Quem diz que os animais não pensam, na minha opinião, está redondamente enganado. Eles tem faro, e por isso, tanto pensam quanto raciocinam.
Os humanos pensam, mas nem sempre raciocinam. Há pessoas que pensam, mas tem o raciocínio curto.
Há animais inteligentes, como os cachorros e os gatos.
Sou testemunha de que Koruga, o gato preto, angorá, da minha tia Carmen, conhecia que ela estava se aproximando de casa, pela zoada do motor do carro. Por volta das cinco horas da tarde, o gato ficava pulando junto à janela, querendo subir para vê-la chegar do trabalho, no seu primeiro fusquinha. Abriam a janela para o gato subir, e ele ficava todo faceiro, com o olhar fixo na esquina da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, por onde o carro viria. Parecia estar querendo dar-lhe as “boas vindas”, depois do trabalho. Era uma cena linda.
Certo dia, minha tia cismou que o gato estava sendo maltratado por uma serviçal da casa, pois enquanto ele dormia numa poltrona da sala, a moça se aproximou e ele despertou. Nisso, o gato saiu correndo em disparada, como se estivesse apavorado.
Minha tia botou na cabeça que iria descobrir o porquê desse pavor. Não deu outra. Poucos dias depois, flagrou a moça enxotando Koruga da cozinha, às vassouradas.
Tia Carmen deu um show de “carões” na empregada, e dispensou-lhe do trabalho de cuidar do gato. Disse-lhe que não admitia que ninguém maltratasse seu gato, nem o enxotasse da cozinha debaixo de vassouradas. Não houve pedido de desculpas que a comovesse. A moça prometeu que não faria mais isso.
Não houve jeito dela voltar a confiar na moça. Sabia que a maldade humana não tem cura. Tinha certeza de que, mais cedo ou mais tarde, o gato voltaria a ser maltratado pela serviçal.
Koruga tinha bom gosto. Era louco por sardinhas enlatadas, e minha tia o acostumou a esse alimento, que estava presente em qualquer refeição que ele fizesse.
Era um bichano fino e muito bem tratado. Uma vez por outra, o veterinário o consultava em casa, receitando-lhe o que havia de melhor, para mantê-lo saudável, com saúde perfeita. E Koruga viveu muitos anos.
A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa Selic em 15% ao ano, na primeira reunião de 2026, não trouxe surpresa a quem acompanha a economia real. No final do ano passado, o colegiado já havia indicado que o patamar de juros – o mais elevado desde julho de 2006 – se manteria para assegurar a convergência da inflação à meta. Agora, o Copom anuncia que, a partir da próxima reunião do colegiado, em março, poderá dar início a um movimento suave de corte nos juros – desde que o contexto fiscal permita.
Embora o tom do comunicado mais recente do Copom tenha sido ameno ao tratar do cenário político e fiscal, o colegiado afirmou que “manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”, um bom sinal diante das pressões sofridas pelo BC por uma queda brusca nos juros. As críticas à política fiscal errática do governo federal, contudo, praticamente desapareceram do comunicado.
Em ocasiões anteriores, o Banco Central foi bem mais enfático ao apontar o peso da política fiscal errática do governo na manutenção dos juros elevados, alertando, por exemplo, para o risco da dívida pública crescente. Desde o final do ano passado, porém, o Copom tem apostado em comunicados lacônicos, que enfatizam muito mais o cenário internacional – que certamente impacta suas decisões – do que o doméstico. Ainda assim, mesmo com a tentativa de amenizar o tom, é impossível ignorar a relação direta entre a irresponsabilidade fiscal do governo e a pressão inflacionária.
Como todo governo petista, o de Lula 3 jamais atuou como aliado da disciplina fiscal, preferindo sempre a gastança desenfreada. Em termos de dívida pública, o que se observa é uma aceleração recorde. O endividamento público encerrou 2025 em R$ 8,6 trilhões e, segundo projeções oficiais, pode ultrapassar R$ 10 trilhões até o fim de 2026. Isso significa um crescimento de 18% em apenas um ano – o maior desde 2015.
Tudo isso coloca o país em uma trilha preocupante. A Fitch Ratings projeta que o Brasil terá o maior déficit fiscal da América Latina em 2026. Enquanto diversos países da região conseguiram reduzir juros a partir de ajustes fiscais consistentes, o Brasil permanece como uma exceção negativa. Para a Fitch, o atual arcabouço fiscal de Lula e Haddad produziu apenas resultados “limitados” e mostrou-se insuficiente para estabilizar a trajetória da dívida. Apenas um ajuste fiscal muito mais agressivo poderá permitir ao país superar o risco fiscal.
Seria incorreto, contudo, atribuir exclusivamente ao Executivo a responsabilidade pela corrosão do regime fiscal. Outros Poderes também têm contribuído ativamente para transformar o arcabouço – que desde o início já era bastante limitado – em mera peça ficcional. A recente liminar concedida pelo ministro Alexandre de Moraes para excluir as receitas próprias do Ministério Público da União (MPU) do limite de gastos é exemplo eloquente desse processo. Ao flexibilizar regras que deveriam valer para todos, o Judiciário reforça a lógica das exceções e enfraquece ainda mais a credibilidade do regime fiscal, agravando o quadro de incerteza que sustenta juros elevados.
A manutenção da Selic em 15% nesta semana tende a reavivar críticas do governo petista e de seus aliados à atuação do Banco Central. Horas antes da reunião do Copom, Gleisi Hoffmann disse que seria “absurdo” manter a taxa nesse patamar, e afirmou não “entender” o porquê dos juros elevados e pediu “sensibilidade” e “reflexão” aos membros do Copom. Quem precisa refletir e demonstrar maior sensibilidade ao controle fiscal, porém, é justamente o governo do qual Gleisi faz parte. A autoridade monetária reage a um ambiente de expectativas desancoradas e elevada incerteza, construído principalmente pela política fiscal do Executivo. Enquanto isso não mudar, o BC não tem outra alternativa.
Enquanto o governo insistir em tratar o descontrole fiscal como detalhe secundário e o arcabouço como peça maleável às conveniências políticas e corporativas, não haverá espaço para normalização monetária. Juros elevados não são escolha ideológica do Copom, mas consequência lógica de um Estado que se recusa a respeitar seus próprios limites. Culpar a autoridade monetária ou tentar pressioná-la é desviar o foco do problema central. A queda sustentável dos juros começa no orçamento, não na retórica.
Sabe-se agora que ao atacar os “defensores” do banqueiro Daniel Vorcaro, Lula (PT) tentava se afastar do Master e desfazer a impressão geral, detectada em pesquisa interna, de que tudo não passava de mais um escândalo do seu governo. É que ele estava informado ser iminente o vazamento da sua reunião fora da agenda com Vorcaro, de 1h30 de duração.
Para escalar a posição de Lula, assessores apontaram, em off, que o alvo seria Dias Toffoli, com quem o petista teria contas a ajustar.
Depois, Lula deixou vazar sua “irritação” e que gostaria de Toffoli “fora do STF”. A desestabilização seria contida pelo apoio de colegas ao ministro.
Lula é do tipo que não esquece, e não perdoa os votos de Toffoli nos julgamentos do Mensalão e da Lava Jato contra ele e demais implicados.
Ao assumir seu terceiro mandato, diziam no Planalto que Lula recusava qualquer reaproximação com Toffoli, que ele próprio indicou para o STF.
Pouco adiantaram as decisões de Toffoli que sacramentaram o fim da Lava Jato.
Afinal, Lula não esquece. Ama guardar rancor.
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A expresssão “Ama guardar rancor”, que fecha esta nota aí de cima, resume tudo.
Não é preciso dizer mais nada.
O rancor é parte integrante do caráter do Descondenado que governa este nosso país surrealista.
Se não a vejo e o espírito a afigura, Cresce este meu desejo de hora em hora… Cuido dizer-lhe o amor que me tortura, O amor que a exalta e a pede e a chama e a implora.
Cuido contar-lhe o mal, pedir-lhe a cura… Abrir-lhe o incerto coração que chora, Mostrar-lhe o fundo intacto de ternura, Agora embravecida e mansa agora…
E é num arroubo em que a alma desfalece De sonhá-la prendada e casta e clara, Que eu, em minha miséria, absorto a aguardo…
Mas ela chega, e toda me parece Tão acima de mim… tão linda e rara… Que hesito, balbucio e me acobardo.
Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho, Recife-PE (1886-1968)