PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

NO BAILE – Afonso Celso

Ontem ao contemplá-la decotada,
Ao primor do seu colo descoberto,
Senti-me tonto, da vertigem perto,
Fremente o pulso, a vista deslumbrada.

E, como em láctea fonte perfumada,
Sorvi-lhe sonhos mil no seio aberto,
Com a sede de um filho do deserto
Que encontre enfim a linfa suspirada.

Giram em derredor das níveas flores,
Sofregamente, insetos zumbidores…
– Meus desejos então foram assim…

Mas arredei os olhos, de repente,
Pois meu olhar podia, de tão quente,
Crestar-lhe a fina cútis de cetim!

Afonso Celso | Academia Brasileira de Letras

Afonso Celso de Assis Figueiredo Júnior, Ouro Preto-MG (1860-1938)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

ORGULHO – Virgínia Vitorino

És orgulhoso e altivo, também eu…
Nem sei bem qual de nós o será mais…
As nossas duas forças são rivais:
Se é grande o teu poder, maior é o meu…

Tão alto anda esse orgulho!… Toca o céu.
Nem eu quebro, nem tu. Somos iguais.
Cremo-nos inimigos… Como tais,
Nenhum de nós ainda se rendeu…

Ontem, quando nos vimos, frente a frente,
Fingiste bem esse ar indiferente,
E eu, desdenhosa, ri sem descorar…

Mas, que lágrimas devo àquele riso,
E quanto, quanto esforço foi preciso,
Para, na tua frente, não chorar…

Virgínia Vitorino, Alcobaça, Portugal (1895-1967)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

TRISTE ENCANTO – Mário Quintana

Triste encanto das tardes borralheiras
que enchem de cinza o coração da gente…
A tarde lembra um passarinho doente
a pipilar os pingos das goteiras…

A tarde pobre fica horas inteiras
a espiar pela vidraça, tristemente,
o crepitar das brasas nas lareiras…
Meu Deus! o frio que a pobrezinha sente!…

Por que é que esses arcanjos neurastênicos
só usam névoa em seus efeitos cênicos,
nenhum azul para te distraíres?…

Ah! se eu pudesse, tardezinha pobre,
eu pintava trezentos arco-íris
neste tristonho céu que nos encobre…

Mário de Miranda Quintana, Alegrete-RS (1906-1994)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

CÍRCULO VICIOSO – Machado de Assis

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
– Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
que arde no eterno azul, como uma eterna vela !
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

– Pudesse eu copiar o transparente lume,
que, da grega coluna á gótica janela,
contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela !
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

– Misera ! tivesse eu aquela enorme, aquela
claridade imortal, que toda a luz resume !
Mas o sol, inclinando a rutila capela:

– Pesa-me esta brilhante aureola de nume…
Enfara-me esta azul e desmedida umbela…
Porque não nasci eu um simples vaga-lume?

Joaquim Maria Machado de Assis, Rio de Janeiro-RJ, (1839-1908)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

MÃEZINHA – Florbela Espanca

Andam em mim fantasmas, sombras, ais…
Coisas que eu sinto em mim, que eu sinto agora;
Névoas de dantes, dum longínquo outrora;
Castelos d’oiro em mundos irreais…

Gotas d’água tombando… Roseirais
A desfolhar-se em mim como quem chora…
— E um ano vale um dia ou uma hora,
Se tu me vais fugindo mais e mais!…

Ó meu Amor, meu seio é como um berço
Ondula brandamente… Brandamente…
Num ritmo escultural d’onda ou de verso!

No mundo quem te vê?! Ele é enorme!…
Amor, sou tua mãe! Vá… docemente
Poisa a cabeça… fecha os olhos… dorme…

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

ACAUHAN – A MALHADA DA ONÇA – Ariano Suassuna

Aqui morava um Rei, quando eu menino:
Vestia ouro e Castanho no gibão.
Pedra da sorte sobre o meu Destino,
Pulsava, junto ao meu, seu Coração.

Para mim, seu Cantar era divino,
Quando, ao som da Viola e do bordão,
Cantava com voz rouca o Desatino,
O Sangue, o riso e as mortes do Sertão.

Mas mataram meu Pai. Desde esse dia,
Eu me vi, como um Cego, sem meu Guia,
Que se foi para o Sol, transfigurado.

Sua Efígie me queima. Eu sou a Presa,
Ele, a Brasa que impele ao Fogo, acesa,
Espada de ouro em Pasto ensanguentado.

Ariano Vilar Suassuna, João Pessoa-PB (1927-2014)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

A TARDE – Leandro Gomes de Barros

Tomba a tarde, o sol baixa seus ardores,
Alvas nuvens no céu formam lavores
E a voz da passarada o campo enchendo:
A juriti em seu ramo de dormida
Soltando um canto ali por despedida,
Dando adeus ao sol que vai morrendo.

E mergulha o sol pelo ocaso,
Já o dia ali venceu o prazo,
Abrem flores, o orvalho em gotas vem;
Limpa o céu, o firmamento se ilumina,
Uma luz alvacenta e argentina
Já se avista no céu, mas muito além.

Regressam do campo lavradores,
Apascentam os rebanhos os pastores,
E o mundo fica ali em calmaria;
A matrona embala o filho pequenino
E prestando atenção à voz do sino
Quando dobra no templo a Ave-Maria.

Vem a noite, dormem ali as cousas mansas,
Dormem qu’etos os justos e as crianças,
E a Virgem envia preces à divindade;
A velhice recorda arrependida
Todo erro que fez em sua vida
E murmura: Quem me dera a mocidade.

Leandro Gomes de Barros, Pombal-PB (1865-1918)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

VERSOS DIFÍCEIS – Medeiros e Albuquerque

Faço e desfaço… A Ideia mal domada
o cárcere da Forma foge e evita.
Breve, na folha tanta vez riscada
palavra alguma caberá escrita…

E terás tu, ó minha doce amada,
o decisivo nome da bendita
companheira formosa e delicada
a quem minh’alma tanto busca, aflita?

Não sei… Há muito a febre me consome
de achar a Forma e conhecer o nome
da que a meus dias reservou o fado.

E hei de ver, quando saiba, triunfante,
o verso bom, a verdadeira amante,
– a folha: cheia, – o coração: cansado!

José Joaquim de Campos da Costa de Medeiros e Albuquerque, Recife-PE (1867-1934)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

MAIS TRISTE – Florbela Espanca

É triste, diz a gente, a vastidão
Do mar imenso! E aquela voz fatal
Com que ele fala, agita o nosso mal!
E a Noite é triste como a Extrema-Unção!

É triste e dilacera o coração
Um poente do nosso Portugal!
E não veem que eu sou … eu … afinal,
A coisa mais magoada das que são?! …

Poentes de agonia trago-os eu
Dentro de mim e tudo quanto é meu
É um triste poente de amargura!

E a vastidão do Mar, toda essa água
Trago-a dentro de mim num mar de Mágoa!
E a noite sou eu própria! A Noite escura!!

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SONETO DE FIDELIDADE – Vinicius de Moraes

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes, Rio de Janeiro-RJ (1913-1980)