JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

ANOTAÇÕES (1)

Vivo para ler e escrever. Mudança importante, nas rotinas que cumpro, aconteceu ano passado com a eleição para a (cadeira 39, que foi do amigo Marco Maciel, na) Academia Brasileira de Letras. Que passei a receber, em média, 3 livros por dia e sempre com dedicatórias generosas. Como que à espera de comentários. Por isso tenho agora que ler ainda mais. Para responder a todos, é o preço. Além dos pedidos de prefácios, até 4 por semana, que desisti de atender. Por ser desumano. Perdão aos que já pediram e aos futuros, que ainda não. Ocorre que, nesse dia-a-dia, faço pequenas observações que gostaria de dividir com os amigos. E o farei, a partir de agora, sempre com esse título. Espero só que o leitor não desaprove por completo.

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Encerrei uma série de colunas sobre Os últimos dias de Fernando Pessoa citando a deusa da poesia portuguesa, Sophia de Mello Breyner Andresen. Seu filho, jornalista e romancista (de Equador) Miguel Souza Tavares, me mandou bilhete que vale a pena reproduzir: ‒ Obrigado, amigo Zé Paulo, por se ter lembrado da senhora minha mãe para encerrar essa série magnífica de textos sobre os últimos dias de Pessoa. De facto os poemas dela sobre Pessoa, e esse obstinado fascínio que revelam, sempre foi coisa que a um tempo me deslumbrou e, ao mesmo tempo, me intrigou, visto que nada de semelhante se deu na existência de ambos. Quando ela era uma poetisa da luz e ele da sombra, ela uma eterna viajante e ele um homem assumidamente escondido do mundo. E é quase em desespero que, num poema das Cíclades, ela escreve

Invoco o teu nome
Como se aqui
O negativo que foste de ti próprio/
Se revelasse….

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Ignácio de Loyola Brandão, querido confrade na ABL, também fez comentário que vale a pena ver: ‒ Mas quem disse que Pessoa morreu? Para mim, pelo tanto que produziu de impressionante grandeza, ele subiu aos céus. Tinha feito tudo, de bom e do melhor. Sentiu desfastio, olhou em volta e viu Portugal, a Europa, o mundo de hoje, esta humanidade que de humana nada tem, estes homens deixando de ser sapiens. Percebeu que não gostaria de viver neste futuro (presente para nós) e desencarnou, deixando no ar mais um mistério ‒ entre os muitos que tinha em torno ‒, de que morreu? Para mim, morreu de falência total da humanidade.

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O Governo Federal, na Educação, esquece o mérito e escolhe alunos por sorteio, como no Colégio de Aplicação de Pernambuco. E na mesma hora, para a administração, esquece o sorteio e escolhe seus funcionários pelo mérito. Via concurso público. Lembro Emerson (Ensaios), “a coerência tola é um espantalho de espíritos insignificantes, adorada por filósofos, sacerdotes e pequenos homens de Estado”. É mesmo. Difícil de entender (e aceitar) essa contradição absoluta na ausência de critérios. Coisas de “pequenos homens de Estado”, talvez.

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Em livro muito interessante do mestre Luciano Oliveira, 10 Lições sobre Hannah Arend, vejo que essa autora escolhia títulos provisórios para seus livros, substituídos mais tarde nas publicações definitivas. Como Origem do totalitarismo, que no começo se chamaria Os 3 pilares do inferno. Ou A condição humana, antes Amor mundi (amor do mundo). Comigo também. Ao escrever uma biografia sobre Fernando Pessoa, escolhi título que o ligasse à “loucura rotativa” (assim chamava) da avó Dionísia. E a ele próprio que, por várias vezes, quis se internar em asilos psiquiátricos. A partir de sua definição sobre a loucura, em carta ao amigo Armando Côrtes-Rodrigues (de 19/01/1915): “Viagem entre almas e estrelas, pela Floresta dos Pavores. E deus, fim da estrada infinita, à espera do silêncio de sua grandeza”. Por isso escolhi, como título, A Floresta dos Pavores de Fernando Pessoa. Maria Lectícia achou um horror. Preferiu outro. E consultei um monte de amigos por continuar preferindo meu título inicial, o tal da Floresta dos Pavores. Só que o resultado deu unanimidade, contra. Razão pela qual acabou sendo Fernando Pessoa, uma quase autobiografia. Que, aqui para nós, ficou bem razoável. Tanto que acabou mantido nos 12 países em que o livro foi, até agora, traduzido.

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Morreu o amigo queridíssimo Sebastião Dias. Pena. Um gênio. Dele é a música preferida por João Carlos Paes Mendonça e também minha. A simplicidade, em lugar da sofisticação literária dos eruditos, ou dos compositores que tanto sucesso fazem nas elites e nas Universidades. Para quem não conhece aqui vai a letra, imortal, de Conselho de um pai ao filho adulto:

Por favor filho querido me escute pense bem
Seu velho pai quer lhe dar o valor que você tem
Você está na idade de alcançar a liberdade
De fazer sua vontade, tornar-se homem também.

Tem umas coisas meu filho que eu queria lhe dizer
Lhe eduquei como podia já cumpri com meu dever
Você agora decida, o futuro lhe convida
Eu gerei Deus deu-lhe a vida, é você quem vai viver.

Queira espinhos no começo, aguarde flores no fim
Respeite o seu semelhante siga o bom deixe o ruim
Por onde você passar reconheça o seu lugar
Pra ninguém se envergonhar de um filho meu nem de mim.

Defenda a moral sem sangue, ajude a quem precisar
Quando tiver precisão peça um pão pra não roubar
Ouça o velho ame o menor, pense em Deus faça o melhor
Coma e vista do suor que seu rosto derramar.

Não queira ouro roubado nem amor por fantasia
Escolha mulher sincera para sua companhia
Faça meu filho o que eu fiz, veja como sou feliz
Só casei com quem eu quis e sua mãe com quem queria.

O mundo tem dois caminhos, um é certo o outro errado
Na escolha de um deles é preciso ter cuidado
Se você não escolheu um deles pra ser o seu
Se quiser seguir o meu, o exemplo é meu passado.

Mesmo na maior idade quero estar sempre contigo
Lhe ensinando bons caminhos lhe livrando do perigo
Estando perto ou distante não lhe deixo um só instante
Porque de agora em diante além de pai sou amigo.

Corra o mundo faça amigos, conheça o que eu conheci
Transmita o que eu lhe ensinei, conquiste o que eu consegui
Aproveite a juventude, ame a paz, honre a virtude
Quando quiser quem lhe ajude seu velho pai está aqui.

Em louvor ao amigo lembro versos da poeta de Caicó (RN), Constância Uchoa,

Com a vinda do Messias
Dias melhores virão
Mas nunca haverá um Dias
Melhor que Sebastião.

DEU NO JORNAL

ACLAMAÇÃO BUCHOSA

O Congresso deveria investigar a liberação de emendas parlamentares no valor de R$ 10 bilhões, pelo governo Lula, na véspera da sabatina de Flávio Dino.

Faltou pouco para Dino ser aclamado.

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Na verdade, ele não foi aclamado.

Ele aclamou.

Aclamou soltando muitos peidos comemorativos.

Seu bucho gigantesco estava com um estoque fabuloso de munição.

PENINHA - DICA MUSICAL

DEU NO X

JESSIER QUIRINO - DE CUMPADE PRA CUMPADE

DEU NO JORNAL

DEU NO X

DEU NO JORNAL

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

EU E A BRASKEM (I)

Fábrica Braskem, entre o mar, a lagoa Mundaú e encravada na parte urbana do bairro do Trapiche

Éramos meninos, meninos, maloqueiros e reis de um paraíso, nosso reinado: a bela cidade de Maceió. A praia da Avenida da Paz, o coreto, era o ponto de encontro da boa turma divertida. Entre nós não havia diferença social, racial ou religiosa. Havia uma escala de valores: quem melhor jogava ou nadava ou os melhores contadores de histórias. Infância feliz, livre, leve e solta. De repente a puberdade, fomos descobrindo seus encantos.

Pela manhã, logo cedo, hora do racha, futebol na areia branca e limpa. Ainda suados um mergulho no mar azul esverdeado, calmo e transparente. Muitas vezes corríamos até o final a praia do Trapiche da Barra. O ponto de referência na praia era o Morro Tom Mix. Belas dunas do Trapiche e seus imensos coqueiros. Subíamos as dunas com o pé enfiando na areia. Em cima, nos sentíamos donos do mundo. Descíamos pelo lado oposto onde se espelhava a enorme, tranquila e belíssima Lagoa Mundaú com suas ilhas cheias de coqueiros, suas garças voando rente ao espelho d’água, pescando o sustento de seus filhotes em ninhos bem escondidos. Lagoa adentro inúmeros pescadores jogavam tarrafas pescando carapeba, tainha e outros tipos de peixe. Marisqueiras peneirando catavam sururu. Nosso bando percorria a Lagoa Mãe, divertindo-se, descobrindo coisas bonitas e malvadamente matando passarinhos com atiradeiras que levávamos no bolso.

No retorno subíamos o Morro Tom Mix e descíamos pelo o lado da praia sentados em palhas de coqueiros, dava uma sensação gostosa na barriga enquanto escorregávamos sentados nas palhas. Tínhamos inventado o “skybunda”, hoje uma brincadeira adorável nas praias onde existem dunas ou morros. As Dunas do Trapiche, o morro Tom Mix nos fascinavam. De um lado, um mar azul esverdeado e do outro, a Lagoa Mundaú, mãe dos pescadores. Nesse paraíso crescemos, ele ainda vive em nossas almas.

Às vezes partíamos para outros locais, como o Vale do Riacho Salgadinho, onde havia vários sítios. Pulávamos a cerca e ligeiro surrupiávamos: coco, cana, melancia, manga e outras frutas. Era nosso lanche divertido à beira do Salgadinho. Às vezes pescávamos naquela água límpida do riacho que corta toda cidade de Maceió.

O tempo foi dispersando cada menino da Avenida da Paz. Nos anos 70 eu me formei engenheiro, passei a trabalhar na Construtora de um amigo, iniciamos a construir edifícios de apartamento na orla de Maceió. Certa dia o chefe, um visionário, apareceu alegre, havia comprado um terreno na praia do Trapiche para construir um edifício com vista da praia e da lagoa Mundaú. No bairro do Trapiche já havia uma ocupação urbana com belas casas. Na época do início de construção de edifícios na praia de Pajuçara, Ponta Verde, meu chefe, enxergou mais longe. A expansão urbana da cidade seria o belo bairro do Trapiche, o bairro do futuro. Todos os dias havia reunião de planejamento e de um projeto moderno do Edifício do Trapiche. Éramos entusiasmados por aquela obra, o projeto pioneiro faria sucesso, competindo com os incipientes edifícios das praias de Pajuçara e Ponta Verde

Até que um dia nos chegou a sinistra, a trágica notícia: Uma fábrica de produtos químicos clorados seria instaladas entre a praia do Trapiche a lagoa Mundaú. A partir daquele dia houve uma polêmica entre a população pela periculosidade de uma fábrica de produtos de cloro (elemento letal). A Imprensa ajudou a espalhar a mentira que a fábrica traria mais de 2.000 empregos e seria a redenção econômica do Estado. A fábrica iria transformar em produtos químicos a matéria prima, SALGEMA, encontrada em descomunais quantidades no sub solo na Lagoa Mundaú. Poucas vozes surgiram contra a Instalação da Salgema, uma delas, Dr. José Geraldo Marques ainda ecoa, e se tornou líder contra a instalação da fábrica. O Governo Federal, o Poder Econômico, a Petrobrás, interessados, sempre foram bem mais fortes e naquela época não havia consciência ambiental. Não teve jeito, por imposição dos poderosos e da ditadura, a Fábrica Salgema foi instalada numa região de fragilidade ambiental entre o mar e a lagoa. Terraplenaram o Morro Tom Mix, as dunas de minha infância, deu-me uma tristeza! A notícia foi suficiente para desvalorizar todos os imóveis do bairro do Trapiche da Barra e circunvizinhança.

(continua na próxima coluna)

DEU NO X