ALEXANDRE GARCIA

MANDATO PARA MINISTROS DO STF GANHA APOIO ATÉ DE LULA

Dias Toffoli

O ministro Dias Toffoli, do STF

Ora, vejam só! O presidente Lula está concordando com a oposição. A oposição tem sugerido, numa reforma do Supremo, que ministro do Supremo não fique até os 75 anos, que tenha um mandato. Mandato de 8, de 10 anos. Pois perguntaram para o presidente Lula – acho que foi numa entrevista que ele deu ontem para o UOL – e ele respondeu: “Acho que tem que ter mandato. Porque não está certo que alguém entre com 35 anos e só saia com 75”. Quer dizer, fica 40 anos lá. Quando Lula nomeou o Toffoli, eu acho que tinha 42. Fica até 75 anos. O próprio Lula parece que já cansou do Toffoli. Está falando para os íntimos que ele poderia se aposentar.

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Saudade de Moreira Alves

A gente sente saudade quando o ministro é, por exemplo, José Carlos Moreira Alves. Acho que ele ficou 23 anos no Supremo. Ele saiu e o Supremo murchou. Moreira Alves foi elogiado outro dia no voto de absolvição do Fux. Uma das últimas grandes figuras do Supremo. E Toffoli não é Moreira Alves, mas aí acho que está certo, sim.

O que deveria ocorrer também, para a pessoa ter notável saber jurídico com 35 anos – não sei, não é um preconceito – mas a pessoa precisa, para o saber jurídico, de estrada no Direito. Precisaria realmente caminhar lá no chão, primeiro, depois ir subindo. Imagina entrar no Supremo com 50 anos, é diferente de entrar com 35.

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Fachin adia código de ética

Por falar em Supremo, o ministro Fachin, que está com a ideia do Código de Conduta – era só pegar aquele sugerido pela OAB de São Paulo que está perfeito. Ou pegar a Constituição e levar a sério. A Constituição fala em total responsabilidade, na moralidade, na impessoalidade, na publicidade, na eficiência, ser conhecido como de conduta ilibada. Era só seguir isso, mas enfim, estão inventando isso, para ver se acreditam que o Supremo está fazendo alguma coisa para resolver a sua decadência, na credibilidade do povo, depois de todas essas coisas que têm acontecido.

Mas aí ele (Fachin) tinha marcado um almoço e uma reunião, dia 12 de fevereiro, depois de ter indicado, nomeado, a ministra Carmen Lúcia, do “Cala Boca Já Morreu”, para ser a relatora desse código, adiou. Aliás, cancelou, na verdade. Parece que talvez ocorra depois do carnaval. Tirou o bloco da rua. Parece que está com muita resistência interna. Por quê? Porque aí tem tanto privilégio, né? O principal são os escritórios de advocacia das famílias. Isso é o principal, sem dúvida. E a ética que impede que alguém que tenha sido advogado de um partido político, depois vá votar numa causa que envolve o partido político. Isso é óbvio, é cristalino. Mas é que no Senado eles não fazem uma sabatina pra ver se o sujeito tem código de ética na medula, desde casa, desde o berço. Essa é uma questão.

E outra coisa. A principal exigência para ser ministro do Supremo é notável saber jurídico. É o que está na Constituição. Agora, a gente está discutindo sobre o Jorge Messias, indicado pelo Presidente. Se o Alcolumbre vai querer ou não vai querer, porque ele quer apoiar o Pacheco. Não! O mais importante não é o Alcolumbre, é o notável saber jurídico. Isso, sim, tem que ser verificado numa sabatina do Senado. É o desvio desse país. Parece que o país entrou num ramal errado. Tem oportunidade para corrigir agora no ano eleitoral.

Enquanto isso, está lá o Congresso Nacional, gente importante lá dentro, resistindo a fazer uma CPI, enrolando para ver se não faz a CPI do Master, porque tem muita gente para ser protegida.

ALEXANDRE GARCIA

CASO MASTER NO SENADO: A INVESTIGAÇÃO VAI ANDAR?

O senador Renan Calheiros (MDB-AL)

Foi instalada ontem na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, que é presidida pelo senador Renan Calheiros (que já foi presidente do Senado e já foi ministro da Justiça), uma subcomissão para acompanhar as investigações do Master. Mas essa subcomissão, segundo o Renan Calheiros, tem poderes de convocar pessoas, testemunhas ou investigados, de pedir quebra de sigilos bancário, fiscal, telefônico e de fazer diligências. Então, é quase uma CPI. Ou ele está tentando com isso criar uma alternativa para uma CPI que não fuja do controle dele. Não sei, eu estou só dando alternativas. E aí ele disse que “o caso deve ser encarado de frente”. Eita cartilha de Paulo Freire, né? Quero ver encarar de costas. É impossível, né? Encarar de frente.

Aí ele diz mais: “Não haverá retaliação contra ninguém, mas se for encontrado algum senador ou deputado com culpa, não haverá omissão”. Gente, ele está avisando: “Olha, nós vamos investigar a fundo. Quem tiver culpa que vá limpando aí os celulares, os computadores, os indícios e as provas”. Não precisava avisar, quando a surpresa é que funciona. E aí perguntaram: “E até Lula?”, porque Lula recebeu o Vorcaro. Aí eles disseram: “Não, nós vamos mandar uma carta para o presidente se explicar”. É Lula. E há ainda o caso do banco BRB, que está com reclamações dizendo que estão cobrando de gente que já pagou, porque o Master não deu baixa. Ele estava vendendo como se fosse crédito para o BRB. Ibaneis está cada vez mais cercado, e há investigações da Polícia Federal no BRB, que é o banco estatal de Brasília.

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CPI mista, TCU e Banco Central em jogo

Quanto ao TCU, porque tem um ministro lá do TCU que resolveu defender Vorcaro e acusar o Banco Central. Tem o diretor de fiscalização do Banco Central que teria dado informações tendentes a fazer o Banco de Brasília ficar com boa vantagem em relação ao Master, é o que se disse aí nessas fofocalhadas todas. E aí tem um requerimento: já foi protocolado um requerimento de CPI mista, que tem 42 assinaturas de senadores e 238 assinaturas de deputados.

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Caso Master e o dinheiro da Previdência

Bom, ainda falando desse assunto, Vorcaro, nesta quinta-feira, teria que ser ouvido na CPI da Previdência. Ele está envolvido até no desvio do dinheiro dos idosos da Previdência, dos aposentados e pensionistas. Até nisso o Master estava envolvido. Mas tinha a convocação, mas decidiram: “não, vamos deixar para depois do carnaval”. Que vergonha! Será que o carnaval ainda é um marco para o país? Eu não conheço ninguém que esteja perturbado em participar de carnaval ou acompanhar carnaval. A pessoa quer trabalhar, quer produzir, quer produzir renda, riqueza. Mas, enfim, fica tudo para depois do carnaval. Pobre país, está sobrando tudo nesse país.

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Frio recorde em Cuba e a narrativa do clima

E queria falar para vocês sobre o aquecimento global, né? Como é que está? Meu sobrinho mandou, lá de Orlando, foto com água congelada: o pingo que parou na queda, congelou. Cuba está com zero grau. Nunca! Nunca, lá nessa ilha do Caribe, a temperatura foi tão baixa: zero grau Celsius. Agora, imagine Cuba terminando o combustível para se aquecer nas casas, sem uma cultura de frio, faltando cobertores, roupas de frio, né? Pobre do povo cubano.

E por falar em Cuba, para falar em frio, no Japão houve 30 mortes. O Japão tem equipamento contra o frio, 30 mortes por causa do frio, nevascas excessivas. Nos Estados Unidos também. Eu mostrei para vocês outro dia que, no verão do Hemisfério Sul, um navio de turismo ficou preso nas proximidades da Antártica, né? Um navio neozelandês foi socorrido por um quebra-gelo da Guarda Costeira americana.

E, na Venezuela, imaginem só: um sujeito que era ministro do Maduro, que era o testa de ferro, ministro da indústria, foi demitido pela presidente Delcy Rodriguez. E agora foi preso por autoridades venezuelanas e americanas, e vai ser extraditado a pedido dos Estados Unidos. Foi preso também o dono da TV Globovisión, Raúl Gorrín. O Raúl Gorrín fazia lavagem de dinheiro e estava sendo investigado nos Estados Unidos. Aí os Estados Unidos pediram e a polícia venezuelana prendeu. Vejam só.

ALEXANDRE GARCIA

O CASO MASTER

Banco Master

Sede do Banco Master, em São Paulo

Hoje eu começo com fatos policiais, porque a Polícia Civil no Rio de Janeiro e em São Paulo está atrás de um grupo. Já prendeu alguns, todos jovens, da geração Z, gente que nasceu neste século, neste milênio. Eu acho que começaram com brincadeira, brincadeira sobre assunto sério, de jogar bombas na Avenida Paulista, no dia 2 de fevereiro, e na frente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, também no dia 2 de fevereiro. O fato é que a polícia apreendeu explosivos quando fez busca e apreensão na casa de muitos deles. Isso se dissemina pela rede social, tem gente que calcula 7 mil pessoas, “gente” que eu digo é a polícia, 7 mil pessoas no Brasil inteiro. Lá em São Paulo seria uns 600, no Rio uns 700, tem 12 presos em São Paulo, 17 no Rio de Janeiro.

Já que estou falando de Avenida Paulista, em São Paulo, ontem, houve um tiroteio na Faria Lima. Só que não tem nada a ver com o Master. Acontece uma coisa na Faria Lima que não tem a ver com o Master. É que bandidos que… eu não sei como, mas jornalista gosta de elogiar bandido. O Estadão escreveu que são “especializados” em assaltos a residências. Ora, especializado é um adjetivo positivo e elogioso. Num país em que tem pouca gente especializada, eles dizem que o bandido é especializado. Não! São ladrões de residência, meu Deus do céu! Bandidos que assaltam residências. Não tem nada de especializado. Fizeram uma refém, ainda fugiram de carro e foram perseguidos. Na Faria Lima, um deles atirou na polícia e foi morto. Tem outro que está baleado na perna e outro que se entregou. E a refém saiu ilesa. Não aconteceu nada. Agora, foi interrompido o trânsito na Faria Lima, o que significa movimento numa região importante de São Paulo, que foi muito, muito prejudicado.

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Dinheiro de aposentados no Master

Mas também teve prisão do sujeito que presidia o fundo de pensão dos funcionários estaduais do Rio de Janeiro. Ele e mais dois, esses dois, diz também a imprensa, que estão foragidos. Não, eles não estão foragidos, eles não foram presos. Eles estão sendo procurados para serem presos. E puseram quase R$ 1 bilhão do dinheiro dos funcionários do fundo no Master. Quanto será que levaram, hein?! Porque o preso já tinha transferido a propriedade de dois carros, já tinha apagado provas nos computadores e nos celulares, então, ele tem muito a esconder. Aliás, tem muita gente aí que tem muito a esconder. Tanto é que tem um sigilo sobre o inquérito na Polícia Federal do Master. Foi levantado um pedacinho mostrando trechos do depoimento do Vorcaro, mas as pessoas querem ver o que está nos celulares do Vorcaro, as provas que foram conseguidas, as anotações, os arquivos. Isso sim, porque se tem gente graúda envolvida, aí interessa mais ainda ao povo. Mais interessa ao povo porque o povo – essa é a democracia – é que é a fonte do poder. E essas coisas têm que ficar claras, tranquilas.

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Sigilo e CPI

Só que o presidente da Câmara disse “Não. Não pode fazer uma CPI.” Por que querem uma CPI? Por que não querem uma CPI? Porque a CPI torna tudo isso público. E na Polícia Federal é possível haver um controle. Não houve? O inquérito não ficou parado um tempão? O inquérito dos aposentados da Previdência ficou parado, até que caiu nas mãos do ministro André Mendonça, que mandou tocar. Toffoli estava segurando. Estava nas mãos dele e não acontecia nada. Estava parado, simplesmente. Então, é isso que precisa ser investigado. O presidente da Gazeta do Povo, festejando os 107 anos da Gazeta do Povo ontem, disse que uma das saídas disso é fazer uma CPI de abuso de autoridade do Supremo, por exemplo. Seria uma saída.

Bom, só para terminar, o irmão do Bolsonaro, o Renato, foi retirar o prêmio, devido a ele, na Mega-Sena da Virada, que é jogo de azar, porque o jogo de azar é aquele que depende da sorte. Foi retirar na Caixa Econômica, era pouca coisa, R$ 216. Teve 308 mil ganhadores, só que ele foi informado que o prêmio dele já tinha sido retirado. Que coisa, né?!

ALEXANDRE GARCIA

PODRIDÃO NORMAL

Dona Romilda Rosa Ferreira, bolsonarista militante, ajudou a fretar um ônibus em São Lourenço, para quem queria aderir ao acampamento montado na frente do QG do Exército. O ônibus não lotou em São Lourenço e ainda teve lugar para gente chegada de Itamonte e gente que embarcou em Caxambu. Semana passada ela foi condenada a 14 anos por associação criminosa armada, tentativa de golpe de estado e abolição violenta do estado de direito. Ela já carrega, há tempos, tornozeleira de semi-prisioneira política. O Brasil, por ironia, tem tantas Romildas quantos presos políticos tem a Venezuela. Só que logo estarão livres, numa anistia geral que abrange os 26 anos de chavismo.

Se nossa crise fosse apenas política, com radicalismos, extremismos, fanatismos, vinganças e medo, tudo se resolveria por uma pacificação, como a que a Venezuela vai tentar a partir de agora. Mas a crise é mais grave e destruidora. Não é apenas de ignorância, de falta de conhecimento. Sim, é preocupante que um terço do ensino médico seja inferior a medíocre. “Quem vai cuidar de nós?”- perguntam-se os médicos de meia-idade. Não; não é apenas o ensino medíocre em quase todas as áreas, em que pessoas que tem a língua portuguesa como principal ferramenta, não sabem o significado das palavras, não sabem construir uma frase na lógica da língua. A crise é pior. É moral – ou ética, para usar um sinônimo. São os princípios, que deveriam ser inculcados na medula das novas gerações na casa da família. Mas como, se até as famílias estão diluídas?

O Estadão de domingo mostra o “Compadrio Brasileiro” num artigo de Fernando Schüller, em que o banqueiro esperto, Vorcaro, contrata o ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, por 1 milhão por mês; contrata o ex-ministro do Supremo, depois Ministro da Justiça, Lewandovski, por 5 milhões – ambos por indicação do líder do governo, Senador Jacques Wagner. O artigo mostra que a família de Moraes tem o inédito contrato de valor inédito: 129 milhões; que o Ministro Toffoli, que é relator do caso, é ligado ao Master via resort-cassino onde recebe banqueiros, ou a advogado de banco que lhe dá carona em jatinho, e seus irmãos vendem para advogado da JBS, da multa anulada. Mas o mais grave é pagar ônibus para manifestante ir a Brasília, ou escrever com batom em estátua de granito. Isso dá 14 anos de prisão.

O Supremo, o Presidente do Senado e o Presidente da República se juntam para que não haja consequências, como as que houve para Déboras e Romildas. Sigilo sobre provas, inércia sobre pedidos de impeachment, blindagens em CPIs. O editorial principal do Estadão dessa sexta afirma no título que estão “Fazendo o País de Bobo”. O pior de tudo é a naturalização pelos brasileiros dessas gravíssimas ofensas à ética, aos princípios e à própria Constituição. Considerar que um juiz do Supremo pode julgar um caso em que ele próprio está metido, como interessado, vítima, ou ligado por parentesco, é aceitar a falência da civilização no Brasil. Quem aceita a podridão como natural, é porque já apodreceu também.

ALEXANDRE GARCIA

O DISCURSO DE LULA

Ontem foi a reabertura dos trabalhos do Poder Judiciário, do Supremo e do Congresso Nacional. Eu já disse aqui e vou repetir, você que é dono de loja, de indústria, você fechou ou você continua pagando imposto? Pois é, você continua trabalhando. Na democracia não há alguns que sejam mais iguais que os outros. Alguns são eleitos, são escolhidos para pilotar o Estado brasileiro para servir àqueles que pagam impostos, só pra gente lembrar. Lula não foi à reabertura do Congresso. Ele foi à reabertura do Supremo, onde deu uma manchete para agência oficial, que eu até interpretei diferente do que ele queria dizer.

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Lula no Supremo, código de ética na gaveta

A manchete diz: ”Brasil é maior que golpistas”. Lula disse isso. Ele disse que a esperança é renovada, porque o Brasil é maior do que golpistas ou traidores da pátria. Os golpistas deram golpe de R$ 42,8 bilhões na Petrobras, lá no Petrolão. E são traidores da pátria porque querem usar empresas estatais ou de economia mista, que são do Estado brasileiro, que são do povo brasileiro, não há dúvida. E a novidade lá do Supremo é que Fachin escolheu Carmen Lúcia para ser a relatora de um código de ética. É só importar o código de ética da OAB de São Paulo e está tudo resolvido. Fachin reconhece os erros. É coisa que eu já falei para vocês, é que ele disse que agora é preciso fidelidade absoluta à Constituição, clareza de limites e responsabilidade institucional. Reconheceu tudo o que está faltando.

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Lindbergh sai, Uczai entra

Lula não foi à reabertura do Congresso. Nem valia a pena ouvir os discursos mesmo. Tudo discurso do óbvio, principalmente do Alcolumbre. Mas a novidade é na Câmara dos Deputados, quando Lindbergh Faria – com o qual o presidente da Câmara disse que não conversaria mais –, sai da liderança do PT, e entra um catarinense, formado em teologia, o deputado Pedro Uczai. Ele já está, acho que no terceiro ou quarto mandato, há 15 anos na Câmara dos Deputados. Começou na política em 1995, como deputado estadual, já foi prefeito de Chapecó. Então, tem muito mais experiência lá.

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R$ 10 trilhões de dívida

Bom, mas o que eu queria falar para vocês também é questão do nosso dinheiro, dos nossos impostos. O déficit do Governo Federal chegou a R$ 61,690 bilhões. Os estados e municípios tiveram superávit, e aí diminuíram o déficit das contas públicas em R$ 9,5 bilhões. Foi superávit dos estados e municípios, dando lições para o governo federal capitaneado por Lula e Haddad. As contas externas tiveram um déficit de R$ 68,8 bilhões. A dívida pública está em R$10 trilhões, quase 78,7% do PIB. A dívida pública da Argentina de Milei, fechou o ano, a nossa, foi 78,7% de tudo que se produz no Brasil. A deles, 48% de tudo que se produz na Argentina.

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Bachelet, Toffoli e os nossos impostos

Por falar em Argentina, a Michelle Bachelet foi indicada pelo México e Chile para ser secretária-geral da ONU. A partir do ano que vem, Lula já disse que vai apoiar. O pessoal da Argentina tá achando graça. Eu acho que merece, merece graça mesmo.

Bom, eu queria falar sobre o Toffoli porque o Estadão, na primeira página de ontem, está mostrando que ele agiu como promotor e não como juiz (ele está imitando o Moraes, né?), nas perguntas que redigiu para serem feitas ao diretor de fiscalização do Banco Central, na tal acareação extemporânea, tal como o sujeito lá do TCU, o ministro Jhonatan de Jesus, agiu com preconceito em relação à fiscalização do Banco Central. Mostra parcialidade. Está lá na primeira página do Estadão. São os compromissos com o Vorcaro, financeiros e sociais, de ministros do Supremo. Sigilo, blindagem, censura às redes, pagamento de propina para mídia. Propina, né? Propaganda. Pois é, foi ato falho meu.

As vendas de sentenças, a advocacia administrativa, imposição de medo com condenações absurdas, tudo são armas daqueles que usam os nossos impostos, encharcados pelo nosso suor, para continuar metendo a mão. É uma laia que usa os nossos impostos, não para nos servir, mas para se servirem, só para a gente pensar a respeito em ano eleitoral.

ALEXANDRE GARCIA

CPMI DO MASTER AVANÇA SEM O PT E CASO DOS RESPIRADORES DO NORDESTE RESSURGE

Pedido da CPMI do Master avança no Congresso entre deputados e senadores

O pedido de comissão parlamentar de inquérito de deputados e senadores sobre o caso Master já está com 42 assinaturas de senadores, ou seja, já passou da metade, são 81 senadores, e 230 deputados entre os 513. E não tem ninguém do PT, à exceção do representante do Espírito Santo, senador Fabiano Contarato. Assinou. O governo não quer, mas ele assinou. É necessário.

É interessante que a gente vê líder do governo, por exemplo, Jacques Wagner, foi quem conseguiu emprego para o Guido Mantega, um bom emprego, um milhão por mês no Master, depois um bom contrato com Lewandowski, R$ 6,5 milhões, está no Globo e na Folha de S. Paulo de domingo, mas ficou em R$ 5 milhões.

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Compadrio e críticas ao Supremo

Ele deve ter descoberto que o Moraes estava com R$ 129 milhões, a família de Moraes, né? Deve ter achado estranho. Mas foi o mediador aí, a agência de emprego foi o Jacques Wagner, através do Augusto Lima, que era o CEO, do Banco Master. Ele já tinha relações com Augusto Lima, ele próprio conta naquela cesta do povo.

O Fernando Schiller, no Estadão de Domingo, comenta esse compadrio, como uma mão lava a outra no governo. Aliás, falando em Estadão, olhem só, o editorial principal do Estadão de sexta-feira, fazendo o país de bobo. Quem está fazendo o país de bobo? O Supremo, segundo o Estadão, caso da relação do escritório de Lewandowski com o Master é só a mais recente de uma série de situações eticamente reprováveis, mas que são tratadas pelas autoridades com naturalidade.

Isso faz muito mal para o país, e para nós também, principalmente para nós. Se nós, origem do poder, acharmos que isso é natural, que é natural que um escritório de advocacias da família de um ministro do Supremo possa ter um contrato gigantesco, excepcional, inédito, de R$ 3,6 milhões por mês, que é natural que outro ministro de Supremo seja o relator de um processo de um banco que está ligado ao exótico assino dos seus irmãos, supostamente seus irmãos.

É normal que o sujeito saia do Supremo e já feche um contrato com um banco? Não é normal. Isso não é normal.

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Sigilos, suspeitas e pedidos de investigação

Por falar nisso, vejam só. Houve um pedido da imprensa de saber quantas vezes dona Viviane Moraes que ficou como titular nominal do escritório da família de advocacia e defensora, defensora do máster, quantas vezes foi ao Senado? E o presidente do Senado pôs isso com sigilo. Ué, tem alguma coisa pra esconder? Qual é o problema? De um lobista, de uma advogada entrarem no Supremo? Se não for nada ilícito, não tem porquê. Proteger, né?

Aí joga a suspeita em cima. Os senadores Eduardo Girão, Ceará e Magno Malta, Espírito Santo, estão pedindo para a CPI do Crime Organizado quebra do sigilo fiscal e bancário da senhora Viviane Moraes. Não sei o que vai acontecer.

Na CPI da Previdência está prevista a ida de Vorcaro na quinta-feira. Eu fico pensando, poxa, agora que Vorcaro se sentiu desamparado, né?

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Respiradores do Nordeste voltam ao radar

E é bom a gente não esquecer. O ministro do Superior Tribunal de Justiça, Og Fernandes, mandou a Polícia Federal retomar a investigação sobre os respiradores do Consórcio do Nordeste, quem assinou a compra de 40 milhões pagos adiantados, sem garantia de receber o respirador, que não receberam até hoje. 48 milhões. Quem assinou era o então governador da Bahia, Rui Costa, que hoje é chefe da Casa Civil de Lula. Assinou a compra e autorizou o pagamento adiantado. E a vendedora não tinha capacidade técnica para produzir os respiradores, que nunca foram entregues.

Então, tem mais essa que a gente não pode esquecer, sob pena de estimular o inchaço da corrupção.

ALEXANDRE GARCIA

DEPOIMENTO DE VORCARO EM CPI PÕE BRASÍLIA EM SUSPENSE

Daniel Vorcaro, preso na operação que liquidou o Banco Master

Na próxima quinta-feira, vai ter uma atração máxima na CPI da Previdência, que examina aquele roubo, aquele desvio de R$ 6 bilhões de idosos da Previdência, aposentados e pensionistas. É um escândalo, uma crueldade. E o Vorcaro está envolvido nisso também. Então ele foi convocado, ele vai ter que estar lá, na semana da reabertura dos trabalhos, da volta das férias. Vai ser um interesse muito grande, porque a boca do Vorcaro pode ser fatal. Pode fazer mais mal, por exemplo, que as medidas do Trump, de tirar visto, de baixar a Magnitsky.

Se ele começa a falar, por exemplo, desse contrato de R$ 129 milhões com o escritório de advocacia da família Moraes, ou contar alguma coisa sobre os investimentos lá no resort-cassino dos irmãos Toffoli. Isso porque os celulares dele ainda não foram abertos, que estão sob sigilo do ministro Toffoli. Estranho. Agora, o ministro pelo menos está sentindo a pressão, disse que terminadas as investigações, vão verificar se pode ir para as instâncias ordinárias. Não vai para as instâncias ordinárias no plural, não. Vai para a primeira instância, se for o caso. É uma só. Mas enfim. Então, quinta-feira que vem, Vorcaro, que tem esse grande poder de mostrar quem são os amiguinhos dele.

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Nadine Heredia e o avião da FAB

Uma juíza federal de Brasília, juíza da 5ª vara, está dando 15 dias para a União dar explicações por que que um avião da Força Aérea Brasileira, na véspera da prisão da condenada primeira-dama do Peru, Nadine Heredia Alarcón, posou em Lima e resgatou a primeira-dama, a ex-primeira-dama do Peru. Saber por que foi dado o asilo para ela e quem foi que pagou o avião que foi lá, quem foi que ordenou. Inclusive, a condenação dela se deve a uma empresa brasileira que deu dinheiro, uma mochila cheia de dinheiro, a Odebrecht. Quem será que pediu para a Odebrecht dar dinheiro para ela, para fazer a campanha do marido dela? De quem será que o marido dela era amigo? Quem será que tinha compromisso?

Esse assunto foi levantado numa ação popular por um advogado do Mato Grosso do Sul, Daltro Feltrin. Interessante que ele entrou com a ação. A ação é de abril, estava na 14ª vara, mas ninguém deu bola, ninguém respondeu, provavelmente ninguém respondeu. Agora a juíza da 5ª vara teve que exigir explicações em 15 dias, para o comandante da aeronáutica, para o ministro da Justiça, Lewandowski, para o ministro Mauro Vieira, de Relações Exteriores, para esclarecer essa história.

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Vitórias contra o câncer e lesões medulares

E eu deixei para o fim as melhores notícias na área da saúde. Vejam só, um pesquisador, doutor Mariano Barbacid, ele é do Centro Nacional de Pesquisas do Câncer, da Espanha, anunciou vitória sobre o câncer de pâncreas, em tripliterapia, que teria eliminado esse câncer que é tão mortal. Só que em experiências pré-clínicas, ainda não aplicado em humanos. Aqui a ressalva, mas todo mundo está recebendo isso como uma grande notícia e uma notícia séria. Ele já é um homem conhecido por suas palestras em congressos de medicina na Suíça.

E aqui no Brasil, pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro, da doutora Tatiana Sampaio, com aplicação de injeções de uma proteína, polilaminina, em pessoas que, por acidentes, tiveram lesões na medula e perderam o movimento das pernas e dos braços. E com a aplicação da injeção, em caráter experimental, estão recuperando os movimentos. Consta que já foi aplicada em seis pessoas. É uma boa notícia. Uma brasileira. Tem gente já falando em Nobel de Medicina. Aí vai disputar com o espanhol.

ALEXANDRE GARCIA

TAYAYÁ: TERRA DA ABUNDÂNCIA

Graças à Gazeta do Povo, eu fiquei sabendo o significado na linguagem indígena de Tayayá. Significa terra da abundância. Que nome bem escolhido para aquele resort-cassino dos irmãos Toffoli. É uma reportagem turística, mostrando todos os encantos do lugar, lá no município de Ribeirão Claro, à margem do lago da represa de Chavantes. Na sede do município, o fórum tem o nome do pai do ministro Dias Toffoli, Fórum Luiz Toffoli, desde 2018. O ministro Dias Toffoli é cidadão honorário do município de Ribeirão Claro, dado pela Câmara de Vereadores. Eu acho que foram muito omissos, muito mal agradecidos, porque os reais donos, que eram donos do resort-cassino, são os donos da empresa, da pessoa jurídica, Mari DT – Marília Dias Toffoli – é José Eugênio Dias Toffoli e o padre José Carlos Dias Toffoli. Eu não entendi por que deram homenagem para o ministro.

Bom, e o ex-ministro do Supremo, ex-conselheiro do Master, ex-advogado do Master, ex-ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, não está só. Lula sabia que ele tinha um contrato de R$ 6 milhões, recebeu R$ 5 milhões do Master. A ministra Gleisi Hoffmann revelou isso, que Lula sabia, e ele contou, quando foi escolhido ministro. Prometeu que ia se desvencilhar dos contratos, o que fez, realmente fez, deixou para o filho ou para os filhos. O pessoal pensa que está no mundo da fantasia e que as pessoas vão acreditar.

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Centro abandona Lula

Bom, falemos de eleições neste ano. Com o olho na eleição, certamente, ele já disse que quer ser candidato, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que acabou com a bandidagem em Goiás, deixou o União Brasil, agradeceu o União Brasil, mas deixou o União Brasil e foi para o PSD, do Gilberto Kassab, que dizem que é a grande raposa política. Kassab, que inclusive estava lá ligado ao Tarcísio, em São Paulo. E nesse PSD, eu nem sabia que estava o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, o governador do Paraná, Ratinho Júnior, que vão decidir quem vai ser o candidato em abril.

Aí eu pensei: “Puxa, vai embrulhar?” Parece que não, porque Lula estava apostando em ter apoio do PSD, porque o Lula precisa do centro. A esquerda sozinha não tem voto. Se a gente considerar a Câmara dos Deputados, a esquerda tem 25%, 1/4. Não chega a 1/3 da Câmara. Lula, para aprovar alguma coisa, precisa dos votos do Centrão, do PSD. Então, a ida do Caiado para lá é uma garantia de que o PSD não vai ficar do lado do Lula. E, se houver segundo turno, é a união da direita, como está querendo o André Ventura lá em Portugal, como aconteceu em Honduras, como aconteceu no Chile. O Kast assume agora, no mês de março.

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Reprovação bate recorde

E a coisa não está bem para o Lula, porque as pesquisas mostram cada vez mais desaprovação e cada vez menos aprovação. Na pesquisa anterior estava 39% de aprovação e 50% de reprovação. Agora, 57% de reprovação do governo Lula e só 34% de aprovação, já no ano eleitoral. E é a economia que está mostrando isso. As pessoas sentem com todos os favores, com o dinheiro, o seu dinheiro, o meu dinheiro, dos nossos impostos, que Lula está fazendo bondades com o nosso dinheiro. É uma coisa estranha, porque a lei eleitoral diz que a compra de voto é crime eleitoral.

Agora saiu a Selic, está confirmado, continua, 15% a taxa básica de juros, porque o Banco Central está vendo que há pressão inflacionária, que é desequilíbrio das contas públicas, cada vez mais dívida pública, cada vez mais juros. O governo tem que pagar, senão não vai ter dinheiro, porque gasta demais e investe de menos em serviços públicos que deveriam ser entregues a troco dos impostos, mas os impostos estão sendo usados para propaganda. O governo que precisa de propaganda é porque não tem bons serviços públicos.

ALEXANDRE GARCIA

CORRUPÇÃO NA SAÚDE MATA, MAS A PUNIÇÃO NÃO VEM

corrupção

Tolerância com a corrupção se tornou cultura no Brasil

Uma das corrupções mais cruéis é quando se desvia dinheiro da saúde pública. Isso vai causar mortes, aumentar doenças, sofrimento. Na China, corrupto assim é condenado à morte. E é uma pena bem merecida, bem aplicada, para servir de exemplo. Aqui, necessitaríamos de um bom exemplo, porque o que a gente tem dado são exemplos de impunidade. E o pior é que veio do Supremo o último grande exemplo de impunidade, com tudo que se aliviou da Lava Jato, que tirou dinheiro principalmente da Petrobras, por exemplo, que é uma empresa que pertence ao povo brasileiro, tem uma boa parte das ações do Tesouro Nacional, portanto, dos pagadores de impostos do Brasil.

E agora aparece uma pontinha de iceberg, só uma pontinha, em Mossoró, no Rio Grande do Norte e outros municípios do Estado. Foram feitas buscas e apreensões pela Polícia Federal, estava também o Tribunal de Contas do Estado constatando, a Controladoria Geral da União, porque são verbas federais. Encontrou-se muito dinheiro na casa de um dos distribuidores de medicamentos para as prefeituras, dinheiro dentro de caixa de isopor, de caixa de papelão.

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Corrupção no Chile

Agora, no Chile se encontrou 14 milhões de dólares guardados na casa de uma Ministra da Suprema Corte que foi afastada em outubro. Imagina! Dinheiro em casa é confissão, não precisa mais nada. Como é que a pessoa vai guardar dinheiro em casa? É porque não acredita em banco? Não. É porque o dinheiro é ilícito, não tem como estar esperando uma forma de lavar o dinheiro. Pois bem. Envolve prefeitos.

Em Mossoró envolve o prefeito e o vice-prefeito. Prefeito Allysson Bezerra – com dois eles e ípsilon, como gostam – do União Brasil. E o vice-prefeito Marcos Medeiros, que era o secretário do Fundo de Saúde do município. Só um exemplo de como faziam: numa compra de R$ 400 mil de remédios, metade era de remédio. Mas a outra metade ia R$ 60 mil para o prefeito, R$ 70 mil para os sócios do esquema, R$ 30 mil para os fornecedores. Gente! Dinheiro da saúde. Não basta uma puniçãozinha, não. Eu acho que deveria se encontrar, se não quer pena de morte, pelo menos prisão perpétua para corrupto de dinheiro, que causa dor.

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Tratamento negado

Assim como eu acho que deveriam investigar aqueles que mentiam na televisão durante a pandemia que não havia tratamento para curar a Covid. Isso é muito, muito cruel, porque provocou, não sei quanto, ninguém pode calcular. Digamos que metade das mortes foi de gente que poderia ter sido tratada e curada facilmente, sem ir para o hospital.

Eu, toda hora lembro disso. Tinha lá um senador que era traumatologista, quer dizer, que fez curso de medicina e negava que tivesse tratamento. Num país em que qualquer raizinha que aparece para curar câncer dá grandes reportagens na televisão. Que vergonha!

Bom, e um caso lá no Supremo. Uma jornalista entrou no Supremo contra os autores da Vaza Toga – David Ágape e Eli Vieira – e Eduardo Tagliaferro. Aí o Procurador-Geral da República descobriu que o Supremo não tem nada a ver com isso, que isso é na Primeira Instância. E aí, ora, Moraes concordou e mandou arquivar. Imagina se pega! Derruba esses últimos casos envolvendo tantas figuras nacionais e tanta gente do 8 de janeiro. Meu Deus do céu! Vai tudo pra Primeira Instância, ou anula, porque estava na Instância errada, não é?!

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Proposta da OAB de São Paulo

Aí vocês viram o que a OAB de São Paulo está sugerindo. Eu acho muito importante, mas claro que o Supremo não vai aceitar.

Pode ser professor, mas não pode ser dono de faculdade, não pode fazer pronunciamento político, tem que guardar reserva, não pode fazer reunião à distância no Supremo, não pode pegar processos que tenham qualquer ligação de amigo, de família, até terceiro grau. Tem que declarar todo o cachê que recebe, passagem, diária, de outros. Não pode aceitar evento em que tenha patrocínio de gente com interesse no Supremo.

Não vão aceitar, não. E aí vão continuar com a ausência – aqueles que fazem isso – de uma exigência da Constituição, que é de conduta ou reputação ilibada. E a Constituição exige também impessoalidade, exige moralidade.

E esse código teve o dedo de Helen Grace e César Peluso, que foram ministros do Supremo, que revisaram tudo e fizeram sugestões, certamente, com a moralidade, a publicidade, a impessoalidade, a reputação ilibada, exigidas pela Constituição.

ALEXANDRE GARCIA

CAMINHANDO COM NIKOLAS

Nikolas Ferreira na caminhada de Paracatu a Brasília que reuniu milhares de pessoas ao longo de 220 km até a Praça dos Três Poderes.

Nikolas Ferreira na caminhada de Paracatu a Brasília que reuniu milhares de pessoas ao longo de 220 km até a Praça dos Três Poderes

Eu não imaginaria Nikolas personagem, quando descobria, nos versos de Caetano Veloso naquele ano de 1967, o protesto embutido em Alegria, Alegria: “Caminhando contra o vento/Sem lenço, sem documento/No sol de quase dezembro/Eu vou”… “Por entre fotos e nomes/Sem livros e sem fuzil/Sem fome sem telefone/No coração do Brasil.” Caetano tinha 25 anos e queria sacudir o Brasil com seus versos. Nesses versos vejo hoje Nikolas, 29 anos, caminhando para acordar o Brasil, realizando o verso do espanhol Antonio Machado “O caminho se faz caminhando”. Dois jovens, dois tempos, dois Brasis, mas um país ainda “deitado em berço esplêndido”. Com tudo que a natureza deu, um país com pobreza, ignorância e com futuro que não chega. Injustiça, corrupção, mentira motivaram Nikolas ao primeiro passo, que foi dado de Paracatu a Brasília, no coração do Brasil.

Significativamente, o primeiro passo de Nikolas foi até o ponto mais alto da capital do Brasil, bem acima da Praça dos Três Poderes, a praça do Estado. A 1.173 metros acima do nível do mar, junto à cruz da primeira missa, vizinha de um lado, da Catedral da Paz, inaugurada pelo Papa; do outro lado, o Memorial que guarda os restos do fundador, Juscelino. Tornou-se a praça do povo, mais acima e a 6km da praça estatal. Um domingo cheio de significados; naquela manhã, implodia-se um hotel chamado Torre, no mesmo Eixo Monumental onde está o Supremo, virtual torre de marfim tantas vezes acima da Constituição. Torre essa sendo implodida pouco a pouco pela ação deletéria doméstica.

No início, em Paracatu, MG, era só Nikolas. Depois foram chegando outros, unidos no grito uníssono de acordar o Brasil. O verbo é acordar. O sujeito é Brasil. Nenhum nome pessoal. Apenas o coletivo que representa todos nós: Brasil. Nas margens da estrada, mais gente chegando; no asfalto, saudações em buzinas. Cristalina, Luziânia, Valparaíso de Goiás, Cidade Ocidental; depois Santa Maria, Novo Gama…- gente afluindo de toda a parte, multidões, gente levando comida, água, energéticos, capas, tênis, chapéus, cama. O sol bronzeou a cara de Nikolas. A chuva jogou sobre os romeiros um batismo como água do Jordão, porque havia também um conteúdo forte que manteve o espírito e o corpo dos caminhantes.

Embora a maioria da mídia tradicional tivesse decidido omitir a cobertura do fato político, as multidões por onde passavam Nikolas e seus companheiros mostraram a força das redes sociais. Um raio do céu de Brasília acabou com a omissão e tiveram que noticiar o acontecimento marcante na história política brasileira. Não se falou em eleição, em candidaturas. Nikolas não tem idade para ser senador ou presidente. Mas reforçou as esperanças nas novas gerações. Foi capaz de mostrar a força da origem do poder, o povo, que estava anestesiado pelo medo desde a prisão coletiva e condenação dos manifestantes do 8 de janeiro. Não há democracia sem a manifestação da origem do poder. Não há democracia quando os servidores do povo saem das regras da Constituição.

Termino com outro verso, de Eduardo Alves da Costa, também sobre caminhar “No Caminho, com Maiakovski”. Se nada dissermos quando esmagarem nossas flores, matarem nosso cachorro, aí “o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada”.