DEU NO X

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

DANDO MILHO AOS POMBOS

Dando milho aos pombos

“Um dia, daqui a não sei quantos anos, ainda vou sentir saudades deste lugar e deste momento. Deste barulho que a água faz quando se encachoeira nas pedras e desta música que o rádio de pilha da casinha está tocando.”

(Trecho da crônica “Nós, os Meninos de Palmares”, do livro “A Prisão de São Benedito”, da autoria de Luiz Berto, editor deste JBF).

Estou em viagem.

De trem.

Mais propriamente no Expresso do Oriente.

A linha férrea é a grande novidade, mas, a paisagem não é tão estranha – beirando o rio Pirangi. Viajo acompanhado dos amigos Antônio Maromba, Fernando Gata e Romildo Pilica.

Na próxima estação, eu fico e eles continuam a viagem. Faz tempos viajam.

Estamos vindo de Palmares.

Eu vou aproveitar para Dar milho aos Pombos e, depois, matar o tempo vago jogando na roleta que, livremente, rouba dos incautos numa praça.

Estou viajando deitado.

Os outros três passageiros estão indo para São Benedito.

Na realidade, estão voltando. Moram ali há alguns anos, onde nasceram e aprenderam os bons caminhos da vida pregressa – banhar no rio Pirangi, nus em pelo.

Ouço o barulho que o armador enferrujado faz, quando balanço a rede – tacando o pé na parede para pegar impulsão, e balançar.

Nesse ínterim, aproveito para lhes apresentar uma mulher. Mulher, não. Uma dama com quem convivi parte dos meus dias:

Agatha Mary Clarissa Christie DBE, nascida Agatha Mary Clarissa Miller, popularmente conhecida como Agatha Christie, uma escritora britânica que atuou como romancista, contista, dramaturga e poetisa. Nascida a 15 de setembro de 1890, em Torquay, Reino Unido. Infelizmente já nos deixou, faz tempo – 12 de janeiro de 1976.

O mistério do trem azul, A morte do Almirante, Assassinato no Expresso Oriente, O caso dos dez negrinhos, Os trabalhos de Hércules, Depois do funeral, Um gato entre os pombos, Os elefantes não esquecem, O visitante inesperado, e, claro, Dando milho aos pombos.

Agatha Christie

Entre tantas obras que me cativaram como leitor, faço destaque a O caso dos dez negrinhos, Dando milho aos pombos e Assasinato no Expresso Oriente.

Nesses, Agatha faz valer a importância de Hércule Poirot – um detetive que somente inteligências brilhantes que nascem e vivem noutras culturas, como “nim Palmares” que criou meus companheiros de viagem nesse trem da vida – Maromba, Gata e Pilica.

Hércule Poirot

O trem parou.

Desci e fui cumprir meu objetivo. Gata, Maromba e Pilica continuaram no trem, beirando o Pirangi. Descerão em Palmares. Sortudos que são.

Obrigado pela companhia da viagem. Qualquer dia desses nos reencontraremos e viveremos novos e delirantes sonhos.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

O GONDOLEIRO DO AMOR – Castro Alves

Teus olhos são negros, negros,
Como as noites sem luar…
São ardentes, são profundos,
Como o negrume do mar;

Sobre o barco dos amores,
Da vida boiando à flor,
Douram teus olhos a fronte
Do Gondoleiro do amor.

Tua voz é cavatina
Dos palácios de Sorrento,
Quando a praia beija a vaga,
Quando a vaga beija o vento.

E como em noites de Itália
Ama um canto o pescador,
Bebe a harmonia em teus cantos
O Gondoleiro do amor.

Antônio Frederico de Castro Alves, Bahia (1847-1871)

DEU NO JORNAL

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

UM LUGAR COMUM

A corrupção no Brasil está tão banalizada que não chega mais a ser um caso surpreendente. Hoje, parece que a maior surpresa é encontrar alguém que seja corrupto. Sabemos que eles existem, mas estão escanteados. Ser minoria é complicado, mesmo, no entanto, fazer parte de uma minoria que não suporta corrupção é diferente, e muito, de outros contextos de minoria. Não tenho o menor interesse em desrespeitar direitos individuais, mas dizer, tão somente, que o não corrupto está sendo sufocado.

Esta semana a Polícia Federal prendeu o ex-prefeito de Bonfim, estado de Roraima, por desvios de R$ 40 milhões em licitações. Pra gente fazer uma comparação, a Mega Sena acumulou em R$ 27 milhões e poderá chegar a R$ 30 milhões no próximo sorteio. Trata-se de um prêmio disputadíssimo, mas a corrupção supera isso. Hoje, desviar R$ 27 milhões é humilhante, coisa para quem é amador. O maior significado de tudo isso, foi a foto que o ex-prefeito tirou quando estava sendo fichado e me lembrou uma antiga propaganda do banco Itaú. A coisa era assim: um cliente do Itaú procurava um cirurgião plástico para ele colocar rugas de expressão, de preocupação, no seu, porque, como cliente do Itaú ele não tinha nenhuma.

Esse é o grande achado! O riso decorre da certeza de que nada será punitivo e mesmo que ele durma alguns dias na cadeia, vai sair, vai concorrer a outro cargo e vai ser eleito com a grande cumplicidade do eleitor que não está nem aí para questões coletivas. Bom, o Daniel Vorcaro saiu da cadeia e pronto. Pelo que foi divulgado, ele irá comemorar a soltura com um bom vinho que custa, R$ 6 mil a garrafa e conversar com o advogado para provar que estava tudo bem e que não houve fraude. É o momento de proteger os nomes fortes de quem o apoiou. Uma mão lava a outra e as duas lavam o corpo, diz o velho ditado. Quem não lembra da denúncia contra Alkmin nas obras do Rodoanel? Quem não lembra que ele foi “julgado” por um conselheiro do tribunal de justiça de São Paulo que havia sido indicado por ele.

A pandemia trouxe alguns elementos de corrupção, sem precedentes. Dinheiro público, destinado a aquisição de equipamentos de saúde, foi parar em caixa de sapato e em cuecas. O consórcio nordeste adquiriu respiradores de uma empresa de ração, mas os gestores desse consórcio acabaram sendo eleitos para diversos cargos legislativos. A questão da vacina contra o coronavírus era parte de um debate intenso e a CoronaVac foi a primeira, a surgir no mercado. Muito questionada, mas com um apoio estupendo do governo de São Paulo, na pessoa de João Dória, entretanto, o que é interessante nisso tudo é que um camarada chamado Dimas Covas, era o chefe do Instituto Butantã, ou seja, o instituto que tinha incumbências de validar tais vacinas.

A transição de um funcionário público para o setor privado, envolve uma tal de “quarentena” que é o período no qual o funcionário público não pode ter vínculo empregatício com a iniciativa privada. Lendo a matéria sobre isso, dá para notar o entusiasmo de Dimas Covas em assumir um cargo tão valorizado e, anunciar, investimentos importantes para sua nova casa. O detalhe é que tais investimentos não apresentam a menor característica de ter começado com a entrada dele, ou seja, tudo que está ali como proposta de investimento é coisas bastante antiga.

Todos os dias a gente toma conhecimento de um escândalo. Esse cordão umbilical conecta todos os níveis da administração pública. Atinge as assembleias legislativas, as câmaras municipais, a câmara federal e os diversos gabinetes decisórios do país. Nas assembleias tem-se a tal “rachadinha”, nas licitações, o constante sobrepreço das obras públicas e na outra ponta, um povo pobre, acostumado a votar corruptos, muito mais por se sentir devedor de favores anteriormente prestados.

O Brasil tem jeito? Pode até ser que tenha. Será preciso educar as crianças, mas as crianças estão sendo educadas por um professor militante que se preocupa, muito mais, na dominação do que nos fundamentos da educação.

Estamos no final do ano e teremos eleição ano que vem. A dívida pública está, segundo dados do governo em 78,6% do PIB, ou seja, de cada R$ 100,00 produzidos, o país deve R$ 78,60. Para o FMI esse percentual é 91%. Alguma preocupação? Nenhuma: o importante é ganhar a eleição.

DEU NO X

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

RESSACA DE DOR

Toda paixão, no final,
Deixa ressaca de dor.

Mote deste colunista

A paixão quando termina
Pela uma razão qualquer
O homem ou a mulher
O menino ou a menina
Fica provado que a sina
Do amante sofredor
Que viveu aquele amor
Agora está muito mal
Toda paixão no final
Deixa ressaca de dor.

Poeta Nascimento

Quando o encanto se desfaz
Sem pedir explicação
Maltrata o coração
Que não encontra mais paz
A solidão só nos faz
Saber que não tem valor
Sofrer pelo seu amor
De forma tão desigual
Toda paixão no final
Deixa ressaca de dor.

Leo Brasil

É feito um vendaval
Destrói tudo o que foi feito
Deixa uma dor dentro do peito
Sem precisar de aval
Essa dor é infernal
Se virou para o amor
Voa alto que nem Condor
Mas a queda é abismal
Toda paixão, no final,
Deixa ressaca de dor.

Cabal Abrantes

Paixão é mesmo doença,
Parece cachaça forte
E pode levar à morte
Se for por demais intensa.
O apaixonado não pensa
E não consegue se impor…
Não há paixão indolor,
Sofrer se torna nornal,
Toda paixão, no final,
Deixa ressaca de dor.

Melchior SEZEFREDO Machado

Quem nunca teve saudade
Daquela paixão primeira
Da menina da ribeira
Saindo da puberdade
Com ares de santidade
Alentando o pecador
Mas saiu do interior
Pra viver na capital…
Toda paixão, no final,
Deixa ressaca de dor.

Wellington Vicente

DEU NO JORNAL

RUMO AOS BILHÕES

O governo Lula torra também em viagens (diárias e passagens) o dinheiro que arranca dos brasileiros com os impostos que aumentou ou criou.

Já são quase R$ 1,7 bilhão só entre janeiro e 21 de novembro.

* * *

Falta pouco pra chegar ao plural “bilhões”…

A palavra “arranca”, contida nessa nota aí de cima e se referindo ao dinheiro que sai do bolso do contribuinte, resume tudo.

Arrancam sem piedade e torram tudo avuando pelos ares.

Normal, normal, normal no Brasil da atualidade.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Ricardo Brennand

Ricardo Coimbra de Almeida Brennand nasceu em 27/5/1927, em Cabo de Santo Agostinho, PE. Engenheiro, empresário, mecenas e, sobretudo, colecionador de obras de arte. Sua coleção resultou na criação do museu, digo Instituto Ricardo Brennand, no Recife, cujo acervo inclui a maior coleção particular de pinturas de Franz Post no mundo.

Filho de Dulce Padilha Coimbra e Antônio Luiz de Almeida Brennand, tradicional família pernambucana. Formado em engenharia civil e mecânica, pela UFPE em 1949, dedicou-se aos negócios da família: fabricação de vidro. aço, cerâmica, cimento, porcelana e açúcar. Em viagens pela Europa e Ásia, adquiriu diversas obras de arte. Em 1998 uma tragédia -a morte do filho- mudou o foco de prioridades do empresário, canalizando toda sua atenção para o lado artístico e sentimental, mais ligado ao colecionismo.

Em 1999 vendeu as fábricas de cimento ao grupo português Cimpor por 590 milhões de dólares e passou a projetar o Instituto Ricardo Brennand (IRB), espaço de referência cultural sem fins lucrativos no Recife, fundado em 2002. O nome homenageia seu tio homônimo, grande incentivador das artes na família. Trata-se de uma instituição cultural reconhecida mundialmente, ocupando as terras do antigo Engenho São João, no bairro da Várzea, Zona Oeste do Recife, com uma área de 180 mil m², circundado por jardins, lagos e obras de arte. O Museu em fins de década de 1990, quando o vice-presidente da República, Marco Maciel, chamou Brennand para uma conversa:

“Ricardo, tenho uma missão para você servir a Pernambuco. Este ano completam-se 350 anos da morte de Albert Eckhout. O governo holandês aceitou uma sugestão nossa para trazer as obras que ele pintou no Brasil. Mas exige que tenhamos uma instalação que abrigue as obras que serão expostas ao público. Preciso que você nos ajude a realizar esse evento”. Brennand ajudou na empreitada criando o IRB, em 2002, com a exposição “Albert Eckhout volta ao Brasil”.

O IRB abrange um complexo de edificações, abertas à visitação pública, abrangendo o Museu Castelo São João (museu de armas brancas), Pinacoteca, Biblioteca com 60 mil volumes, datados do século XVI em diante, Auditório, Jardim das Esculturas e a Galeria de Exposições Temporárias e Eventos. Foi eleito o melhor museu da América do Sul pelo site de viagens TripAdvisor. Vale a pena uma visita ao museu através do site Instituto Ricardo Brennand.

Conta com um acervo de obras de história e arte, incluindo mais de 5 mil armas brancas, bem como espadas, armaduras, miniaturas, canhões, chaves, relógios e armas modernas automáticas. Trata-se da maior coleção bélica do mundo. Tal apreço por armas teve início quando, ainda criança, ganhou do pai um canivete estilizado. O acervo inclui também objetos históricos e artísticos de diversas procedências, abrangendo o período da baixa idade média ao século XX, com destaque para a coleção de documentos e iconografia referente ao período colonial e ao Brasil Holandês.

Em 2017 recebeu a “Medalha do Mérito Capibaribe”, a mais alta honraria concedida pela Prefeitura do Recife. Foi casado com Graça Monteiro Brennand, com quem teve 8 filhos. Construiu para a esposa a Igreja de Nossa Senhora das Graças, em estilo gótico, e faleceu em 25/4/2020, aos 92 anos. Foi um empresário prolífico e diversificado. Porém, sua obra maior foi a construção do IRB, conforme registrado numa conversa com jornalistas:

“Como empresário, nossa família ajudou o Brasil, eu mesmo construí fabricas e participei de grandes projetos. Mas eu nunca me senti tão reconhecido pela sociedade como depois que construí o IRB. Virei uma estrela!”