Lembro-me o que fui dantes. Quem me dera
Não me lembrar! Em tardes dolorosas
Lembro-me que fui a Primavera
Que em muros velhos faz nascer as rosas!
As minhas mãos outrora carinhosas
Pairavam como pombas… Quem soubera
Porque tudo passou e foi quimera,
E porque os muros velhos não dão rosas!
O que eu mais amo é que mais me esquece…
E eu sonho: “Quem olvida não merece…”
E já não fico tão abandonada!
Sinto que valho mais, mais pobrezinha:
Que também é orgulho ser sozinha,
E também é nobreza não ter nada!

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)
Florbela relembra o passado em que tudo podia, mas nada possuía.
Quem ela amou, a esqueceu.
A idade (lembrando que ela se foi com 36 anos) a fez orgulhosa de não ter nada e ser sozinha.
Florbela das belas palavras. Uma flor!