JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O CONFORTO E PRAZER DE REVIVER

Hoje faço uma pequena homenagem a mim mesmo, “republicando” a crônica “A segunda Revolução dos Bichos”, algo que, na época da primeira publicação, ousou levar a imaginação dos leitores ao best seller de George Orwell.

Como um “bônus agalopado”, aproveito e também rendo homenagem aos sete (7) comentaristas, e as réplicas que lhes dei.

* * *

A “SEGUNDA” REVOLUÇÃO DOS BICHOS

Publicado em 2 de agosto de 2020

Aquela negra alta e magra, sem a característica da bunda arrebitada tão comum nas mulheres de hoje, com uma cuia cheia de milho numa das mãos, cachimbo num canto da boca, ainda conseguia emitir um som que as galinhas, patas, galos, patos e perus conheciam como se fosse uma linguagem em cifras, entre eles:

– Ti, ti, pê, ti, ti, pê, ti-ti-ti!

Em poucos segundos, Raimunda Buretama ficava rodeada de todas as aves que mantinha e fazia a criação meieira do quintal. Continuava rebolando mancheias de milho, ao tempo que espantava o galo, que esquecia do milho e tentava “abaixar” a pata, mulher de Nicolau, o pato.

Não era diferente com Francisca, a galinha poedeira, mãe de quase todos os pintos e frangos do quintal – tinha até um pinto com os pés diferentes, como se filho de pato fosse. E eu não tenho conhecimento para duvidar disso. Galo corno, seria o primeiro.

Francisca, assim era chamada, como forma de insulto da Vovó ao Vovô, “raparigueiro” de marca maior, com fama de gastador de trocados em troca de uns reles e fingidos carinhos. E, no local frequentado por Vovô, havia uma fuampa muito famosa – pelo atendimento interesseiro que dispensava aos fregueses. Vovó afirmava que era atitude de “galinha”. Daí o apelido que a penosa recebera, de “Francisca”.

Francisca – a galinha especial

Sempre chamando a atenção pela pretensa “conversa” com as aves, o que Vovó pretendia, na verdade, era atiçar arenga com Vovô – que, amadurecido e sem nenhuma razão, pois andara mesmo mijando fora da bacia, nem se atrevia a dar um pio sequer. Se se metesse a enfrentar a véia, com certeza o castigo seria pior, pois passaria duas quarentenas sem “trocar o óleo”. E, quem vive no sertão, perereca não é “bicho” que se dispense.

Nicolau – o pato maluco e tarado

Mas, aquele quintal não se reduzia apenas à Francisca, a galinha, tampouco ao “atiçamento arengal” de Vovó com Vovô. Havia outro personagem destacado naquela segunda edição da “Revolução dos bichos”, mesmo não sendo contada por George Orwell. Era Nicolau, o pato que nada mais era que uma mistura de tarado com maluco.

Para provar que não temia ninguém Nicolau “pegou” Francisca

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JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O QUE MUDOU: O MUNDO OU AS PESSOAS?

“Radiola antiga” era o principal móvel da sala

Faz tempo que defendo a tese proferida por muitos, que “o mundo mudou, ou está mudando” – eu continuo na mesmice, e vou defender que, o mundo não muda. As pessoas mudam, isso sim. Infelizmente, de algumas décadas para cá, começou a acontecer uma “involução”.

E, entendo eu, tudo a partir da concepção equivocada, que defende que a “escola educa”. Quem educa é a família. Eu, estudante noutro tipo de escola e educado por outro tipo de família e criação, vou continuar dizendo que, ainda que nunca tenha sido seu papel, “a escola atual deseduca”, por tentar apontar um caminho que não lhe compete.

Seria aceitável se afirmássemos que, no máximo, a escola informa e, nos dias atuais, mal e porcamente, haja vista que a genialidade paulofreiriana suscitou nas cabeças dos legisladores boquirrotos, “proibir reprovar os que não sabem nem aprenderam nada”. Leis reforçadas, diga-se de passagem, pela maioria dos que deveriam ensinar – pecadores por conveniência.

Dito isso, vamos aos exemplos factuais de que o mundo não muda, e as pessoas, sim. E que a educação não é papel da escola, mas, da família.

Brasil à fora, qualquer ser humano que jamais tenha frequentado uma escola, numa estrada ou num lugar qualquer, ao chegar ou passar por outro, “educadamente” cumprimenta-o, dizendo: “bom dia, ou boa tarde, ou, ainda, boa noite”.

Muitos que nasceram ou vivem dentro de uma escola, jamais entenderão isso. “Educação familiar”!

Fazendo amizades no cafezinho

Nasci em Pacajus, hoje parte da Região Metropolitana de Fortaleza. Ali, nos anos 50 e 60, as tardes dos sábados ou manhãs dos domingos eram animadas pelas boas músicas com letras que diziam alguma coisa.

Programas de auditórios animados por César de Alencar, ou televisivos conduzidos por J. Silvestre ou pelo casal Aerton Perlingeiro e Lolita Rodrigues, ou o simples “fazer rodar os discos de vinil” com músicas cantadas por Ângela Maria, Cauby Peixoto, Ivon Cury, Nelson Gonçalves, Dalva de Oliveira e tantos outros, acabavam por tornar nossos fins de semanas e tardes mais aprazíveis.

Era habitual aos que trabalhavam fora de casa, “arrumar um tempinho para o cafezinho”. Pessoas marcavam encontros para o café, e era quando se comentava sobre o jogo passado de futebol ou alguma notícia relevante divulgada pelos noticiosos radiofônicos.

Em Fortaleza, lembro bem, tínhamos o Café Walcan, o Cearazinho, ou, até mesmo o Café do Pedão da Bananada, no Abrigo da Praça do Ferreira.

Em Ribeirão Preto, o Café Palheta era o principal e mais frequentado “point” para o deguste dessa maravilha. Ali, famosos ou não que pretendessem, deixavam seus autógrafos numa coluna arredondada mantida estrategicamente pelos proprietários. Coisa que se repetia, também, na filial do Café Palheta de Curitiba.

Hoje, quase tudo é diferente. Não por que o “mundo mudou”. Mas, porque “as pessoas e gerações mudaram”.

Café Senadinho em Curitiba

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A CRIANÇA QUE AINDA EXISTE EM CADA UM DE NÓS

Jogo de “bila”

Tínhamos hora para tudo, lembro bem. Tínhamos hora para brincar, hora para dormir, hora para estudar e fazer o dever de casa – isso, claro, sem incluir a hora de obedecer e à quem obedecer.

O domingo era sagrado. Pela manhã a Santa Missa.

A tarde era livre para passear, para o cinema e, até mesmo para a Cidade das Crianças. Mudando da adolescência para a juventude, a manhã era do futebol ou da praia.

Assim, o que mudou do nosso tempo de criança para o tempo das crianças atuais?

A criação, respondo eu. A forma que os pais de hoje criam seus filhos – muito diferente da forma com que foram criados.

O pai de antigamente tinha o hábito de “passear com o filho de 16, 16 ou 18 anos” incentivando para que ele “começasse a gostar de mulher – no sentido sexual, mesmo”. Era um incentivo à iniciação.

Os pais de hoje mudaram. Optam por outras práticas, que, se por um lado são aceitas e compreendidas por boa parte da sociedade, por outro, precisarão ser aprovadas por Deus – e o ônus de tudo recairá sobre o pai, e, mais tarde, sobre o filho que aderiu a essas práticas.

Falo tudo isso porque, a primeira vez que entre num cabaré – lugar de antigamente, onde mulheres faziam sexo por dinheiro – quem me “conduziu e esperou pela consumação da prática”, foi um irmão mais velho, devidamente autorizado (também financiado) pelo meu pai.

Grosso ou não, sem educação ou não, mas pensando no “bom encaminhamento” do filho, quando um pai ouvia do filho algum pedido “fora do projeto de encaminhamento adotado”, respondia-lhe com um tabefe e um safanão, além de suspender por tempo indeterminado a “mesada das estripulias”.

Hoje é diferente. Hoje, se um pai ouve um pedido estrambótico de um filho, tipo:

– Paizão, meus seios cresceram bastante com a medicação que tomo. Estou precisando de um “soutien”!

Em resposta, totalmente diferente do pai de antigamente, escuta:

– Bebê, qual é a cor que você prefere e a pontuação adequada?!

Arre égua!

É assim, ou não é?

Com visão futurística, os pais e mães de antigamente ensinavam os filhos a obedecer. Em qualquer lugar ou situação, na ausência dos pais, os irmãos mais velhos tinham que ser obedecidos. Eles, os irmãos mais velhos, seriam punidos se, nessas situações, não se fizessem obedecer.

Outra vertente infantil era a brincadeira. A forma de brincar, e com o que brincar.

As escolas adotavam na grade curricular, uma matéria rotulada de “Trabalhos Manuais”, que era um incentivo ao desenvolvimento e ao despertar dos jovens em algum tipo de profissão. Também, como incentivo, havia na grade curricular a matéria “Canto Orfeônico”, forma de despertar na juventude o gosto pela música, como Músico.

Em casa os pais “ajudavam” dando aos filhos, não um “soutien”, mas, uma serra tico-tico, um alicate, pregos, serrote e madeira para que eles fizessem os seus próprios brinquedos.

Felizmente, ainda não havia Fábrica Estrela, fabricante dos brinquedos plásticos – o que acabou eliminando qualquer tipo de incentivo à juventude.

Foi assim que apareceram o Mestre Vitalino e a Zabé. Primeiro em casa, depois a profissionalização para custear a vida.

O currupio

Lembro bem que andávamos horas à procura de tampinhas de garrafas. Com elas fazíamos brinquedos mil – mas o preferido era o “currupio”, onde fazíamos dois furos e neles passávamos um barbante. Tal qual a foto postada acima.

Navegação nos mares para a guerra

O pior castigo que os pais de antigamente aplicavam aos filhos, era “proibir de brincar”. Qualquer que fosse a brincadeira. E aquilo doía. O “não brincar” era um castigo muito maior que o próprio castigo.

Quantas vezes, punido justamente por algum malfeito, eu ia para o quintal. Ali, cumprindo castigo, era esquecido pelos de casa por várias horas. Era nesse momento que os anjos da bondade tomavam conta de mim.

Eu pegava uma bacia, enchia de água até as bordas superiores. Transformava aquela bacia num açude e às vezes, até num oceano, onde navegavam meus barquinhos de papel – que eu aprendera fazer, também, durante as aulas de “Trabalhos Manuais”!

O castigo se transformava em algo lúdico, bom, poético e uma prática escolar ganhava valor.

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MORENA TROPICANA – EU QUERO SEU CALOR!

Mulher brasileira esbanja beleza

Morena Tropicana – Alceu Valença

Da manga rosa
Quero gosto e o sumo
Melão maduro, sapoti, juá
Jaboticaba, teu olhar noturno
Beijo travoso de umbu cajá

Pele macia
Ai! carne de caju!
Saliva doce, doce mel
Mel de uruçu

Linda morena
Fruta de vez temporana
Caldo de cana caiana
Vem me desfrutar!
Linda morena
Fruta de vez temporana
Caldo de cana caiana
Vou te desfrutar!

Morena Tropicana
Eu quero teu sabor
Ai! Ai! Ioiô! Ioiô!
Morena Tropicana
Eu quero teu sabor
Ai! Ai! Ioiô! Ioiô!

Alguém já parou para pensar e apreciar a beleza da mulher brasileira, independente da sua proximidade com ela?

Pois, faça isso!

Faça isso e veja que, a ausência dos olhos azuis e transparentes é compensada pela tez da cor de jambo e emoldurada pelas curvas sempre mais perigosas que as curvas da estrada de Santos. Delineadas, definitivas, sem obstáculos, e como se tudo isso não bastasse, com versos poéticos escritos por Deus através da Natureza.

Na foto anexada para ilustração, observe atentamente o conjunto de perfeições que faz essa menina morena tropicana, e brasileira. Precisa de olhos azuis?

E a beleza escuda detalhe importante em se tratando de Brasil: é afrodescendente!

E alguém liga para isso?

Observe a boca dessa belezura com o lábio superior protegido por um buço apenas imaginável, mas perceptível quando a respiração nasal fica mais ofegante.

É linda!

É brasileira!

É tropicana!

A televisão tem sido o altar onde aparecem algumas mulheres quase santas – mas anjos, com certeza – como um desafio para quem tanto aprecia a beleza de dançar um tango, banhar nu num igarapé ou, simplesmente, apreciar e tentar vencer o desafio que é a beleza de Débora Nascimento.

Foi a Vênus Platinada quem nos apresentou a beleza agressivamente brasileira da Vênus Tropicana dos olhos levemente esverdeados.

As novelas globais de hoje não demonstram muitas preocupações com as qualidades interpretativas de atores e atrizes. O que interessa é a beleza fisionômica aliada a beleza física. O resto não conta muito.

E foi exatamente numa novela global que apareceu Débora Nascimento, hoje, com certeza, uma das mulheres mais bonitas do Brasil, enquanto a qualidade interpretativa fica em segundo plano. Sim, e de Sonia Braga, todos já esqueceram?

Esqueceram que ela um dia foi Gabriela e desfilava essência e cheiro de cravo e canela?

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A SOLIDÃO

Lulu na janela

Nascida Luzia, filha de pais portugueses que chegaram ao Brasil no século passado. Era a única filha de uma prole de quatro. Entretanto, quase ninguém sabia seu verdadeiro nome, pois era mais conhecida naquela rua, pelo apelido carinhoso e respeitoso de Lulu.

Aquela moradora da Rua do Gás, no bairro Andiroba conhecia a todos, e sabia da vida da maioria.

Pudera. Nascera ali, crescera ali, casara ali e ficara viúva ali, havia pouco tempo. Não teve filhos por conta de problemas de saúde. Sofria de toxoplasmose.

Não vivia só porque, com ela, morava uma “secretária” criada pela mãe, que parentes conheceram no interior da Bahia. A “secretária” já era mais idosa que Lulu. Era a responsável por quase tudo e por quase nada. Sempre foi assim, permitindo que Lulu pudesse trabalhar até garantir a aposentadoria.

Famosa, Lulu havia trabalhado durante anos numa emissora de televisão da cidade.

Depois do falecimento do marido, Lulu caiu na solidão e, após aposentadoria, sem filhos e sem afazeres domésticos, que ficavam na responsabilidade da “secretária”, passava as cinco horas da tarde de todos os dias, debruçada na janela. Provavelmente esperava o passeio e o pouso das andorinhas que escreviam poemas em voos. Cada voo mais sinuoso que o outro. Claro, as odes de um poema precisam ser diferentes.

“Boa tarde” para um, “boa tarde” para outro, e, da janela só saía, quando falava o primeiro “boa noite”!

Ninguém entrava ou saía daquela casa, além da “secretária”, que, pelo menos uma vez na semana saía para ir ao comércio, onde se abastecia de víveres.

Às vezes (fora frutas e legumes) a compra era para a semana toda.

Vez por outra, a meninada traquinas tocava a campainha e corria. Aquilo irritava Lulu que, às vezes, fosse quem fosse, nem atendia mais.

Pois, ontem, durante as cinco horas da parte da tarde e começo da noite, não havia ninguém naquela janela.

Lulu, a moradora, estava sendo velada entre preces na capela Sossego Eterno. O corpo sairia dali para ser cremado, como era o desejo dela!

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A SERENATA DOS APAIXONADOS

Seresteiro antigo repete a cena do filme Romeu & Julieta

As mulheres!

Ah, as mulheres, esses seres inigualáveis que ajudaram na construção física do homem, e, ainda hoje, continuam inabaláveis na construção da família, como peça de argamassa, de moldura e de sustentação.

O que seria dos homens, pobres coitados, não fossem as mulheres.

Não há quem, por maior tentativa, que encontre uma explicação, que arquitete e conduza a família de forma mais digna e completa que a mulher. A mulher é, ao mesmo tempo, a massa, o tijolo e o cimento que edificam e fortalecem a construção.

Assim, elogios merecidos, mas, à parte, mulher é alguém que “se derrete” toda com as boas preliminares. E, nesse caso, não estamos falando nem pensando em sexo. Estamos falando de viver. Tratar bem uma mulher é viver bem as preliminares.

E se me lembro bem, ainda consigo ver, bem ali na primeira esquina da vida, os galanteios preliminares que cada dia uniam mais um casal de namorados enamorados. Cada dia e cada noite. Independentemente de qualquer balcão de Julieta, a seresta noturna para a namorada, era como um buquê de rosas vermelhas e sem espinhos.

Falo das serenatas. Feitas com respeito e limites. As serenatas marcaram época de romantismo e ternura. Qualquer jovem que se prezasse, em vez de “tablet” ou celular, tinha a sua radiola portátil. Movida a pilha e tocada sem chip, mas com muito amor.

Os anos 50/60 vividos em Fortaleza – naquela época uma cidade muito distante da metrópole que é hoje – foram vividos com sabedoria. Usufruir a vida e a juventude tinha um conceito diferente de hoje, onde muitos jovens se envolvem com práticas e valores que os afastam ainda mais da maturidade. Hoje, trocar alhos por bugalhos virou algo normal.

Muitos trocam o amanhã pelo hoje, por conta de definições as mais irreais possíveis. Os jovens de hoje (rapazes e moças) não namoram mais, não sonham mais, não vivem mais. Cedo estão envolvidos com situações que acabam por não resolver e jogam a solução para os pais. O jovem de hoje não namora mais. Não namora mais na sala, na frente da casa da namorada. Vai direto para o quarto e o namoro acaba virando sexo – e quase sempre com situações que ele não está capacitado para resolver.

A serenata (ou seresta) era um momento mágico e de aproximação entre os casais enamorados, e muitas vezes, a música falava por ambos. Era ali também, que, muitas vezes amadurecia um pedido de casamento – sempre no dia seguinte.

“Maria” foi minha primeira namorada. “Maria” estudava na Escola Normal de Fortaleza, naquele tempo, localizada próximo do Colégio Militar, na Aldeota. Cedo nos apaixonamos e namoramos alguns anos. Não deu em casamento. Se tivesse dado certo, hoje eu não estaria aqui em São Luís.

Aí entrei na gandaia, e ao mesmo tempo namorava (frequentando a casa de todas quase todas as noites) cinco jovens. Todas muito bonitas. Eram a Célia, a Dinaci, a Antônia e a Carolina, além claro, da “Maria”.

Carolina é hoje uma conceituada médica, além de Jornalista, Professora de Jornalismo e Diretora de um curso na área de Comunicação de uma conceituada instituição de ensino de Fortaleza. Todas gostavam de música e das serenatas que, todos os meses, eu e um ou dois amigos fazíamos.

Atenção: Os nomes aqui apresentados são todos fictícios. Mas os namoros foram verdadeiros.

* * * 

DIA DE FESTA

Érica Luíza a aniversariante

Não consigo enganar ninguém. Dói, quando tento fazer isso e, graças à Deus, sou impedido de fazê-lo.

Estou repetindo esta crônica, publicada aqui mesmo, faz tempo.

Desde ontem (sábado) resolvi me envolver com uma data festiva. 11 de fevereiro é aniversário da minha caçula. 34 anos!

Enfermeira graduada na UFMA (Universidade Federal do Maranhão), Érica Luíza é prestativa sem ser da Cruz Vermelha. Tem virtudes e defeitos (e, um desses defeitos: é flamenguista). Solteira por escolha. Entendeu que teria problemas na família trabalhando em hospitais.

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O SONHO INTERROMPIDO

O passeio na noite parisiense

Não sabíamos nosso destino inicial. Estávamos em Belleville, um bairro de Paris, onde a noite convida para a diversão, para a realização dos sonhos de quem ama. A felicidade do momento, era impagável – ela, vivendo outra vida conjugal e afazeres profissionais e domésticos, resolvera se autopremiar com aqueles momentos de dias diferentes.

Ela vestia um vestido longo para garantir a proteção contra a baixa temperatura. Calçava botas de couro, e um cachecol azul marinho lhe protegia o pescoço. Passos lentos e elegantes garantiam o caminhar de uma dama.

Eu, vestindo uma calça jeans, um sobretudo por cima de uma blusa italiana com fios de lã e um cachecol xadrez, ao tempo que, cortês e cavalheirescamente fazia tudo para que aqueles momentos furtivos valessem à pena. Ambos fugíamos da realidade que vivíamos distante dali.

Mãos entrelaçadas vestindo luvas, diziam bem o que seria o momento quando voltássemos ao aconchego da hospedagem – um simples, mas muito bom hotel.

Os ares noturnos tinham uma magia tipicamente francesa, pós outono e anúncio do inverno. Pairava uma magia que não existe em qualquer lugar, pois Belleville nos oferecia a magia musical de um saxofone tão regulado que imaginávamos muito distante. Era a magia contagiante que a cidade onde nascera Edith Piaf nos oferecia:

La Bohème

Je vous parle d’un temps
Que les moins de vingt ans
Ne peuvent pas connaître
Montmartre, en ce temps-là,
Accrochait ses lilas
Jusque sous nos fenêtres
Et si l’humble garni
Qui nous servait de nid
Ne payait pas de mine
C’est là qu’on s’est connus:
Moi qui criait famine
Et toi qui posais nue.

La bohème, la bohème
Ça voulait dire:
On est heureux.
La bohème, la bohème
Nous ne mangions qu’un jour sur deux

Dans les cafés voisins
Nous étions quelques-uns
Qui attendions la gloire
Et bien que miséreux
Avec le ventre creux
Nous ne cessions d’y croire
Et quand quelque bistrot
Contre un bon repas chaud
Nous prenait une toile
Nous récitions des vers
Groupés autour du poêle
En oubliant l’hiver.

La bohème, la bohème
Ça voulait dire:
Tu es jolie
La bohème, la bohème
Et nous avions tous du génie.

Souvent il m’arrivait
Devant mon chevalet
De passer des nuits blanches
Retouchant le dessin
De la ligne d’un sein
Du galbe d’une hanche
Et ce n’est qu’au matin
Qu’on s’asseyait enfin
Devant un café-crème
Épuisés mais ravis
Fallait-il que l’on s’aime
Et qu’on aime la vie

La bohème, la bohème
Ça voulait dire:
On a vingt ans.
La bohème, la bohème
Et nous vivions de l’air du temps.

Quand au hasard des jours,
Je m’en vais faire un tour
À mon ancienne adresse,
Je ne reconnais plus
Ni les murs, ni les rues
Qui ont vu ma jeunesse
En haut d’un escalier
Je cherche l’atelier
Dont plus rien ne subsiste
Dans son nouveau décor
Montmartre semble triste
Et les lilas sont morts.

La bohème, la bohème
On était jeunes, on était fou.
La bohème, la bohème
Ça ne veut plus rien dire du tout…

“Édith Piaf

Édith Giovanna Gassion, conhecida como Édith Piaf (Paris, 19 de dezembro de 1915 — Grasse, 10 de outubro de 1963), foi uma consagrada cantora, compositora e atriz francesa. O seu ritmo musical era concentrado inicialmente em música de salão e as suas variedades, mas ficou reconhecida pelo seu talento com a música de estilo francês chanson. O seu canto dramático expressava claramente os momentos trágicos que permearam sua intensa história de vida.

A consagrada cantora nasceu como Édith Giovanna Gassion em Belleville, um distrito cheio de imigrantes em Paris. Uma lenda diz que ela nasceu na calçada da Rue de Belleville 72, mas a sua certidão de nascimento cita o Hospital Tenon, que faz parte de Belleville. Ela recebeu o nome de Édith em homenagem a uma enfermeira britânica da Primeira Guerra Mundial que foi executada por ajudar soldados franceses a escapar dos alemães. Piaf, um nome coloquial francês para um tipo de pardal, foi um apelido dado a ela 20 anos depois.

Édith Piaf está sepultada na mais célebre necrópole francesa, o cemitério do Père-Lachaise. O seu funeral foi acompanhado por uma multidão poucas vezes vista na capital francesa. Hoje, o seu túmulo é um dos mais visitados por turistas do mundo inteiro. Segundo a pesquisa da BBC: Le Plus Grand Français, Édith Piaf foi considerada a 10.ª maior personalidade francesa de todos os tempos. (Informações extraídas do Wikipédia)”

Na volta ao hotel, uma taça de vinho iniciava a realização de um sonho tão satisfatório para quem somava os desejos de um passado que só tinha relação com a juventude.

A subida para o aconchego……. e, poooorrrrrraaaa! Alguém tocou forte na minha rede e me acordou!

Puta que pariu!

Nem em sonho a gente pode ser feliz, passear em Paris e ouvir Édith Piaf?!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O CHÃO TÁ RACHANDO! – VALEI-ME MEU JESUS CRISTIM!

Leito de antigo açude meses após a seca devastadora

“João Buretama” era meu Avô materno. Nascido lá para as bandas do povoado que hoje é conhecido como “Chácara dos Ventos”, a alguns minutos da serra em Uruburetama – daí a corruptela linguística “Buretama” – no ano que está tão distante que poucos lembram.

Conheceu minha Avó materna no ajuntamento dos empregados para trabalharem numa “farinhada” que duraria mais de dois meses e era propriedade dos Albano, donos de quase tudo nas Queimadas, povoado de Pacajus, onde nasci.

João Buretama não conhecia o sertão. Filho de pescador, era mais afeito ao mar, de onde a família tirava o sustento – “tudo com as Graças Divinas” de São Pedro.

Quando atingiu a maioridade, teve conhecimento que, para as bandas do Sul, em relação a Uruburetama, os Albano estavam oferecendo “trabalho”. Coisa rara nos dias atuais. Viajou quase dois dias para vencer um percurso que, nos dias atuais, não viajaria mais de sessenta minutos.

Desceu da boléia do “Pau-de-Arara” no então povoado Chorozinho e, depois de uma boa caminhada, finalmente chegou na casa dos Albano.

Joaquim Albano, o patrão, olhou para João de cima para baixo e definiu:

– “Baixinho e forte. Vai trabalhar na prensa”.

A prensa era onde os fortes espremiam a mandioca para retirar o líquido e a massa da farinha. O líquido retirado, posto à parte, vai secar e se transformar na goma.

A mandioca vinha do catitu. O catitu era “operado” por Raimunda, de quem já falei inúmeras vezes aqui. Era minha Avó, querida e inesquecível.

Pois, João Buretama e Raimunda, tão logo acabou a farinhada dos Albano, receberam suas pagas e, sem muita conversa foram morar juntos e “amigados”. Foi de onde nasceu minha Mãe, Jordina, antes do nascimento de Maria, minha tia.

João Buretama e Raimunda, agora, também Buretama.

Raimunda já era conhecida dos Albano, pois descendia dos índios Pacajus e morava nas Queimadas fazia tempo. Albano chamou João e ofereceu os elementos necessários para ser “meieiro” de aves e animais (vacas, jumentos e cabras e bodes), sem esquecer de oferecer, também, terra para plantio de feijão, milho e mandioca.

Tudo aceito e acordado, João Buretama plantou raiz. Virou morador e meieiro dos Albano, além de garantir o emprego na prensa durante a realização das farinhadas a cada ano.

Enxada e foice nas mãos, João Buretama brocou o mato e limpou a terra onde plantaria as sementes que tivesse. Café em grãos, sal, açúcar teria que comprar, além do fumo para os cachimbos, querosene para as lamparinas e outros itens do suprimento da casa.

Eis que chega a seca de 1957. A pior de todas elas desde que o mundo é mundo e as pessoas não plantavam nada que servisse para comer.

João Buretama pegou a enxada, enfiou no cabo uma cabaça com água e foi tentar limpar o espaço onde plantaria alguma coisa. Maxixe que fosse. Não demorou muito e voltou para casa numa carreira só, afuleimado e gritando para Raimunda:

– “Mulé, o chão tá rachando. Valei-me meu Jesus Cristim!”

Sol do meio-dia no sertão cearense

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

MENINOS ACREDITEM: ERA PEIXE DE MAIS

Lá vem chuva!

As cadeiras e tamboretes, arrumados em forma de arena de teatro, “tanto brilhavam quanto cheiravam, aquele cheiro de pureza, de Fé e de esperança”, algo que toma forma e sai do abstrato pela necessidade de se tornar real pela necessidade.

A extensa área fora varrida por Dona Doca com uma vassoura de vassourinhas, agora era iluminada pelo candeeiro dependurado por João numa das pontas de caibro do telhado.

A comunidade próxima e vizinha se reuniria para a primeira noite da novena no meado do mês de fevereiro, até o início de março em louvor a São José, o Padroeiro estadual – São José senta na mesma mesa e mora no mesmo condomínio de São Pedro, o Guardião das Chuvas.

Estranha as ausências das mariposas, das andorinhas famintas e até das formigas, que, cedo da noite se recolheram para seus lares, levando o mantimento que garantiria sustento por alguns dias e talvez meses.

A Natureza é sábia. Calou as cigarras, e até as corujas se recolheram.

Todos presentes. As orações da novena começaram.

Todos juntos pedindo ao Padroeiro um tiquinho de chuva.

Terminadas as orações e as cantigas religiosas da ladainha, todos se servem do café, dos bolos de carimã, dos bolos feitos na palha da bananeira, dos biscoitos e do cuscuz.

As despedias e desejos de boa noite.

A chuva e a sangria

Após o café, os que vieram de mais distante retomaram suas montarias e voltaram para suas casas. Alguns com lanternas para espantar os bichos que poderiam estar deitados no caminho – seguindo em fila indiana até encontrar a primeira bifurcação.

A despedida: “noooiiite”!

Quando a claridade do novo dia chegava, João estranhou que o galo não cantou e cabras e bodes continuavam em silêncio – sem movimento que garantia o barulho dos chocalhos no chiqueiro.

Vento forte. Vento frio invadiu a casa e João e Dona Doca tiveram que levantar. O barulho da chuva no telhado acordou ambos. A tramela mal colocada da janela permitiu que o vento forte a abrisse.

Chuva. Muita chuva.

João teve que sair às pressas para recolocar as terrinas e potes grandes nas biqueiras para aparar a água.

Chuva durante toda a manhã. No final do dia, mais chuva.

Durante quatro dias, muita chuva. As primeiras notícias do enchimento do açude. Dois dias depois, a notícia dando conta do sangramento do açude.

Meninos, a alegria voltou. As orações da novena foram ouvidas. Muita chuva.

Meninos, era muito peixe!

Peixe demais!

Peixe capturado sem rede pela sangria

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

SÓ UM PÔQUIM DE CHUVA

Acauã ave agourenta

A calçada alta com as bordas feitas de tijolos brancos desgastados com o subir e descer da gente. Arestas abauladas pelo sentar e pelo tempo, naquele momento se tornava confortável e parceira na tristeza normal do fim de dia e chegada da lugubridade da noite. João cuidava em preparar os candeeiros para amainar a noite.

“Vem-vem!……..”

Sem que ninguém estivesse para chegar, o vem-vem cantava em tiriça, entristecendo mais ainda aquele fim de dia, que ficava mais triste ainda com a chegada das mariposas perseguidas pelas andorinhas.

Uma ode poética num verso que nada dizia além da desesperança. Sim, por quê, longe dali, na grande capoeira duas, três, quatro e agora cinco vacas haviam morrido de sede, virando carniça e fazendo o banquete dos urubus. A natureza se fazia perversa, ainda que de forma passageira.

Mais escuro que claro, o silêncio do vem-vem parecia uma autorização para os sussurros lúgubres da coruja que sobrevoavam a área. Aquele “cantar”, diziam alguns, era o prenúncio da chegada da morte para alguém. Era, pelo assim dizer sertanejo, um “agôuro”!

João concluíra a tarefa da preparação dos candeeiros. Agora, segurando na mão firme e envelhecida de Raimunda – os dois – dobrava os joelhos e rezava o que mais parecia uma cantiga que oração:

“Pai celestial de todos nós. Minhas vaquinhas estão morrendo de sede. Onte morreu uma, onteonte morrer duas e mais uma novilha, e hoje perdemos ôtra”. Ajude nós, Sinhô de todos. Nem temos mais o que cumê, faiz três dias.”

Acauã – Gravação de Luiz Gonzaga e letra de Zé Dantas

“Acauã, acauã vive cantando
Durante o tempo do verão
No silêncio das tardes agourando
Chamando a seca pro sertão
Chamando a seca pro sertão
Acauã,
Acauã,
Teu canto é penoso e faz medo
Te cala acauã,
Que é pra chuva voltar cedo
Que é pra chuva voltar cedo
Toda noite no sertão
Canta o João Corta-Pau
A coruja, mãe da lua
A peitica e o bacurau
Na alegria do inverno
Canta sapo, gia e rã
Mas na tristeza da seca
Só se ouve acauã
Só se ouve acauã
Acauã, Acauã…”

Muito mais que o sono, o cansaço e a ansiedade pela chegada da chuva, adormeceram João minutos após a oração conjunta com Raimunda. Candeeiros acesos. Cessado o canto da coruja. Mariposas que conseguiram se salvar da gula das andorinhas, fugiram e se aquietaram. Com o fato seguinte, concluo mesmo que se esconderam ou se abrigaram.

A noite quente que traz aquele calor conhecido na roça, agora começava a se transformar. Uma neblina e em seguida uma chuva mais forte e cada vez mais forte fazendo barulho nas telhas, acordou João.

– Chuva meu Deus! “Aubrigado” por atender minha oraçãozinha mais cheia de Fé que de conhecimento”!

Agora mais intensa, a chuva continuava caindo. A forte ventania começou a preocupar João que, longe dali, escutava os chocalhos das vacas em movimento procurando abrigo. A ressequida sombra do juazeiro não protegeria todas.

A claridade do dia seguinte chegou. João levantou, tomou café acompanhado de farinha seca e foi pastorear as vacas, na esperança que elas tivessem se protegido durante a chuva. Algumas sobreviveram, outras tantas se afogaram nos lagos formados pelo excesso de chuvas nas capoeiras. Mas, havia a alegria do futuro garantido pela chuva.

Contrito e agora só, João mais uma vez dobrava os joelhos em oração. Não era oração. Era uma cantiga do vasto cancioneiro sertanejo:

“Oh! Deus, perdoe este pobre coitado
Que de joelhos rezou um bocado
Pedindo pra chuva cair sem parar

Oh! Deus, será que o senhor se zangou
E só por isso o sol arretirou
Fazendo cair toda a chuva que há

Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho
Pedi pra chover, mas chover de mansinho
Pra ver se nascia uma planta no chão

Oh! Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe
Eu acho que a culpa foi
Desse pobre que nem sabe fazer oração”