pecado e culpa. No final, A Última Tentação de Cristo, consegue transmitir emoções positivas pelo sacrifício de Cristo. Um filme sensível, alegórico e acima de tudo um dedicado estudo de personagem. Um dos melhores e mais corajosos filmes do diretor Scorsese.

Indicado ao Oscar (1989) de melhor diretor para Martin Scorsese, A Última Tentação de Cristo é um filme que se estende superlativamente, mas que é um exercício importante de um dos grandes diretores que o cinema já viu. É uma obra contemplativa, reflexiva e que não foi feita para agradar. O que ela deseja é nos desafiar a enxergar outra perspectiva de modo de vida. Como você a encarará? Será uma experiência altamente pessoal.

Trailer de A Última Tentação de Cristo

Críticas Favoráveis à Última Tentação de Cristo

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POR UNS DÓLARES A MAIS (2)

Cena icônica de “Por uns Dólares a Mais (1965),” do diretor italiano Sergio Leone

Em seu segundo filme da Trilogia do Homem sem Nome, o diretor Sergio Leone pensou um filme simples, mas engenhoso, com uma temática diferente do primeiro. Enquanto “Por um Punhado de Dólares” ele narra a história de um pistoleiro solitário, “Por uns Dólares a Mais”, vê-se um cenário diferente: desta vez, o homem sem nome, personagem de Clint Eastwood, trabalha como caçador de recompensas, e acaba tendo a concorrência de um desconhecido recém chegado à cidade, o coronel Douglas Mortimer, interpretado magnificamente por Lee Van Cleef. Os dois buscam informações um do outro enquanto um perigoso vilão aparece na história, o pistoleiro conhecido como El índio, interpretado por Gian Maria Volonte, o mesmo que dá vida ao vilão de “Por um Punhado de Dólares”, só que agora vivendo outro personagem cruel.

O vilão desta trama, tal como no filme anterior, tem grande destaque, e novamente Gian Maria Volonte tem uma atuação impecável, na pele do sádico pistoleiro El Indio, que lidera uma quadrilha de assaltantes de banco que não perdoa ninguém que atravessa seu caminho. Clint Eastwood repete seu personagem, o Homem sem Nome, e novamente tem uma atuação brilhante. Tal como o recém chegado Lee Van Cleef, que interpreta um personagem dúbio, e que não nos dá muitas pistas sobre seu caráter, algo que Lee Van Cleef trabalha muito bem em seu personagem, e como era de se esperar, ele tem uma brilhante atuação, guiado pelo talentoso diretor da obra-prima “Era uma Vez no Oeste.”

Nesse filme temos sequências de ação espetaculares, além de uma história globalmente simples, mas coesa, com um roteiro sem furos. A trilha sonora, novamente assinada pelo maestro Ennio Morricone, é simplesmente brilhante, e dá exatamente o clima que a trama requer. Um trabalho magistral.

Sergio Leone conduz seu elenco com mão de mestre, tirando o melhor de cada ator. As cenas dos confrontos, com closes constantes, também são esplêndidas. O cenário reconstrói com louvor o Velho Oeste. Em resumo, “Por uns Dólares a Mais” é mais uma obra-prima da Magna Trilogia dos Dólares do diretor Sergio Leone que merece ser assistida a exaustão porque há sempre uma coisa nova a se descobrir.

A contratação do competente ator Lee Van Cleef por Sergio Leone, que já tinha demonstrado seu talento como ator coadjuvante em inúmeros filmes, inclusive teve uma importante participação no clássico western “Matar ou Morrer” com Gary Cooper, e fez pequenas pontas em vários filmes no início de sua carreira, assim como outros grandes atores hoje reconhecidos por suas atuações memoráveis em vários filmes da época, como Lee Marvin, Jack Elann, e porque não incluir o extraordinário negão, Woody Strode, um dos atores favoritos do diretor “racista” JOHN FORD, prova a competência do diretor e comprova porque a Magna Trilogia dos Dólares é insuperável na história do western spaghetti.

Portanto, não é redundância afirmar: a contratação do ator Lee Van Cleef para fazer um personagem dúbio foi um golpe de mestre do diretor Sergio Leone e o resultado final do produto foi memorável, segundo o crítico de cinema e roteirista norte-americano Roger Ebert. A música pontua do início ao fim, naquela harmonia característica e qualidade insuperável do genial maestro Ennio Morricone. Ao final, temos a certeza de ter desfrutado de mais de duas horas de pura arte cinematográfica westerniana.

a) Trailer Oficial de “POR UNS DÓLARES A MAIS”

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POR UM PUNHADO DE DÓLARES (1)

Clint Eastwood em cena icônica de “Por um Punhado de Dólares”

Primeiro filme da Magna Trilogia dos Dólares ou Trilogia do Homem Sem Nome, estrelada por Clint Eastwood (o pistoleiro solitário), no papel principal, filmado na Itália, na Espanha e na Alemanha Ocidental. Dirigido pelo genial diretor italiano Sergio Leone.

Nesse primeiro filme da série, todos os atores, técnicos e diretores estão com os nomes americanizados. O diretor Sergio Leone consta como sendo Bob Robertson. A trilha sonora ficou a cargo do genial maestro Ennio Morricone, que usa a sensibilidade musical para marcar presença. Nos créditos do filme seu nome aparece como Leo Nichols. Cacoetes da época.

“Por um Punhado de Dólares” provoca uma forte impressão no telespectador. Dirigido com precisão, porém sem o rigoroso estalão empregado em O Bom, O Mau e O Feio (1966) ou em Por Uns Dólares a Mais (1965), Por Um Punhado de Dólares é uma espécie de crônica impiedosa que nos deixa em estado de atenção durante toda sua projeção e termina por nos fazer sorrir com amargura para a tela. A história é simples, transportada quase que de maneira integral do filme “Yojimbo – O Guarda-Costas”, de Akira Kurosawa. No caso específico desse início da Trilogia dos Dólares, temos um pistoleiro solitário e sem nome (Clint Eastwood), que chega a uma pequena vila na fronteira dos Estados Unidos com o México, um lugar dominado por duas famílias de bandidos e contrabandistas, os Baxters e os Rojos.

Apesar de não constar na apresentação, o filme cujo roteiro dispensa comentário, foi escrito por várias mãos, como sendo Sergio Leone, Andrés Catena, Jamie Comas Gil, Fernando Di Leo, Duccio Tessari, Tonino Valerii, com versão inglesa de Mark Lowell e Clint Eastwood.

Isso não desmerece em nada o filme, pois o roteiro original e a cópia italiana são perfeitos, com muita ação e belamente interpretados. A versão italiana é colorida. Quanto à versão japonesa é em preto e branco. A versão japonesa é considerada um clássico. Mas o filme “Por um Punhado de Dólares” tem uma interpretação muito convincente do ator Clint Eastwood, que foi dirigido magistralmente pelo diretor Sergio Leone, que desde este seu primeiro filme como spagheti western, demonstra a que veio e nos dá uma aula de como dirigir um filme com segurança e genialidade, isso com pouco recurso.

A História tem muito suspense, a direção é soberba e os atores são todos de primeiríssima qualidade, muitos são celebridades do cinema italiano, que confiaram no talento do diretor Sergio Leone, aceitaram o papel secundário e realizaram um belíssimo trabalho interpretativo.

Necessário faz-se chamar a atenção dos leitores para uma característica muito usada pelo diretor Sergio Leone em todos os seus filmes, sendo que neste ele usa e abusa inteligentemente dos closes. São praticamente centenas de closes em todas as cenas. O diretor procura mostrar aos espectadores a reação dos personagens com closes longos e repetidos a exaustão e os personagens reagem belamente com essa técnica com belíssimos e expressivos closes em quase todas as cenas.

As cenas finais são antológicas, principalmente o duelo final, no qual o personagem (sem nome) interpretado pelo ator Clint Eastwood, usa um escudo de ferro embaixo do seu ponche. Cena esta já histórica e sabiamente aproveitada pelo diretor Robert Zemeckis no filme “De Volta Para o Futuro nº. 3” com um resultado de muita criatividade.

A Trilha sonora é tão importante neste filme, como se fora um personagem vivo e testemunha presente dos fatos. A música pontua, chama atenção para pequenas cenas, pequenos gestos e segue os atores nas cenas em que há alguma expectativa, de modo insistente como a advertir os personagens do que está por vir. A música é um personagem do filme, coisas do maestro Ennio Morricone que já declarou que antes de fazer a música ele precisa conhecer toda história do filme e mais importante: acompanhar as principais cenas da filmagem, como ele fez no clássico “Era Uma Vez no Oeste” o que resultou naquela magnífica obra-prima do Western Spaghetti.

“Por um Punhado de Dólares”, apesar do pouco recurso para realizá-lo, nasceu clássico do oeste.

Por Um Punhado De Dólares (1964) Trailer#1 Com Clint Eastwood e Gian Maria Volonté

Como Surgiu o Faroeste Spaghetti?

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“VÁ E VEJA” (1985) – OBRA-PRIMA SOBRE OS HORRORES DA GUERRA

Vá e Veja – esse filme foi censurado por ser muito realista

Nem Glória Feita de Sangue (1957), do genial diretor Stanley Kubrick, nem Nascido Para Matar (1987), do mesmo diretor, nem O Resgate do Soldado Ryan (1999), do genial Steven Spielberg, nem A Lista de Schindler (1993), do mesmo diretor, nem o recentemente lançado, Nada de Novo no Front (2022), do diretor Alemão Edward Berger e tantos outros filmes sobre a primeira e a segunda guerra mundiais, superam Vá e Veja, filme de guerra Alemão realizado pelo diretor russo Elem Klimov em 1985, e só recentemente redescoberto pelos estudiosos do tema, por sua importância superlativa, superando todos os outros filmes produzidos sobre o mesmo tema, que tratam da crueza da guerra sem retoques.

Vá e Veja é um dos filmes de guerra mais devastadores já feitos. É perturbador, monstruoso e assombroso. As mazelas da guerra são pulsantes e recaem duramente sobre o âmago do espectador. Nele, o horror da guerra é posto da forma mais crua e realista possível, beirando o absurdo.

Bielorrússia, 1943. O jovem camponês Florya (Akeksei Kravchenko) é cooptado por um despreparado grupo de guerrilheiros antinazistas. Em confronto com os alemães, o garoto é deixado para trás e decide retornar ao seu vilarejo. Chegando lá depara com o desolador cenário de um massacre. Perturbado, ele passa a vagar sem rumo, presenciando cenas cada vez mais fortes, que a crueldade humana é capaz.

O filme narra a história de Florya, adolescente bielorrusso que, ao desenterrar um rifle se junta a um grupo de resistência soviética, deixando seu vilarejo e sua família. Ao ser deixado para trás por ordem de um superior, o jovem retorna ao vilarejo e encontra um cenário deplorável, devastador.

Os olhares diretamente voltados para a câmara de Flyora Gaishun vão cada vez mais se deformando e nos assombrando. A evolução da irracionalidade é simplesmente magistral, palpável e corrosiva. O olhar desse jovem transmite bestialidade e o horror que foi a segunda guerra mundial, e outras guerras, e outros regimes autoritários que oprimem.

A sanidade do jovem camponês vai se degradando ao passo que esse se depara com cenas perturbadoras, correndo sua racionalidade e o arremessa diretamente no absurdo. A hora final desse filme é devastadora e descreve perfeitamente todo o mal e a crueldade atrelados ao holocausto, exalando repulsa aos atos desumanos.

Esse filme precisa reverberar ontem, hoje e sempre, ainda mais em tempos em que podemos perceber o avanço de todas as tendências esquerdistas. Portanto, é preciso mostrar o que é a barbárie. O que significa uma guerra e a violência total aos nossos semelhantes simplesmente por pensar diferente ou discordar de nós. O fascismo e o esquerdismo monstruoso são uma doença terrível e precisamos estar atentos! E fortes! Quem não acredita, VÁ E VEJA!

Trailer Legendado

Crítica do filme

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RITA DE CÁSSIA – UMA COMPOSITORA DE TALENTO RARO

Encantou-se no dia 03.01.2023 Rita de Cássia, compositora de talento raro

No dia 19.02.2018, publiquei aqui no JBF essa crônica singela sobre essa cantora e compositora cearense, que, com o seu talento musical, revolucionou o forró estilizado dos anos 90. Hoje eu republico em sua homenagem.

Rita de Cássia de Oliveira Reis, filha do agricultor e sanfoneiro autodidata Francisco Flor dos Reis, sábio lavrador analfabeto que colhia da vivência da vida a pedagogia do saber, e da professora Maria Oliveira dos Reis, que colhia da vida o saber da pedagogia.

Conhecida no mundo artístico como Rita de Cássia, cantora e compositora de mais de quinhentas músicas de forró, nasceu em Alto Santo, município do Estado do Ceará, localizado na microrregião do baixo Jaguaribe.

No decorrer de sua carreira, que começou com menos de doze anos como compositora, lá em Alto Santo, Rita de Cássia já gravou mais de 12 CDs em parceria com seu irmão Redondo e a Banda Som do Norte, mais de 05 CDs Voz e Violão, 02 DVDs Acústicos, 01 CD em comemoração aos 20 anos de carreira, 01 CD Rita de Cássia Ao Vivo (2010) e 01 CD intitulado de “Cuide de ser feliz” (2015), com 13 faixas inéditas.

Mas seu reconhecimento como compositora criativa, de sensibilidade rara foi descoberto e só veio a público pelas mãos do visionário produtor musical cearense Emanoel Gurgel, que viu nela um extraordinário potencial promissor e a projetou no cenário nacional e internacional com suas composições de forró romântico gravadas pelas bandas Cavalo de Pau, Mel com Terra, Catuaba com Amendoim, Brasas do Forró, Aviões do Forró e principalmente a Mastruz com Leite nos anos noventa, e até hoje domina o cenário musical nacional em toda época do ano, antes só vivenciando no mês junino porque o povo tinha vergonha de cantar depois por ser brega.

Além dessas bandas de forró que gravaram suas músicas, a cantora e compositora Rita de Cássia, já teve várias canções de sua autoria gravadas por Eliana, Katia de Trói, Frank Aguiar, Wesley dos Teclados, Amelinha, Marinês, As Mineirinhas e tantos outros cantores e cantoras de reconhecimentos artísticos nacionais.

Quando começou a compor, escrevia suas composições em cadernos e guardava só para ela, porque não se interessava em mostrar a ninguém. Quando concluiu o 2° grau seu irmão Redondo a convidou para ser vocalista da Banda Som do Norte, criada por ele.

Mesmo sem aprovação dos pais, ingressou em seu sonho de cantar e ser uma grande compositora na companhia do irmão. Com o tempo ela fez os pais mudarem de ideia.

Em 1992 a cantora Eliane grava Brilho da Lua, tornando sucesso absoluto, sendo a música mais executada em Fortaleza. Logo em seguida, Sonho Real foi gravada pela banda Mastruz com Leite que já começava a despontar com muito sucesso no Ceará e outros estados do Nordeste.

Em 1993 a banda Mastruz com Leite grava Meu Vaqueiro, Meu Peão de Rita de Cássia e foi uma explosão de sucesso em todo Brasil. Meu Vaqueiro, meu Peão, tornou-se um hino do forró. Começa aí o estrelato de Rita de Cássia como compositora. Ganhou o diploma “Destaque de Melhor Compositora do Ceará em 1993”. O forró começava a tomar conta de todo Nordeste com uma linguagem romântica, com poesia suave.

A forma direta de falar de amor começou a dar certo e Rita de Cássia, usando todo o seu talento e carisma, continuava compondo canções lindíssimas e recebia muitos elogios a cada dia de locutores, bandas e principalmente de jovens que passaram a gostar do forró com esta grande evolução.

Em 1994, Rita de Cássia ganha o prêmio destaque da Região Vale do Jaguaribe, como melhor compositora. Além disso, já estava em 8° lugar entre os melhores compositores do País e, em 1995 recebeu os parabéns do ECAD ( Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), por ter sido primeiro lugar em execução no Brasil, juntamente com a SOMZOOM STÚDIO, criada pelo visionário produtor Emanoel Gurgel, depois de levar muitas lapadas das grandes gravadoras e dos “disc jockys”, que rejeitavam seu produto musical assim que ele dava as costas, mesmo pagando altíssimo “jabá” para tocar.

Foi também nesse ano que a cantora e compositora Rita de Cássia foi gravar o primeiro CD intitulado Rita de Cássia, Redondo e Banda Som do Norte, tendo como sucesso a música No Voo da Asa Branca, em que retratava a saudade dos nordestinos que deixavam sua terra natal e partiam para a solidão das grandes cidades.

Em 1998, a banda Mastruz com Leite volta a fazer sucesso com a música Tatuagem, de autoria de Rita de Cássia, que foi umas das mais tocadas nas rádios de todo o Brasil, e depois com A Saga de um Vaqueiro, música genialmente extensa que conta uma história de amor impossível com mais de nove minutos de execução.

Em 2000 seus méritos também foram reconhecidos no evento “XX – O Século das Mulheres”, promovido pelo jornal Folha do Comércio, onde ela foi homenageada e recebeu o título de “Compositora do Século XX”.

Em 2002 teve novamente a explosão de suas composições na música Jeito de Amar (Porres por Você), gravado nas vozes de Solange e Xande (Aviões do Forró) no 2º CD da banda e, mais tarde, pela banda Mastruz com Leite.

Segundo o produtor musical Emanoel Gurgel, criador da produtora SomZoom Stúdio, responsável pela projeção desse riquíssimo sucesso musical, o estúdio nasceu da necessidade de se valorizar um mercado rico musicalmente mas que era desvalorizado pelas grandes gravadoras e grandes emissoras de rádios da época que torciam o nariz chamando-o de produto estrume e sem futuro.

Rita de Cássia e Emanoel Gurgel venceram com seu talento, determinação e muito trabalho e hoje fazem parte da história da música de forró romântico que à época era considerada produto descartável, brega.

Existe um senhor que não mente nunca, dependendo do que você faz de bom ou de ruim na vida: O Tempo! E o tempo deu razão a Emanoel Gurgel e Rita de Cássia!

O forró pé de serra havia feito sua história! Estava no limbo! O forró romântico veio ocupar esse espaço quase vazio com a força de uma metralhadora 100 sem avacalhar o ritmo, graças ao visionário Emanoel Gurgel, o grande responsável por essa revolução musical.

Emanoel Gurgel e Rita de Cassia – Vou pedir licença pra contar a nossa história

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TERCEIRO DIA DE UMA NAÇÃO À DERIVA

Esse é o terceiro dia triste dessa grande nação chamada Brasil, que só funciona de cabeça para baixo e sem roteiro pré-determinado. Mas nada como um dia atrás do outro e um pinguelo janjiano no meio.

Comemoremos essa incerteza com dois vídeos que resumem a cinebiografia de um homem pequeno, gordinho, óculos bifocais, macho, destemido, que, com ousadia, determinação, culhões roxos, atitudes e lances geniais, mudou a maneira de se fazer filmes de faroeste numa Itália devastada da Guerra, mesmo sem grana e com as críticas dos chamados expertises mourões: Sergio Leone.

Diferentemente daqui, onde todos os agentes públicos envolvidos com a máquina do poder tinham as ferramentas de transformação nas mãos, mas preferiram jogá-las no ventilador cheio de bosta.

a) Quem é Sérgio Leone?

Clique aqui para acessar o vídeo completo

b) Era Uma Vez No Oeste (dez óbices que só os grandes homens sabem driblar)

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ERA UMA VEZ NO OESTE (1968) – O MAIOR CLÁSSICO DE FAROESTE DE TODOS OS TEMPOS

Cena icônica do massacre de Flagstone, onde o pistoleiro Frank dizima a família McBain de forma cruel

“O ritmo do filme pretendeu criar a sensação dos últimos suspiros que uma pessoa exala antes de morrer. “Era Uma Vez No Oeste” é, do começo ao fim, uma dança da morte. Todos os personagens do filme, exceto Claudia (Cardinale), têm consciência de que não chegarão vivos ao final.” Sergio Leone.

ERA UMA VEZ NO OESTE foi mais uma obra-prima do proeminente diretor Sergio Leone. Só não superou a si mesmo devido ao (quase) insuperável O Bom, O Mau e o Feio (Três Homens em Conflito – (1966), último filme da Magna Trilogia dos Dólares. Mas sem dúvida esse é um clássico do faroeste memorável, superlativo, e porque não? Do cinema como um todo. Superou todos os filmes que à época eram endeusados por muitos “críticos” como melhores do gênero western, como Rio Bravo (1959) – Onde Começa o Inferno e Matar ou Morrer (1952)… Era Uma Vez No Oeste é uma ópera incomparável!

Era Uma Vez No Oeste mostra a realidade nua e crua do oeste, com homens cruéis lutando para sobreviver a ermo, utilizando-se de métodos torpes. Para quem gosta de cinema essa obra-prima é insuperável. Fica a dica, para quem não assistiu O Bom, O Mau e o Feio, também assisti-lo, pois se trata de uma magna obra magna, de importância cinematográfica superlativa, épica.

Era Uma Vez no Oeste é muito mais do que um dos maiores faroestes já feitos. Essa obra-prima de Sergio Leone transcende qualquer categorização por gêneros ou subgêneros e alcança facilmente o panteão dos melhores filmes que já sagraram as telonas. É, talvez, o ponto alto da carreira do diretor, que demonstra uma impressionante maturidade de temas, fotografia, cenografia, montagem, trilha sonora e um controle absoluto de seu elenco, para alcançar um resultado de se aplaudir de pé.

E olha que Sergio Leone nem mesmo precisou se distanciar muito da estrutura que lhe deu todo o renome que tinha quando ele, tentando fugir das ofertas da United Artists e outros estúdios para dirigir mais westerns, não conseguiu recusar o orçamento generoso da Paramount, que vinha encabeçado pela oferta dele trabalhar com Henry Fonda, seu ator preferido e que era sua escolha original para o papel que consagrou Clint Eastwood na Trilogia dos Dólares. Novamente preso ao gênero do qual queria fugir, Leone não se fez de rogado e arregimentou a ajuda de Dario Argento e Bernardo Bertolucci (ambos, à época, críticos de cinema e roteiristas ainda em começo de carreira, com Bertolucci já tendo dirigido, mas nada relevante) para criar a linha narrativa de Era uma Vez no Oeste.

Essa trinca colaborativa foi extremamente importante para o sucesso que o filme alcançaria e, também, para a atemporalidade dessa fantástica obra (sim, essa fita é merecedora de hipérboles!), pois Leone, Argento e Bertolucci extraíram a essência dos faroestes americanos de grande sucesso à época e trabalharam na inserção desses elementos representativos ao longo de toda a narrativa, mas sem se esquecer dos elementos característicos do faroeste característico do próprio Leone, como o misterioso personagem sem nome, no caso “Harmônica”, vivido por Charles Bronson num papel memorável e o passo desacelerado, que ganhou contornos próprios em “Era uma Vez no Oeste” que, logo em sua longa abertura, nos apresenta as aventuras de uma mosca sobrevoando no rosto do pistoleiro matador, sujo e suado.

Com a narrativa pronta e uma versão do roteiro já escrita, Leone chamou Sergio Donati, que trabalhara com ele, sem receber créditos, em Por um Punhado de Dólares e outros, para fazer a sintonia que durara um ano. Donati, então, focou em destilar Era uma Vez no Oeste para sua essência, com o objetivo de tornar o filme o mais hollywoodiano possível, mas ao mesmo sem perder a alma do Western Spaghetti. São de Donati os diálogos marcantes da projeção, além de ter sido ele o responsável por impedir que o filme, depois, fosse muito mutilado para lançamentos em mercados diferentes, ainda que as versões feitas tivessem oscilado entre 145 e 175 minutos, mas nenhuma delas realmente se sobrepondo de maneira relevante sobre a outra.

Uma grande vitória, sem dúvida. Trabalhando duas narrativas a princípio separadas sobre o conflito gerado com a chegada dos trens e outra uma típica história de vingança, que se misturam com as mais clássicas histórias de bandidos e histórias envolvendo ameaças às terras de alguém.

Sergio Leone constrói, sempre com seu passo preciso, detalhista e lento de um western spaghetti, uma rede de tramas envolvendo Harmonica, o herói silencioso que caça o pistoleiro Frank (Henry Fonda) que, por sua vez, assassina a família McBain para abrir espaço para a chegada da ferrovia e coloca a culpa em Cheyenne (Jason Robards), que se une à Harmonica para salvar Jill McBain (a estonteante Claudia Cardinale), ex prostituta e herdeira da fazenda dos McBain da sanha assassina do matador cruel Frank. Reparem na circularidade do roteiro, que não deixa pontas soltas e encaixa uma narrativa aparentemente solta à outra, demonstrando o excelente trabalho na confecção da história e o cuidado na redação do roteiro.

E Leone não tem pressa em fazer revelações. Não sabemos bem quem é o misterioso homem que toca gaita, que é perseguido por três assassinos no começo, não entendemos exatamente as intenções de Frank ainda que sintamos um certo temor ao ver aquela figura de olhos azuis penetrantes e demoramos a perceber o exato papel de Cheyenne e de Jill na trama. Tudo é mostrado e pouco é dito, mas o desenrolar e a convergência das linhas narrativas são cadenciados à perfeição de forma que diálogos se tornam supérfluos. Os olhares, com os famosos planos detalhes de Leone, contrastados com tomadas em plano geral, dizem tudo.

Somos tragados para a história naturalmente e a longa duração do filme parece passar em alguns instantes, tamanha é nossa fixação na tela. E, permeando o embate, há, mais uma vez, a trilha sonora de Ennio Morricone, um de seus mais impressionantes trabalhos. Desde a gaita narrativa coroando o leitmotif de Harmonica, passando pela música mais forte que caracteriza Frank, até o belo vocal de Edda Dell’Orso, que empresta nobreza e força à Jill McBain.

Talvez não tão memorável quanto à trilha de Três Homens em Conflito, a composição de Ennio Morricone para Era uma Vez no Oeste parece, por outro lado, ainda mais integrada à narrativa que no filme com Clint Eastwood e isso talvez se deva ao fato que Leone, em um movimento raro, pediu para Morricone compor a trilha antes das filmagens começarem, de maneira que o diretor pudesse tocá-la durante a fotografia principal, em atitude, hoje em dia, mimetizada por Quentin Tarantino, com suas músicas pop que escolhe pessoalmente e toca nas filmagens.

Com isso, talvez, a música de Era uma Vez no Oeste tenha influenciado as atuações e não o contrário como é o usual, resultando em uma mescla que pouco se vê por aí. Ainda falando em som, o trabalho do espectro sonoro em Era uma Vez no Oeste é perfeito, desde a edição de som até sua mixagem, com o uso de sons inspirados pelos westerns usados como referência aliado a um orçamento mais alto, que permitiu um trabalho melhor na finalização, especialmente se comparado com a Trilogia dos Dólares. A união da trilha sonora com os sons do filme e, em vários momentos, com a substituição da trilha pelos sons, aumenta a sensação de imersão que a fita proporciona, envolvendo-nos ainda mais profundamente na história da trinca principal de personagens. “Era uma Vez no Oeste” é um grande triunfo cinematográfico, merecendo figurar em todas as listas dos melhores filmes já feitos. Sergio Leone merece todos os nossos agradecimentos profundos e uma eterna salva de palmas por realizar o maior western da história do faroeste.

Era uma Vez no Oeste – Trailer

Era uma Vez no Oeste – 10 coisas que você não sabia! Resumo e curiosidades

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

VOVÓ DINDA

Retrato semelhante ao de Vovó Dinda do Bundão, com seus peitos fartos e pontudos

Vovó Dinda do Bundão, ex-escrava e ex-amante de um coronel afamado da Zona da Mata Sul Carpinense, com quem “ficou” por alguns anos, depois de ter sido alforriada das amarras do escravismo da região canavieira, que se negava a enxergar nela a grande mulher guerreira, que se casou na Igreja com vovô Amaro De Melo, que lhe dava conta do fogo abrasado que ela sentia a qualquer hora do dia ou da noite.

Vovó era uma negra bonita, pernas grossas, torneadas, corpo escultural, bunda enorme, peitos fartos. Apesar de não existirem pasta nem escova de dente na época, como mulher inteligente e avançada que era, não se entregava ao desleixo dentário. Por isso era muito cobiçada pelos senhores de engenhos da época, que viam nela não só o corpo sensual e pujante. Enxergavam nela a mulher forte, guerreira, corajosa, decidida, trabalhadeira e disposta a brigar em batalhas rurais para defender sua dignidade. Esses seus atributos e caráter não eram ignorados pelos homens de poderes da Zona da Mata da época.

– Gosto de homem, sim! Quanto mais homens, melhor! Não pedi para nascer com esse fogo na bacurinha! – dizia ela quando questionada pelos netos ávidos por ouvir os segredos de alcova dela. Gostaria de ter nascido em Palmeira dos Índios e ter conhecido Maria Pé na Tábua, a mulher que topou deitar-se com o negão africano da parreira que amarrava no joelho, como conta o meu amigo Liêdinho, o sociólogo das putas do Mercado São José. Eita mulher corajosa danada, dizia ela, dando uma risada que estalava na sala de casa, mostrando os dentes brancos sem cáries para os meninos.

– Já fiz amor no canavial com os capatazes que me protegiam das sanhas furiosas dos patrões, de noite, de tarde, de dia, fugindo dos cachorros das senzalas, das picadas das formigas, das cobras, dos insetos, das urtigas, mas nunca me arrependo. Só me arrependo daquilo que não fiz – dizia ela com os olhos brilhando de saudade dos “tempos idos e vividos.”

– Até hoje eu me pergunto como fui me apaixonar e ser leal ao avô de vocês. Eu não acreditava em feitiço não, mas até hoje eu só tenho uma explicação para dar por ter largado tudo para me juntar a Amaro: foi algum feitiço feito por uma dessas ciganas que andavam em rebanho sem paradeiro certo, que me pediu um anel de ouro que tenho e eu não dei. Só pode ser – repetia ela nas conversas descontraídas com os adolescentes.

– Meus netinhos lindos – murmurava ela, com mamãe a recriminando lá no fundo da cozinha do casarão onde ficava preparando a janta –, o vovô de vocês era homem macho na cama! Não me deixava suspirar! Eu gostava da sacanagem dele; ele também da minha; a gente era pareia certa um para o outro. Foi por isso que eu larguei tudo para viver com Amaro. Eita homem cabra de peia na cama! – dizia ela bem baixinho, sem mamãe ouvir.

Nunca haverá uma mulher mais feliz do que vovô Dinda do Bundão: Negra alforriada, cobiçada pelos homens ricos da região, mas que nunca se aproveitou dos atributos sexuais para tirar proveito com os senhores de engenhos; para estar no bem bom das fazendas. Ao contrário, casou-se na igreja com vovô Amaro De Melo. Com ele foi feliz até se encantar, porque tudo que ela o queria ele lhe dava em dobro: o prazer de ser feliz e ser amada sem restrições, mesmo na simplicidade do interior em fim do século XIX e começo do XX.