ALEXANDRE GARCIA

POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA AJUDA A ENTENDER POR QUE SOMOS SUBDESENVOLVIDOS

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Lula e Nicolás Maduro durante encontro em São Vicente e Granadinas, em 2024

Vou falar um pouco da política externa brasileira, da posição do Brasil no mundo, no chamado “concerto das nações”. O Brasil é um país grande, um dos maiores do mundo em extensão territorial e em população, mas não tem o poder político, militar e econômico dos Estados Unidos, por exemplo. Nós fomos colonizados mais ou menos ao mesmo tempo que os norte-americanos e, no entanto, eles são a maior potência do mundo enquanto nós continuamos nos arrastando no subdesenvolvimento – agora falam em “emergente”.

Nós já crescemos mais que a China. Eu me lembro disso porque cobri o milagre brasileiro da primeira metade dos anos 70, estava no Jornal do Brasil. Em cinco anos, crescemos a uma média de 11,2% ao ano; já chegamos a crescer 14%. Se é possível, porque já fizemos isso, por que não continuamos? Nós hoje estaríamos à frente da China, estaríamos entre as cinco maiores potências econômicas mundiais. Mas não.

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Trocamos a aliança com o Ocidente pela aproximação com a China e com as ditaduras

Chamou minha atenção um artigo de Dagoberto Lima Godoy, um gaúcho que foi presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul e foi representante do Brasil na Organização Internacional do Trabalho (OIT), das Nações Unidas. Ele é experiente e consciente. No artigo, pergunta se mudamos de lado. Nós éramos parte do Ocidente; não somos mais? Entramos nos Brics, um bloco dominado pela China. Vejam a Dilma Rousseff, presidente do Banco dos Brics. Falam em Sul contra Norte, está mais para Ocidente contra o Oriente. De quem tomamos partido atualmente? Da Nicarágua, de Cuba, da Venezuela, do Irã. Eu me lembro do episódio em que duas belonaves iranianas chegaram ao Rio de Janeiro e lá ficaram, enquanto os americanos diziam se tratar de navios espiões. E toda a nossa ligação com a China, pedindo que os chineses façam censura nas redes sociais brasileiras? Será que mudamos de lado?

Estou há 50 anos em Brasília; antes disso, fiquei três anos no exterior, e por isso tenho certa afinidade com a política externa, que acompanhei e ainda acompanho. A política externa brasileira era uma política de Estado, era a política do Brasil. O Itamaraty tinha uma tradição de pragmatismo responsável. O governo militar, por exemplo, foi o primeiro a reconhecer o governo comunista de Angola. Em primeiro lugar, vinham os interesses nacionais; a ideologia ficava para trás. Mas hoje o que temos é a ideologia em primeiro lugar. É não qualquer ideologia, mas a ideologia de Lula e do PT, que não corresponde à ideologia de um país conservador como o Brasil.

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Confusão com cédulas no Peru não serve para desqualificar o voto impresso

Nós falamos tanto da necessidade do voto impresso, e lá no Peru houve a maior confusão com as cédulas na eleição de domingo. Obviamente, não é isso que desejamos aqui no Brasil. A cédula peruana é uma coisa enorme, onde o eleitor vai assinalando seus candidatos, e pondo na urna. Faltaram cédulas, que são fornecidas pelo organizador das eleições – lá não existe Justiça Eleitoral. O responsável pela logística da eleição foi até preso pela polícia, porque muita gente está dizendo que foi tudo de propósito, para as pessoas não votarem. A filha do Alberto Fujimori foi a mais votada e vai para o segundo turno, mas ainda não se sabe contra quem.

Tudo isso para lembrarmos que logo teremos eleição aqui. A presidente do TSE, Cármen Lúcia, decidiu sair um mês antes; Nunes Marques assume no lugar dela, e seu vice será André Mendonça. Mas não basta apenas mudar as pessoas; o eleitor tem necessidade de saber como o seu voto é contado. Aqui na Europa, foi isso que os tribunais decidiram: não pode haver um sistema de apuração em que o eleitor não consiga entender como é computado o seu voto.

PROMOÇÕES E EVENTOS

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

CINZENTO – Florbela Espanca

Poeiras de crepúsculos cinzentos,
Lindas rendas velhinhas, em pedaços,
Prendem-se aos meus cabelos, aos meus braços
Como brancos fantasmas, sonolentos…

Monges soturnos deslizando lentos,
Devagarinho, em mist’riosos passos…
Perde-se a luz em lânguidos cansaços…
Ergue-se a minha cruz dos desalentos!

Poeiras de crepúsculos tristonhos,
Lembram-me o fumo leve dos meus sonhos,
A névoa das saudades que deixaste!

Hora em que o teu olhar me deslumbrou…
Hora em que a tua boca me beijou…
Hora em que fumo e névoa te tornaste…

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)

DEU NO X

COMENTÁRIO DO LEITOR

O POETA

Comentário sobre a postagem EUTRÓPIO

Jairo Juruna:

Xico Bizerra usou a figura de Eutrópio e a rua de uma casa só para construir uma divertida crônica recheada de ironia sobre a banalização do título de poeta no cotidiano e o ego inflado de quem se acha indevidamente um gigante da poesia.

Por meio da figura de Eutrópio, que se autodenominava poeta em sua solidão, o texto de Xico satiriza a mediocridade pretensiosa e, no final, o cronista adota um tom humilde, recusando o rótulo para si e exaltando poetas consagrados.

A confissão final do cronista, ao declarar que não tem a menor pretensão de ser poeta e que apenas escreve versos, ecoa a postura do apóstolo Paulo que, em uma de suas cartas destinadas a Timóteo (1 Timóteo 1:15), se intitulou como o pior dos pecadores, reconhecendo sua insignificância diante da grandeza divina.

É interessante ver nesta crônica o autor tratar da poesia como uma coisa muito maior, colocando-se abaixo de nomes como Manoel Bandeira e Fernando Pessoa, em uma posição de humildade semelhante à de Paulo perante Deus.

Em seus textos Paulo e o “enorme poeta, já consagrado, que é Xico Bizerra” utilizaram a hipérbole da autodepreciação para elevar o verdadeiro objeto de admiração: Paulo eleva a graça divina, e o cronista eleva a verdadeira arte poética, distanciando-se da figura narcisista de Eutrópio.

“Viva Xico, para sempre, eterno, viva!!!”

DEU NO JORNAL

IRRITADINHO

Foi com irritação que Lula (PT) recebeu os números do Datafolha no fim de semana, com Flávio Bolsonaro (PL) numericamente à frente do petista em um eventual segundo turno.

A crise fez o presidente mandar os ministros adiantarem os projetos com algum apelo popular para estancar a sangria na popularidade.

A estratégia é reverter a maré para Lula e mitigar o estrago eleitoral da inflação, que ainda deve aparecer, em razão da alta dos combustíveis.

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Muito bom saber que ele ficou irritado com o resultado da pesquisa.

O emputecimento do Descondenado é um ponto positivo para a banda decente do Brasil.

E a piora nos números vai aumentar.

Aguardemos.

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

MAR ADENTRO (2004) – REFLEXÃO SOBRE A MORTE ASSISTIDA

“Mas cá entre nós, eu acho que depois de morrermos não há nada. Tal como antes de nascermos. Nada.” Ramón Sampedro – personagem do ator Javier Bardem, no filme.

MAR ADENTRO (2004), narra a história do marinheiro, escritor e ativista espanhol, Ramón Sampedro, interpretado magistralmente no cinema pelo ator hispânico Javier Bardem, tendo Ramón ficado tetraplégico após um mergulho numa área rasa do amar e ter batido com a cabeça numa pedra. O filme mostra a luta incessante de Sampedro perante os Tribunais locais pelo direito de cometer suicídio assistido, contando com a ajuda dos amigos e da família, além de um advogado, que abraçou a causa gratuitamente.

Por causa da sua incapacidade física de não poder suicidar-se e morrer conforme seus desígnios, Ramón lutou na justiça durante vinte e cinco anos pelo direito de morrer com dignidade sem incriminar os amigos ou a família que viesse a auxiliá-lo no ato de tirar a própria vida, tomando cianeto de potássio.

Ramón Sampedro tornou público seu desejo de morrer no início de 1990, mas só oito anos depois foi que conseguiu um suicídio assistido, através da ajuda de uma amiga, que antes gravou um vídeo de sua morte que foi divulgado nas redes de tevês do país e do mundo e voltou a despertar na sociedade a importância do debate sobre a despenalização da morte assistida.

A associação espanhola “Direito a Morrer Dignamente” considera que, graças à sua luta e às suas reivindicações, Ramón Sampedro contribuiu para que, em 1995, fosse aprovada uma reforma no Código Penal que reduziu as condenações em caso de eutanásia ou de assistência ao suicídio.

Entre os temas mais difíceis que o cinema ou qualquer outra arte pode tentar retratar, a morte, mais especificamente a eutanásia ou a morte assistida, deve figurar entre os principais. A complexidade da questão, aliada à falta de representatividade entre grandes diretores e roteiristas faz com que sejam raras as películas que se dedicam a debater o assunto. Em 2016, a comédia romântica britânica Como Eu Era Antes de Você recebeu uma série de críticas e protestos por ter, na ótica de muitos, glamurizado a eutanásia e reduzido o debate sério a uma comédia leve e adolescente, que se resolvem em meio a piadas, sarcasmos e uma alta dose de humor. A diretora inglesa Thea Sharrock não teve competência para dirigir um tema sensível com catilogência.

Mar Adentro, anterior à comédia britânica, parece entender exatamente as críticas e se antecipar a todas elas. A história retrata a vida de Ramón Sampedro, o espanhol de meia idade que se tornou tetraplégico, deseja, conscientemente, a morte. Ramón, depois de mergulhar e bater a cabeça numa pedra no fundo do mar, vive numa cama na humilde residência em que mora com o pai, seu irmão José, a cunhada Manuela e o sobrinho Javier. A eutanásia na Espanha era proibida e Ramón precisa contar com a ajuda da advogada Júlia, que simpatiza com sua história, para tentar convencer a Corte espanhola a alterar a lei e atender ao seu pedido.

Todo o drama é escrito de maneira muito sóbria e humana. Não existe qualquer tentativa de se romantizar a questão ou criar heróis e vilões dentro da trama. Um ponto bem claro para evidenciar a preocupação do roteiro é o pouco tempo dedicado ao debate legal sobre a morte assistida em si. As cenas de tribunal são mínimas e os termos jurídicos, inexistentes.

O centro da trama é realmente o sentimento de Ramón e sua relação com a vida e as pessoas à sua volta. Nesse sentido, conforme as relações evoluem, entendemos melhor os dramas de Júlia e Rosa e porque elas se conectam tanto com o protagonista. Júlia sofre de uma doença degenerativa que coloca ela numa cadeira de rodas e a aterroriza quanto ao seu futuro. Ela se apega à Ramón e eles criam uma conexão forte e sensível. Já Rosa, tão machucada em relacionamentos amorosos, projeta em nele um homem ideal e que a dá forças para viver. Quando ela entende que para ele a maior demonstração de amor é ajudá-lo a morrer, ela se entrega e deixa de lutar contra a vontade dele, trazendo à história um final sensível e melancólico, mas nada romântico ou glamourizado.

Toda essa sensibilidade é positivamente ressaltada pelas ótimas atuações e pelo design de produção da obra. A preocupação de Amenábar em balancear a quantidade de tomadas internas e externas dá um alívio ao espectador e evita uma sensação claustrofóbica de acompanhar toda a história dentro do quarto onde Ramón vive. A composição de personagem por parte do ator Javier Bardem também merece destaque, desde as expressões faciais, a postura enrijecida, a respiração e a fala acelerada trazem verdade ao personagem, que através da maquiagem indicada ao Oscar daquele ano o transforma completamente.

Mar Adentro consegue emocionar e ao mesmo tempo trazer reflexões pertinentes, duas características que infelizmente nem sempre andam juntas. O filme é mais um ótimo trabalho do direto Alejandro Amenábar e do cinema espanhol que, merecido, levou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de volta à Espanha, que havia vencido pela última vez com Tudo Sobre Minha Mãe (1999), do espalhafatoso, mas competente, Pedro Almodóvar.

a) Filme | Mar Adentro

b) Cinema penal: “Mar Adentro” (Espanha, 2004)

DEU NO JORNAL

UMA CHANCE PARA O CONSERVADORISMO DEMOCRÁTICO NA HUNGRIA

Editorial Gazeta do Povo

editorial hungria peter magyar

Péter Magyar, líder do Tisza, partido vencedor das eleições húngaras deste domingo

Após 16 anos no poder, Viktor Orbán terá de entregar o comando na Hungria ao também conservador Péter Magyar. Mesmo contando com a máquina estatal e uma rede internacional de apoios que incluía o presidente norte-americano, Donald Trump, e o ditador russo, Vladimir Putin, o partido de Orbán, o Fidesz, conquistou menos de um terço das cadeiras do parlamento unicameral da Hungria – a apuração está praticamente concluída. Já o Tisza, legenda de Magyar, teve 52% dos votos totais, mas, graças ao sistema eleitoral usado no país, terá uma supermaioria de 136 das 199 cadeiras, o suficiente para emendar a Constituição. A direita nacionalista do Nossa Pátria superou por pouco a cláusula de barreira e deve eleger seis deputados.

Que os húngaros não querem nada com a esquerda é evidente – e natural, para um país que sofreu tanto nas mãos dos comunistas durante a era da Cortina de Ferro, com direito a um levante massacrado por Moscou em 1956, e que até deu mais uma chance aos socialistas entre 2002 e 2010, antes de rejeitá-los devido à irresponsabilidade econômica e à corrupção. A questão é o tipo de direita que a população resolveu colocar no governo agora. A diferença radical entre Orbán e Magyar não está nas plataformas morais, pois são ambos conservadores, mas na forma como eles enxergam o papel da Hungria dentro da Europa, e em como o poder deve ser exercido internamente.

Orbán transformou a Hungria na ponta-de-lança da Rússia dentro da União Europeia, fazendo o jogo do ditador russo sempre que possível, especialmente atrapalhando o envio de ajuda europeia à Ucrânia, que resiste à invasão russa há quatro anos. Em março, o jornal The Washington Post ainda revelou que o chanceler húngaro estaria repassando ao seu colega russo, Sergei Lavrov, informações sensíveis de reuniões realizadas no âmbito da UE. Além disso, Orbán mostrou que o autoritarismo não tem coloração ideológica ao aparelhar o Judiciário, enfraquecer o sistema de pesos e contrapesos, e intimidar a imprensa livre, exatamente como fazem ditadores de esquerda mundo afora.

Muitos conservadores, no entanto, acabaram caindo em uma armadilha, fechando os olhos para os aspectos autocráticos do governo de Orbán apenas porque o primeiro-ministro tinha a valentia de desafiar “consensos” identitários característicos das sociedades ocidentais, alguns deles inclusive impostos pela União Europeia. Seu governo valorizou o casamento entre homem e mulher, incentivou as famílias numerosas, buscou controlar as ondas de imigração vindas do Oriente Médio, e defendeu a identidade cristã da Hungria – o aborto, no entanto, continua legal, apesar de a Constituição de 2012, aprovada já com o Fidesz no poder, afirmar a proteção da vida humana desde a concepção.

Faltou aos conservadores fascinados com a Hungria perceber que o autoritarismo pode ser tudo, menos conservador. Nem o avanço quase irrefreável de um certo tipo de “progressismo” (entre aspas, pois nada do que se defende aí pode ser considerado verdadeiro progresso) identitário pelo mundo poderia servir de justificativa para endossar com entusiasmo um governante que ataca liberdades como a de expressão, ou anula a independência entre os poderes, apenas porque ele defende uma pauta moral conservadora. Pelo contrário: esta é a receita perfeita para criar uma associação indelével entre conservadorismo e autoritarismo que já tem sido explorada pela esquerda em outros países – inclusive o Brasil.

Se Péter Magyar conseguir preservar o que há de bom na pauta moral herdada de Orbán, enquanto devolve a normalidade democrática à Hungria e realinha o país internacionalmente, afastando-o das garras de Vladimir Putin e integrando-o ao projeto europeu, defendendo a soberania nacional e a subsidiariedade desejadas pelos pais da UE, fará um grande favor ao conservadorismo mundial. A tão necessária defesa da vida e da família não precisa (e nem deve) vir associada a regimes de força e supressão das liberdades, nem servir para justificá-los.

PENINHA - DICA MUSICAL

BERNARDO - AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS