DEU NO JORNAL

A CENSURA AO MERCADO DE PREVISÕES

Editorial Gazeta do Povo

O brasileiro que usa plataformas de mercado de previsões, seja para se informar sobre tendências, seja para participar das transações de compra e venda de contratos envolvendo eventos futuros (esportivos, políticos, culturais, econômicos etc.) perdeu totalmente o acesso a 27 desses sites – incluindo o Polymarket, o principal deles – na manhã desta segunda-feira, quando a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) os bloqueou. A agência aplicou uma resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN), por sua vez embasada em uma nota técnica da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda. Um caso grotesco em que três órgãos extrapolaram completamente suas funções, afetando não apenas a liberdade econômica, mas principalmente a liberdade de expressão.

No mercado de previsões, os interessados adquirem contratos vinculados à um determinado evento – por exemplo, o resultado de uma eleição –, com um certo potencial de valorização. Caso o resultado previsto se concretize, o investidor embolsa essa valorização; do contrário, perde o que gastou na aquisição do contrato. Essa característica levou o secretário-adjunto de Prêmios e Apostas, Fabio Macorin, a apontar uma “identidade com a modalidade lotérica de aposta de quota fixa”, e o CMN decidiu que essas plataformas devem ser governadas pelas mesmas regras dos sites de apostas, as bets.

Aqui, de partida, já temos um erro conceitual. Ainda que nas apostas esportivas o ganho potencial também possa mudar ao longo do tempo anterior ao evento, de acordo com os volumes de apostas, há uma diferença fundamental entre as bets e sites como a Polymarket: no mercado de previsões, a “banca” não lucra nada com as previsões frustradas, enquanto as bets prosperam exatamente dessa forma. Por esse ângulo, mesmo a lei de 2023 que proíbe apostas fora do âmbito dos eventos esportivos não poderia se aplicar ao mercado de previsões. Uma comparação mais plausível seria com o mercado de opções, em que investidores aplicam seu dinheiro confiando na valorização ou na desvalorização de certa ação; se errarem, perdem o valor investido (na gíria do mercado financeiro, a opção “vira pó”), mas, se acertarem, podem conseguir ganhos robustos.

Forçar a mão na equiparação entre o mercado de previsões e as bets foi a maneira simples (e equivocada) de contornar um fato já apontado por parlamentares do Novo que protocolaram um projeto de decreto legislativo para derrubar a resolução: a restrição a uma atividade econômica, nos moldes do que acabam de fazer a Fazenda, o CMN e a Anatel, só poderia ser imposta pela via legislativa, e jamais por atos normativos do Poder Executivo. “A discussão não é se o setor deve ou não ser regulado. A questão é que regulação não pode ser confundida com proibição administrativa destinada a eliminar concorrência econômica”, disse à Gazeta do Povo o advogado Ricardo Scheiffer. Em outras palavras, se o governo federal acha que o mercado de previsões deveria ser regulamentado como as bets, que enviasse um projeto de lei ao Congresso.

A inconstitucionalidade escandalosa, no entanto, está na forma escolhida para coibir a atuação do mercado de previsões. Suponhamos que a analogia com as bets fizesse sentido, ou que o Ministério da Fazenda e o CMN de fato tivessem a autoridade legal para decidir por restrições a sites como a Polymarket; isso jamais poderia servir de argumento para simplesmente tirar do ar todos os sites que foram bloqueados. Este, sim, é o tipo de decisão que extrapola totalmente os poderes dos órgãos envolvidos e agride frontalmente a liberdade de expressão e o direito de acesso à informação.

O mercado de previsões é bastante usado mesmo por pessoas que não estão participando da compra e venda de contratos, mas que precisam se inteirar das tendências, usando como parâmetro aqueles que têm o chamado skin in the game, ou seja, estão colocando o próprio dinheiro na confiança sobre a concretização de um determinado cenário. Não poucas decisões de negócio são feitas tendo em mente o que o mercado de previsões aponta, por exemplo, a respeito do resultado de uma eleição. O advogado Scheiffer chegou a mencionar a possibilidade de o governo estar interessado em esconder previsões negativas, por exemplo sobre uma possível derrota de Lula em outubro.

O mercado de previsões é atividade legal em inúmeros países, as informações contidas nesses sites são relevantes, e o simples acesso às plataformas por parte de quem deseja consultar as tendências ali exibidas não tem (e nem deveria ter) nada de ilícito. Se o governo quer restringir a participação de brasileiros como investidores, que proponha regras e as submeta à avaliação do Congresso, já que o inciso II do artigo 5.º da Constituição afirma que “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”, ou seja, “obrigações de não fazer” dependem necessariamente do Poder Legislativo. Mas em hipótese alguma se pode aceitar um bloqueio como o determinado pela Anatel, e que algo assim seja tratado com normalidade mostra a que ponto chegou a ignorância da sociedade sobre o alcance e a importância da liberdade de expressão e da livre circulação de informações.

Neste Brasil de Alexandres, Gilmares, Toffolis, Vorcaros, Mottas, Alcolumbres e Messias, o bloqueio governamental ao mercado de previsões pode até parecer coisa menor, mas não é – principalmente por suas consequências sobre a liberdade de expressão, já tão vilipendiada no Brasil. Como informações relevantes estão bloqueadas ao público brasileiro, não exageramos quando afirmamos que, sob o pretexto de “proteger a poupança popular e evitar o endividamento das famílias brasileiras e de pequenos produtores”, nas palavras de um conselheiro da Anatel, estamos diante de mais um ato de censura por parte de um governo sempre disposto a impedir a circulação de críticas e fatos inconvenientes. O Congresso tem a oportunidade de consertar esse erro, e não pode desperdiçá-la.

PENINHA - DICA MUSICAL

DEU NO JORNAL

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

CONTRADIÇÕES – Virgínia Vitorino

Não há culpa no mundo sem razão
e entretanto, bem visto, é tudo errado.
Quanto inocente a gente vê culpado,
e quantos criminosos têm perdão!

Tudo na vida é uma contradição.
Quantas vezes perpassa ao nosso lado
um riso todo em lágrimas gerado,
um riso que é um mundo de aflição?

Nada vale o que vale. Tudo mente.
Quem mais sofre é talvez quem menos sente.
Nem é verdade aquilo que já vimos.

A vida é de tal forma enganadora!
Talvez a gente ria quando chora…
Choraremos talvez crendo que rimos!

Virgínia Vitorino, Alcobaça, Portugal (1895-1967)

DEU NO JORNAL

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

DEU NO X

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SÓ LEVAREMOS A SÉRIO CANDIDATOS COMPROMETIDOS COM O FIM DOS ABUSOS

Luís Ernesto Lacombe

Em época de eleição, fica muito evidente uma característica dos políticos brasileiros: quase nada do que eles fazem é para o bem do Brasil e do povo. Os interesses particulares, partidários, ideológicos, corporativistas, mercadológicos costumam definir as ações. Até que se aproxima a hora de os eleitores voltarem às urnas. Aí parece que os candidatos passam a pensar no que realmente importa. É uma postura transitória, invariavelmente, um movimento oportunista para caçar votos dos desinformados, daqueles que não têm senso crítico e capacidade de registrar e guardar na memória grande parte do que já vivemos.

O exemplo mais evidente disso vem do atual ocupante do Planalto. De repente, Lula resolveu demonstrar preocupação com o endividamento recorde dos brasileiros. Nunca o país teve tantos inadimplentes. Nunca essa gente deveu tanto. Quase 82 milhões de pessoas têm, hoje, dívidas que não conseguem pagar, dívidas que somam R$ 539 bilhões. E esse quadro não surgiu de uma hora para outra. Se o petista agora considera esse tema importante, isso obviamente tem a ver com a queda dele nas pesquisas eleitorais e de popularidade.

Governos petistas sempre incentivaram o endividamento das pessoas, de várias formas. E, ao mesmo tempo, são especializados em produzir seus próprios déficits, rombos e suas dívidas. Diante disso, um Banco Central comprometido com o controle da inflação não pode baixar a taxa básica de juros. Hoje, a Selic está em 14,75% ao ano, e é apontada por economistas como o principal fator do endividamento do povo. Lula gasta demais e gasta mal. Ele tem empurrado o país e a maior parte da população para o buraco, impedido a queda dos juros, e finge que não tem nada a ver com o problema, mas com a solução, que, partindo dele, certamente, nunca virá.

O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema agora surgiu como um grande crítico de abusos, arbítrios e ilegalidades praticados por ministros do Supremo Tribunal Federal. É um comportamento que surgiu justamente com o fim de seu segundo mandato à frente do estado e o início da pré-campanha presidencial. Ao longo de seus dois mandatos como governador, sua postura foi predominantemente pragmática. Não há registros de críticas sistemáticas, confrontos diretos ou denúncias públicas consistentes contra os inúmeros absurdos que partiram do Supremo. O Partido Novo, sim, fazia críticas pontuais à censura e ao Inquérito do Fim do Mundo, mas Zema não liderou ou amplificou esse discurso.

Ele tem apresentado propostas boas para tentar moralizar o Supremo, mas a pergunta é: essa atitude está ligada apenas a um interesse eleitoral? Os embates com Gilmar Mendes têm favorecido o ex-governador mineiro… Uma das pesquisas indica que Zema saiu de quase zero para 7% das intenções de voto em poucos dias. Sim, ele é um bom gestor, já provou isso. Sim, seu foco era a administração estadual, mas os embates nacionais com a maior corte do Judiciário não podem mais ser evitados, e também não podem ser passageiros, apenas peça de propaganda política.

Só podemos considerar candidatos a presidente sérios aqueles que assumirem posição contrária aos desmandos de ministros do Supremo como Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, eles principalmente. É preciso haver, de alguma forma, um compromisso inabalável com a defesa da Constituição, das leis, da liberdade, do devido processo legal. É isso que se espera dos três principais opositores de Lula: Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e Ronaldo Caiado – que, infelizmente, no ano passado, entregou a Toffoli, Gilmar e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, o Título Honorífico de Cidadania Goiana… Que a campanha eleitoral indique o correto, o que deve ser feito, aponte para aquilo que importa mesmo ao Brasil, e que ninguém se desvie jamais desse caminho.

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SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO