Se não a vejo e o espírito a afigura,
Cresce este meu desejo de hora em hora…
Cuido dizer-lhe o amor que me tortura,
O amor que a exalta e a pede e a chama e a implora.
Cuido contar-lhe o mal, pedir-lhe a cura…
Abrir-lhe o incerto coração que chora,
Mostrar-lhe o fundo intacto de ternura,
Agora embravecida e mansa agora…
E é num arroubo em que a alma desfalece
De sonhá-la prendada e casta e clara,
Que eu, em minha miséria, absorto a aguardo…
Mas ela chega, e toda me parece
Tão acima de mim… tão linda e rara…
Que hesito, balbucio e me acobardo.

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho, Recife-PE (1886-1968)
Excelente poeta, pernambucano bom da peste.
Lendo estes versos me lembrei de algo; tenho visto muitos vídeos de cães pequenos que latem para outros muito maiores atrás de um vidro que, quando este abre e não há mais nada entre eles, o cãozinho fica sem ter o que fazer.
Manoel Bandeira nestes versos, é o cãozinho que ladra e depois não morde.