Floração do cajueiro
Queimadas, Pacajus, 1953: caminho de areia solta entre a BR-116 e as terras dos Albano e dos Nogueira. Meados de setembro, pico da fartura dos cajus frutos (aprendi, cedo, que o “fruto” é a castanha) que naquelas paragens salvou o ronco das barrigas de muitos.
No trecho do caminho de terra solta, a casa de Antônio Luciano, marido da minha tia Maria, irmã caçula da minha mãe.
Mais que de repente o cachorro late, como se fora uma campainha, avisando que tem estranho na porteira da cerca.
– Sinhá Maria, posso apanhar uns cajus?!
Tia Maria solta o alguidá de barro que estava lavando no jirau, e diz:
– Pudê, pode, minha fia – mais dêxe as castanhas, visse!
“Cajueiro pequenino
Carregado de fulô
Eu também sou pequenino
Carregado de amor
Cajueiro velho amigo
Meu amor jurou em vão
Jurou se casar comigo
Se eu lhe desse o coração
Cajueiro não fulora
Também sente a minha dor
O meu bem me deu um fora
E com outro se casou
Cajueiro baixa a calha
Deixa o meu gato passar
Vou embora pra bem longe
Vou morar no Ceará”
Abdias do Forró
Era um dia de sábado. O sol já tava frio – e nós até já tinha bebido o café da tarde. Beiju de farinha no acompanhamento, com nata de leite passada. Pouco sal.
Vovó pegou a vassourinha e começou a varrer o enorme terreiro que Vovô havia brocado, limpando tudo. Agora, era a vez da Vovó fazê a limpeza. Na boquinha da noite, prumode não deixar cheiro de fumaça, Vovô ia fazê a coivara. Tinha que tá tudo limpinho. A gente ia recebê visitas. Vinha gente de longe.
Adispois de fazê a coivara, Vovô ia cuidar de acendê dois lampiões prumode luminá o local. A gente ia recebê visita. Vinha gente de longe.
Naqueles tempos a gente chamava de “cantoria”. Ninguém sabia o nome de nada. Repente, desafio, arenga de violeiros, galope à beira-mar, frege, fala de cordel. Tudo para nós era “cantoria”.
Na cozinha, Vovó fazia bules e mais bules de café. Adoçava com açúcar preto (mascavo). O café deixava sobre uma chapa de ferro colocada nas bocas do fogão a lenha. Fogo baixo. Prumode o café num esfriá nem esquentá demais.
Não tão longe dali, aproveitando a escuridão que dava boas vindas, as cigarras iniciavam sua ópera. Mais parecia mesmo, a “Ópera de Verdi”!
Pessoas convidadas para a “cantoria” começavam a chegar. Alguns deixavam suas montarias ao largo da área – sem esquecer de verificar se havia milho no saco atrelado à boca do animal.
– Noite!
Diziam os que chegavam.
– Noooiiite!
Respondiam os que haviam chegado antes, e os de casa. Afinal, a gente ia eceber visita. Vinha gente de longe.
“Cajueiro pequenino
Carregado de fulô
Eu também sou pequenino
Carregado de amor.”
De repente, parecendo que havia sido combinado, as cigarras interromperam a ópera. As andorinhas pararam de ziguezaguear e a luz vinda dos dois lampiões brilharam mais. Os cantadores chegaram. A “cantonia” ia começar.
Antes do frege, Tia Maria, beata assumida que fazia parte da Congregação das Marianas, levantou e pediu licença:
– Gente, vamos ficar de pé, todos, e fazer a oração que Deus nos ensinou em agradecimento por estarmos todos juntos e com saúde: “Pai nosso que estás no céu…..”!
Sentados. Todos escutaram o agradecimento dos cantadores pelo convite feito pelos donos da casa e a boa receptividade demonstrada com a chegada deles.
E, como sempre fazem no cumprimento obrigatório da modas sertanejas e das cantorias:
“A alegria do filho correndo e gargalhando…
A paz de meditar nas obras de Deus…
O prazer do cuscuz, do café, da rede macia…
E a honra de trabalhar ao lado de poetas como Zé.”
“Ter cuscuz no meu prato pra comer,
Beber meia garrafa de café,
São as coisas que eu gosto de fazer.”
“Cajueiro pequenino
Carregado de fulô
Eu também sou pequenino
Carregado de amor.”
Afinal, a gente ia eceber visita. Vinha gente de longe.

Humberto de Campo e o Cajueiro
Humberto de Campos, um dos maiores escritores brasileiros, plantou um cajueiro em 1896, quando tinha apenas seis anos, em Parnaíba, no Piaui.. Este cajueiro, que ainda existe até os dias atuais, é um símbolo da sua infância e uma parte importante de sua obra “Um amigo de infância”. O cajueiro, que cresceu forte e é visitado por moradores e turistas, representa não apenas uma lembrança física do autor, mas também um símbolo da sua passagem por Parnaíba e suas raízes culturais.
Gilberto, fico grato ao seu comentário. Me considero uma pessoa correta e digna, e nem me considero suspeito para pensar e dizer isso. Mas, tenho certeza absoluta que, embora tenha frequentado escolas formais e da vida, foi o viver simples da roça que moldou minha personalidade, influenciou na minha dignidade e me trouxe até aqui nos dias atuais. Acredite: o viver na roça, em alguns lugares continua o mesmo e edificante.