DEU NO JORNAL

A VACINA E A MORDAÇA

Editorial Gazeta do Povo

vacina dengue censura

Fabricação de vacina contra a dengue no Instituto Butantan

O governo federal suspendeu provisoriamente, no dia 8, a aplicação em massa da vacina Butantan-DV, contra a dengue, desenvolvida pelo Instituto Butantan. O Ministério da Saúde investigará 42 casos de reações mais severas ao imunizante – desses, houve três casos mais graves, com duas mortes. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que “ainda não é possível estabelecer uma relação de causalidade entre tomar a vacina e estes três casos graves, e dois óbitos, mas é um sinal de alerta”. É justamente para descobrir se há relação de causa e efeito que se conduz a investigação, e por isso o governo foi prudente em suspender a aplicação.

Os ditos “eventos adversos” (incluindo efeitos graves) não são exatamente inesperados quando se passa para a última fase de testes de um novo medicamento ou vacina, envolvendo grandes grupos – a Butantan-DV havia sido aplicada em meio milhão de pessoas. Há um sem-número de situações, que vão de doenças preexistentes a características genéticas, que podem levar um indivíduo específico a ter uma reação inesperada ao receber a vacina ou remédio. Se os laboratórios e autoridades sanitárias encontram a relação de causa e efeito, ela se torna uma contraindicação – um caso clássico é o de pessoas com alergia severa à proteína do ovo, que não podem tomar determinadas vacinas.

A suspensão, portanto, não deve ser motivo de alarmismo – as 42 reações correspondem a 0,0084% do total de pessoas que receberam a vacina –, nem atestado da insegurança do imunizante. O problema, no entanto, não é esse, mas o clima de censura que, desde a pandemia de Covid-19, tomou conta do debate sobre vacinas no Brasil. Qualquer questionamento, inclusive aqueles vindos de especialistas no assunto, passou a ser tratado como “negacionismo” ou “fake news”, e quem ousa perguntar é imediatamente classificado como “anticiência”. É verdade que os “legistas de mídias sociais”, aqueles que usavam a falácia do post hoc ergo propter hoc para culpar a vacina da Covid por qualquer morte súbita de pessoas que haviam se imunizado contra o coronavírus, fizeram um grande mal ao debate. Mas igual ou maior dano fizeram aqueles que tentaram, de todas as maneiras, interditar qualquer discussão.

A própria suspensão da aplicação indica que, ao menos desta vez, não se está repetindo a neurose da pandemia. Naquela época, qualquer relato de possível evento adverso era imediatamente rechaçado como inverossímil, seguido de uma afirmação enfática e unânime, das autoridades e dos veículos de comunicação, sobre a segurança da vacina – uma atitude que, paradoxalmente, era bastante anticientífica; afinal, se absolutamente toda vacina ou medicamento tem efeitos colaterais e contraindicações, que isso não ocorresse com as vacinas contra a Covid seria uma autêntica maravilha do engenho humano. Mesmo assim, ainda que em menor escala, os ataques à liberdade de expressão já ressurgiram.

Em meados de maio, a Justiça Federal do Rio de Janeiro ordenou o bloqueio completo das contas da médica Isabel de Fátima Alvim Braga, servidora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), nas mídias sociais da Meta (dona do Facebook e do Instagram). Nas publicações, ela questionava vacinas, pesquisas e outras atividades da fundação. Mesmo que algumas das críticas pudessem dar ensejo a um processo disciplinar interno (e ainda assim isso não seria isento de controvérsia), a decisão judicial, que cria censura prévia, evoca os piores dias da pandemia no que diz respeito à liberdade de expressão.

O infectologista Francisco Cardoso afirma que “o papel ético do profissional de saúde é apresentar posicionamentos, sejam favoráveis ou contrários a qualquer tratamento ou vacina, sempre com base em argumentos consistentes, sustentados por evidências técnico-científicas. Isso é o que qualifica o debate”. O combate a alegações estapafúrdias e teorias da conspiração é importante; no entanto, se ele extrapola para a perseguição e censura pura e simples contra quem apresente questionamentos técnicos, prejudica não só as liberdades básicas do cidadão, mas abala a credibilidade da própria ciência, quando a população passa a se perguntar que razões inconfessáveis estariam por trás da mordaça. “Quando as autoridades começam a se comportar como publicitárias de políticas públicas, hesitação vacinal é um dos frutos disso”, disse à Gazeta do Povo o jornalista e biólogo Eli Vieira. Só em um ambiente de liberdade a ciência pode se construir e conquistar confiança.

DEU NO JORNAL

A PATRULHA BÚFALO: LEMBRANÇAS DO MEU TEMPO DE ESCOTEIRO

Roberto Motta

Fui escoteiro. Quer dizer: primeiro fui lobinho, a categoria inicial do escotismo. Minha mãe me levou a uma loja no centro de Salvador para comprar a farda azul escura, o chapéu e o lenço que usávamos em volta do pescoço. Ainda sinto o cheiro daquela farda: cheiro de aventura. Nossa Akelá – a líder do grupamento de lobinhos – era uma jovem senhora, bonita, alta, de cabelos negros e sobrancelhas grossas. No início de nossas reuniões cantávamos o hino nacional e hasteávamos a bandeira.

Quando virei escoteiro, tudo mudou: mudamos para um uniforme cinza e passei a fazer parte da Patrulha Búfalo. Nosso grito de guerra era “Búfalo, Búfalo, hurra !”. Nosso quartel-general era uma espécie de depósito que ficava no meio de uma encosta, do lado de fora do campo de futebol do Colégio Padre Antônio Vieira.

Ali fazíamos reuniões e recebíamos instruções sobre as coisas que um escoteiro deve saber, como fazer uma fogueira, dar nós e sinalizar no código das bandeiras. O líder da Patrulha Búfalo era Kelsen, um rapaz gentil, forte e decidido, que provocava suspiros nas meninas. Seu auxiliar – não sei qual era a designação oficial do cargo – era Papagaio que, como todo melhor amigo de herói, desempenhava um papel cômico.

Nosso primeiro e único acampamento foi em uma fazenda abandonada em Buraquinho, no litoral norte de Salvador. Achamos um local no meio de um descampado, limpamos o chão, montamos as barracas e esticamos os sacos de dormir. Quando escureceu, saímos andando pelo terreno da fazenda; eu, que tinha medo de fantasmas, fui contaminado pela coragem dos meus companheiros.

A única luz vinha da lua. No meio da caminhada, quando já retornávamos às barracas, encontramos uma casa abandonada, fechada e toda escura – talvez a antiga sede da fazenda. Liderada por Kelsen, a tropa se aproximou da casa e subiu na varanda. Alguns se sentaram, outros se deitaram. De repente, sem qualquer aviso, Kelsen começou a cantar. “Que falta eu sinto de um bem”, ecoou sua voz na noite. No segundo verso outras vozes se juntaram à dele: “que falta me faz um xodó”. Era uma música do sanfoneiro Dominguinhos, um sucesso da época. Eu cantei junto. Depois cantamos outras músicas. Eu não sabia que escoteiros cantavam; eu não sabia que homem cantava; eu não sabia que eu cantava. Meu Deus, que felicidade.

Era 1971, dois anos antes de nos mudarmos para o Rio. Eu ainda estava descobrindo o mundo e começando a transição para a adolescência. O Brasil estava em convulsão – como quase sempre está – mas nada daquilo afetava a minha vida. Eu nunca tinha ouvido falar de crime. Eu só tinha medo de fantasmas e dos cachorros que uivavam ao longe nas madrugadas do bairro da Pituba. Nossa casa, no Boulevard Paulo VI, número 373, era rústica para os padrões modernos. O quintal era de terra e a porta da sala vivia suja da lama que trazíamos das excursões pelos terrenos do outro lado da rua.

Quando acabou a cantoria, a Patrulha Búfalo voltou em fila indiana, nosso líder à frente, rumo às barracas e ao sono debaixo da lua.

No dia seguinte, caminhamos por uma estrada de terra até chegar a uma praia de águas claríssimas e cheia de gente. Ali, dentro da água, a Patrulha Búfalo organizou o que, segundo me disseram, era uma brincadeira tradicional dos escoteiros. Um de nós era escolhido para se afastar do grupo levando consigo a ponta de uma corda. A outra ponta era segurada pelo resto da patrulha.

Quando o escolhido chegava a uns 20 metros de distância ele segurava firme na corda e mergulhava. Esse era o sinal para que o resto da patrulha puxasse a corda com toda a força. O escoteiro sortudo atravessava a água em alta velocidade até chegar ao grupo. Era uma espécie de jet ski submarino que durava apenas alguns segundos.

Em 1973 nos mudamos para o Rio e a Patrulha Búfalo ficou para trás. Kelsen e Papagaio, onde quer que você estejam, espero que a vida os tenha tratado tão bem como vocês nos trataram.

Búfalo, Búfalo, hurra!

PENINHA - DICA MUSICAL

BERNARDO - AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS

DEU NO X

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

ÉS DOS CÉUS O COMPOSTO MAIS BRILHANTE -Bocage

Marília, nos teus olhos buliçosos
Os Amores gentis seu facho acendem;
A teus lábios, voando, os ares fendem
Terníssimos desejos sequiosos.

Teus cabelos subtis e luminosos
Mil vistas cegam, mil vontades prendem;
E em arte aos de Minerva se não rendem
Teus alvos, curtos dedos melindrosos.

Reside em teus costumes a candura,
Mora a firmeza no teu peito amante,
A razão com teus risos se mistura.

És dos Céus o composto mais brilhante;
Deram-se as mãos Virtude e Formosura,
Para criar tua alma e teu semblante.

Manuel Maria de Barbosa l’Hedois du Bocage,Setúbal, Portugal (1765-1805)

DEU NO X

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

INÊS LACERDA – SALVADOR-BA

Bom dia.

A primeira-dama passa mais tempo em viagens internacionais do que o próprio presidente.

Tudo bancado diretamente pelo seu dinheiro e pelo seu imposto.

Essa turma do poder vive em uma bolha, totalmente desconectada da rotina de quem trabalha e luta para pagar as contas.

Para eles, o mundo é um roteiro de luxo bancado pelo contribuinte.

O povo brasileiro não aguenta mais sustentar essa farra.

É um deboche com os brasileiros.