Tenho tanto sentimento Que é frequente persuadir-me De que sou sentimental, Mas reconheço, ao medir-me, Que tudo isso é pensamento, Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos, Uma vida que é vivida E outra vida que é pensada, E a única vida que temos É essa que é dividida Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira E qual errada, ninguém Nos saberá explicar; E vivemos de maneira Que a vida que a gente tem É a que tem que pensar.
Fernando António Nogueira Pessoa, Lisboa, Portugal (1888-1935)
Nunca pense que a vida na infância é só peraltice, escola, comida boa ou jogar bola e andar de bicicleta ou qualquer outro brinquedo, pois a infância tem também suas agruras e dificuldades.
Papeira, ou caxumba?
Sarampo, conjuntivite (no Ceará, “dordói”), dedo dismintido, coqueluche, bexiga – acredite, isso não é nada bom. Que já enfrentou, sabe como é.
Isso, sem contar as surras (no Ceará, “pisa”) com cipó de marmeleiro, os castigos em casa e na escola – além daqueles famosos: “quando a gente chegar em casa, vamos conversar”; ou ainda a ansiedade da pisa antecipada, com o famoso: “quando teu pai chegar, vou contar tudo pra ele”!
Gripe com febre alta e assistir o aparelho fervendo com a ampola e a agulha para tomar aquela injeção que doía mais que parir uma criança?!
Tudo café pequeno.
Tomar banho, querendo ou não – porque está na hora!
Ouvir: “vá banhar, daqui a pouco vou lhe esfregar, pra tirar esse “serôto” do cangote”!
Todas essas coisas, boas e ruins que acabam sendo boas por que vão somar no aprendizado da vida, representam a convivência da universidade familiar, que vai nos acrescentar mais que qualquer mestrado ou doutorado.
É a verdadeira graduação da vida. Com diploma para emoldurar e exibir na parede da vida – quando os cabelos branquearem, as articulações começarem a doer e a urina começar a cair fora do vaso sanitário.
Fubá de milho torrado e pilado
Mas, como focar nesse “remake” da vida deixando de lado o que de bom enfeitou nosso viver?
Alguém conhece uma criança que, mesmo vivendo dificuldades, não tenha sido feliz?
E, assim sendo, quem teria inventado a frase: “a gente era feliz e (não) sabia”?
Eu fui feliz, sim senhor – mesmo enfrentando ao longo de oitenta anos os problemas que enfrentei. Mas, me atreveria a olhar para trás e repetir muita coisa.
Roubar a rapadura da Vovó (que, no fundo, era minha também), guardada numa cumbuca debaixo de sete chaves – única e exclusivamente para adoçar o “nosso café”.
Ajudar a socar no pilão o milho torrado para fazer fubá, pôr na boca uma mancheia e tentar falar: “minha Tia é boa porque pode”!
Pois é. Ser feliz é fazer e ver acontecer coisas simples, que, às vezes, apenas nós entendemos.
E, sinceramente falando, esse é o somatório da vida. É o que significa viver e ser feliz.
Atualmente temos um monte de medos, pois escrever ou contestar algo nos torna alvo de alguma intimidação, cancelamento ou pior, um processo e montão de anos de cadeia.
Qual o crime?
Lá na frente se discute, se acerta, se adequa ou se não existir, se adapta, ou se cria.
Como o atual presidente do STF sempre fala, depois que começou a livre opinião pelas redes sociais, o mundo virou uma balburdia.
Antes, esperávamos as notícias pelos jornais, pelos informativos noturnos, onde preponderava uma grande rede.
Vivíamos felizes, no entender de sua excelência, pois nosso celebro funcionava tal qual um autômato, ao sabor dos maiorais.
Outro disse que antes éramos felizes e não sabíamos…
De repente tínhamos voz ou melhor uma maneira de manifestação, sem correr o risco de levar gás, borrachada e algo pior nas ruas.
É, a rede social mudou a forma de manifestação…
Mas, não mudaram aqueles que sempre se entronaram nos cargos, não se adaptaram aos novos tempos.
Querem a volta ao passado, mas o mundo anda para frente… não percebem que seu tempo passou…