PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

DEBAIXO DO TAMARINDO – Augusto dos Anjos

No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos!

Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da Flora Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!

Quando pararem todos os relógios
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,

Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, Cruz do Espírito Santo-PB (1884-1914)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

CEARENCÊS – Luciano Dídimo

Aqui no Ceará é “invocado”
O linguajar cantado e bem rasteiro.
Todo cabra matuto é “beradeiro”
E aquele que tem pressa é “avexado”.

Quem se mete a valente é “arrochado”,
Se cria muito caso é “bunequeiro”,
Se o cara é brincalhão, ele é “fuleiro”,
E se não “bate bem”, “abirobado”.

Quem gosta de mexer é “buliçoso”
E aquele que tem fome,“esgalamido”.
“Só o pitel” é algo bem gostoso.

Chamamos de “ariado” o distraído,
“Bichim” é tratamento carinhoso,
Cearencês é mesmo divertido!

Luciano Dídimo Camurça Vieira, Fortaleza-CE, 1971

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

MENTIRAS – Florbela Espanca

Tu julgas que eu não sei que tu me mentes
Quando o teu doce olhar pousa no meu?
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?
Qual a imagem que alberga o peito meu?

Ai, se o sei, meu amor! Em bem distingo
O bom sonho da feroz realidade…
Não palpita d´amor, um coração
Que anda vogando em ondas de saudade!

Embora mintas bem, não te acredito;
Perpassa nos teus olhos desleais
O gelo do teu peito de granito…

Mas finjo-me enganada, meu encanto,
Que um engano feliz vale bem mais
Que um desengano que nos custa tanto!

Florbela Espanca, Portugal (1894-1930)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SEM REMÉDIO – Florbela Espanca

Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou …
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.

E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

Sinto os passos da Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

MENTIRAS – Florbela Espanca

Tu julgas que eu não sei que tu me mentes
Quando o teu doce olhar pousa no meu?
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?
Qual a imagem que alberga o peito meu?

Ai, se o sei, meu amor! Em bem distingo
O bom sonho da feroz realidade…
Não palpita d´amor, um coração
Que anda vogando em ondas de saudade!

Embora mintas bem, não te acredito;
Perpassa nos teus olhos desleais
O gelo do teu peito de granito…

Mas finjo-me enganada, meu encanto,
Que um engano feliz vale bem mais
Que um desengano que nos custa tanto!

Florbela Espanca, Portugal (1894-1930)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

VOLÚPIA – Florbela Espanca

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frêmito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade…
A nuvem que arrastou o vento norte…
– Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço…
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças…

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SONETO NUM CARDÁPIO – Lêdo Ivo

Que está no prato? O tempo, que o homem come
misturado a espinafre e carne dura.
Entre o talher e a vida, ele tritura
as horas que temperam sua fome.

Rei de si mesmo, sem vassalo ou nome,
ele mastiga o mundo, e a dentadura
muda o cardápio numa massa escura
que na úmida garganta rola e some.

O homem que come o pão que o diabo amassa
e, quando come se lambuza, e come
gato por lebre, na aventura louca

de tudo reduzir a pesca e caça,
come, para viver, a própria fome,
e, como os peixes, morre pela boca.

Lêdo Ivo, Maceió-AL, (1924-2012)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

VOLTANDO À CASA – Padre Antônio Tomás de Sales

Passei um mês, um mês inteiro, fora
Do meu lar, sem ouvir meus passarinhos,
Sem ver o louro bando de amiguinhos
Que aí deixei! Cruel, longa demora!

Mas, afinal, eis-me de volta agora,
E na ânsia de ver os coitadinhos,
Que suspiram talvez por meus carinhos,
Fustigo o meu corcel, que o chão devora.

Avisto a casa além, dobro a tortura
Que dela me separa… Oh! que ventura
Eu sinto na alma ao ir-me aproximando!

Chego ao portal, puxo o ferrolho e entro,
E me recebem pela sala a dentro
Crianças rindo e pássaros cantando.

Padre Antônio Tomás de Sales, Acaraú-CE (1868-1941)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

O SOL DE DEUS – Ariano Suassuna

Mas eu enfrentarei o Sol divino,
o Olhar sagrado em que a Pantera arde.
Saberei porque a teia do Destino
não houve quem cortasse ou desatasse.

Não serei orgulhoso nem covarde,
que o sangue se rebela ao som do Sino.
Verei o Jaguapardo e a luz da Tarde,
Pedra do Sonho e cetro do Divino.

Ela virá-Mulher- aflando as asas,
com o mosto da Romã, o sono, a Casa,
e há de sagrar-me a vista o Gavião.

Mas sei, também, que só assim verei
a coroa da Chama e Deus, meu Rei,
assentado em seu trono do Sertão.

Ariano Vilar Suassuna, João Pessoa-PB (1927-2014)