JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A OSTRA

“Ostra é o nome comum usado para designar um número de grupos diferentes de moluscos que crescem, em sua maioria, em águas marinhas ou salobras. As ostras verdadeiras pertencem à ordem Ostreoida, família Ostreidae. As ostras têm um corpo mole, protegido dentro de uma concha altamente calcificada, fechada por fortes músculos adutores. As brânquias filtram o plâncton da água.

A ostra tem uma forma curiosa de se defender. Quando um parasita invade seu corpo, ela libera uma substância chamada madrepérola, que se cristaliza sobre o invasor impedindo-o de se reproduzir. Depois de cerca de três anos esse material vira uma pérola. Sua forma depende do formato do invasor e sua cor varia de acordo com a saúde da ostra.” (Informações científicas extraídas do Wikipédia)

Ostra limpa criada em ambiente adequado

A lua, uma das forças determinantes da Natureza, ao aparecer grande e luminosa nos céus, deixava que os experientes homens (e mulheres) que lidam com o mar – pescadores e afins – deduzissem que o amanhecer e o resto do dia seria complicado: a famosa Maré de Sizígia, fenômeno marítimo que produz ondas de até 12 metros.

Até os mais experientes pescadores e marisqueiros enfrentam dificuldades nesses dias excepcionais. Os pescadores sofrem mais, com suas embarcações, artesanais, na maioria das vezes.

O pescado vem, em algumas oportunidades em troca de vidas humanas. O consumidor do pescado reclama o alto preço, sem saber o que aquilo custou.

Ostra aberta com sua maravilhosa beleza – sal e limão ajudam fazer a festa

Mas, se por um lado a maré anormal prejudica os pescadores, por outro lado, beneficia os marisqueiros e as marisqueiras.

A maré volta com muita força após a rebentação. Em muitos lugares da orla marítima, tem o poder de “lavar” as encostas e facilitar, principalmente a vida dos catadores de ostras, sarnambis e tariobas – o sururu depende mais dos mangues, assim como os siris e os caranguejos.

Atualmente, com a orientação e o apoio logístico da EMBRAPA, ostras estão sendo produzidas em cativeiro, ainda que em pequena escala e em caráter experimental. Mas, é um bom começo.

A demora no crescimento da ostra é o que dificulta, pelo alto custo do investimento e a burocracia brasileira – isso sem contar a poluição das águas e a necessidade do alto investimento para a despoluição.

Há, entretanto, quem ouse apostar no crescimento do setor, haja vista a produção de bons pratos pela culinária brasileira, principalmente nos estados da Bahia, Ceará e Maranhão.

No Maranhão, poucos restaurantes trabalham com essa culinária e não existe, ainda, uma variação de oferta. São poucos os restaurantes que oferecem o prato.

Mas, o consumo é alto (e tem compensado a “pesca” pelos marisqueiros) na orla marítima, onde a ostra é vendida sem fiscalização de qualidade: os ambulantes vendem, em muitos casos, com atendimento artesanal e precário.

Ostra gratinada muito vendida e procurada no Maranhão

Claro que estamos falando da ostra pescada, ou tirada pelos marisqueiros no Brasil, e com alta tendência de produção em cativeiro quando houver compensação do investimento necessário para a produção (e/ou exportação) em larga escala.

Em pesquisa efetuada, descobrimos que, em outros países e mares despoluídos já existe produção em larga escala. E, segundo respostas, tem compensado o investimento.

Existe, também, já, produção em larga escala para produção de pérolas, com variedade de tamanho e de tons de coloração. Pérolas negras, por exemplo, que alcançam alto valor comercial.

Pérola encontrada em ostra brasileira

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O PÔR DO SOL E AS UVAS VERDES

Gosto de subir ao ponto mais alto para ver o sol se por

Uuuuffffaaaa!

Estou chegando. Tem sido cansativo, mas, a Fé divina me move, acalenta e recompensa.

Jovem adolescente, inebriado pelas vantagens que aparecem nessa etapa da vida, namorei e me apaixonei. Embeveci e fiquei aberto como um flor com o néctar que atrai as abelhas.

Nessa etapa da vida, mal percebemos o quanto somos sensíveis e abertos para todas as coisas. Para o amor, por exemplo. Para tudo que imaginamos nos fazer bem. E, o amor faz bem em qualquer fase da vida.

Foi quando ganhei o primeiro presente material. Um livro. Longe dali, no Liceu o livro chegou no momento exato que, na sala de aulas, o professor nos ensinava a “interpretar textos lidos” – aprendizado aquele que hoje faz falta aos jovens que fingem estudar orientados por professores que fingem ensinar.

O presente veio de quem, como uma abelha que adoça nossas vidas, estava me conquistando. Ela era a abelha e eu o néctar da flor viçosa ávida pela êxtase que desconhecia, mas desejava sentir. Um livro. O Pequeno Príncipe. A instabilidade me fez sentir o próprio – e tudo se aproximava da fase leve da vida. Ela deixava momentaneamente de ser a abelha e se transformava numa raposa. Como no livro. Como na parábola. Como em qualquer pôr do sol dos envoltos e apaixonados.

Uuuufffffaaa!

Chegamos, juntos e caminhando e olhando na mesma direção – como deve ser sempre o amor: “caminhar e olhar na mesma direção para ver, juntos, o mesmo pôr do sol”.

O pôr do sol visto pelos apaixonados

Hoje, muito além daquela fase, aprendi que sempre gostei de ver o pôr do sol. Subir ao ponto mais alto da montanha da vida e, juntos, olhar o sol se pondo com todos as odes e letras de um poema. Talvez eu sempre tenha vivido apaixonado por mim mesmo.

No fundo, no fundo, acho que os que amam, amam também a si próprios. Amam a si, amam a família, amam a vida e são apaixonados pelas coisas divinas e da Natureza. São felizes!

Eu sou feliz!

Vivo, amo, divido até o que não tenho com a minha eterna raposa. Continuo dividindo o pôr do sol, visto do lugar mais alto da montanha.

As uvas não estavam verdes – elas eram verdes

Na subida da montanha, juntos, eu e a raposa, encontramos uma plantação. Nunca entendi que uva matasse a fome – e, eu e ela não estávamos famintos. Estávamos enamorados e procurávamos ver o pôr do sol. Continuamos a subida. Olhamos o poético pôr do sol, e voltamos.

Vimos o vinhedo. As uvas ainda estavam lá, no mesmo lugar.

Descobrimos que elas “não estavam verdes” quando subimos. Na descida percebemos que elas “eram verdes” – como todos os apaixonados e com objetivos (o nosso era caminhar, juntos, para ver o pôr do sol) definidos, só então entendemos que o amor empana as necessidades da vida.

Descemos até que alcançamos o lugar inicial da subida. Nos dividimos – e, ainda hoje estamos divididos.

Sós, gostamos de olhar e contar estrelas

Só. Estou só. Preferi assim – e não há arrependimento. Aprendi muito.

Momentaneamente me flagro no sopé da montanha. Me imagino subindo, encontrando as mesmas trilhas. Faço isso – agora só! – e encontro mais dificuldades. Talvez sejam os prêmios do aprendizado e da vida. As uvas, então, eram verdes. Alguém as comeu.

Chego ao topo, onde gostava de ver o pôr do sol. O sol já se pôs. Se escondeu ou deu um até amanhã, quando poderá ser visto por pessoas juntas.

Eu entendo. Aceito. Me contento em olhar e contar estrelas.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

ABAT-JOURS E LENÇÓIS

Cama em desalinho e abat-jour apagado

Ar controlado.
Condicionado,
Abat-jour quase apagado.

Lençóis desalinhados – corações disparados
Intimidades e corpos preparados.

Bocas amassadas, beijadas.
Mãos trêmulas, entrelaçadas
Genitálias intumescidas,
Eretas e umedecidas.

Ar controlado,
Condicionado,
Abat-jours quase aceso
Lençóis desalinhados – molhados
Corações acalmados, realizados.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

FULÔ DE CAJUEIRO

Floração do cajueiro

Queimadas, Pacajus, 1953: caminho de areia solta entre a BR-116 e as terras dos Albano e dos Nogueira. Meados de setembro, pico da fartura dos cajus frutos (aprendi, cedo, que o “fruto” é a castanha) que naquelas paragens salvou o ronco das barrigas de muitos.

No trecho do caminho de terra solta, a casa de Antônio Luciano, marido da minha tia Maria, irmã caçula da minha mãe.

Mais que de repente o cachorro late, como se fora uma campainha, avisando que tem estranho na porteira da cerca.

– Sinhá Maria, posso apanhar uns cajus?!

Tia Maria solta o alguidá de barro que estava lavando no jirau, e diz:

– Pudê, pode, minha fia – mais dêxe as castanhas, visse!

“Cajueiro pequenino
Carregado de fulô
Eu também sou pequenino
Carregado de amor

Cajueiro velho amigo
Meu amor jurou em vão
Jurou se casar comigo
Se eu lhe desse o coração

Cajueiro não fulora
Também sente a minha dor
O meu bem me deu um fora
E com outro se casou

Cajueiro baixa a calha
Deixa o meu gato passar
Vou embora pra bem longe
Vou morar no Ceará”

Abdias do Forró

Era um dia de sábado. O sol já tava frio – e nós até já tinha bebido o café da tarde. Beiju de farinha no acompanhamento, com nata de leite passada. Pouco sal.

Vovó pegou a vassourinha e começou a varrer o enorme terreiro que Vovô havia brocado, limpando tudo. Agora, era a vez da Vovó fazê a limpeza. Na boquinha da noite, prumode não deixar cheiro de fumaça, Vovô ia fazê a coivara. Tinha que tá tudo limpinho. A gente ia recebê visitas. Vinha gente de longe.

Adispois de fazê a coivara, Vovô ia cuidar de acendê dois lampiões prumode luminá o local. A gente ia recebê visita. Vinha gente de longe.

Naqueles tempos a gente chamava de “cantoria”. Ninguém sabia o nome de nada. Repente, desafio, arenga de violeiros, galope à beira-mar, frege, fala de cordel. Tudo para nós era “cantoria”.

Na cozinha, Vovó fazia bules e mais bules de café. Adoçava com açúcar preto (mascavo). O café deixava sobre uma chapa de ferro colocada nas bocas do fogão a lenha. Fogo baixo. Prumode o café num esfriá nem esquentá demais.

Não tão longe dali, aproveitando a escuridão que dava boas vindas, as cigarras iniciavam sua ópera. Mais parecia mesmo, a “Ópera de Verdi”!

Pessoas convidadas para a “cantoria” começavam a chegar. Alguns deixavam suas montarias ao largo da área – sem esquecer de verificar se havia milho no saco atrelado à boca do animal.

– Noite!

Diziam os que chegavam.

– Noooiiite!

Respondiam os que haviam chegado antes, e os de casa. Afinal, a gente ia eceber visita. Vinha gente de longe.

“Cajueiro pequenino
Carregado de fulô
Eu também sou pequenino
Carregado de amor.”

De repente, parecendo que havia sido combinado, as cigarras interromperam a ópera. As andorinhas pararam de ziguezaguear e a luz vinda dos dois lampiões brilharam mais. Os cantadores chegaram. A “cantonia” ia começar.

Antes do frege, Tia Maria, beata assumida que fazia parte da Congregação das Marianas, levantou e pediu licença:

– Gente, vamos ficar de pé, todos, e fazer a oração que Deus nos ensinou em agradecimento por estarmos todos juntos e com saúde: “Pai nosso que estás no céu…..”!

Sentados. Todos escutaram o agradecimento dos cantadores pelo convite feito pelos donos da casa e a boa receptividade demonstrada com a chegada deles.

E, como sempre fazem no cumprimento obrigatório da modas sertanejas e das cantorias:

“A alegria do filho correndo e gargalhando…
A paz de meditar nas obras de Deus…
O prazer do cuscuz, do café, da rede macia…
E a honra de trabalhar ao lado de poetas como Zé.”

“Ter cuscuz no meu prato pra comer,
Beber meia garrafa de café,
São as coisas que eu gosto de fazer.”

“Cajueiro pequenino
Carregado de fulô
Eu também sou pequenino
Carregado de amor.”

Afinal, a gente ia eceber visita. Vinha gente de longe.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

LIMPANDO A CHAMINÉ

A chaminé está “pronta” para o Natal

Hoje, percebo e entendo que as coisas nunca foram fáceis para famílias pobres. Nunca foram fáceis, asseguro.

Dezembro chegava, e, aparentemente, tudo estava ligado à celebração natalina – no nosso caso de crianças, repercutia bem o sucesso na escola – a “reprovação” na escola era um mau sinal. Ouvíamos em chantagem, que Papai Noel não trazia presentes de Natal para quem não fosse “aprovado” na escola. Cheirava sim, a chantagem. Mas era assim.

Nossa casa tinha piso de tijolos de cerâmica, mas, sem o modernismo atual. Apenas a sala era forrada com tacos – que eu e alguns irmãos tínhamos a obrigação de encerar aos sábados. Só depois dessa “obrigação” estávamos liberados para a pelada com os amigos na rua. Era uma tarefa doméstica nossa.

O quarto era calçado com tijolos. Prevenida, minha mãe punha uma bacia grande debaixo de cada rede, para evitar que o “mijo” noturno alagasse o ambiente.

Papai Noel vai entrar pela chaminé

A “preparação” para a infalível visita do Papai Noel começava além dos bons resultados na escola. Atingia a expectativa do pagamento do mês de novembro (não existia o décimo-terceiro, e o pagamento do mês de dezembro só acontecia no princípio de janeiro. Depois do Natal.).

Como não tínhamos “chaminé”, ajudávamos na limpeza e pintura da casa. A tinta usada nos dias atuais, também não existia. Usávamos “cal”, que substituía a fase anterior à pintura. Começava ali a “união” da família na busca de um Feliz Natal.

O bom velhinho com dificuldades para entrar

Até hoje não consegui descobrir o que a nossa Mãe nos servia em forma de chá, para que dormíssemos, e não víssemos a entrada triunfal do Papai Noel pela chaminé. Há quem afirme que era “chá da ansiedade”, ou, em algumas vezes, o chá do “vai dormir menino” temperado com o açúcar da autoridade materna.

As mães dos dias de hoje são diametralmente diferentes. Não mandam “pn” nos filhos. Ao contrário – paparicam, plantando a semente da desobediência, da falta de respeito com todos na vida adulta.

As antigas mães tinham tanta autoridade diante dos filhos, que, só recorriam aos pais em última instância: “deixa teu Pai chegar, que vou contar tudo, tim-tim por tim-tim!”

Quando o Pai tomava conhecimento da desobediência, “anotava” na caderneta mental e descontava no pedido para Papai Noel.

A entrada triunfal do Papai Noel

O sono chegava via imposição, ou não. Mas chegava.

Criança que tinha o hábito – durante as férias escolares – de acordar e levantar por volta das 09:00h, quando a claridade entrava pelas frestas das portas ou janelas, já estava levantado e, antes mesmo da assepsia das primeiras horas do dia, começava a desembrulhar os pacotes que o bom velhinho trouxera, entrando pela chaminé.

Ninguém reclamava por não ter ganho um telefone celular!

As meninas, reclamavam sim, por não terem ganho uma boneca que “andava”, e os meninos acordavam os demais da casa com o barulho provocado pelo velocípede novo.

Êxtase!

Os pais não cabiam em si, de tanta felicidade proporcionada aos filhos. Éramos uma família alegre, unida, diferente.

Paulo Freyre, felizmente, não havia chegado nas escolas com a implantação da Teoria da Libertação. Felizmente!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO – E NA JANELA

“Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta.

Não tendes vós muito mais valor do que elas?

E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura?

E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos?

Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam;

E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles”.

Mt 6,26-29

Lírios da Paz no campo

O mundo está moderno. Pessoas estão a caminho e, deduz-se, vão demorar chegar para um encontro. Outras, faz tanto tempo que chegaram, estão ávidas para ir embora – deixando o encontro para Pasárgada. Mas, é bom lembrar que, lá, nem todos são amigos do Rei.

Elvira, “Vivi”, filha primogênita e única daquele casal que herdou fortuna dos pais e dos avós. Fazendeiros ricos que continuaram investindo no agronegócio no interior goiano. Investiram, duplicaram a riqueza e empregaram centenas de pessoas. Boa gente, melhor dizendo.

Além do alto investimento na bovinocultura e ovinocultura, o casal investiu, também, na floricultura. Os resultados imediatos satisfizeram e, nesse campo, o investimento foi maior, quando problemas familiares surgiram.

Vivi, filha do casal, sentia incômodos e deficiência visual. Diagnosticada, adquirira doença visual rara, de nome “presbiopia”, provavelmente fruto de sequelas de uma toxoplasmose.

O patamar financeiro dos pais de nada servia para resolver o problema de Vivi. Os pais se dedicaram inteiramente à filha. Nada lhe faltava.

Vivi não ficou cega. Teve acuidade visual diminuída em noventa por cento, o que lhe causava profunda tristeza e irritação. O amor e a dedicação dos pais aliviavam os problemas.

A rotina doméstica mudou intempestivamente. O pai, que se acostumou a resolver quase todos os problemas ao lado da esposa, passou a resolvê-los só. A mãe precisou dividir as tarefas diárias, dedicando a maioria delas à Vivi.

A parte da manhã era rotina um passeio no campo, onde os “lírios da paz” – todos brancos! – eram cultivados. Vivi acompanhava a mãe, que aproveitava para colher ramalhetes de lírios que colocava num vaso na janela. Todo dia os lírios eram trocados, e a janela, sempre aberta, permitia que o vento perfumasse levemente os aposentos de Vivi.

– Vamos filha! Vamos passear no campo e colher lírios!

– Vamos mãe. Já estou pronta. O que a senhora faz com os lírios que são substituídos?

– Tiro uma das pétalas e guardo. Depois, dou o destino necessário pata as pétalas que sobram. Rezo, e as jogo no córrego pedindo Paz!

– Deus tem sido bom e tem atendido seus pedidos?

As duas saem em direção ao campo. O vento trazia um perfume inconfundível, enquanto mãe e filha caminhavam em passos lentos, usufruindo a paz dos lírios no campo.

Por um momento, o comentário de Vivi (“que coisa mais linda mamãe, a beleza de cada lírio branco contrastando com o verde das folhas”) chamou a atenção da mãe, e lágrimas rolaram pelos seus olhos.

– Nem duvido que você esteja vendo tudo isso, filha!

– Deus é bom, mãe. Sinto, como se estivesse vendo!

E as duas se abraçaram fraternal e carinhosamente. A mãe aproveitou para colher os ramalhetes de lírios brancos. As duas, agora em passos mais lentos para aproveitar aquele momento de paz e felicidade, voltaram para casa.

Os lírios do vaso na janela foram trocados. A mãe arrancou suavemente uma pétala e guardou. Saiu da casa e foi até o córrego, onde “ofereceu” aos santos, os lírios brancos da paz.

No novo dia que chegou, após o café matinal, e antes da saída do pai para o trabalho na granja, Vivi pediu:

– Pai, compra um computador e me dá de presente!

Ainda que achasse aquele pedido estranho, o pai ouviu e nada respondeu. Os dias se passaram e o computador com teclado apropriado foi instalado no cômodo de Vivi.

Os dias de Vivi passaram a ser diferentes. Mais alegres. Parecendo até que algumas horas foram acrescentadas nas vinte e quatro normais. Apesar disso, os passeios no campo de lírios não diminuíram. Ao contrário. Ficaram mais divertidos e aquilo alegrava também a mãe de Vivi. Era visível a felicidade da filha, ainda que acometida de problema tão grave e de difícil solução.

Certo dia, operando o computador, Vivi falou em voz alta:

– Como é você? Perguntou Vivi, no exato momento que a mãe entrava no quarto com uma pequena bandeja nas mãos. O susto foi enorme.

– Com quem você está falando filha? Perguntou a mãe, aflita!

– Com um rapaz que conheci ontem no Facebook. Respondeu Vivi.

– Deus dos céus! (“Minhas preces quando jogo os ramalhetes de lírios no córrego estão sendo ouvidas por Deus”)

Além do teclado especial para deficiente visual, o pai de Vivi comprou, também, fones/microfones modernos, o que permitia que a filha mantivesse contatos com outras pessoas.

Aquele era um momento diferente. Frank, o nome do interlocutor e, agora, amigo de Vivi.

A casa recebeu novo astral. A preocupação com a “presbiopia”, contraída por Vivi diminuiu ante a possibilidade de recuperação total: graças ao amor.

Vivi nunca falou para Frank o seu problema visual. Os momentos de alegria com o relacionamento superaram qualquer necessidade de revelação. O amor poderia curar tudo.

Uma visita de Frank à casa de Vivi foi marcada. Chegado o dia, Vivi recebeu da mãe o comunicado que a visita havia chegado. As duas preferiram receber o visitante no cômodo onde Vivi permanecia sempre. A janela foi aberta. As cortinas foram amarradas e o ar puro que entrava fazia do cômodo um lugar prazeroso.

A mãe de Vivi convidou Frank para ir ao encontro da filha, no quarto. Os três estavam juntos. A mãe preferiu deixá-los a sós. Vivi, tão emocionada com o momento, permaneceu sentada e acessando o computador.

Frank se aproximou, cumprimentou Vivi. A jovem pediu para que Frank lesse uma postagem recente que fizera. Só então Frank percebeu a diferença especial do teclado, concluindo que Vivi era cega. Embora não fosse.

Lírios da Paz na janela

Vivi levantou, cumprimentou Frank e o convidou a ir até a janela, de onde poderiam olhar os lírios no campo.

Aquele horizonte branco que apareceu, visto da janela, por um momento foi visto pelos dois. Vivi, intempestivamente, viu o campo repleto de lírios da paz. Agora, também do amor.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

DE LINHO, NO ANIL E NO GRUDE

Homem vestindo linho puro

“As velas do Mucuripe
Vão sair para pescar
Vou levar as minhas mágoas
Pras águas fundas do mar

Hoje à noite, namorar
Sem ter medo da saudade
Sem vontade de casar

Calça nova de riscado
Paletó de linho branco
Que até o mês passado
Lá no campo ainda era flor”

Fortaleza, capital cearense. Anos 50 e 60. Juventude de comportamento efervescente que funcionou como rastilho de pólvora e acabou “provocando” o governo do regime militar – diferente da juventude de hoje, um alto percentual de baitolas, drogados e tatuados. Incapazes de perceber a vida presente e futura que lhes rodeia. Um dia o boleto chega, e exigirá pagamento.

Bailes noturnos, festas, tertúlias animadas por Ivanildo e seu conjunto e Sávio Araújo – que nos remetia aos tempos de Paulo Moura, Louis Armstrong e, vez ou outra, Cauby Peixoto procurando a Conceição. Até hoje não foi encontrada. Provavelmente está na ZBM ou comendo fava rajada na feira de Casa Amarela.

Os jovens aderiram à moda das calças Lee (tinham que ser importadas, por valorização e imposição da moda vigente) e vestiam camisas sociais “volta ao mundo”, mangas compridas. Como ainda não aparecera o desodorante, os meninos usavam talco Cashemere bouquet nas axilas – e aquilo, quando o corpo suava com a movimentação do corpo dançando “oh, cupido, vê se me deixa em paz, oh, oh”, aparecia a lama e manchava a camisa. As moças, usando vestidos elegantes sem mangas, mostravam o lamaçal feito pelo suor descendo do sovaco.

Longe dali, nos SECAIs ou no Romeu Martins da vida, ou, ainda, nos luxuosos salões do Ideal Clube e do Náutico, orquestras refinadas tocavam até tango argentino.

Rapazes vestiam camisas sociais, de linho puro.

Camisa lavada pela manhã, com o acréscimo do anil e do grude de goma. Colarinho caprichado. Exageradamente bem passada, a ponto de transformar qualquer jovem num príncipe das Astúrias.

Transporte: Aero Wyllis ou Fusca. O Jeep nem tinha o privilégio do estacionamento nas dependências do clube. A Vemaguette, pelo barulho provocante saído do cano de descarga, era inoportuno. O carro da moda era o Simca Chambord.

Aquelas noites….. deixemos pra lá, né!

Saudade também mata – e os modernos resolveram rotular de depressão.

Depressão, uma porra!

Vivência. Prazer de relembrar as coisas boas vividas.

Depressão é viadagem de quem nunca comeu mucuim de galinha e os dois pés da mesma galinha, com a mão e lambendo dobrinha por dobrinha dos ossos.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

DANDO MILHO AOS POMBOS

Dando milho aos pombos

“Um dia, daqui a não sei quantos anos, ainda vou sentir saudades deste lugar e deste momento. Deste barulho que a água faz quando se encachoeira nas pedras e desta música que o rádio de pilha da casinha está tocando.”

(Trecho da crônica “Nós, os Meninos de Palmares”, do livro “A Prisão de São Benedito”, da autoria de Luiz Berto, editor deste JBF).

Estou em viagem.

De trem.

Mais propriamente no Expresso do Oriente.

A linha férrea é a grande novidade, mas, a paisagem não é tão estranha – beirando o rio Pirangi. Viajo acompanhado dos amigos Antônio Maromba, Fernando Gata e Romildo Pilica.

Na próxima estação, eu fico e eles continuam a viagem. Faz tempos viajam.

Estamos vindo de Palmares.

Eu vou aproveitar para Dar milho aos Pombos e, depois, matar o tempo vago jogando na roleta que, livremente, rouba dos incautos numa praça.

Estou viajando deitado.

Os outros três passageiros estão indo para São Benedito.

Na realidade, estão voltando. Moram ali há alguns anos, onde nasceram e aprenderam os bons caminhos da vida pregressa – banhar no rio Pirangi, nus em pelo.

Ouço o barulho que o armador enferrujado faz, quando balanço a rede – tacando o pé na parede para pegar impulsão, e balançar.

Nesse ínterim, aproveito para lhes apresentar uma mulher. Mulher, não. Uma dama com quem convivi parte dos meus dias:

Agatha Mary Clarissa Christie DBE, nascida Agatha Mary Clarissa Miller, popularmente conhecida como Agatha Christie, uma escritora britânica que atuou como romancista, contista, dramaturga e poetisa. Nascida a 15 de setembro de 1890, em Torquay, Reino Unido. Infelizmente já nos deixou, faz tempo – 12 de janeiro de 1976.

O mistério do trem azul, A morte do Almirante, Assassinato no Expresso Oriente, O caso dos dez negrinhos, Os trabalhos de Hércules, Depois do funeral, Um gato entre os pombos, Os elefantes não esquecem, O visitante inesperado, e, claro, Dando milho aos pombos.

Agatha Christie

Entre tantas obras que me cativaram como leitor, faço destaque a O caso dos dez negrinhos, Dando milho aos pombos e Assasinato no Expresso Oriente.

Nesses, Agatha faz valer a importância de Hércule Poirot – um detetive que somente inteligências brilhantes que nascem e vivem noutras culturas, como “nim Palmares” que criou meus companheiros de viagem nesse trem da vida – Maromba, Gata e Pilica.

Hércule Poirot

O trem parou.

Desci e fui cumprir meu objetivo. Gata, Maromba e Pilica continuaram no trem, beirando o Pirangi. Descerão em Palmares. Sortudos que são.

Obrigado pela companhia da viagem. Qualquer dia desses nos reencontraremos e viveremos novos e delirantes sonhos.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

VAMOS ANDAR – JUNTOS!

O portão eletrônico das Queimadas

O ano, lembro bem, era 1954. Seca braba. Tudo seco. Animais morrendo de sede. Nem as muitas caminhadas para o Açude Novo conseguiam resolver. A jumenta Bonita caminhava trôpega com dois cambitos e dois barris d´água. Seria maldade transportar mais de dois barris – e Bonita, farejando o vento que soprava ao contrário da nossa direção, parecia sentir sede e andava mais rápido – Vovô orientava para não bater no animal. Naquela seca seria muita maldade.

Dia 19 de março se aproximava. Dia consagrado ao Santo Padroeiro do Ceará, São José. Havia em cada novena reunida durante a noite, uma reza muito forte pedindo o milagre da chuva.

Todo dia eu caminhava. Para ir, e, claro, para vir. Era até o Açude Novo, uma boa caminhada. Sempre sofrendo as agruras do calor na trajetória. O banho no açude refrescava um pouco. Banho nu. Sei que muitos banham nu. Mas era hábito, no Açude Novo, banhar vestido com um calção. Havia o local reservado para os homens, ainda que meninos, e para a mulheres, mesmo que meninas com os mamilos aflorando.

Os anos se passaram. Passou 1954. Passou 1955 e passou 1956. Em 1957 a seca que matava não apenas os animais, nos expulsou das Queimadas.

Antiga Praça José de Alencar

Meados de 1957, o êxodo nos levou para Fortaleza. Poderia ter sido Manaus, Salvador ou Curitiba. Não tínhamos nada de posse, além de duas ou três redes e um cachorro que parecia ser nosso Anjo da Guarda. E era.

Andando, chegamos a Fortaleza. Sem dinheiro, sem emprego e sem nada nas mãos além dos dez dedos. Andamos e fomos parar no Pirambu – ali, erguemos uma palhoça, onde poderíamos ter a sensação de liberdade e de um recomeço. Ledo engano. As necessidades materiais bateram à porta e entraram palhoça à dentro sem pedir licença. Fazíamos nossas necessidades fisiológicas onde estivéssemos e onde desse vontade. Despudoramente – e até aprendemos substituir o sabugo de milho pela água salgada do mar.

Os dias que chegaram nos encontraram andando. Andando para lugares incertos e levados pelos sons audíveis dos roncos famintos dos intestinos. Mas, aquela voz não nos deixava parar. Esmorecer, jamais.

Vá em frente, dizia uma voz vindo de algum lugar. Não pare. Ande. E foi aquele incessante caminhar, andar de mãos dadas que nos manteve unidos e de pé.

Chegaria 1958. A caminhada incessante e incentivada me levou ao Liceu do Ceará. Os obstáculos encontrados não me deixavam abater. Mas a insistência, a perseverança, a esperança acaba descortinando um novo horizonte.

Os dias se passaram e foram nos encontrar andando em busca de algo imaterial que acabaria por nos levar à materialidade das realizações. Aprendizado. Empregos. Vida, enfim.

Hora de servir à Pátria. CPOR. Universidade. A continuidade da caminhada nos levou à Western. Primeiro emprego formal. A imaturidade nos conduziu para a composição de uma Diretoria sindical. Sindicato dos Telegráficos. Ilusões. Nada mais que isso.

Theatro Municipal do Rio de Janeiro na Cinelândia

Andamos rápido, para a caminhada que nos levou para o Rio de Janeiro, sem lenço, sem documentos e sem profissão. O pouco tempo – seis anos apenas – de Western não nos garantia uma transferência.

Andando conforme a luz divina iluminava o caminho. Sempre o bom caminho – as necessidades materiais eram janelas abertas para o desvirtuamento. Deus não permitiu e a luz forte clareava a estrada – tanto quanto as lamparinas da Vovó, ou o candeeiro do Vovô iluminando o espraiado do quintal fronteiriço daquela casa onde nasci. Nas Queimadas. Onde dei os primeiros passos até aqui.

Andando sempre. Acreditando em Deus, mas, caminhando.

Vida. Universidade. Casamento e nova família. Problemas, mas continuamos andando, sempre na direção certa e no caminho traçado por Deus.

Sem acreditar jamais na mentira: “cada um será o que quiser”!

Cada um será sempre, o “que Deus quiser e traçar como destino inicial e final.”

Parte do Largo do Carmo em São Luís

Chegou 1987, e continuei andando. Agora, segurando na mão de Deus. Um novo caminho, ainda desconhecido, tanto quanto foi o Pirambu, em 1957 e o Rio de Janeiro, em 1969. Problemas vencidos e a construção de uma nova família. Tudo novo. Recomeço de uma nova caminhada – que mostrava a mesma esperança de quando colocava os cambitos e os barris vazios na jumenta Bonita, para “buscar água” no Açude Novo.

São Luís. Filhos. Três filhos, hoje adultos. Entraram na caminhada traçada por Deus.

Hoje, Deus bondoso e justo, permite que continuemos andando. Juntos. Eu e ELE! Nós, enfim.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

EU CREIO, PAI!

Coroa de espinhos

Jesus, eu aprendi que nenhum de nós vai ao pai, sem que não seja através de ti. E eu creio nisso.

Creio firmemente!

Creio, também, que só estou aqui porque tu queres. Sei que permitistes que eu cumpra a minha missão – para, só então, voltar para o lugar de onde vim.

Mas, nesses 75 anos a serem completados em poucos dias, aprendi muito. Aprendi com as pessoas certas, creio. Vivi vendo e procurando (além de valorizar) compreender o sacrifício que fizestes e o sangue que derramastes por mim, por nós. Por todos nós. E ao que parece, em troca temos dado tão pouco – e provavelmente, menos do que o pouco que tu pedes, em troca de tudo que fizestes.

Derramastes o teu sangue. Entregastes o teu corpo em sacrifício por nós – e até esquecestes de ti próprio.

Vês!….

Viemos do pó e ao pó voltaremos, depois da nossa missão. Mas, nesse intervalo entre a chegada e a volta, nos permites o usufruto do que só tu és capaz de criar – e de colocar à nossa disposição.

Tudo parece pintura e até as que realmente o são, como Capela Sistina e tantas outras que destes mãos, olhos e sensibilidade para Michelangelo, Vincent van Gogh, Monet, Manet, Toulouse-Lautrec, Leonardo da Vinci, Gauguin e tantos outros nos deliciarem com cores mágicas. Cores divinas. Cores tuas.

Jesus, quem na Terra conseguiria pintar o arco-íris?

E quem faria isso usando apenas a “tela” que usas?

E as tintas – alguém conseguiria mais belas que as tuas?

Senhor, e o vento, que fizestes fortes para tanger os maus; fracos para acariciar os bons, e raivosos para castigar aqueles que teimam em desobedecer – e que só lembram de Ti nas necessidades?!

E o mar?

Quem mais poderia criar o mar, senão Tu?

Quem mais é capaz de manter a vida de todos e de tudo, se não Tu?

E a chuva, o sol, a noite, o dia e o cântico mavioso dos pássaros – alguém seria capaz de criar e manter além de Ti?

Por tudo isso Jesus, caminho único que nos leva à Deus, eu vivo. Eu creio. Conscientemente, o somatório de tudo, ainda será muito pouco ou quase nada para explicar o Mistério da Fé.