Poeiras de crepúsculos cinzentos, Lindas rendas velhinhas, em pedaços, Prendem-se aos meus cabelos, aos meus braços Como brancos fantasmas, sonolentos…
Monges soturnos deslizando lentos, Devagarinho, em mist’riosos passos… Perde-se a luz em lânguidos cansaços… Ergue-se a minha cruz dos desalentos!
Poeiras de crepúsculos tristonhos, Lembram-me o fumo leve dos meus sonhos, A névoa das saudades que deixaste!
Hora em que o teu olhar me deslumbrou… Hora em que a tua boca me beijou… Hora em que fumo e névoa te tornaste…
Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)
Xico Bizerra usou a figura de Eutrópio e a rua de uma casa só para construir uma divertida crônica recheada de ironia sobre a banalização do título de poeta no cotidiano e o ego inflado de quem se acha indevidamente um gigante da poesia.
Por meio da figura de Eutrópio, que se autodenominava poeta em sua solidão, o texto de Xico satiriza a mediocridade pretensiosa e, no final, o cronista adota um tom humilde, recusando o rótulo para si e exaltando poetas consagrados.
A confissão final do cronista, ao declarar que não tem a menor pretensão de ser poeta e que apenas escreve versos, ecoa a postura do apóstolo Paulo que, em uma de suas cartas destinadas a Timóteo (1 Timóteo 1:15), se intitulou como o pior dos pecadores, reconhecendo sua insignificância diante da grandeza divina.
É interessante ver nesta crônica o autor tratar da poesia como uma coisa muito maior, colocando-se abaixo de nomes como Manoel Bandeira e Fernando Pessoa, em uma posição de humildade semelhante à de Paulo perante Deus.
Em seus textos Paulo e o “enorme poeta, já consagrado, que é Xico Bizerra” utilizaram a hipérbole da autodepreciação para elevar o verdadeiro objeto de admiração: Paulo eleva a graça divina, e o cronista eleva a verdadeira arte poética, distanciando-se da figura narcisista de Eutrópio.
Foi com irritação que Lula (PT) recebeu os números do Datafolha no fim de semana, com Flávio Bolsonaro (PL) numericamente à frente do petista em um eventual segundo turno.
A crise fez o presidente mandar os ministros adiantarem os projetos com algum apelo popular para estancar a sangria na popularidade.
A estratégia é reverter a maré para Lula e mitigar o estrago eleitoral da inflação, que ainda deve aparecer, em razão da alta dos combustíveis.
* * *
Muito bom saber que ele ficou irritado com o resultado da pesquisa.
O emputecimento do Descondenado é um ponto positivo para a banda decente do Brasil.
“Mas cá entre nós, eu acho que depois de morrermos não há nada. Tal como antes de nascermos. Nada.” Ramón Sampedro – personagem do ator Javier Bardem, no filme.
MAR ADENTRO (2004), narra a história do marinheiro, escritor e ativista espanhol, Ramón Sampedro, interpretado magistralmente no cinema pelo ator hispânico Javier Bardem, tendo Ramón ficado tetraplégico após um mergulho numa área rasa do amar e ter batido com a cabeça numa pedra. O filme mostra a luta incessante de Sampedro perante os Tribunais locais pelo direito de cometer suicídio assistido, contando com a ajuda dos amigos e da família, além de um advogado, que abraçou a causa gratuitamente.
Por causa da sua incapacidade física de não poder suicidar-se e morrer conforme seus desígnios, Ramón lutou na justiça durante vinte e cinco anos pelo direito de morrer com dignidade sem incriminar os amigos ou a família que viesse a auxiliá-lo no ato de tirar a própria vida, tomando cianeto de potássio.
Ramón Sampedro tornou público seu desejo de morrer no início de 1990, mas só oito anos depois foi que conseguiu um suicídio assistido, através da ajuda de uma amiga, que antes gravou um vídeo de sua morte que foi divulgado nas redes de tevês do país e do mundo e voltou a despertar na sociedade a importância do debate sobre a despenalização da morte assistida.
A associação espanhola “Direito a Morrer Dignamente” considera que, graças à sua luta e às suas reivindicações, Ramón Sampedro contribuiu para que, em 1995, fosse aprovada uma reforma no Código Penal que reduziu as condenações em caso de eutanásia ou de assistência ao suicídio.
Entre os temas mais difíceis que o cinema ou qualquer outra arte pode tentar retratar, a morte, mais especificamente a eutanásia ou a morte assistida, deve figurar entre os principais. A complexidade da questão, aliada à falta de representatividade entre grandes diretores e roteiristas faz com que sejam raras as películas que se dedicam a debater o assunto. Em 2016, a comédia romântica britânica Como Eu Era Antes de Você recebeu uma série de críticas e protestos por ter, na ótica de muitos, glamurizado a eutanásia e reduzido o debate sério a uma comédia leve e adolescente, que se resolvem em meio a piadas, sarcasmos e uma alta dose de humor. A diretora inglesa Thea Sharrock não teve competência para dirigir um tema sensível com catilogência.
Mar Adentro, anterior à comédia britânica, parece entender exatamente as críticas e se antecipar a todas elas. A história retrata a vida de Ramón Sampedro, o espanhol de meia idade que se tornou tetraplégico, deseja, conscientemente, a morte. Ramón, depois de mergulhar e bater a cabeça numa pedra no fundo do mar, vive numa cama na humilde residência em que mora com o pai, seu irmão José, a cunhada Manuela e o sobrinho Javier. A eutanásia na Espanha era proibida e Ramón precisa contar com a ajuda da advogada Júlia, que simpatiza com sua história, para tentar convencer a Corte espanhola a alterar a lei e atender ao seu pedido.
Todo o drama é escrito de maneira muito sóbria e humana. Não existe qualquer tentativa de se romantizar a questão ou criar heróis e vilões dentro da trama. Um ponto bem claro para evidenciar a preocupação do roteiro é o pouco tempo dedicado ao debate legal sobre a morte assistida em si. As cenas de tribunal são mínimas e os termos jurídicos, inexistentes.
O centro da trama é realmente o sentimento de Ramón e sua relação com a vida e as pessoas à sua volta. Nesse sentido, conforme as relações evoluem, entendemos melhor os dramas de Júlia e Rosa e porque elas se conectam tanto com o protagonista. Júlia sofre de uma doença degenerativa que coloca ela numa cadeira de rodas e a aterroriza quanto ao seu futuro. Ela se apega à Ramón e eles criam uma conexão forte e sensível. Já Rosa, tão machucada em relacionamentos amorosos, projeta em nele um homem ideal e que a dá forças para viver. Quando ela entende que para ele a maior demonstração de amor é ajudá-lo a morrer, ela se entrega e deixa de lutar contra a vontade dele, trazendo à história um final sensível e melancólico, mas nada romântico ou glamourizado.
Toda essa sensibilidade é positivamente ressaltada pelas ótimas atuações e pelo design de produção da obra. A preocupação de Amenábar em balancear a quantidade de tomadas internas e externas dá um alívio ao espectador e evita uma sensação claustrofóbica de acompanhar toda a história dentro do quarto onde Ramón vive. A composição de personagem por parte do ator Javier Bardem também merece destaque, desde as expressões faciais, a postura enrijecida, a respiração e a fala acelerada trazem verdade ao personagem, que através da maquiagem indicada ao Oscar daquele ano o transforma completamente.
Mar Adentro consegue emocionar e ao mesmo tempo trazer reflexões pertinentes, duas características que infelizmente nem sempre andam juntas. O filme é mais um ótimo trabalho do direto Alejandro Amenábar e do cinema espanhol que, merecido, levou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de volta à Espanha, que havia vencido pela última vez com Tudo Sobre Minha Mãe (1999), do espalhafatoso, mas competente, Pedro Almodóvar.
Péter Magyar, líder do Tisza, partido vencedor das eleições húngaras deste domingo
Após 16 anos no poder, Viktor Orbán terá de entregar o comando na Hungria ao também conservador Péter Magyar. Mesmo contando com a máquina estatal e uma rede internacional de apoios que incluía o presidente norte-americano, Donald Trump, e o ditador russo, Vladimir Putin, o partido de Orbán, o Fidesz, conquistou menos de um terço das cadeiras do parlamento unicameral da Hungria – a apuração está praticamente concluída. Já o Tisza, legenda de Magyar, teve 52% dos votos totais, mas, graças ao sistema eleitoral usado no país, terá uma supermaioria de 136 das 199 cadeiras, o suficiente para emendar a Constituição. A direita nacionalista do Nossa Pátria superou por pouco a cláusula de barreira e deve eleger seis deputados.
Que os húngaros não querem nada com a esquerda é evidente – e natural, para um país que sofreu tanto nas mãos dos comunistas durante a era da Cortina de Ferro, com direito a um levante massacrado por Moscou em 1956, e que até deu mais uma chance aos socialistas entre 2002 e 2010, antes de rejeitá-los devido à irresponsabilidade econômica e à corrupção. A questão é o tipo de direita que a população resolveu colocar no governo agora. A diferença radical entre Orbán e Magyar não está nas plataformas morais, pois são ambos conservadores, mas na forma como eles enxergam o papel da Hungria dentro da Europa, e em como o poder deve ser exercido internamente.
Orbán transformou a Hungria na ponta-de-lança da Rússia dentro da União Europeia, fazendo o jogo do ditador russo sempre que possível, especialmente atrapalhando o envio de ajuda europeia à Ucrânia, que resiste à invasão russa há quatro anos. Em março, o jornal The Washington Post ainda revelou que o chanceler húngaro estaria repassando ao seu colega russo, Sergei Lavrov, informações sensíveis de reuniões realizadas no âmbito da UE. Além disso, Orbán mostrou que o autoritarismo não tem coloração ideológica ao aparelhar o Judiciário, enfraquecer o sistema de pesos e contrapesos, e intimidar a imprensa livre, exatamente como fazem ditadores de esquerda mundo afora.
Muitos conservadores, no entanto, acabaram caindo em uma armadilha, fechando os olhos para os aspectos autocráticos do governo de Orbán apenas porque o primeiro-ministro tinha a valentia de desafiar “consensos” identitários característicos das sociedades ocidentais, alguns deles inclusive impostos pela União Europeia. Seu governo valorizou o casamento entre homem e mulher, incentivou as famílias numerosas, buscou controlar as ondas de imigração vindas do Oriente Médio, e defendeu a identidade cristã da Hungria – o aborto, no entanto, continua legal, apesar de a Constituição de 2012, aprovada já com o Fidesz no poder, afirmar a proteção da vida humana desde a concepção.
Faltou aos conservadores fascinados com a Hungria perceber que o autoritarismo pode ser tudo, menos conservador. Nem o avanço quase irrefreável de um certo tipo de “progressismo” (entre aspas, pois nada do que se defende aí pode ser considerado verdadeiro progresso) identitário pelo mundo poderia servir de justificativa para endossar com entusiasmo um governante que ataca liberdades como a de expressão, ou anula a independência entre os poderes, apenas porque ele defende uma pauta moral conservadora. Pelo contrário: esta é a receita perfeita para criar uma associação indelével entre conservadorismo e autoritarismo que já tem sido explorada pela esquerda em outros países – inclusive o Brasil.
Se Péter Magyar conseguir preservar o que há de bom na pauta moral herdada de Orbán, enquanto devolve a normalidade democrática à Hungria e realinha o país internacionalmente, afastando-o das garras de Vladimir Putin e integrando-o ao projeto europeu, defendendo a soberania nacional e a subsidiariedade desejadas pelos pais da UE, fará um grande favor ao conservadorismo mundial. A tão necessária defesa da vida e da família não precisa (e nem deve) vir associada a regimes de força e supressão das liberdades, nem servir para justificá-los.
Flávio Bolsonaro (PL) ao lado de André Marinho (Novo) e Romeu Zema (Novo): sinalizações de diálogo e articulação entre PL e Novo no cenário político atual
Existe uma prioridade nessa eleição: derrotar o lulismo. Com isso em mente, Jair Bolsonaro já escreveu carta do próprio punho, na prisão, pedindo a união da direita, o fim dos ataques mútuos e o respeito à sua esposa Michelle, alvo de “cobranças” um tanto chulas de uma ala bolsonarista.
Flavio Bolsonaro foi na mesma linha e já disse várias vezes que o importante é deixar o passado para trás e focar no futuro, buscando, inclusive, aliança com quem criticava bastante Bolsonaro. Flavio também elogiou Nikolas Ferreira, alvo de ataques absurdos de alguns, afirmando que se trata de um “moleque de ouro” que está 100% do seu lado.
É nesse espírito de união que as imagens deste fim de semana no Sul são tão importantes. O deputado Marcel van Hattem, do Novo, e Sanderson, do PL, estiveram juntos em uma grande festa para lançar suas candidaturas ao Senado, enquanto Zucco, do PL, será o candidato ao governo. Marcel escreveu: “NÃO DEIXAREMOS A QUADRILHA QUE ASSALTOU O BRASIL ASSALTAR TAMBÉM O RIO GRANDE: agora é ZUCCO governador! Festa maravilhosa de lançamento da pré-campanha do Luciano Zucco ao governo do Rio Grande do Sul. A quadrilha que assaltou o INSS agora quer se instalar no RS, mas, juntos, nós não deixaremos isso acontecer. Com Zucco e Silvana no governo e comigo e Sanderson no Senado, faremos uma trincheira de batalha para o bem do nosso Estado e do nosso Brasil. Fora Lula! Fora Alexandre de Moraes! A direita está unida para retomar o RS e o Brasil”.
Enquanto isso, Flavio e Zema postaram um vídeo que viralizou nas redes sociais. Em clima descontraído, em tom de brincadeira, Zema, do Novo, convida Flavio, do PL, para ser seu vice. Flavio é o líder nas pesquisas e aquele com maior chance de derrotar Lula numa fotografia de hoje, e Zema é um dos cotados para ser seu vice. O ex-governador de Minas, reeleito em primeiro turno, traria não só um palanque importante no segundo maior colégio eleitoral do país, como sua experiência administrativa e seu tom incisivo contra os abusos supremos. Zema voltou a criticar os “intocáveis”: “Todo dia um tapa na cara do brasileiro. Chegou a hora de a gente acabar com essa farra dos intocáveis de Brasília”.
No Paraná, o Novo e o PL se uniram contra a esquerda. Sergio Moro, que foi para o PL, lidera as pesquisas para o governo, e a dobradinha para o Senado conta com Deltan Dallagnol, do Novo, e Felipe Barros, do PL. Divergências passadas foram deixadas de lado em prol do foco nos resultados.
O PL e o Novo também estão juntos no Rio, e Flavio gravou um vídeo ao lado de André Marinho, candidato ao governo. Marinho e seu pai foram duros críticos de Jair Bolsonaro, mas Flavio está focado, com pragmatismo, em seu objetivo maior: derrotar Lula. E ele sabe que, para isso, vai precisar de cada voto. Afinal, seu pai perdeu para Lula em 2022 por apenas 1%! Não dá, portanto, para desperdiçar um só voto nessa disputa tão acirrada e importante para o país. Ninguém quer imaginar o que seria do Brasil com mais quatro anos de PT.
Por isso mesmo, Flavio vem tentando se afastar do radicalismo de uma ala bolsonarista, dominada por seus irmãos Eduardo e Carlos. Pergunta: qual é a melhor forma de tratar quem pretende votar em Zema ou Caiado no primeiro turno, pela ótica do Flavio e do Brasil? Vê-los como prováveis aliados no segundo turno ou chamá-los de traidores, canalhas, esquerdistas e repetir que não precisamos de seus votos? A resposta parece evidente para quem pensa.
Fiz uma enquete no meu X, com 4.800 votos, perguntando em quem o público votaria no primeiro turno. Flavio ficou com 65%, Zema com quase 22% e Caiado com 13%. Isso mostra, dentro da minha base de seguidores, como será crucial para o Flavio atrair os votos de Zema e Caiado no segundo turno. E, para tanto, ele terá de ser moderado, acenar ao centro, aos liberais — e é justamente o que ele vem fazendo. Inclusive elogiando a equipe econômica do governo de seu pai e publicando uma foto ao lado do ex-ministro Paulo Guedes, grande liberal que goza do respeito dos agentes do mercado financeiro.
É um receio que muita gente boa tem, principalmente ao acompanhar a postura dessa turma contra Nikolas e outros nomes importantes da direita. Caso contrário, muita gente vai acabar desistindo de votar no Flavio por associá-lo a essa conduta tóxica.
Nikolas, aliás, não para de trabalhar em prol da candidatura de Flavio ao desgastar Lula com seus vídeos, que alcançam milhões de visualizações. Ele também esteve em evento em Goiás apoiando o deputado Gustavo Gayer. O PL, em sua página oficial, publicou: “Nikolas lembra: escolher bem os representantes é o primeiro passo para transformar o país. O Brasil precisa de coragem, ação, compromisso e, acima de tudo, caráter. E é com essa convicção que seguimos juntos, firmes na luta por um Brasil melhor”. Mas, acreditem se quiser, a ala “eduardista” conseguiu problematizar sua camisa branca e amarela!
O jovem deputado também gravou um vídeo incentivando os jovens a tirar seu título de eleitor. “Tira o título e vota, para pelo menos você poder cobrar em quem votou. Senão, nem reclamar depois você vai poder”, diz Nikolas no vídeo. Esse tipo de iniciativa é fundamental e pode fazer toda a diferença no resultado da eleição.
Jair Bolsonaro dizia: “Meu partido é o Brasil”. O ex-presidente sabia que nenhum partido no país é perfeito ou realmente conservador, e que o mais importante eram indivíduos com compromisso com as pautas de direita.
O Brasil não é uma dinastia familiar, e a direita sempre pregou a meritocracia. É por isso que o próprio Jair e sua esposa Michelle respeitam o trabalho de Nikolas, e é por isso também que parlamentares do Novo são mais aliados da agenda de direita do que muitos do próprio PL.
Daí a importância de vermos essa turma do Novo e do PL unida com o objetivo único de derrotar o PT. Quem se coloca contra essa união quer, no fundo, boicotar a própria candidatura de Flavio…