JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

NEM ROMEU TAMPOUCO JULIETA

Serenata à namorada

Vou-me embora pra Pasárgada. Lá, não sou amigo do Rei, mas sou da Corte, sem ser vassalo e muito menos o “bobo”.

Vou pegar meu matulão, encher minha cabaça d´água e pegar a estrada para refazer o que fiz de bom na tenra mocidade. O ruim, nem pensar em refazer.

Volto ao tempo em que rapaz namorava moça e homem namorava mulher – e quem fazia o que faz hoje, desonrava a família. Tempos bons, quando até um inocente beijo na boca tinha que ser escondido.

Sexo com a namorada?

Zulive! Nem pensar!

Ou o jovem se masturbava no recôndito da camarinha, ou “demorava muito no banho”, ou pedia dinheiro aos pais para “trocar o óleo” com as prostitutas. E os pais sempre davam. Achavam melhor financiar a “troca de óleo” do filho, que escutá-lo, mais adiante, escolhendo como presente de aniversário um sutiã “Du Loren”!

Essa narrativa que ninguém me pediu, me levou de volta à “minha primeira vez”. Foi no Motel Calango.

Foi bom, e me custou alguns problemas. Deu bucho e teve resultado. Já se vão 62 anos!

Aquela falta de compromisso resultou na necessidade de jogar fora várias cuecas da marca Torre, branquinhas e lavadas com anil (quem lavava minhas cuecas era minha santa Mãe – hoje faço isso há mais de 50 anos). Uma gonorreia braba que me fez ter que recorrer à 1 milhão e 200 mil unidades de Benzetacyl. Fiquei curado, mas passei perrengue. Eita injeção filha da puta! Mas “seuve” e cura.

Quatro anos depois, a vida sorriu. O romantismo chegou, e trouxe com ele o meu entendimento do que era gostar de alguém. Homem gostando de mulher – no caso, rapaz, gostando de moça. Diferente de hoje, onde a escolha desnuda o convívio familiar.

Dinheiro e gastanças fáceis

Foi a partir de então, que conheci as mensagens contidas em algumas letras musicais:

“Contigo aprendi
Que a vida se renova a cada instante
Contigo aprendi
A conhecer o mundo, a ver adiante
Aprendi
Numa semana contar mais de sete dias
A ver maiores as pequenas alegrias
E a crer nos outros, eu contigo aprendi
Contigo aprendi
Que existe luz na noite mais escura
Contigo aprendi
Que em tudo existe um pouco de ternura
Aprendi
Que pode um beijo ser mais doce e mais profundo
Que posso ir-me amanhã mesmo deste mundo
As coisas boas eu contigo já vivi”

Mas, o jovem será sempre um eterno irresponsável que, somente levando tropeços vai conseguir amadurecer – isso, se enfrentar o mundo e os problemas. Se continuar “debaixo da saia” da mãe, o máximo que conseguirá ser é um baitola. Reclamará da vida, reclamará que sofre bullying – até que os pais lhe atendam e, para não vê-lo cair em depressão, lhe presenteiem com um sutiã.

Pois, por dois ou três anos consecutivos, ainda morando em Fortaleza, eu tinha cinco namoradas – e frequentava quase diariamente a casa de todas elas. Era um fdp.

Peguei um ônibus da Expresso de Luxo, viajei quase três dias e fui aprender a viver e amadurecer no Rio de Janeiro, onde morei por mais de duas dezenas de anos e casei pela primeira vez – enlace que me presenteou com duas filhas maravilhosas. Mas, também não tive vida fácil. Os tropeços serviram, como disse antes, para me ajudar a amadurecer e ser um homem de fato. Hoje, um idoso que faz qualquer coisa para não prejudicar ninguém.

Na Cidade Maravilhosa me tornei “macaco de auditório” do Feitiço da Vila, do Canecão, da Portela, do Botafogo de Futebol e Regatas e realmente aprendi que, “a vida se renova a cada instante” (tal qual a letra da música caribenha gravada por Moacir Franco).

Passei a gostar de gafieira, onde aprendi a dançar. Passei a amar o fado português e o tango argentino. Mas nunca esqueci, e jamais esquecerei as muitas serenatas feitas nas frentes das casas das namoradas.

Sem ser Romeu, e ela sem ser Julieta.

Esses tempos são o sal e o fermento da vida. E jamais voltarão.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A FOSSA, A BOSSA E A SOFRÊNCIA

Tito Madi lançou “Chove lá fora”

Hoje vou mais uma vez pedir permissão ao “dono da especialidade na casa”, Peninha, para relembrar um pouco da minha juventude em Fortaleza, dos bons tempos e idas e vindas entre um namoro e outro. Romântico por excelência, fiz várias coleções de LPs e Compacts que escutava na “radiola” nos fins das tardes de sábados.

Muitos passaram a chamar aqueles tempos de “tempos da fossa” que, com músicas, letras e cantores diferentes dos atuais, se propunham a falar de amor de uma forma tão poética quanto bela.

Tito Madi, Nora Ney e Agostinho dos Santos tinham minha preferência. Acurada ou não, mas a preferência era minha.

Depois, com a afirmação da novidade e a consagração de alguns no movimento que nascia, como João Gilberto, Edu Lobo, Pery Ribeiro e tantos outros nomes que agora me fogem da memória, o momento pós-consagração foi elevado ao auge e incluído entre os melhores da “música para ouvir”.

Vamos ouvir e relembrar?

Chove Lá Fora

A noite está tão fria
Chove lá fora
E essa saudade enjoada
Não vai embora
Quisera compreender
Por que partiste
Quisera que soubesses
Como estou triste
E a chuva continua
Mais forte ainda
Só Deus sabe dizer
Como é infinda
A dor de não saber
Saber lá fora
Onde estás, como estás
Com quem estás agora.

A novidade “pegou” e tomou conta das paradas de sucessos e dos ainda poucos programas de televisão, com o de Aerton Perlingeiro, Flávio Cavalcanti, César de Alencar, Moacir Franco e Raul Gil.

Foi quando surgiram mais nomes famosos engrossando as fileiras do sucesso. Também entraram na onda a magnífica Nora Ney e o excelente Agostinho dos Santos que, mais tarde receberiam o reforço de João Gilberto, Edu Lôbo, Nana Caymmi e Nara Leão. Todos em tempos diferentes e com novas letras, mas nunca com menos sucesso.

Nora Ney – a linda e magnífica

A morte prematura de Agostinho dos Santos (que fizera sucesso anterior com a gravação de músicas como “A noite do meu bem”) num acidente aéreo no aeroporto de Orly, na França, ainda que nenhuma relação tivesse com a novidade momentânea, atingiu e feriu de morte, aumentando ainda mais o momento vivido pela “fossa” musical.

Agostinho dos Santos era um cantor ascendente e o sucesso se abria para ele como o sol, que se abre para todos, todas as manhãs. O fato arrefeceu a musicalidade brasileira que, de forma paulatina caminhou para a demorada recuperação – mais algo pessoal que conjuntural.

Nos anos seguintes, de livre e espontânea vontade, a mídia especializada trocou a “fossa” pela “bossa”, acrescentando a palavra “nova” – “bossa nova”.

Agostinho dos Santos

Conclusão inteiramente pessoal, entendo que, aquelas duas décadas – mais propriamente fins da década de 50, quase toda a década de 60 e parte da década de 70 – a musicalidade brasileira recebia, como se fora a vitamina intravenosa Citoneurin, o reforço caribenho em termos de ritmos. Foi fácil (e mais prático) entrar no Brasil via Belém, com o “carimbó” cantado por Eliana Pitman e Pinduca.

Aqui, esse ritmo e cultura caribenha encontraram resistência para a dominação, pois já eram consagrados o samba, o samba canção e os esfuziantes sambas enredos das escolas de samba no carnaval carioca.

Como se isso não bastasse, encontraram barreiras no sucessos ascendente da jovem guarda de Roberto Carlos, Wanderléa, Erasmo Carlos, Jerry Adriani, Wanderley Cardoso e os consagrados Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Sílvio Caldas, Demônios da Garoa, Renato e seus blue caps, Zimbo Trio, Martinho da Vila, Trio Irakitan, sem contar o aparecimento consagrador de Elizete Cardoso, Elis Regina, e outros, reforçados pelas orquestras que nos arrastavam literalmente, para os bailes noturnos nos clubes sociais.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

ESQUECERAM DE MIM!

Henrique – o mesmo “Riquinho”

Henrique, sem sobrenome, e apenas com o nome, era um menino – certamente jovem nos dias atuais, ou provavelmente adulto – que, enquanto outros iguais brincavam com a neve fazendo bonecos para festejar a chegada do período natalino, traquinavam em aeroportos e se preparavam para as viagens de férias à Disneylândia, soprava o braseiro dentro da lata para aquecer o amendoim que venderia nas estações ferroviárias e dentro do trem. Além de Henrique, era apenas “Riquinho”. Só isso.

Morador daqui, mas que poderia ser dali ou dacolá. Morava onde chegava, e dormia onde adormecia. Seu despertador era o sacolejar no trilho quando o trem passava sobre uma das muitas emendas. Seu “breakfest” tinha dois ovos de nada, bacon de sonho, iogurte de leite de cobra e pão de trigo amazonense. Café em xícara de porcelana feito na água do rio Ganges. Creme dental marca “Nenhum” e banho de chuva na banheira da vida. Assim vivia (?!) Riquinho.

Um dia, quando o trem permaneceu na gare central por tempo maior que o programado, Riquinho sequer se deu conta que estava perdendo tempo e provavelmente não encontraria mais amendoim para torrar e vender. Com grande atraso, o trem deu a partida em direção ao subúrbio, cujo final de linha ficava apenas na imaginação. Mas não seria novidade se a viagem terminasse na próxima estação. Ninguém, nem mesmo Riquinho, tinha certeza de nada. Ainda assim, o trem partiu.

Na porta entreaberta, a lata amassada e com pouco carvão recebia a ajuda do vento e as brasas se tornavam incandescentes aquecendo o amendoim já torrado. O ganha-pão de Riquinho. De repente, entre a oitava e a nona estação, o trem parou. Tudo ficou escuro dentro do trem.

A tempestade, que chegou também inesperadamente, levou consigo a corrente elétrica e o trem parou de circular. Como acontece quase sempre, ninguém sabe de nada. Apenas alguns tentaram adivinhar que, pela quantidade de chuva, a corrente elétrica tão cedo não voltaria. Muitos se arriscavam saltando do trem, na linha. A chuva torrencial molhava até a sombra do pensamento.

Riquinho, imitando os demais, também saltava do trem, na linha. Caminhou até a plataforma da próxima estação. Subiu na plataforma e percebeu que o braseiro fora apagado pela chuva e que o papel que enrolava o amendoim transformou-se em nada. O amendoim sumiu e, com ele, a única esperança dos primeiros caraminguás para comprar a satisfação para o estômago roncador.

“Criança é esse ser infeliz que os pais põem para dormir quando ainda está cheio de animação e arrancam da cama quando ainda está estremunhado de sono.” – Millôr Fernandes)

Fora da estação, o volume da água caída da chuva formava uma verdadeira tromba d´água. Difícil para a travessia de qualquer adulto, e visivelmente impossível para uma criança. A lata com carvão molhado ficara para trás. Era um atrapalho a menos. Riquinho foi obrigado a esperar a forte correnteza baixar. Quando a água lhe batia na canela, atravessou e, caminhando sempre muito rápido – mais por medo! – atingiu as proximidades do barraco onde morava com a mãe e com um homem que não sabia se era seu pai.

Só havia cena de destruição. As fortes chuvas e os deslizamentos de barreiras destruíram o barraco que muitos ainda chamavam de casa. Sirenes tocando, luzes vermelhas acesas, muita gente, muito barulho. Diziam ser as ações da Defesa Civil e dos Bombeiros. Um estrago só. Entre os corpos esmaecidos e sem vida, a mulher que Riquinho conhecia como mãe e o corpo magro e cadavérico do homem que ele tinha dúvidas se era seu pai.

“Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha. Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso. Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel.” – William Shakespeare)

A chuva torrencial e destruidora fez com que os pais esquecessem de Riquinho. Foram embora para o andar superior, levados pela correnteza até o inevitável soterramento. Não levaram Riquinho. Preferiram esquecê-lo. A passagem por entre arames farpados destruiu o que restara da roupa do corpo de Riquinho.

Agora, sem a lata de esquentar o amendoim, sem carvão, sem o amendoim, sem a mãe, sem o provável pai, sem a casa e agora sem roupa, Riquinho caminhava por qualquer lugar. Ele está aqui, mas pode estar aí ou ali. Mas pode estar em qualquer outro lugar.
Alguém lembra de Riquinho?

Por quê?

Quantos Riquinhos você conhece?

Já se dispôs a ajudar algum de alguma forma?

E se um desses Riquinhos fosse você?

VERBO SER – Carlos Drummond de Andrade

Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor.
Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três.
E sou?
Tenho de mudar quando crescer?
Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser?
Dói?
É bom?
É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a?
Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

PEDINDO DESCULPAS

Amigos, bom dia.

Quero pedir desculpas aos que cultivam o hábito de vir aqui para ler.

Estou “repetindo” essas duas crônicas (ambas fazem parte de um livro de minha autoria – que espero poder publicar tão logo a condição financeira permita) escritas anos atrás, e também já publicadas aqui neste JBF.

E, só estou repetindo por que estou me sentindo fisicamente cansado. Provavelmente por não estar fazendo nada. Comecei a trabalhar desde os 10 anos (na roça, com meus avós) e hoje tenho 78. Estou cansado. Apenas fisicamente cansado, repito.

Que eu saiba, não estou indisposto por alguma doença. Graças à Deus, estou lúcido.

Já tomei as duas doses da vacina (Coronavac) e, pelo menos psicologicamente estou imune.

É só “cansaço” mesmo!

Quando me sinto assim, tenho meu próprio antídoto: viajar!

E é o que vou fazer nesses próximos dias: vou ao interior e, quando retornar, pretendo ir à Fortaleza abraçar os parentes.

* * *

1 – PINTANDO BORBOLETAS

A borboleta que voou após ser “pintada” em tela

Manhã de um dia comum, de mais uma semana de trabalho, com ares de domingo. Mas, domingo foi ontem, ou será amanhã? – mas pode ser hoje, em obediência à nossa intenção. Ou será que, uma coisa ou outra terá alguma importância?

Que diferença pode fazer ou que importância tem um domingo – se esse é um dos sete dias da semana?

O forte vento causava a impressão de querer nos trazer ou tanger para o outono, num redemoinho que nos fará passar, também, pelo verão. Mas, não há explicação plausível para tantas folhas ressequidas formando o tapete no qual pretendíamos trabalhar, pintando borboletas.

A beleza e a tranquilidade do lugar, que nos permite contar os iguanas passeando nos galhos ressequidos, momentaneamente parece nos transformar num Van Gogh escrevendo a Natureza com suas tintas e seus pincéis.

Pincéis à mão!

Tela preparada – e o vento continua aumentando em rodopios espalhando as folhas ressequidas, ora tecendo, ora destruindo um tapete para deuses invisíveis, abrindo espaços com mãos de fada.

Um poema, com versos metricamente perfeitos e rimas que não deixam margens para críticas.

A Natureza põe e retira o vento da forma que bem lhe convém. Na direção que quer. Levando e trazendo de volta o que ajuda compor a paisagem. O atelier.

A Natureza faz da vida um poema. E nos ensina a viver as estações do ano com suas cores vivas, e mutantes. Um arco-íris!

Cada mudança é mais um passo a caminho da perfeição. A Natureza é um poeta.

Às mãos, tela e pincéis.

Os olhos escrevem o poema, selecionando as cores do arco-íris e a tela ainda branca começa sugar a tinta, como se uma força estranha pintasse por nós. Cada traço um novo tom que vai formando uma imagem que o cérebro ainda não define.

Seria a “Natureza”?

A borboleta está no pano da tela ainda inconclusa. Falta terminar de pintar uma das asas, e o vento avisa que está voltando. Agora mais forte. Últimos retoques. Pronto. A borboleta está pintada. Quase perfeita.

O vento chega rodopiando as folhas secas, quase quebrando os galhos ainda nas árvores. Empurra para longe o cavalete com tela e tudo. Nos apressamos em desvirar a tela para garantir a secagem da tinta, e a ação nos surpreende e nos faz sentir a presença d´Ele.

A borboleta não está na tela. Voou!

* * *

2 – TINHA ASAS – MAS NUM “AVUAVA”

Pintada – a galinha comida pela raposa por que não aprendeu voar

O quintal era grande – como grande também era a área onde estava fincada a moradia dos Buretamas, um pedaço de terra recebido como meeiros. O patrão, que não impunha nem dirigia as escolhas dos moradores, queria apenas a sua parte: metade de tudo que fosse criado e produzido a partir da “posse”. Era uma decisão razoavelmente justa para quem não tinha nada de si, nem aonde cair morto.

Valores morais dos anos 40 e/ou 50 não enxergavam maldades. Muitos confiavam em quase todos, e era verdade que, um simples cabelo dos bigodes significava uma fiança. Infelizmente, vieram os “Tempos modernos” (lembram Charles Chaplin?) e tudo pegou a bifurcação equivocada.

Consciente dos compromissos assumidos com os patrões, Vovó Raimunda costumava dizer que, “para quem tem vergonha na cara e respeita o assumido, até a cabaça deve ser partida em duas bandas”. E era assim que ela fazia.

Uma cabaça, duas bandas. Nessas duas bandas da cabaça, todos os ovos das posturas das galinhas eram meticulosamente divididos. Quando uma banda da cabaça ficava cheia, os ovos eram entregues ao patrão, e a parte do meeiro recebia seu destino.

Da mesma forma, havia uma terceira vasilha: e era nela que eram separados e guardados os ovos para “deitar” e postos para procriação. “Tirados” os ovos, os pintos eram “marcados com os olhos” – e sempre que o patrão queria comer uma galinha, mandava buscar na casa da Comadre Doca. E sempre eram enviadas aquelas “marcadas com os olhos”. Questão de respeito e honradez. Era assim que se vivia na roça naqueles tempos. Esperteza, no mau sentido, era algo desconhecido.

Vovó, vivida e esperta, também tinha seus parâmetros – suas leis concebidas, votadas e aprovadas por ela mesma, sem qualquer contestação do “plenário” (no caso, meu Avô, galos, patos, perus e galinhas), que tinham a obrigação de “permanecer como estavam” para a necessária aprovação.
E uma dessas leis era: aqui, ninguém come galinha – a não ser os galos, claro. Galinha era para “reprodução”, o que ensejava o cumprimento do acordo meeiro estabelecido com o patrão.

Milho bom, quintal limpo e sempre varrido com “vassourinhas”, boas sombras e quintal de areia para ciscar, água trocada duas vezes por dia nas terrinas apropriadas, isso tudo sem contar os “confortáveis” ninhos de palhas e garranchos para postura e chôco.

Vovó, como vocês já sabem, tinha o saudável hábito de “conversar” com as aves e alguns animais domésticos, como um jumento preto que ela chamava de “Biné” – se era preto, entendo que não preciso dar maiores explicações, certo?

Pois, certa manhã, quando jogava milho para as penosas, sentiu pela falta de uma galinha poedeira – a quem ela chamava de “Morena”, por conta de ter sabido, anos atrás, que uma certa “Morena” mantivera uma amizade íntima com meu Avô.

Minha Avó, acreditem, teria lugar cativo como “Ministra” do Itamaraty de qualquer governante brasileiro. Era uma verdadeira “madame” – e o fato de mijar em pé, jamais pesaria contra ela.

E foi só conversando com as outras bichinhas, que minha Avó descobriu o desaparecimento de “Morena”.

– Cadê “Morena”? Perguntava ela para as companheiras de quintal.

Como nenhuma respondeu, e todas continuavam bicando o chão para pegar o milho jogado, ela resolveu terminar o serviço, enchendo a terrina d´água. Pegou uma foice e caminhou para o mato e aproveitou para chamar seu companheiro desses momentos, o cachorro Corisco, que tinha as mesmas cores e pintas de um dálmata, mas era vira-lata mesmo.

Antes de passar pela porteira do quintal da casa, disse, falando de si para si:

– “Morena” tem duas asas, mais nenhuma seuve para avuar, ô diacho!

Não demorou muito, e perto dali, por detrás de uma crescida moita de mofumbo, Vovó encontrou penas de galinha. Penas pretas que, provavelmente seriam de “Morena”. Falou alto para que o mundo inteiro escutasse:

– Miserave, tu divia ter au meno aprendido a avuar! Assim essa peste de raposa num teria te comido!

No domingo seguinte, Biné, o jumento preto de estimação fazia aniversário. Vovó resolveu matar um frango (galinha, nem pensar em matar. Galinha é pra por ovos e aumentar a prole) e dele fazer cabidela.

O presente de Biné, foi um bom banho com a água guardada da chuva e colhida nas biqueiras feitas com o pau sabiá – de noite, ganhou um demorado e favorável encontro com a jumentinha Dalmira em pleno cio. Biné, relinchava e gemia sem sentir dor.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

COMI LAGARTAS E CAGUEI BORBOLETAS

Lagarta “devorando” uma espiga de milho verde

Sentado numa ponta da velha calçada que dava acesso à latada da casa, enquanto eu limava o lume das enxadas e reforçava o encaixe do cabo na folha das ditas cujas, ao mesmo tempo que olhava meu avô João Buretama afiando o corte do machado numa pedra de amolar, eu conseguia, ao mesmo tempo, escutar naquele galho seco de catingueira, um bem-te-vi desfiando o seu canto triste que, naquela hora mais parecia um “agôuro” para algo de ruim acontecer.

Bem-te-vi! Bem-te-vi!

Estávamos – lembro bem! – na primeira semana do mês de março. Aquela primeira semana seria suficiente para brocar a roça e “coivarar” no aceiro da cerca o que capinávamos. Era para queimar, e depois de queimado misturar com folhas secas para fazermos o melhor adubo orgânico. O adubo seria misturado à terra, da qual faríamos as covas para o plantio das ramas de batata doce.

João Buretama, com o saber melhor que o ter, determinou:

– Zé, meu fio, aprepare essas ferramentas pra nóis começar roçar as premeiras linhas do roçado. O dia do milagroso São José tá se aproximano, e a chuva vai chegar cagraça de Deus!

Eram quatro enxadas. A responsabilidade da preparação era minha. Vovô ficava com o trabalho de amolar o machado e a foice, além de preparar uma rolha de sabugo de milho para a cabaça que serviria para levar água para o roçado.

O bem-te-vi parou de cantar. A noite chegou rápido. Vovó deixou as ocupações da cozinha, e veio acender o candeeiro e botar querosene nas lamparinas.

– Véia, onquetá o sabão prumode eu banhar? Perguntou vovô.

– Tá dento daquela cuia nim riba do girau da cozinha, meu véio! Respondeu vovó.

Arrumamos as ferramentas no local de sempre. Fomos nos preparar para o dicumê: cuscuz de milho feito no prato, acompanhando pedaços de carne de porco salgados e garapa de rapadura com limão espremido. Affffmaria!

A zoada dos chocalhos acompanhava desde cedo o despertar cantado pelo galo Fefé. Era mais um dia. Ou, era um dia que provavelmente seria diferente para nós.

Por volta das 7:00 hs qualquer um acreditaria que já era meio dia. O sol queimava a pele – mas o sertanejo parece nem ter pele, ou não estar muito preocupado com isso. Ferramentas no ombro, cabaça d´água à tiracolo e, caminho da roça. Foi assim no primeiro dia, no segundo e nos demais. Até o fim. Nada de chuva. Mas o tempo estava mudando, sim. Muito calor durante o dia e uma brisa suave durante a noite.

A lua. A lua apareceu no dia 17 de março. Trouxe um recado para o sertanejo – aquele que, com tempo bom ou ruim, vai continuar produzindo alimento para suprir a vontade e matar a fome de muitos.

Dia 18, véspera do dia de São José. A chuva caiu sem esperar pela noite. Vovó acendera os candeeiros e a besourada tentando se aquecer, aproveitava para produzir uma sinfonia que, Deus e a Natureza escutam perfeitamente.

Na manhã do dia seguinte, tão logo Fefé nos despertou e Vovó preparou o reforço matinal. O primeiro alimento – aquele que nos manteria acocorados plantando manivas de mandioca, amarrando e plantando ramas de batata doce e semeando milho.

Foi o dia inteiro daquele jeito. Na boquinha da noite, adispois do dicumê, a reza de agradecimento à São José que, mais uma vez atendendo nossas fervorosas orações, trouxe chuva para molhar a terra e nos permitir fazer a nossa parte na produção de alimentos.

Onze dias depois de semeado, o milho deu o ar da graça. Começava o milagre do nascimento. Um mês, e o milho crescendo. Dois meses e o milharal já apontava para os céus em agradecimento à Deus pela fartura.

A chuva ainda molhou a terra por alguns dias. Fez nascer as ramas de batatas e as manivas da mandioca começaram a brotar. O milho formava touceiras e fechava copas. Verdinho que doía na vista.

As bonecas com seus cabelos avermelhados começaram dar o ar da graça. Não demorou muito para as espigas completarem seus espaços e o milho amadurecer.

Eis que chegou o dia e a hora do “batismo” da fartura pelo homem da roça: ali naquelas paragens, a comemoração era feita comendo uma espiga de milho verde crua.

Parte de mim foi feita de casulo que transformou as lagartas em borboletas

Dois dias depois o castigo da Natureza para os incautos. Na ânsia de cumprir a missão e a tradição de comer a minha espiga de milho verde crua, comi também uma lagarta. Comi, não. Engoli uma lagarta.

Na hora de “cagar”, acredite, caguei borboletas!

Assim como se estivessem participando da “Revolução dos bichos” de George Orwell, o porco Parafuso e as galinhas que corriam atrás quando alguém “partia célere” para a moita no mato, ficaram se entreolhando desconfiadas e como se perguntassem umas às outras:

– Como isso pode acontecer – nosso manjá transformando em borboletas voadoras?

As borboletas se reproduziram num casulo fermentado

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

AS M(M)ARGARIDAS E SUAS CORES

Foto 1 – As margaridas de Abéché

Maurice Du Paul e Morgannyia Abrillé formavam um casal nascido em Abéché, pequena província do Chade, uma das mais importantes cidades dominadas pela França no século passado.

Depois de viver num verdadeiro inferno de contínuas guerras civis por conta da instabilidade político-administrativa, Maurice e Morgannyia conseguiram fugir pela fronteira de Abéché com o deserto Saara. Na diminuta bagagem, a roupa do corpo, uma pequena quantidade de dinheiro sem valor algum noutras cidades e países; uma sacola de pano com alguns víveres; sementes de várias flores e duas filhas.

“Abéché é a quarta maior cidade do Chade e é a capital da região de Quaddai. Abéché tornou-se capital do Sultanato de Wadai na década de 1890, depois que os poços de Ouara , a antiga capital, secaram.

Em 1909, as tropas francesas invadiram o Reino e estabeleceram uma guarnição em Abéché. A França assumiu o poder, forçando o sultão a renunciar ao trono. Naquela época, Abéché era a maior cidade do Chade com 28.000 habitantes, mas grandes epidemias reduziram a população para 6.000 em 1919. Em 1935, o sultanato foi restaurado por ordens do governo francês, e Muhammed Ouarada, herdeiro do trono após seu pai tornou-se rei. Uma vez que um dos redutos da rota do comércio de escravos árabe, a cidade é conhecida hoje por seus mercados , mesquitas , igrejas, praça (a Place de l’Indépendance) e para o palácio do seu sultão.

Abéché tem várias escolas, um hospital, uma universidade e é uma das principais guarnições da Armee Nationale du Tchad ANT. Há um pequeno aeroporto ( IATA : AEH , ICAO : FTTC ), ID do aeroporto: AE, operado do nascer ao pôr do sol (SR-SS) com voos para N’Djaména .

Em 25 de novembro de 2006, a cidade foi tomada pela União das Forças pela Democracia , um grupo rebelde que busca depor o presidente Idriss Déby . Vários saques ocorreram durante a noite. No mesmo dia, a vizinha Biltine foi capturada pelo Rally das Forças Democráticas, outro grupo rebelde. Um dia depois, ambas as cidades foram retomadas pelo exército chadiano.

Em 30 de outubro de 2007, a cidade chamou a atenção internacional quando 17 voluntários franceses que trabalhavam para a instituição de caridade Zoé’s Ark foram presos por suposto sequestro de crianças .

Abeche é o centro para a entrega de assistência humanitária para aprox. 240.000 refugiados de Darfur que vivem em 12 campos a leste da cidade, perto da fronteira com o Sudão. Várias organizações abriram escritórios em 2003 e 2004, por exemplo, o ACNUR, a Cruz Vermelha, a GTZ alemã e a UNICEF.” (Informações pesquisadas no Wikipédia)

A fuga e a chegada ao Brasil

Além do que está citado no primeiro parágrafo deste texto, com informações pesquisadas, o que se sabe de Maurice Du Paul e Morgannyia Abrillé, é que viveram quase uma dezena de anos “fugindo” à procura de um mundo novo, onde pudessem viver em paz – a preocupação maior, além do desejo de viver, era com as duas filhas, por conta do insistente e permitido tráfico de crianças.

Como e quando chegaram ao Brasil, quase ninguém sabia. Mas, todos sabiam que, o amor que tinham pelas filhas era imenso e os fazia enfrentar com risco de morte qualquer adversidade. As filhas, eram, enfim, a maior prova material da existência do amor entre eles, os fugitivos de Abéché.

A vida de fuga os trouxe ao Brasil. Aqui encontrariam várias dificuldades, haja vista que as poucas moedas que carregaram quando fugiram de Abéché sequer eram conhecidas neste país continental. Precisavam vestir, comer e morar.

Também nunca se soube como a família chegou ao Ceará, mais precisamente no povoado Timbaúba, hoje parte de Pacatuba, e já incluída na RMF (Região Metropolitana de Fortaleza).

As quatro pessoas negras, zanzando pelas ruas de um povoado pequeno, e de população também pequena, onde todos se conhecem, chamaram a atenção de alguns, especialmente das autoridades da gestão municipal. Eis que surgiu então o primeiro problema muito sério: a comunicação. Os quatro não entendiam nada do que ouviam e não conseguiam se fazer entender.

Mas, Deus existe, e está em tudo que é lugar. Alguém teve a ideia de tentar uma solução para o problema, usando a cor da pele dos quatro. Foram levados para o Quilombo dos Pretos. Ali ficaram um dia, ficaram dois dias e ficaram uma semana. Não lhes faltaram alimento e uma imensa necessidade de entendimento – o que certamente os levaria a conseguir algum trabalho para a sobrevivência.

Foto 2 – Margarida branca

Finalmente, o problema ganhou uma provável solução, e tudo parecia estar em casa, como era em Abéché.

Mas, a dificuldade de comunicação continuava. Maurice Du Paul passou a ser “Maurício”; Morgannyia, ficou mais acessível, sendo conhecida como “Morgana”. As filhas, com nomes originais impronunciáveis pelos quilombolas, passaram a ser tratadas como Margaridas.

A mudança e a adaptação de “Maurício” e família continuava. Agora, com celeridade, pois o tempo não volta, depois que passa.

A simpatia, o bom trato com os novos amigos e a disponibilidade para o trabalho, mereceram o respeito dos que ali já viviam há muitos anos.

Maurício ganhou um bom “pedaço de terra” para trabalhar, e, assim, alimentar a família com dignidade. Ganhou, também, alguns equipamentos para trabalhar a Terra. E foi à luta!

Eis que começou a esquecer Abéché e até as dificuldades que enfrentara para estar ali naquele momento. Vivo, e ao lado da família. Mas, vivendo momentos de alegria, lembrou que, em algum lugar guardara algumas sementes que trouxera de Abéché, na fuga com Morgana e, agora, as Margaridas.

Foto 3 – Margarida vermelha

Encontrou as sementes, e entendeu que chegara a hora do plantio. Preparou a terra e, para isso, até que teve ajuda de alguns novos amigos que, naquele quilombo, nunca ninguém vivia só.

Maurício plantou todas as sementes. Misturadas. Alguns dias depois de plantadas as sementes, nasciam os brotos. A mão de Deus funcionou e Maurício foi usado para separar brotos de brotos, como se os conhecesse desde muito tempo.

Chuva. Mais chuva. Os brotos cresciam e tomavam forma de roseiras. Cresciam e cresciam, até que alcançaram o tamanho ideal para a floração na primavera que se aproximava.

Foto 4 – Margaridas amarelas

A brisa noturna levou Maurício e a família – Morgana e as Margaridas – ao recolhimento para o descanso de mais um dia de intenso trabalho na plantação.

Distante dali, com os primeiros raios de luz, o cantar de um galo que não possuía, acabou por despertar a família – Só então Maurício percebeu que, ao redor de si, em vez de apenas duas, havia várias margaridas.

Margaridas amarelas, brancas, roxas e até vermelhas. A colheita foi farta e o resultado da fuga, do sofrimento enfrentado ao lado de Morgana e das Margaridas, estava sendo recompensando.

Reflexão: o que seria de Maurice Du Paul e Morgannyia Abrillé, se não fossem as margaridas. As que carregaram consigo na fuga, para evitar o rapto e o sequestro, e as que lhes mostraram na chegada da primeira primavera, uma luz para uma nova vida?

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

CRIANÇAS PRECISAM DE LIMITES – PARA EVITAR QUE VIREM JOVENS IDIOTAS

Esse tipo de descontrole precisa ser coibido com rigidez

Hoje a crônica será diferente. Com objetivo puramente reflexivo – sem pretender ser a “palmatória do mundo”, tampouco assumir posição do Conselheiro Tutelar que o Estado impôs dentro da sua casa lhe retirando a necessária autoridade para imposição de limites e corretivos.

Não se iludam. Eu também fui criança e bastante “afuleimada”. Minha mãe soube me corrigir (sem ser doutora em nada!) quando se fez necessário. Os limites impostos à força fizeram de mim um jovem comedido, um adulto responsável (nunca tive nenhum vício do qual tenha me tornado dependente. Minto: fiquei viciado em mulher – e isso que fez não gostar de homem), e um pai cumpridor dos seus deveres e responsabilidades. Claro que jamais serei um primor de criatura. Mas meus filhos (5) me respeitam. Eu os ensinei a fazer isso – extensivo às demais pessoas.

Tudo começa dentro da própria casa. Muitos pais (e mães) são coniventes com a falta de educação dos filhos. Não dominam, não impõem limites e depois vão reclamar ao Papa Chiquinho, ou culpar a ministra Damares.

– Mãããããeeeee, o Dudé tá me dando cotôco!

Esse é o enredo que Kátia faz à mãe. Ela pouco dá atenção, pois está dedilhando o telefone celular no “zap-zap”, ou fofocando no Facebook.

Não podemos deixar fora dessa conivência, o pai que não “tem tempo” para dedicar aos filhos, num passeio, numa viagem ou até mesmo numa brincadeira em casa – mas tem “tempo de sobra” para enxugar uma gelada com os amigos, onde vê o jogo de futebol do seu time preferido.

Ou não é assim?!

É. E é mesmo!

Beatriz de castigo – debochou da irmã mostrando a língua

Não. Não me venham com chorumelas. As crianças não mudam nunca. Serão sempre as mesmas. Ranhetas, ciumentas, possessivas, achando que merecem todo tipo de atenção especial e favorecimento.

Os pais e mães que mudaram. Viraram uns panacas, achando que são obrigados a seguir um tal de “politicamente correto”, além de quererem transferir para a escola, o papel da educação dos filhos. A escola, repito: escolariza. Ensina português, matemática, geografia e história. A matéria “educação” é da grade curricular dos pais.

O que realmente faz a escola dos dias atuais?

A escola atual é diferente da escola antiga. O dia na escola antiga começava com os alunos em reunião de formandos, cantando o Hino Nacional Brasileiro do início ao fim. Os professores passavam “revista” para ver se realmente todos estavam cantando. Era uma aula de civismo e patriotismo. Diferente de hoje, quando a “professora” passou a ser chamada de “tia”, criando uma intimidade prejudicial ao convívio e ao respeito.

Seria por isso que pais e mães idiotas/imbecis, em vez de apoiar algo que certamente lhes beneficiariam no papel da necessária imposição de limites, se posicionam contra os colégios de orientação militar?

Ou seria por que o “gênio” Paulo Freire sequer é citado nesses tipos de escolas?

Ou seria por que essas escolas não aceitam crianças com tatuagens, brincos, piercings e outros penduricalhos que os próprios pais presenteiam os filhos?

Dudé ficou de castigo por mostrar “cotôco” para a irmã

Num fechamento consensual, o que se consegue ver é que a cada dia a sociedade e a família se afastam da escola e da parceria na escolarização e educação dos filhos. Se distanciam por contam da idiotice do “politicamente correto”.

Estamos falando do hoje chamado Ensino Fundamental, que deveria ser um preparatório para um futuro ensino universitário.

Com certeza não é isso que está acontecendo. O jovem chega à Universidade, sem saber com certeza à qual gênero pertence (masculino ou feminino). Não será fácil se decidir pelo homossexualismo.

É. É isso, sim.

Nenhum menino nasce para ser baitola, fresco, boiola, queimador de rosca ou, como preferem os realmente afrescalhados, gay. Nenhuma menina nasce para ser lésbica ou sapatão. As sementinhas, infelizmente, são plantadas, adubadas e regadas no recôndito dos lares, onde tudo é possível e permitido – os pais são coniventes e viram também “tios e tias”.

Quando todos sentam à mesa para as refeições, meninos e meninas, sentam na cadeira com o joelho dobrado e sequer viram o prato. O celular é o que está servido – e nenhum pai ou mãe fala porra nenhuma. Ou não é assim?

Se limites não forem impostos, jamais haverá chance para mudança. E cada pai/mãe colherá os frutos da semente plantada.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O SOL NASCE PARA TODOS – MAS QUEIMA APENAS UNS POUCOS

E Deus ordenou – “faça-se o sol” – e tudo saiu das trevas

Havia algumas horas, a noite chegara com aquela escuridão pesada como se transportando chumbo. Eu, deitado na rede, na tentativa de minimizar o cansaço e o sofrimento físico do corpo, era embalado pela sinfonia das cigarras, dos grilos e, como se fosse um instrumento de percussão a marcar o ritmo, aquela sinfonia era completada pelo coaxar de um ou mais sapos – não havia como identificar a quantidade deles.

E eu tacava o pé na parede, para impulsionar e firmar o bom balanço da rede. Era bom ficar ali, escutando o som que o silêncio fazia. Dava para distinguir, lá longe, o barulho que as folhas faziam ao tocarem umas nas outras.

De repente, como se mandadas por alguém de espécie diferente, as cigarras pararam de cantar. Os grilos continuaram, e agora, cantando mais alto, como se para compensar a parada intempestiva das cigarras.

Voltei a tacar o pé na parede. Agora a rede estava mais embalada, permitindo escutar, também, ao mesmo tempo que a cantata dos grilos, a ranger das escápulas enferrujadas.

Intempestivamente, da mesma forma que pararam, as cigarras entraram no tempo e na hora certa na sinfonia. E o silêncio da noite, a cada momento, ficava mais audível, nos transportando para a realidade do enfrentamento de um novo dia na manhã seguinte.

O horizonte parecia mostrar um novo sol por estar repleto de esperanças

Na roça, quando o galo canta como se estivesse tocando o berrante de um vaqueiro, não adiante mais tentar ficar na rede. É nessa hora, que também começam a tocar os chocalhos dos bodes e cabras no chiqueiro – todos mancomunados como se estivessem caminhando para o embarque na Arca de Noé.

É, mal comparando, a cada dia que amanhece, uma verdadeira “Revolução dos bichos” (ainda bem que George Orwell já faleceu e nunca vai ter chance de ler essa citação). É, também, mais alguns minutinhos, que a gente se prepara para receber o rei. O rei sol!

E lá vem ele. As nuvens ficam vermelhas no horizonte do céu. Em fração de segundos vão amarelecendo, numa mágica poética cujos versos nem precisam de rima. Ele, o sol, nos penetra pelos poros e se abriga no coração.

Poeticamente, muitos já cantaram que, a cada dia um sol diferente nasce para todos. Uns o aproveitam. Outros, nem tanto. O sol, queima uns na medida exata – mas acaba queimando outros além da necessidade e da conta.

Aqui podemos ver que o sol “queimou” além da conta

O dia amanhece, parecendo ser igual ao de ontem. Não é. É tudo diferente – e existe a necessidade vital de continuar vivendo como se tudo fosse igual. Não é. É um novo dia, embora os propósitos e objetivos sejam os mesmos.

E, quando o dia amanhece, o sol é outro. É o sol de hoje. O outro sol, era o sol de ontem e, com certeza aquecerá e até poderá queimar pessoas que não são as mesmas. E a única coisa que parece ser igual hoje como ontem é o chão. O chão tórrido, com ranhuras provocadas pelo calor – a água evapora e, de longe parece estar em ebulição. Como larvas vulcânicas.

Queima. Enegrece a pele.

Na roça, resseca o milho se as espigas tiverem sido “viradas”. Há momentos que a os espantalhos parecem suar. Suar um mínimo que tenha acumulado nos dias anteriores – quando chovia e o sol permitia.

É o sol.

É o rei sol – que nunca conseguirá se encontrar com a rainha lua.

O homem procura entender a necessidade e o calor abrasador do sol

A gente anda. O sol parece nos acompanhar, mas aonde for, ele chegará primeiro, alegre por ter deixado em nós as suas marcas e impressões digitais – levou a nossa fotossíntese.

E ele pode. Pode, porque é o rei. Somos os súditos que por ele derramamos o suor.

Eis que finalmente o sol está indo embora para retornar amanhã

Eis que, não mais que de repente, o rei mostra que gastou boa parte das suas calorias. Precisa de recarga e, no sertão, começa a se esconder por detrás de uma montanha de nuvens que se misturam com a terra. Amarelas que começam se transformar e escuridão, como uma poesia que diz tudo e ao mesmo tempo não diz nada.

Por alguns estantes o rei sol muda de cor. Parece fugir do contato com a rainha lua.

Vai-se escondendo, escondendo e escondendo. Até que, finalmente desaparece.

E no dia seguinte, quando o galo cantar com o som e a força de um berrante, as nuvens voltarão a ficar avermelhadas, depois amarelecidas para louvar e ceder reverência ao rei. O rei sol.

E aí será um novo dia. Os chocalhos voltarão a tocar estridentemente, avisando que, mais tarde, haverá uma nova audição dos grilos e cigarras.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A LAIVA (“LIVE”) DA BOSTA

Bolotas caprinas

Inicio essa “laive” (arre égua!) lhes informando que não sei merda nenhuma sobre algumas bostas, entre as quais incluo onze tipos, provavelmente de urubus, corvos, cancão, besouro mangangá, potó, cafutes e lagartas.

Desaprovo totalmente a “live”, mas peço aos que estão nas janelinhas virtuais, que só perguntem alguma bosta sobre qualquer tipo de merda, se tiver Mestrado e Doutorado no assunto, auferido e avalizado por alguma das duas turmas do colegiado. Caso contrário, uma manifestação pelas primeiras instâncias pode virar suspeita e ser anulada monocraticamente. Como tem acontecido na maioria dos casos.

Vão à merda!

Agora, vamos às merdas!

Alguém da janelinha pode se manifestar, abrindo o microfone para dizer, por exemplo, por que o caprino come mato e caga aquelas bolotinhas que mais parecem grãos de café. Contém, segundo respostas de pesquisas dos fabricantes de adubo orgânico, um acentuado percentual de amônia, o que acaba garantindo a excelência como adubo.

Com formato idêntico às fezes caprinas, a bosta do jumento é maior

No mesmo formato, e aqueles que entendem de alguma bosta poderão contestar, a bosta do jumento, que também come mato e capim, além do alto teor de amônia, tem também um acentuado e repugnante odor, mas também é muito utilizada como adubo, principalmente para algumas árvores frutíferas.

Há uma diferença no sistema intestinal dos caprinos/ovinos e dos equinos. Os caprinos ruminam o alimento por longo tempo (mas isso, claro, não tem influência na formação da bosta – os entendidos em bosta podem me dar luz melhor, mas quem também não entender de bosta nenhuma é melhor ficar calado), com certeza num tempo maior que os equinos.

Bosta de bovino

Outra bosta sobre a qual a NASA desenvolve estudos, e para isso está sendo auxiliado por Sancho Panza que acabou de se unir a Maurino Júnior na tese que ambos desenvolvem sobre as estrelas, é a bovina. A vaca ou o boi, quando cagam, jogam ao solo aquele “prato de bosta” que, em Queimadas é utilizado como estrume (adubo) e de grande uso para espantar pernilongos durante a noite, quando é queimado.

Seria de muita valia a participação dos entendidos em bosta, incluindo aquelas onze raridades do Planalto Central. Também poderá contribuir para alguém que esteja desenvolvendo alguma tese de mestrado com patrocínio do MST.

Faz tempo que espero um sinal verde do MAPA (Ministério da Agricultura, Produção e Abastecimento), através da delimitação do zarc para que a exploradora de bosta que transformei numa ONG possa vender o produto preferencialmente para o Agro tão divulgado pela TV Globo.

As bostas, afinal, merecem um lugar de destaque na produção e no sustento das agriculturas – de alta produção e familiar.

Besouro Scarabaeidae mais conhecido como “rola bosta”

Ainda que, sem se preocupar em conhecer ou não, qualquer tipo de bosta, quem realmente vive tirando proveito dos tolôtes (no Ceará chamamos “toletes”) é o besouro Scarabaeidae, da família Coleoptera, mas, entre os entendidos de bosta, mas conhecido como “rola bosta”.

Os besouros rola-bosta são coprófagos, ou seja, alimentam-se de fezes de outros animais. Esses insetos desempenham função importante no ciclo da matéria orgânica, já que ao rolar e enterrar as fezes eles adubam a área e auxiliam na decomposição da matéria. Além disso, ao realizarem a “limpeza” nos pastos, eles atuam diretamente no combate a pragas. “Os besouros controlam a proliferação da mosca do chifre e da mosca do estábulo, muito comuns em áreas de pastagens. Essas moscas atacam o gado, deixando-o doente e estressado. Então, mantendo uma comunidade diversificada dos “rola-bosta” nessas áreas, o produtor acaba diminuindo seus custos”.

Aqui concluo a nossa “laive (live) conclamando aos que conhecem outros tipos de bostas (merdas também são válidas), que enviem sugestões para Chupicleide que, na segunda-feira, se não estiver de ressaca, fará a bondade de repassar.

EM TEMPO: Bosta, além de fazer justiça, também virou cultura.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O CAMAPU, O LOBO MAU E A VOVOZINHA

Camapu em fase de crescimento e maturação

“Camapu é uma planta medicinal que serve para tratar doenças neuro-degenerativas, diminuir o colesterol e fortalecer a imunidade. Consumi-la pode ajudar ainda no fortalecimento da imunidade, prevenindo o desenvolvimento de gripes e resfriados. Camapu, fisalis ou juá-de-capote é muito comum aqui no nosso país, em diversas regiões. Na verdade, são duas as espécies: o Camapu (Physalis pubescens) e o Juá de capote (Physalis angulata), com diferentes características que podem ser facilmente cultivadas aqui.

Mas, o interessante é que a ciência está estudando esta planta pois, ela ajuda na recuperação dos neurônios e, portanto, das doenças neuro-degenerativas como o Alzheimer, o Parkinson e diversas outras.” (Transcrito do Wikipédia)

No meu Ceará, é popularmente denominada de “canapum”, e a sabedoria popular afirma que, o canapum também tem uma importante relevância social: serve para mantar a fome, quando consumido em quantidade significativa.

Camapu (ou canapum) maduro

Eis que, vou lhes contar uma história, com letras e tintas fortes de estória, que teria acontecido na Timbaúba, pequeno povoado situado no pé da serra que divide os povoados de Timbaúba, Queimadas e Pacatuba (onde hoje funciona a fábrica de envasamento da cervejaria Heineken, no Ceará).
Pois, lá pelos anos 50, quase todos os dias, e sempre antes que o sol esquentasse, Vovó saía à caça de melão São Caetano, cuja rama usava como sabão para lavar algumas redes, trapos velhos e outras peças de roupa. O fruto maduro daquele melão, ela usava para alimentar os passarinhos criados por Vovô, e ainda os dividia com patos e galinhas criados soltos no quintal. Nós, os netos, escondíamos alguns melões maduros, para usarmos na armação das arapucas para pegar sabiás e corrupiões.

Certo dia sentimos a ausência da Vovó. Tínhamos certeza que ela saíra para fazer a obrigação descrita acima. Mas, a demora começou a nos preocupar. Todos que viviam debaixo do teto da Vovó e do Vovô sabiam que Vovó começara esquecer das coisas. Achávamos que ela estivesse sofrendo de amnésia.

Vovó se danava a procurar o cachimbo por todos os cantos da casa, quando o dito cujo estava guardado num dos bolsos do vestido. Entretanto, ninguém se atrevesse a fazer alguma gozação. Era cabo de vassoura na cabeça e no espinhaço – era assim que ela punia os netos ou quem se atrevesse a “mangar” dela.

Vovó feliz por recuperar a memória

A demora continuava nos preocupando. Resolvemos sair à procura dela pelo mato. Antes de sairmos, resolvemos comunicar ao Vovô o que estava acontecendo.

– Ela deve de ter ido percurar aquela galinha pedrês botadeira de ovo que ela sentiu falta de menhanzinha bem cedim!

Pelo sim ou pelo não, resolvemos sair para procurar a véia. Foi quando Dudu, o irmão mais velho vaticinou:

– Será que ela esqueceu de voltar pra casa, ou tomém esqueceu o camim?

Depois de algum tempo de procura, o cachorro Pintado nos ajudou na caça. Vovó estava com um cesto cheio de canapuns, e continuava à procura de mais. E quanto mais procurava, mais encontrava, e aquilo a prendia no meio da mata.

Quando nos avistou, Vovó foi avisando:

– Meninos, a fome tavo bateno nim mim, quandi comecei a comer uns bixinhos desse. Foi quando me alembrei que a galinha que eu vim procurar está choca dentro daquele urinó de barro, e nim véspera de tirar os pintim. Tomém me alembrei que aqui neste mato tem um lobo solto. Um lobo mau!

– Vó, no Brasil não tem lobo, tentei ajudar.

– Tem sim, ora! Um tal de lobo guaraná!

– Vó, não é lobo guaraná, senhora. É lobo guará!

– Apois entãosse é esse mesmo!

O lobo mau que queria comer a vovozinha

Vovó precisou de ajuda para carregar a quantidade de canapuns que apanhara, que teve o peso aumentado pelo “despotismo” (fala lá dela, Vovó) de rama de melão São Caetano e muitos melões para os passarinhos de Vovô.

Quando chegamos de volta à casa, fomos discutir aquele assunto. Chegamos à conclusão que Vovó havia recobrado a memória, que as mãos não apresentavam aquele tremor em excesso, característico de quem, além de sofrer de amnésia, começa apresentar sintomas do mal de Parkinson.

E arriscamos:

– Vó, a senhora contou quantos canapuns a senhora comeu?

– Meninos, nem me alembro. Sei que comi foi muito, que inté enchi minha barriga!