Busque eu num puro amor força e sustento com que tanta paixão manter nutrida, para tão longa noite amanhecida bem cedo ver em canto e luzimento.
Mas viva eu antes de uma esp’rança ardida, e espere, e sonhe, e já não tenha alento: que é do amor o primeiro mandamento morrer de amor, por merecer-lhe a vida.
E alfim, Senhora, aos vossos pés curvado, vencido e vencedor, possa eu dizer-vos de meu sofrido amor o fado incerto:
o inferno que sofri por merecer-vos, tão longe o coração amargurado quanto o quisera ter aqui bem perto.
Aquela voz era intranquila. Trago-a No ouvido ainda ininterruptamente: Voz de alma que sofreu, voz de vivente, Desoladora e trêmula de mágoa.
Era o rio da Vida; a água paciente Que, arrastando calhaus, de frágua em frágua Ora beijava a sombra na corrente, Ora abraçava o Sol com os braços de água.
Deus te leve, água pura e fresca!… A treva Não te interrompa a marcha transitória, Porque o Destino ingrato que te leva
Para o vale florido ou o amplo deserto, É o mesmo que me arrasta o passo incerto Para o despenhadeiro ou para a Glória.
Olegário Mariano Carneiro da Cunha, Recife-PE, (1889-1958)
Ai, há quantos anos que eu parti chorando Deste meu saudoso, carinhoso lar!… Foi há vinte?…há trinta? Nem eu sei já quando!… Minha velha ama, que me estás fitando, Canta-me cantigas para eu me lembrar!…
Dei a volta ao mundo, dei a volta à Vida… Só achei enganos, decepções, pesar… Oh! a ingênua alma tão desiludida!… Minha velha ama, com a voz dorida, Canta-me cantigas de me adormentar!…
Trago d’amargura o coração desfeito… Vê que fundas mágoas no embaciado olhar! Nunca eu saíra do meu ninho estreito!… Minha velha ama que me deste o peito, Canta-me cantigas para me embalar!…
Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho Pedrarias d’astros, gemas de luar… Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!… Minha velha ama, sou um pobrezinho… Canta-me cantigas de fazer chorar!
Como antigamente, no regaço amado, (Venho morto, morto!…) deixa-me deitar! Ai, o teu menino como está mudado! Minha velha ama, como está mudado! Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!…
Cante-me cantigas, manso, muito manso… Tristes, muito tristes, como à noite o mar… Canta-me cantigas para ver se alcanço Que a minh’alma durma, tenha paz, descanso, Quando a Morte, em breve, ma vier buscar!…
Abílio Manuel Guerra Junqueiro, Portugal, (1850-1923)