JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

SOMOS PARTE DA NATUREZA

Sabiá Laranjeira tem um cantar cativante

“A todo mundo eu dou psiu
Perguntando por meu bem
Tendo o coração vazio
Vivo assim a dar psiu
Sabiá vem cá também

Tu que andas pelo mundo
Tu que tanto já voou
Tu que cantas, passarinho
Alivia minha dor
Tem pena d’eu
Diz por favor
Tu que cantas, passarinho
Alivia minha dor”

Comer paca (cuniculus paca) é proibido?

Nascendo e vivendo na roça, a gente (por extrema necessidade e para não morrer de fome) come tanta coisa, que, sinceramente falando, entendo que, quem defende e afirma essa atitude ser criminosa, nunca ouviu o “ronco das tripas vazias”.

Tem tanta coisa com as quais deveríamos nos preocupar mais: a água que bebemos, é realmente potável? Você tem certeza que, comprando aquele garrafão d´água, vai beber a água saudável?

Pois, assim como entendo como “frescura moderna que passamos a adotar”, entender como crime o consumo da paca, muito mais ainda, entendo como idiotice considerar crime “espantar as baleias com o ronco do jet-ski.” Coisa de quem não tem o que fazer!

Lá pelos anos da década de 50, meninos usando calças de suspensórios, apurava uns trocados para comprar as figurinhas do álbum, pegando e vendendo jias. Quem consumia eram os padres-professores do Colégio Piamarta que, naqueles anos funcionava no bairro Montese, em Fortaleza.

Quem era o “criminoso”: quem pegava para vender ou quem comia as jias?

Mas, claro, não era qualquer “jiazinha”. Era uma espécie que se desenvolvia nas valas que existiam no Canal do Jardim América. Os padres eram holandeses – e valorizavam tanto as jias, que as preparavam para comê-las aos domingos.

Eis que, longe dali, sofrendo as agruras e a fome braba provocada pela seca no Ceará, a meninada despreocupada com as leis, pegava seus bodoques e baladeiras e saíam para “caçar o dicumê”. Na volta, às vezes, trazia até cobras jibóias – mas era comum trazer também camaleão (iguana, que, sem folhas verdes para comer, ficavam cinzentas), teiú, paca, tatu, rolinhas e beija-flor.

Ficávamos na dúvida entre praticar o crime (que desconhecíamos naquela idade) pelo abate dessas espécies e morrer de fome.

Claro, não foi esse o caso do “sem-o-dedo-mindim”!

Arapuca para pegar sabiás

Eis que, quem me deu o prazer de ler estas mal traçadas linhas, e se leu com atenção, deve estar se perguntando: e por que o sabiá?!

Lenda ou verdade, aprendemos naquela idade que, Sabiá Laranjeira e Anu Branco ou Preto, quem “mata para comer” jamais terá um bom futuro pela frente.

E, menino acredita em tudo que os mais velhos falam. Menino acredita até que matar para comer paca não é crime, como também não é crime trocar o voto nas eleições por promessas que jamais serão cumpridas.

E por que procurar Melão São Caetano para fazer chamariz para o Sabiá Laranjeira?

O Sabiá, dizem os “antigos”, mesmo estando preso na arapuca, vai continuar cantando – e o cântico vai atrair fluidos positivos para aproximar outros animais “caçáveis e comíveis”.

Lenda?

Há quem acredite em lobisomem e Saci Pererê, ou no Diabo sem “dedo-mindim”!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

ÀS MÃES

“Parir é fácil e dolorido – mas realiza. Difícil é criar.” – Raimunda Buretama

Dona Quiterinha

Engole o choro!!!
Se eu for aí e encontrar, vou esfregar na tua cara!
Você apanhou foi pouco. Se prepare para quando seu pai chegar!
Já te fa-lei que vo-cê pre-ci-sa res-pei-tar su-a ir-mã!!!

Quem teve a sorte de ter Mãe, e não nasceu de chocadeira, com certeza identifica fácil esse linguajar. A última frase é icônica: pronunciada silabicamente, quando a Mãe castigava o filho ou a filha.

Hoje, depois de um longo tempo de passeios, volto ao batente para render homenagem às nossas rainhas. Escolhi duas personas: Dona Jordina, a minha rainha de todos os castelos; e Dona Quiterinha, a Mãe-Rainha do Papa Berto.

Meu computador deu pane (PC), e não consegui fazer backup de nada. Este é um computador novo. No computador que deu pane, estavam gravadas todas as minhas fotos pessoais, familiares e outras que uso normalmente. Perdi todas.

Assim, como falo sempre (e muito) da minha Avó (Raimunda Buretama) postarei uma imagem que não é ela, é simbólica.

Raimunda Buretama

Lá naquelas paragens, do outro lado do rio, onde provavelmente a lua se esconde, existia uma casa de taipa, com a sala repleta de tamboretes para o descanso das visitas. Na latada, os assentos eram os cambitos e alguns poucos tamboretes com fundos de couro de bodes e cabras.

Na cozinha espaçosa, forno movido a lenha, uma panela grande “amornava” água para garantir o primeiro banho do menino, antes mesmo da primeira mamada. Era um frege de tias e comadres. Enquanto uma preparava o banho, outras se preparavam para depenar galinhas, patos, capotes e até um peru que tomava conta do quintal. A preparação do almoço.

Comadre Chica, a parteira da família que tinha aparado os filhos mais velhos, vez por outra passava na camarinha para ver a situação da parturiente: “tá chegando a hora”!

Raimunda Buretama, soltou uma de suas muitas pérolas: “Ora, bom-basta….. “parir é fácil e dói, mas realiza a muié. Difícil mermo é criar” nesse mundo de meu Deus.”

Da camarinha iluminada por duas lamparinas, veio o aviso:

“Tá nascendo, força minha comadre, só mais um pouquinho.”

“Nasceu!!!!!”

Tragam a água morna, que eu já cortei o cordão do “imbigo”!

Era, naquele dia, 30 de abril de 1943.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A ESTANTE – PARTE DO MEU TODO

Estante onde está depositado um vasto aprendizado

A sala, como muitas de antigamente, ficava na parte frontal da casa. Uma casa grande, como eram as casas antigas. Ao lado daquela sala, uma entrada que conduzia à sala de estar que era usada também como sala de jantar. Dependências antigas, simples, mas muito arejadas e confortáveis.

Uma porta que, aberta, conduzia à sala em questão – alguns chamavam também de biblioteca. Mas não era nada disso.

Um pequeno abat-jour, era o único objeto de decoração sobre a mesa, sempre limpa e servindo de apoio a leitura. Ao lado, uma cadeira espreguiçadeira de vime contendo alguns almofadados para apoio e conforto do usuário.

A estante era a peça principal da sala. A peça mais importante. Uma mobília do estilo Luiz XV, transportada no século passado diretamente de Carcassonne, por mais de noventa dias de uma viagem de navio na travessia do Atlântico.

Mas, a estante de importante e significativo valor sentimental, tivera sua importância quadruplicada pelo conteúdo. Pelo que guardava nas prateleiras internas. Vidas, ensinamentos, conselhos e valores morais e religiosos indubitáveis.

Livros e objetos colecionados

Claro, as enciclopédias Lello Universal e Barsa tinham lugar de destaque. Almanaques de revistas em quadrinhos do Mandrake, Fantasma, Tarzã, Cavaleiro Negro, Flecha Ligeira e o impagável Homem de Borracha, carinhosamente encapados. Um pacote com mais de 200 charges do Amigo da Onça, autoria de Péricles, publicadas pela revista O Cruzeiro.

Medalhas conquistadas, troféus, algumas lembranças familiares e, claro um lugar de destaque para um “retrato” da Vovó. Vovó, parte de mim, minha raiz firme e segura que ainda hoje cresce para o centro da Terra.

Livros da Editora Nova Aguilar: poesia completa de Fernando Pessoa, de Manuel Bandeira, Eça de Queiroz.

A vida e bibliografia esmiuçada – e lida – de Machado de Assis: Quincas Borba, O Alienista, Dom Casmurro, O Enfermeiro.

Eça de Queiroz: O Primo Basílio, O Crime do Padre Amaro, A Ilustre casa de Ramires.

Entre os preferidos, lidos, relidos, trilidos: Os elefantes não esquecem, Dando milho aos pombos, O caso dos dez negrinhos, Os relógios, Mistério no Caribe, todos da impagável Agatha Christie.

Ali, naquela estante, tinha vida, experiência, aprendizado e a luz necessária para iluminar meu caminho durante décadas, e me ajudar fortemente na construção da minha família.

Parte do muito que conquistei e aprendi

Por anos seguidos Deus me permitiu praticar parte do que aprendi nos livros. Criei em mim o hábito da leitura e o vício de ler. Aprendi no curso de Jornalismo. A gente precisa ler tudo que nos cai às mãos. Usar, na prática, é alternativa e arbítrio de cada um.

Ler é viajar sem fazer check-in, viajando sempre no luxo e usufruto do leito – ônibus, navio, trem ou avião.

Ler é viver – e ninguém jamais conseguirá escrever, sem ler.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

MENINO “MALINO” – AS BRINCADEIRAS DA ROÇA

Libélula, também conhecida como “Mané-Mago”!

Vou continuar na roça. Saí da roça, mas a roça nunca saiu de mim. Não quero sair, nem vou deixar que ela saia. Me faz bem e massageia o ego, relembrar os momentos da construção da minha vida vivida na roça.

– O papeiro é meu!

É. Era assim que eu gritava alto, para que os outros irmãos ouvissem, quando minha velha e falecida Mãe estava na cozinha preparando a papa ou o mingau da minha irmã mais nova – hoje também falecida.

– Tá certo. O papeiro é seu, mas vai ter que lavar depois!

Era assim que minha Mãe concedia a preferência pelo papeiro – e talvez fosse pela obrigação de ter que lavar, que nenhum outro irmão se aventurava a gritar “o papeiro é meu”.

E foi lavando aquele papeiro que, desde os 22 anos de idade aprendi a cozinhar tudo numa cozinha. E, acreditem, não sou nenhum Master Chef, mas não faço vergonha. Posso garantir que sou “especialista” em feijão. Por isso me interessei tanto pela “fava rajada” que, certa vez, como convidado, comi num encontro no Apipucos.

Mas, o assunto da roça é outro. É como a gente brincava – pelo menos eu – e como a gente se envolvia psicologicamente com as brincadeiras que, quase na sua totalidade, eram inventadas por nós mesmos.

Tudo começava com a preparação de uma garrafa. Tinha que ser branca e estar bem lavada por dentro e por fora. Uma rolha feita de sabugo de milho servia de lacre.

Tudo preparado e lá íamos nós, pegar “Mané-Mago” que, depois, na escola e estudando Ciências Naturais, aprendi que o nome científico era “Libélula”, também conhecida popularmente como tira-olhos ou libelinha em Portugal, e como lavadeira ou jacinta no Brasil, é um inseto alado pertencente à subordem Anisoptera. É considerado um dos primeiros insetos a surgir na Terra. No meu Ceará é conhecida como “Mané-Mago”, independentemente de ser macho ou fêmea.

Eu jogava um “campeonato” comigo mesmo. Era campeão “aquele” que conseguisse pegar o “Mané-Mago” mais bonito e mais colorido. Passei a estranhar que eu mesmo era sempre o campeão.

O troféu era sempre uma mariola ou um pedaço de rapadura roubado na despensa da Avó. Ao vice-campeão, sempre eu também, era garantido um troféu muito estranho: uma pequena cuia de farinha seca misturada com açúcar. Isso tudo sem direito a coroa de louros!

Eis que, hoje, sei o significado de tudo aquilo: o amor pela roça e suas coisas que nos fazia crianças saudáveis.

Calango verde sempre teve a minha preferência nas brincadeiras

Outra brincadeira – ou entretenimento – habitual, era “pegar calango verde”. Bicho arisco que fugia rápido, ou se deixava pegar por entender que nenhuma criança o faria mal algum.

A “armadilha” era preparada com um palito de coqueiro. Verde e flexível, o palito tinha sua ponta mais fina transformada num laço que, seguro – para o calango não conseguir escapar, quando laçado – nos proporcionava alegria.

Para alguns, não sei precisar, mas essas coisas transformadas em brincadeiras infantis, nos aproximavam tanto da Natureza, quanto a maravilha que é “cagar no mato”!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A CABAÇA E O POTE

Cabaça para carregar água no sertão

Meizinha, suvaco, adijutoro, rapariga, disculhambação, cabra besta, gaiudo, gabolice, catá coquinho, vacuá e tantas outras falas são, não apenas o linguajar da roça vivido pelo matuto. Existe um universo muito grande envolvendo tudo isso.

Traduzir a coragem e a persistência – às vezes, até por ter consciência da impossibilidade de solução para apenas um problema – do matuto, aquele que realmente produz riqueza pela força do trabalho na agricultura e afins, é algo muito difícil.

Madrugar – acordar e levantar, quando o novo dia começa a clarear – não é apenas uma necessidade, é um hábito.

E escutar o galo cantar, a vaca mugir ou o berro dos cabritos é rotina. É o despertador da roça – para os abastados, na “fazenda”.

Era assim em Queimadas – povoado de Pacajus, no Ceará – quando o sol avermelhava o céu mostrando aquele colorido encorajador para Raimunda Buretama e os netos. Muitos netos. Nas férias escolares, mais de uma dúzia deles.

– Levante meu fii, se avexe e vamos buscar água prumode fazê o café e o dicumê!

Caminhar 12 Km (6 na ida e 6 na volta) pelas veredas para apanhar uma cabaça d´água não era coisa que uma criança entrando na adolescência gostasse de fazer. Mas era preciso fazer. Tinha que acontecer.

Eram duas caminhadas, o que acabava significando 24 Km por dia – “apenas para buscar água” – para uma casa com nove moradores. O banho ficava para a segunda viagem ou no fim da tarde, com a possibilidade improvável da garupa do jumento do Avô, depois que esse voltava da roça e precisava banhar e “dar de beber” ao animal.

Cinco, seis e até sete anos fazendo isso. Chovesse ou fizesse sol.

E aqui fazemos uma pausa para uma indagação – será que a água tem importância para uma família dessas?

Será que a transposição do São Francisco significa alguma coisa para várias famílias que vivem esse dilema?

Pote de largo uso sertanejo

Na casa, com cenário antigo por longos e longos anos, o abrir as cortinas mostrava um pote sobre uma trempe, ou, uma forquilha com três braços. Coador de morim amarrado na boca, para evitar a passagem de gravetos ou de martelos na água de beber. Ferver a água, nunca. A água só fervia quando era colocada no fogo, na lata de fazer café com um pedaço de rapadura para dissolver e adoçar.

Nos raros invernos, uma terrina de cimento servia como cisterna da água da chuva aparada na calha feita do sabiá (mimosa caesalpiniaefolia), uma madeira de grande serventia e aproveitamento no interior. A água ali depositada servia para aplacar a sede dos caprinos, das galinhas e outros animais domésticos criados para o abate e consumo da família nos momentos difíceis.

Nos anos 50, 60 e meados de 70, nenhuma residência do interior do estado tinha água tratada e canalizada – e isso significava dizer que esgoto ninguém conhecia naquelas paragens.

Fazia-se as “necessidades” num buraco feito no chão e a “assepsia” era feita com sabugo de milho ou folha de marmeleiro.

Hoje, acreditamos, tudo é diferente. Já não se faz necessário caminhar mais 24 Km e a cabaça e o pote foram praticamente abolidos, embora as casas permaneçam quase sempre as mesmas: paredes de estuque, chão de barro batido, fogão à lenha; portas fechadas com tramelas, apesar da crescente e preocupante violência urbana.

E dá uma saudade danada relembrar a caminhada diária de 24 Km. Dá uma saudade danada do bom, da ingenuidade, da coisa boa e, principalmente, da convivência e da unidade familiar – coisa que a tecnologia exterminou, trazendo junto a evolução.

Felizmente ainda é comum, nos povoados do interior, a “roça familiar” – batata doce, macaxeira, feijão, maxixe, quiabo, tomate, coentro, cebolinha verde e, nas Queimadas os primos e filhos dos primos nunca deixaram de preservar as moitas de mofumbo, arbusto preparado para a reprodução dos capotes – galinha d´angola.

Ali a tecnologia também chegou. Felizmente não conseguiu acabar com a tradição e sequer foi motivo para impulsionar mais uma “Revolução dos bichos”.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O TREM QUE NÃO APITAVA NA CURVA

“Maria Fumaça” na curva carregando oito vagões

A velha Estação estava repleta. Lembro bem que era um dia de sábado e a manhã ainda estava pela metade.

Era, também, o segundo dia das férias escolares, e aqueles familiares ávidos pelos abraços fraternos dos filhos e netos que estudavam na capital deixavam perceber o nervosismo pelas conversas em alto tom e os elogios que faziam ao sucessos dos rebentos. Emoções descontroladas.

Empregados das casas de fazendas conduziam animais prontos para levar os estudantes aos seus aposentos. Outros conduziam apenas animais preparados para transportar as malas de bagagem.

De forma repentina, parecendo milagre, a máquina “Maria Fumaça” apontou na última curva antes da parada na Estação Marechal Rondon – nome dado em homenagem ao bravo brasileiro que tentou implantar o serviço ferroviário no interior do Brasil.

A máquina “Maria Fumaça” nunca apitava ao surgir naquela última curva. Era uma característica, embora não fosse proibido apitar – mas, aquelas nuvens de fumaça, algumas vezes, até que conseguiam substituir os apitos de aviso da chegada do comboio ferroviário.

A máquina encostava na Estação. De praxe, soltava aquela nuvem de fumaça e aquele vapor importante na propulsão do trem e os seis vagões arrefeciam. O trem parava. Algumas poucas portas que eram travadas durante o percurso (para evitar possíveis acidentes provocados pelas peraltices infantis) se abriam e alguns pais atônitos e movidos pela saudade se apressavam em ajudar os filhos no desembarque.

Avós e pais esperam filhos passageiros do trem

A partir daquele momento de desembarque, o sábado se tornava diferente, alegre, infantil.

Na casa grande sem senzala do povoado, Joaquim Albano tomara todas as providências antes de partir para a Estação acompanhado de dona Clarice para esperar os netos Carlos Augusto e Rafael – os dois estudavam no Colégio Militar com sede na capital.

Os meeiros e compadres Duda e Nonoca foram convidados, com ares de intimação, para ajudar nos preparativos da festa da chegada dos netos.

Cedinho ainda, tão logo chegara à casa grande, Duda recebeu ordens para abater aqueles dois porcos que, de tão grandes, sequer conseguiam se levantar para comer. Um bezerro que vivia entristecido pelos currais, também fora abatido. Nonoca foi encarregada de abater dez galinhas – cinco para preparar ao molho pardo (preferência de Carlos Augusto) e as outras cinco sem o molho (preferência de Rafael).

Malas desfeitas em meio aos muitos abraços e bênçãos. Conversas, afagos, elogios e as perguntas pela saúde e pelo crescimento no Colégio.

O banho e, em seguida, uma rápida espiada no horizonte da fazenda da Casa Grande que os olhos alcançavam. O chamado para o almoço – o lugar de Joaquim, continuava vazio. Clarice levanta, vai à procura dele, pois os netos e alguns poucos privilegiados com o convite estão famintos.

Clarice encontrou Joaquim deitado na cama. Não deitara por acaso. Necessidade. Desfalecimento. A morte chegara de repente, trazendo o infarto provocado pela demasiada alegria da reunião familiar.

– “Acudam”! Gritou Clarice, em desespero!

Os poucos empregados da casa acorreram, mas, infelizmente, não puderam mais fazer nada que não fosse cair em lamentações.

Todos deduziram que a alegria também pode matar.

O tempo passou. As férias que se prenunciavam boas, repentinamente se transformaram nos dias mais tristes para aqueles que viviam na Casa Grande – que jamais foi uma senzala.

A vida continuava para os que ficaram. Carlos Augusto e Rafael precisavam retornar ao Colégio. O movimento que envolvia a viagem de retorno para a Estação e da viagem até a capital foi diferente.

De hábito, além das lágrimas da partida, o apito choroso e demorado da “Maria Fumaça”, que nunca apitava na chegada, mas mostrava o quanto era triste a partida. Da máquina ou do homem.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A CRIANÇA QUE AINDA EXISTE EM CADA UM DE NÓS

Jogo de “bila”

Tínhamos hora para tudo, lembro bem. Tínhamos hora para brincar, hora para dormir, hora para estudar e fazer o dever de casa – isso, claro, sem incluir a hora de obedecer e à quem obedecer.

O domingo era sagrado. Pela manhã a Santa Missa.

A tarde era livre para passear, para o cinema e, até mesmo para a Cidade das Crianças. Mudando da adolescência para a juventude, a manhã era do futebol ou da praia.

Assim, o que mudou do nosso tempo de criança para o tempo das crianças atuais?

A criação, respondo eu. A forma que os pais de hoje criam seus filhos – muito diferente da forma com que foram criados.

O pai de antigamente tinha o hábito de “passear com o filho de 16, 16 ou 18 anos” incentivando para que ele “começasse a gostar de mulher – no sentido sexual, mesmo”. Era um incentivo à iniciação.

Os pais de hoje mudaram. Optam por outras práticas, que, se por um lado são aceitas e compreendidas por boa parte da sociedade, por outro, precisarão ser aprovadas por Deus – e o ônus de tudo recairá sobre o pai, e, mais tarde, sobre o filho que aderiu a essas práticas.

Falo tudo isso porque, a primeira vez que entre num cabaré – lugar de antigamente, onde mulheres faziam sexo por dinheiro – quem me “conduziu e esperou pela consumação da prática”, foi um irmão mais velho, devidamente autorizado (também financiado) pelo meu pai.

Grosso ou não, sem educação ou não, mas pensando no “bom encaminhamento” do filho, quando um pai ouvia do filho algum pedido “fora do projeto de encaminhamento adotado”, respondia-lhe com um tabefe e um safanão, além de suspender por tempo indeterminado a “mesada das estripulias”.

Hoje é diferente. Hoje, se um pai ouve um pedido estrambótico de um filho, tipo:

– Paizão, meus seios cresceram bastante com a medicação que tomo. Estou precisando de um “soutien”!

Em resposta, totalmente diferente do pai de antigamente, escuta:

– Bebê, qual é a cor que você prefere e a pontuação adequada?!

Arre égua!

É assim, ou não é?

Com visão futurística, os pais e mães de antigamente ensinavam os filhos a obedecer. Em qualquer lugar ou situação, na ausência dos pais, os irmãos mais velhos tinham que ser obedecidos. Eles, os irmãos mais velhos, seriam punidos se, nessas situações, não se fizessem obedecer.

Outra vertente infantil era a brincadeira. A forma de brincar, e com o que brincar.

As escolas adotavam na grade curricular, uma matéria rotulada de “Trabalhos Manuais”, que era um incentivo ao desenvolvimento e ao despertar dos jovens em algum tipo de profissão. Também, como incentivo, havia na grade curricular a matéria “Canto Orfeônico”, forma de despertar na juventude o gosto pela música, como Músico.

Em casa os pais “ajudavam” dando aos filhos, não um “soutien”, mas, uma serra tico-tico, um alicate, pregos, serrote e madeira para que eles fizessem os seus próprios brinquedos.

Felizmente, ainda não havia Fábrica Estrela, fabricante dos brinquedos plásticos – o que acabou eliminando qualquer tipo de incentivo à juventude.

Foi assim que apareceram o Mestre Vitalino e a Zabé. Primeiro em casa, depois a profissionalização para custear a vida.

O currupio

Lembro bem que andávamos horas à procura de tampinhas de garrafas. Com elas fazíamos brinquedos mil – mas o preferido era o “currupio”, onde fazíamos dois furos e neles passávamos um barbante. Tal qual a foto postada acima.

Navegação nos mares para a guerra

O pior castigo que os pais de antigamente aplicavam aos filhos, era “proibir de brincar”. Qualquer que fosse a brincadeira. E aquilo doía. O “não brincar” era um castigo muito maior que o próprio castigo.

Quantas vezes, punido justamente por algum malfeito, eu ia para o quintal. Ali, cumprindo castigo, era esquecido pelos de casa por várias horas. Era nesse momento que os anjos da bondade tomavam conta de mim.

Eu pegava uma bacia, enchia de água até as bordas superiores. Transformava aquela bacia num açude e às vezes, até num oceano, onde navegavam meus barquinhos de papel – que eu aprendera fazer, também, durante as aulas de “Trabalhos Manuais”!

O castigo se transformava em algo lúdico, bom, poético e uma prática escolar ganhava valor.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

CAFÉ TORRADO EM CASA

Grãos crus de café

O som ainda está gravado na minha mente.

No final da tarde, quando o sol já estava frio, era normal escutar as batidas dos chocalhos dos bodes, cabras e cabritos, sendo “chiqueirados” para o pequeno curral improvisado. Os bodes continuavam ruminando algo comido fora do chiqueiro, enquanto os cabritos saltavam como se estivessem a comemorar alguma coisa.

Mas, os ouvidos captavam outros sons. É o tic-toc no pilão. Meu Avô pila os grãos do café que minha Avó acabara de torrar, após deixá-lo esfriar numa arupemba sobre o girau.

Um quilo de grãos de café cru, virava um quilo e trezentas gramas com o acréscimo da mangirioba.

Tic-toc!

Outras vezes, toc-toc!

Terminada aquela tarefa, o pilão era limpo e lavado. O cheiro e o gosto do café não podiam ficar. O pilão seria usado outras vezes, fazendo xerém para os pintos, ou tirando as cascas do arroz.

Café fumegante torrado no alguidá

Naqueles anos 50 e 60, já existia o moinho manual, mas nem todas as famílias podiam comprar. Era alto o valor, em que pese sua utilidade. Moía carne, moía pimenta e, às vezes moía também o café que alguns compravam já no ponto de moer. Na roça, esse luxo não chegara.

O pilão, esse sim, era usado todo dia. Para pilar várias coisas. Era como se “fosse da família”. Imagine. Um pedaço de pau com um buraco, sendo parte de uma família – apenas pela utilidade, claro.

Para alguns, o pilão era uma obra de arte que precisava ser encomendada, de acordo com as necessidades (e posses) dos usuários.

Pilão sendo usado na “pila” do café

O dia ainda não estava claro de todo. Mas, o galo cantou. E, na roça, quando o galo canta, as cabras e bodes começam a fazer barulho, não há como ficar deitado ou voltar a dormir. É hora de levantar.

Vovó, fazia tempo, estava acordada “apreparando” o café torrado no dia anterior. Café fresquinho – como ela própria falava – mas o dito cujo era quente e forte.

A mesa posta. Cuscuz (que também chamamos de “pão de milho”), tapioca, batata doce cozida, leite de cabra fervido, queijo de coalho de leite de cabra e uma “pratada” de macaxeira colhida no dia anterior. Era o café – e que nenhum idiota viajado, se metesse a chama-lo de “breakfast, petit-déjeuner ou desayuno”.

A Avó já fizera a sua etapa. Agora escolhia o feijão que, cozido, alimentaria a filharada, e os demais trabalhadores. A mistura ou o tempero do feijão era sempre: quiabo, maxixe, abóbora e, quando possível, algum osso da canela do boi, que meu Avô adorava por conta do tatano, que fazia questão de escorrer dentro do prato.

Café no bule mantém tradição sertaneja

O café torrado e pilado em casa era uma tradição entre nós. Os grãos, comprados crus, recebiam uma parcela de uma semente (mangirioba) que nunca vi em outro lugar. Era uma vagem pequena, semelhante a vagem da ervilha que, além de nós, que a colocávamos para aumentar a quantidade do café, era também preferida pelos caprinos. Por isso meu Avô nunca cortava. Pelo contrário. Plantava.

Esperta, minha Avó acrescentava a rapadura que, segundo ela, amenizava o amargo natural do café.

Ainda hoje, na roça ou em qualquer lugar, o café é uma forma de fazer amigos – mas, o café torrado em casa tem outro valor: “esse café foi torrado em casa, que minha comadre me enviou”.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O FAROL!

“Minha jangada vai sair pro mar
Vou trabalhar, meu bem querer
Se Deus quiser quando eu voltar do mar
Um peixe bom eu vou trazer

Meus companheiros também vão voltar
E a Deus do céu vamos agradecer”

Jangada improvisada de Dico

Hoje tentarei lhes contar uma pequena estória de Dico, cidadão cearense nascido em Pacajus, mais propriamente no povoado de Guaiúba. Raimundo na pia batismal, que a família transformou em “Dico” tão logo saiu do “gatinho” para o caminhar forte e seguro.

Entre o ver a luz da maternidade dada pela mãe, até o criar cabelos nos peitos e nas partes pudentas, Dico conhecia mesmo era a enxada, a foice – que manuseava com maestria – o machado e o rachar lenha para o consumo diário na cozinha. Tinha extrema habilidade, também, no pescar curumatás, traíras e piaus no Açude Novo.

Cresceu, namorou e “mexeu com o que não devia, antes do tempo” – e isso acabou lhe custando um casamento antes do dia e da hora marcada. Na roça, nos tempos em que os filhos obedeciam aos pais, era assim. Ajoelhou, tinha que rezar.

Certo dia Francisca passou mal. Chamaram a Dodoca rezadeira, e essa quase deixou o pé de arruda em esqueleto, de tantos tirar galhos com folhas – a arruda murchou de tanta reza, mas Francisca não melhorou. Dico foi aconselhado par levar Francisca para a cidade, onde certamente conseguiria resolver aquele problema intempestivo na vida deles.

Numa primeira visita a solução pareceu distante. Seria necessária uma estadia mais prolongada na capital, o que acabou proporcionando a mudança definitiva do casal – com os filhos – para encontrar a facilidade do atendimento médico.

Sem profissão, trabalhador da agricultura na Guaiúba, Dico mudou com família e tralhas para a capital. O dinheiro economizado durante dias, serviria para custear o tratamento e, caso necessário, a compra de medicamentos.

A solução imaginada por Dico para alimentar a família, foi a pesca. Inteligente, Dico improvisou uma jangada e foi ao mar. Foi pescar o dicumê da família.

O homem não conhecia nada do mar – que vira poucas vezes – e acreditou que tudo seria resolvido em poucas horas. Tudo parecia fácil na maré vazante. E, sozinho, Dico foi pescar. A poucos metros da arrebentação, se deixou levar. Não se deu conta que logo estaria distante da orla marítima. Se deixou levar.

Farol que orientou Dico

Dico tinha um sonho: queria pescar o maior “pirarucu” que alguém tivesse pescado algum dia.

As horas foram passando. A noite chegou e nada de Dico conseguir pescar o “pirarucu”, coisa que, inicialmente parecia fácil. Mas não era.

Longe da costa, sem uma lamparina – que não levara por achar que voltaria cedo com o maior pirarucu já pescado – as dificuldades só aumentavam. Nada de peixe. A preocupação, agora, era com a volta para casa.

A escuridão foi – finalmente – importante para que Dico, já desesperado, avistasse um farol que, pela distância sugeria a proximidade da orla marítima.

As luzes do farol acabaram ajudando Dico. Foi avistado por uma equipe de socorristas que, com muito trabalho lhe prestou ajuda e ajudou no resgate.

Um dos socorristas, atônito, perguntou:

– Ei siô, que bom que o encontramos. Fique tranquilo, vamos leva-lo para a orla. Conseguiu pescar muitos peixes?

Agradecido pelo socorro, Dico respondeu:

– Não. Não consegui pescar o meu “pirarucu”!

No que o socorrista, entre incrédulo e ansioso, acrescentou:

– É! “Pirarucu” o senhor jamais pescaria!

Sem entender, Dico perguntou:

– Por que?

Pirarucu, o gigante dos rios amazônicos

Ao que o socorrista respondeu:

– Senhor, vamos pra casa. O senhor queria pescar “pirarucu” no mar?

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

EU GOSTO DE VER O PÔR DO SOL E DE CONTAR ESTRELAS

Pequeno Príncipe e a raposa olhando o pôr do sol

“Quando a gente está triste demais, gosta do pôr de sol”. (Antoine du Saint-Exupèry)

Jamais serei poeta.

Nada tenho contra esses privilegiados. Louvo-os!

Eu não sei fazer rima. Nem versos. Nem poesia.

Mas, a vida me ensinou a contar estrelas.

Já contei milhares delas.

Para cada uma, dei um nome – já tenho mais que um Cruzeiro do Sul.

Converso com elas. As estrelas.

Com algumas, até já convivi.

Com a limpidez do céu da noite, quando estou triste pego um caderninho e rabisco uma poesia……. minto!

Conto estrelas, quando estou triste.

Até a insônia me permite contar estrelas que vejo e cumprimento como fazem os beija-flores em voos rasantes de reconhecimento.

Conto estrelas, quando estou triste.

Em vários momentos, a insônia me entristece – por isso, conto estrelas.

Tanto quanto o Pequeno Príncipe e a Raposa gostam de ver o pôr do sol, todo fim de tarde, a insônia me impõe a tristeza – por isso, conto estrelas.

Também!

Vem-vem – o poeta

Todo fim de tarde, quando muitos estavam vendo o pôr do sol – um verso poético que se repete em várias partes do mundo, com a mesma rima – olhando para onde o sol nasceu ao amanhecer, vejo aquela árvore com galhos secos e desfolhados, sem rima, mas poeticamente recebe a esperança no cântico do vem-vem.

Para entender cada verso e toda a rima daquela poesia, é preciso estar triste.

Vem-vem canta a minúscula ave, enchendo de esperança a tristeza de quem espera a chegada de alguém. Que, às vezes, não vem.

Como o céu nublado no fim de tarde que não permite ver mais um pôr do sol, ou a chuva que não permite olhar (e contar) estrelas, o vem-vem canta sem saber que alguém não vem.

Mas amanhã e depois, em muitos fins de tarde, o vem-vem vai fazer poesia.

Cantando!

Mãos fazendo a poesia da debulha do milho

A terra recebe a semente semeada. A terra ajuda a semente semeada a nascer e a crescer, dia após dia. Verso após verso – com a rima da chuva, faz o milagre poético da colheita. As etapas, são versos rimados em poesias conclusas. Em sementes.

A colheita é a poesia da multiplicação da semente.

Tanto quanto o Pequeno Príncipe e a Raposa precisam do céu sem nuvens para que continuem vendo a cada fim de tarde o pôr do sol; e a insônia continue acontecendo para que aconteça a contagem das estrelas, a poesia da semente só terá rima em todos os versos, com o debulhar do milho.

Na debulha, mãos envelhecidas e calejadas transformam o semear, o nascer e o colher do milho em poesia.

Não.

Eu não sou poeta.

Eu não sei rimar.

Mas, a vida me ensinou a ver o pôr do sol, a contar estrelas e a debulhar o milho.