Não era um palco dos que isolam os artistas do público. Ao contrário.
Com um desenho de uma meia lua, com altura de no máximo 15 centímetros, que permitia a interação do artista com o público, ansioso para dançar.
Extravasar ao som do que ouvia.
Parecia que a sonoridade do saxofone penetrava pelos poros das pessoas, contagiando-as.
Fazendo-as sentir a música tocada:
Careless Whisper
(George Michael)
Feel so sure There’s no-one here for me Crying on the floor I got no-one to gee, oh-oh And as the time goes by I reach out for your hand So cold You’re looking into my eyes Like you could never understand Plead my case Oh, you know it’s not the same
I’m never gonna dance again Guilty feet have got no rhythm Though it’s easy to pretend I know you’re not a fool I should’ve known better than to cheat a friend And waste a chance that I’ve been given So I’m never gonna dance again The way I danced with you
Time can never mend The careless whispers of a good friend To the heart and mind Ignorance is kind There’s no comfort in the truth Pain is all you’ll find Tonight the music seems so loud I wish that we could lose this crowd Maybe it’s better this way We’d hurt each other with the things we’d want to say We could have been so good together We could have lived this dance forever But now who’s gonna dance with me? Please stay
Êxtase total.
Sem intervalo, a estrela da noite retira o sopro do saxofone, e se deixa mostrar em sorriso de satisfação, ao tempo que um foco de luz mostra a penetrante solidez do que fazia: agradar ao público que o assistia e sentia, nota por nota, como se todos estivessem tocando naquele saxofone.
Ninguém se atrevia a dançar e perder as emoções daquelas notas tão bem tocadas.
Divino!
2 – A visita ao torrão natal
O ipê amarelo, a casa simples e o fusquinha
Guaiuba era o nome do povoado – parte de Pacajus – onde nascem os cajus e as estrelas que caem das noites para iluminar os dias. Como se fossem castanhas.
Naquela casinha, antes caiada, e agora pintada de róseo, nasceu o Zé. Zé, ali. José, fora dali pelo mundo à fora.
A estrada que levava à BR, antes não era assim como está hoje. Era areia frouxa que atolava o pé de quem a pisava.
Zé caminhava pela areia que atolava na direção da BR onde virava José. Por anos, ia levando saudades e voltava trazendo alegrias.
De noite, após cafunés e chamegos, se punha a observar estrelas num céu límpido e sem nuvens. De dia, assava castanhas dos cajus para fazer mocororó e temperar o peixe.
Os anos se passaram e José, adulto, trabalhou e conseguiu comprar um fusquinha. A estrada não atolava mais, mas o céu continuava ali no lugar dele. Límpido e repleto de estrelas.
Era primavera. O ipê que João plantara para fazer sombra e proteger a casa do calor do verão, floriu. Era amarelo. Um amarelo vivo que ao derrubar as flores amarelava o chão e a natureza pintava um quadro de beleza contrastando com o róseo da casa.
A claridade do dia mostrava um quadro que recebia o enfeite das araras que usavam o aconchego do verde de antes da floração, para o ninho e a reprodução.
A casinha rósea, o ipê, agora amarelo, o fusca brando e as araras nunca substituíram a boa lembrança dos cafunés noturnos.
Problemas na linha férrea impediu a chegada das crianças para passar as férias escolares.
Zelosa e carinhosa, a Avó fez queijos (bovino e caprino), deixou goiabas amadurecerem no pé, protegendo-as com um saco de papel – as crianças adoram tirar a goiaba madura do pé.
Doce de goiaba, rapadura novinha e broa de goma.
O chiqueiro das cabras foi limpo, pois Noraci, a mais velha das meninas, tem o hábito de acordar cedo e gosta de ordenhar, ela própria, as cabras leiteiras.
Vovó preparou o café da manhã. Cozinhou batata doce, macaxeira e abóbora – os meninos gostam de um café diferente do que tomam na cidade grande. Muito mais pela mudança do ambiente, que pelo sabor.
O noticiário do rádio colocado sobre, e próximo ao forno, garantiu que o problema na linha férrea foi resolvido – amanhã as crianças chegam e vamos preparar a montaria para espera-las.
João apanhou castanhas de caju e vai assá-las amanhã. Pena que setembro ainda esteja longe, mas a floração dos cajueiros promete boa safra.
Amanhã, quando o sol estiver esfriando, Vovó vai preparar o café. Mais uma vez!
A cognição!
“De acordo com o Novo Dicionário Aurélio, cognição significa a aquisição de um conhecimento, o ato ou efeito de conhecer, e a função da inteligência ao adquirir conhecimento. O termo também abrange a capacidade de processar percepções e a interação ativa com o mundo.”
O ano era o de 1952. Grupo Municipal São Gerardo – Aula de Português, Professora “Mundica”:
Professora: José, levante-se e soletre a palavra PARALELEPÍPEDO!
José: Pa-ra-le-le-pí-pe-do!
Professora: Correto! Crianças, “paralelepípedo” é aquela pedra usada pela Prefeitura para urbanizar nossas ruas.
Era assim que, antes de aparecer esse “genial” (hoje estou de bem comigo mesmo e não quero xingar ninguém) Paulo Freyre, que, tanto quanto George Orwell, escreveu “Revolução das frangas” – liberando a libertinagem e a pouca vergonha entre os jovens. Os “bichos e as bichas” aderiram à Revolução e estão hoje escolhendo banheiros nas escolas.
Dia desses eu soube que, alguém que nasceu com aquela mini-salsicha entre as pernas e dois redondinhos de chocolate, cismou que se sentia uma menina, embora nunca tenha menstruado e queria se assumir “trans”. Decisão de cada um, claro.
Na sala de aulas, a Professora usando calça masculina colada ao corpo, braços e o que mais dava para ver, repleto de tatuagens, pediu pelo amor de Deus:
– Cynthhya, por favor, levante e soletre a palavra UVA!
– Cynthhya sentada na cadeira escolar com a perna esquerda cruzada sobre a direita, lixando as unhas esmaltadas de cores diversas, respondeu: não levanto e não sei soletrar!
É essa a conclusão da Teoria da Libertação. Tá tudo liberado!
O governo federal que cuida do que deveria ser a Educação, investiu alguns milhões da arrecadação de impostos e “desobrigou” a perseguição da “reprovação”. Ninguém mais pode ser “reprovado”, mesmo que seja qualquer Cynthhya!
E assim caminha a juventude brasileira para o caos da imbecilidade e da viadagem. Seria esse o motivo de terem surgido tantas lésbicas nas duas últimas décadas?
Os “machos” estão sumindo e sem êxtase é o mesmo que apostar na Roleta do Cu-Trancado sem acertar uma única vez!
Imagine a humilhação que passaremos caso o vizinho Paraguai resolva, intempestivamente, invadir o Brasil. Javier Milei já disse a que veio.
Passeio vespertino com a família
Claro que, para os que têm problemas cognitivos, o capim será sempre azul. Não adianta persistir e dizer que é verde. Para aquele, o capim é azul, e, insistir ao contrário, é misoginia.
Rótulos eles sabem todos.
Mas, precisam entender e aprender o que é “cognição”!
Que trabalheira esse “lixo” velho dá!
A maior prova prática do não entendimento cognitivo, é vestir o cachorro ou a cadela (me nego peremptoriamente a rotular cachorro de “pet”) com roupinha apropriada, levar ao cabeleireiro e beijar no “fucim” do animal ao sair ou ao chegar em casa.
Pergunto: como o cachorro identifica que a cadela está “querendo nhanhar”?
Respondo tendo dúvida: cheirando e/ou lambendo a vulva. Né não?
Continuo perguntando: depois desse ato o cachorro faz uma assepsia e está apto para receber ou dar beijos no “fucim”?
Estava terminando a década dos anos 50. Lembro bem.
Fortaleza já era a “Loira desposada do sol” – mas ainda não era a atual metrópole.
A capital tinha seus pontos preferidos pelos nativos.
A preferência dos visitantes viria depois. Nos anos 80, com o turismo.
Prefeito Acrísio Moreira da Rocha cortou a fita do crescimento.
Foi sequenciado por Manuel Cordeiro Neto, e, depois, por Murilo Borges Moreira.
Esses, tangidos e emoldurados pelo povo, deram partida para a Fortaleza atual.
Curral das Éguas (ZBM) foi atração. Mercado Central, também.
Três praias mereciam a preferência dos frequentadores: Iracema, Náutico e Meireles.
Praia do Náutico a preferida: ali os estudantes “alugavam” calções de banho e ganhavam “banho de chuveiro” de bônus.
Na orla marítima apenas dois restaurantes: Cirandinha e Peixada do Alfredo.
Liceu do Ceará, Ginásio Municipal de Fortaleza, Ginásio 7 de Setembro, Escola Normal Justiniano de Serpa e Colégio Cearense pontificavam em destaque na formação educacional.
Cine Majestic, Cine Diogo, Cine Samburá, Cine Jangada e Cine Aurora (esse, o único num bairro: Otávio Bonfim) mostravam os filmes.
Fortaleza, Ceará, Ferroviário, Usina Ceará, Calouros do Ar, Maguary e Gentilândia abriram o profissionalismo do futebol cearense.
Rádios Uirapuru, Rádio Iracema, PRE-9, Rádio Assunção noticiavam o dia-a-dia das cidades.
Cid Carvalho, Paulino Rocha dominavam os horários da audiência.
Assistência Municipal de Fortaleza (Hoje Hospital José Frota), Santa Casa de Misericórdia, Maternidade César Cals e Hospital Geral do Exército atendiam as emergências da população.
Mas, naqueles anos passados e saudosos, quase tudo se concentrava em duas praças: Praça do Ferreira e Praça José de Alencar. Praça dos Voluntários, Praça dos Leões e Praça Olavo Bilac não mereciam a mesma frequência.
Praça José de Alencar centralizava os terminais dos ônibus urbanos.
Praça do Ferreira, com seu secular relógio, merecia preferência por conta do “Abrigo” com a merendeira do Pedão da Bananada e discussões de torcedores do futebol; Miscelânea com seu caldo de cana e pastel (carne, queijo e camarão), além, claro, do imperdível “Pega-Pinto do Mundico”.
Pega-pinto em floração
“Pega-pinto, amarra-pinto, erva-tostão, solidânia ou celidônia. Esses são só alguns nomes da Herbácea perene, um tipo de espinafre selvagem, que é facilmente encontrada em calçadas e terrenos baldios na região amazônica.
A pega-pinto é uma planta perene, ou seja, possui um ciclo de vida longo e pode atingir até 70cm de altura. Cresce espontaneamente em áreas abertas e antropizadas, como pomares, hortas, jardins e terrenos agrícolas em geral. Seus frutos são secos e pequenos, revestidos por pelos viscosos que aderem à pele, pelo e pena de animais que entram em contato, daí o seu nome ‘pega-pinto’.
“É uma planta medicinal potente. Uma das plantas mais diuréticas do mundo. Ou seja, com propriedades para a proteção do fígado. Sempre que possível as pessoas devem fazer chá dessa planta ou usar em saladas”, explicou o pesquisador e referência em PANC, Valdely Kinupp, do canal do Youtube.” (Informações compiladas do Wikipédia)
“Batata” do Pega-Pinto
O Sul descobriu e “abrasileirou” o chimarrão. Passou a fazer parte da vida gaúcha.
Rio de Janeiro e São Paulo adotaram o chá gelado de mate. Mate Leão tem domínio.
Fortaleza descobriu que o pega-pinto, além de refrescar, é diurético.
Nos dias atuais não tenho absoluta certeza dessa preferência e da comercialização.
Mas, no calor extremo que a humanidade colocou este planeta, nada melhor que aderir ao “refresco” de uma raiz que preenche alguns itens de cura da humanidade.
Em São Luís, por anos, o pega-pinto era vendido por duas irmãs na Fonte Milagrosa, estabelecimento situado na área tombada do Patrimônio da Humanidade.
O café é uma bebida preparada a partir dos grãos torrados do fruto do cafeeiro. Tradicionalmente consumido quente, também servido gelado. A bebida contém cafeína, substância com efeito estimulante, cuja concentração varia conforme o método de preparo, situando-se geralmente entre 80 e 140 mg por cerca de 207 ml.
Estudos epidemiológicos sugerem que o consumo moderado de café pode estar associado à redução do risco de doenças cardiovasculares, embora os resultados variem conforme a metodologia e a população analisada. O Dia Mundial do Café é celebrado em 13 de abril.
O café é originário das terras altas da Etiópia, em um local chamado Kaffa. Porém, a palavra “café” não é originária de Kaffa, e sim da palavra árabe qahwa, que significa “vinho”. Por esse motivo, o café era conhecido como “vinho da Arábia” quando chegou à Europa no Século XIV.
Uma lenda conta que um pastor chamado Kaldi observou que seus carneiros ficavam saltitantes e conseguiam percorrer longas distâncias ao comer as folhas e frutos do cafeeiro. Ele experimentou os frutos e sentiu maior vivacidade. Um monge da região, informado sobre o fato, começou a utilizar uma infusão de frutos para resistir ao sono enquanto orava.
Parece que as tribos africanas, que conheciam o café desde a Antiguidade, moíam seus grãos e faziam uma pasta utilizada para alimentar os animais e aumentar as forças dos guerreiros. Seu cultivo se estendeu primeiro na Arábia, onde os manuscritos mais antigos mencionando a cultura do café datam de 575 no Iêmen. Até então, era comum o consumo da fruta in natura. O conhecimento dos efeitos do café disseminaram-se e no século XVI o café foi levado a península Arábica, sendo torrado para se transformar em bebida pela primeira vez na Pérsia. Na Arábia, a infusão do café recebeu o nome de kahwah ou cahue. Enquanto na língua turco otomana era conhecido como kahve, cujo significado original também era “vinho”. A classificação Coffea arabica foi dada pelo naturalista Lineu.
O café, no entanto, teve inimigos mesmo entre os árabes, que consideravam suas propriedades contrárias às leis do profeta Maomé. No entanto, logo o café venceu essas resistências e até os doutores muçulmanos aderiram à bebida para favorecer a digestão, alegrar o espírito e afastar o sono, segundo os escritores da época.
No Brasil, o estado de Minas Gerais destaca-se como o principal produtor nacional, com cerca de 26,6 milhões de sacas, correspondendo a mais de 50% da produção brasileira e aproximadamente 17% da produção mundial.
O município de Patrocínio, em Minas Gerais, saltou três posições e assumiu a liderança no ranking de produtores do grão. Em 2012, a safra de café atingiu 64.789 toneladas naquele município (2,1% do total nacional). As informações são da Pesquisa Agrícola Municipal (PAM), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Café em sacos
O sucesso da lavoura cafeeira em São Paulo, durante a primeira parte do século XX, fez com que o Estado se tornasse um dos mais ricos do país, permitindo que vários fazendeiros indicassem ou se tornassem presidentes do Brasil (política conhecida como café com leite, por se alternarem na presidência paulistas e mineiros), até que se enfraqueceram politicamente com a Revolução de 1930.
Uma cronologia do café no Vale do Paraíba Paulista seria a seguinte:
· fins do século XVIII – exportação insignificante por Santos
· 1790 – primeiras plantações em Areias
· 1797 – 100 sacos de café exportados por Santos
· 1801 – exportação de 34 sacas
· 1803 – irradiação dos cafezais em direção a Parnaíba
· 1807 – exportação de 316 sacas
· 1822 – pequenos cafezais em Cachoeira, Taubaté, Guaratinguetá
· 1822 – em Jacareí, se plantava em larga escala
· 1822 – em Taubaté, todos abandonavam a cana de açúcar para investir em café
· 1822 – de Lorena até Bananal, apareciam os primeiros barões do café
O café era escoado das fazendas depois de secados nos terreiros de café, no interior do estado de São Paulo, até as estações de trem, onde eram armazenados em sacas, nos armazéns das ferrovias, e, depois embarcado nos trens e enviado ao Porto de Santos, através de ferrovias, principalmente pela inglesa São Paulo Railway.
Consumo
Os maiores consumidores de café per capita do mundo encontram-se no Norte da Europa, mais concretamente nos países nórdicos. A Finlândia é o atual líder do ranking com 3 a 4 xícaras de café por dia, o que equivale a aproximadamente 5,8kg ao ano, seguida de perto pela Noruega e pela Suécia. Esse consumo elevado dos finlandeses, justifica-se porque esse país, localizado no norte da Europa, possui temperaturas de extremo frio no inverno, ou seja, suas condições climáticas contribuem para a necessidade de consumo da bebida, consumido quente.
Apesar do Brasil ser um dos países a produzir mais café no mundo, estando em primeiro lugar no ranking, os brasileiros não consomem tanto café, visto ao que produzem. Com o cafezinho incluído tradicionalmente na cultura brasileira, atualmente o Brasil é o 14º país que mais consome café por habitante do mundo. (Informações compiladas do Wikipédia)
Grãos de café após secagem prontos para torrar
Independentemente da origem, da produção e do consumo, o café ganhou “status” brasileiro. Empresas brasileiras se dignam a observar “a hora do café” para seus funcionários. Normalmente um intervalo de 15 minutos. Era assim, quando trabalhei no Rio de Janeiro. Não sei se a prática seguiu moda Brasil à fora.
Rapadura garante um café mais gostoso
Conheci café através de uma velha que não nasceu na Etiópia. Nasceu dos índios Paiakus. Adulta e casada, sempre “mandava” (era, era assim mesmo: mandava) meu Avô comprar fumo de rolo na bodega que não ficava tão próximo, e “pedia” (agora, ela pedia mesmo) para Vovô comprar, além da pinga para tomar antes do banho, rapadura e uma quarta (250 gramas) de grãos de café. Àquelas 250 gramas ela adicionava mangirioba e torrava tudo num tacho, sem esquecer de transformar a rapadura em melado que adicionava aos grãos torrados.
Depois, punha à secar o café torrado.
A etapa seguinte era levar ao pilão, e pilar. Peneirava numa arupemba e, os pedaços que ficavam eram passados pelo moinho manual de mesa.
Aquele café era muito gostoso!
E eu nem desconfiava, naquele tempo, que os grãos eram originários da Etiópia, mas multiplicados nos sertões de Minas Gerais.
Era um pó de café tão forte e gostoso, que ela “passava” duas vezes. Fervia água numa lata dependurada numa vara sobre o fogão, e adicionava nacos de rapadura. Coava num saco velho e levava ao bule. A mesa ainda era composta com leite de cabra, batata doce cozida e beiju de farinha com nacos de coco.
Tacho usado para torrar grãos de café
Muito mais que selar o jumento, e se deslocar até a bodega para comprar fumo de rolo, pinga rapadura e grãos de café, Vovô tinha a “obrigação” de colocar o machado no ombro e sair na mata cassando uma árvore cujo tronco servisse para fazer um pilão.
E, convenhamos, um pilão não é feito de uma noite para o outro dia. É trabalho! A peça mais fácil é a “mão-de-pilão”, que pode ter uma ou duas cabeças. E essas cabeças são feitas, via de regra, nas tardes de domingo depois da madorna do almoço.
Pilar café é um serviço que requer perícia. Café é caro. Durante o pilar, perder café que encha uma colher, é prejuízo. O pilão também pila milho torrado para fazer fubá, milho cru para fazer xerém para os pintos e massa para fazer cuscuz. Além de pilar arroz para retirar as cascas.
Esse tipo de trabalho ainda hoje é mantido em alguns povoados municipais.
Café sendo “pilado” no pilão
Durante muito tempo, nas capitais e cidades grandes, era fácil beber um cafezinho. Os fumantes adoravam acender um cigarro após o café vendido nos balcões. Hoje, mesmo com o Brasil dominando o ranking do consumo, aquele cafezinho numa xícara pequena desapareceu.
Agora, só se bebe café nos shoppings. Café expresso, diga-se.
Nesses shoppings, o café expresso é sempre degustado em rodas e conversas entre amigos.
O que mais assusta aos mais antigos, é a quantidade de cafés isso, cafés aquilo.
Mas, a cultura que faz o Brasil dominar o ranking do consumo desse produto etíope, continua sendo o café matinal de todo dia. Às vezes, um “café da manhã” está repleto de frutas, yogurts, sucos e o que menos se vê é o café.
A viagem da volta ao final das férias, sempre vai ser muito diferente e menos emocionante que a viagem da chegada para viver o período de férias. Férias escolares, explique-se.
Na chegada, há lágrimas. Lágrimas de alegria.
Na viagem da volta, também há lágrimas. Lágrimas de tristeza, de despedida.
A chegada é feita com flores de boas-vindas. A viagem da volta leva sempre malas abarrotadas de tristezas e da saudade que começa a bater naquele instante.
A estação vive festa para a viagem de chegada.
A estação cresce impulsionada pelo fermento da alegria. Na viagem da volta, a estação se entristece, se apequena, diminui.
A viagem será sempre uma viagem.
* * *
A espera
A espera do encontro poético
Esperei, conforme combinamos.
Escolhi um dos melhores locais para esperar-te, conforme tens demonstrado nas nossas (mais tuas que minhas) comunicações.
Esperar é ter a certeza da tua presença.
É como a rima de um soneto, e de uma poesia, cuja ausência gera um descontrole – e o encontro e a poesia não se completam.
Esperei, conforme combinamos.
Escolhi um lugar onde as flores estavam vicejantes, bonitas, tanto quanto tu e a tua presença.
Enquanto esperava, e, sentindo a tua ausência, colhi flores que tinham o teu perfume – talvez por isso a tua demora me fez entristecer..
Esperei, conforme combinamos.
Não combinamos tua demora, tampouco tua ausência.
Escolhi um bom banco, onde havia as flores mais lindas e perfumadas. Os lampiões desenhavam o entorno de uma neblina fraca. Pouco sabiam que eu estava te esperando, conforme combinamos.
A neblina virou chuva. Os lampiões acendiam e apagavam sinalizando que não virias, e fui embora.
Molhado.
Triste.
Cabisbaixo, mas consciente que te esperarei. Se combinarmos.
* * *
A semente semeada
Semear sementes é dar chances à vida
“Porque, assim como a terra faz brotar a planta e o jardim faz germinar a semente, assim o Soberano, o Senhor, fará nascer a justiça e o louvor diante de todas as nações.”
O que você semear, nascerá.
E o fruto, doce ou azedo, chegará até você.
Alguém que caminhou pelo deserto, passou sede e sofreu fisicamente, pelas mãos divinas alcançou a “Terra prometida” – e é chegada a hora de semear a boa semente. Essa nascerá e servirá de alimento para muitos.
O bezerro de ouro edificado com o vosso sangue e a vossa adoração, perecerá.
O despertar será renovado – porque de Deus, ninguém zombará.
Nascido Eric Arthur Blair no dia 25 de junho de 1903 na Índia, mas, famoso e mundialmente conhecido pelo pseudônimo de George Orwell, o autor do livro best-seller traduzido para a língua portuguesa com o título de “A revolução dos bichos” é motivação e inspiração para revoluções.
Perseguidos durante anos por “Napoleão” (Napoleon) os bichos foram aprisionados numa espécie de “Papudinha” existente na selva, pelo simples fato de reclamarem a escassez da ração.
Foram enganados e presos. A partir de então, a ração passou a ser apenas uma vez por dia e, ainda assim, apodrecida.
A humilhação, o sofrimento e a perseguição foram tamanhas que, “do nada”, apareceu “Bola de Neve” disposto a liderar um levante sem fim e sem medição das consequências: o movimento ficou conhecido como “A revolução dos cururus”.
Eu, Zé Ramos (conhecido apenas entre os familiares, pelo pseudônimo de “Zé Alfredo”) nascido não na Índia, mas entre eles com descendência materna dos índios Paiakus, vou lhes contar em poucas linhas os dias que antecederam, como aconteceu e as consequências dessa “cururuzada”.
Bola de Neve “convencendo” a perereca
Lembro ainda que era noite. Chovia. Aquela chuva fininha, mas que molha muito. Principalmente o chão de terra “regando” as plantas. Por volta da meia-noite a chuva cessou.
Como trombetas anunciando algo, as cigarras começaram a cantar. Foram seguidas pelos grilos e, como marcação orquestral ouvia-se o coaxar dos sapos. Era o sinal para a luta contra as tiranias de Napoleão. Ninguém ali o suportava mais.
Foi quando Bola de Neve, o mais antigo e maior cururu da Papudinha, resolveu esquecer a perereca com a qual se multiplicava por instantes, e resolveu organizar aquela cururuzada para que a Revolução tivesse êxito.
Todos os sapos, bichos e afins à luta.
“Chega de injustiça. Queremos tratamento e ração diferenciada. Temos esse direito. Tudo está consagrado pela nossa constituição aprovada no dia 22 de setembro de 1988, e promulgada no dia 5 de outubro do mesmo ano” – bradava Bola de Neve!
Mas, Napoleão, o tirano, por inúmeras vezes invadiu o matagal, ofendia os bichos e até jogava água de sal nos cururus, depois de inúmeras vassouradas como castigo. Sempre determinando um prazo de 48 horas para que todos se humilhassem.
A hora dele havia chegado!
Bola de Neve orientando um dos muitos soldados da Revolução dos Cururus
Eis que o destino final do tirano Napoleão começava a ser desenhado.
Do outro lado do rio de águas caudalosas, havia uma selva repleta de ocupantes esclarecidos e poderosos. Eles também tinham entre si, o seu Bola de Neve, com características diferenciadas. Ele era quase “albino” e tinha entre os auxiliares alguém de extrema confiança e conhecedor das falcatruas e perversidades de Napoleão. Os dois se identificaram muito com Bola de Neve. Se tornaram amigos confiáveis e agiram rápido.
Traçaram as ações e nelas tiveram o apoio total de Patinhas, o multimilionário que vivia encantado com outros planetas.
Foram à travessia das águas caudalosas do rio e atravessaram até com muitas facilidades. Prometeram ações diversas para o começo de outubro.
Pelo visto, sem contar a tremedeira, o tirano Napoleão encontrou panos para as mangas das camisas.
“Oh! Deus, perdoe este pobre coitado Que de joelhos rezou um bocado Pedindo pra chuva cair sem parar
Oh! Deus, será que o senhor se zangou E só por isso o sol arretirou Fazendo cair toda a chuva que há
Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho Pedi pra chover, mas chover de mansinho Pra ver se nascia uma planta no chão
Oh! Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe Eu acho que a culpa foi Desse pobre que nem sabe fazer oração”
Música “Súplica Cearense”, da autoria de Gordurinha e Nelinho
Por que, em alguns países a “caça esportiva” (caçar pelo prazer da prática) é permitida?
Como perguntou Chico Anísio durante uma entrevista ao Jô Soares: “Que falta vai fazer à humanidade, o Mico Leão Dourado, se matarem todos?
E eu aproveito e pergunto: qual é mesmo a utilidade do Tamanduá, do Rinoceronte, da Zebra?
Claro que, quem nasceu no Rio de Janeiro, foi educado por boas famílias, estudou em boas escolas e nunca sentiu nem ouviu o ronco das tripas, só come picanha, choriço, carnes argentinas e churrascos gaúchos, será um eterno defensor das espécies, muitas das quais ele sequer ouviu falar.
Agora alguém que nasce e vive na região desprotegida de planejamento de captação da água, onde o índice pluviométrico é baixíssimo e que muitos vivem rezando “para o sol se esconder um tiquinho, pedindo pra chover, mas chover de mansinho pra ver se nasce uma planta no chão” que possa ter alimento para o gado, para as cabras, para as galinhas e para os peixes, jamais vai deixar de comer o que lhe sacie a fome.
Gado morto pela falta d´água
O criador, cabisbaixo, olha em volta e até aonde a vista alcança: tudo seco.
Olha para o boi, até então de estimação, pois era quem reproduzia a maior parte dos bezerros dali.
O boi parece chorar.
Sente o que pode acontecer.
Sabe que, de um jeito (abatido pelo proprietário) ou de outro (se permanecer vivo e sem ter nada para comer) a morte é inevitável.
Os meninos já sentem a escassez. Nenhuma caça.
O camaleão, primeira opção para evitar que a fome os matasse tal qual o boi, já fica difícil de caçar. A coloração atrapalha. Não é mais verde. Virou cinzento e se confunde com as estacas e os paus das árvores e das cercas.
Camaleão só é preservado onde há o verde e a fartura
Não é difícil encontrar alguém vendendo carne de jacaré nas feiras de muitos interiores do Maranhão. Como é abatido e a qual espécie pertence, também não sei. Mas, pela forma como é vendida aquela carne, com certeza quem vende sabe que é proibido.
Quem compra, também sabe.
Mas, em outros lugares, a fome não quer saber de proibição.
E cabe uma pergunta: por que o homem não pode comer carne de jacaré, e o jacaré por comer o homem?
Alguém pode até me rotular de idiota por fazer essa pergunta.
Mas, o jacaré está sempre com fome?
Quando ele não está com fome, deixa de ser predador?
Desde quando existe a letra daquela música, dizendo que, “jacaré que não se vira, vira bolsa de madame”?
Jacaré gordo que merece ser comido
Mas, repito a pergunta feita no início deste texto: por que a “caça esportiva – sem que se saiba o destino da caça abatida – é permitida” e a caça para a sobrevivência é proibida?
Por que as leis brasileiras que tratam desse assunto são tão idiotas e seletivas?
Não. Não vou escrever aqui que é proibido “espantar” uma baleia em alto mar. Também não vou dizer que, seletivamente, em alguns casos, as leis brasileiras são mandadas pcdc!
Paca pode ser comida e mostrada que está “gostosa”
“Lava roupa todo dia, que agonia Na quebrada da soleira, que chovia Até, até sonhar de madrugada Uma moça sem mancada Uma mulher não deve vacilar”
Depois de caminhar alguns minutos pelas veredas na direção do açude, Zoraide de Juca – nos interiores do Ceará, ninguém é conhecido pelo sobrenome. Alguém sempre será “Zé de Miguel”, “Zoraide de Juca”, “Beatriz de Luciano”, “Domingo de Zenaide”, e daí em diante – carregando na cabeça uma bacia com roupas e uma rede cagada para lavar.
No bornal, uma barra de sabão em pedra, cachimbo, uma faca pequena, fumo de rolo, rapadura e farinha seca para a merenda. A água já tem no açude.
Mais com pouco chegam Damiana de Inácio, Domingas de Getúlio e Sandra de Zezim do Bode – assim conhecido por ser o único matador de caprinos nas redondezas.
Pronto. Está formado o mais antigo grupo de zap-zap. Tem até nome registrado no cartório do povoado: “Amigas do Açude e do Sabão”.
– A trouxa hoje tá muito grande, por isso vou cuidar comigo! Falou Domingas de Getúlio!
– Mermã, a minha também não tá pequena e o diacho é que é quase só roupa branca. Os meninos vão precisar pra ir à missa no domingo, disse Sandra de Zezim do Bode.
Eis que o conversê muda de tom:
– Muié, tão dizeno que a fia de Maria do Rosário tá de bucho! Tá prenha mesmo… e não quer dizê quem é o pai, prumode num dá confusão!
As muiés reunidas na lavação
Naqueles tempos passados, “embuchar” a fia de alguém conhecido, tinha que casar. E, se não casasse, o buraco era mais pro lado do que pro meio. O cabra ia se ver!
Domingas de Getúlio não parava de falar. Mas, também não parava de esfregar a roupa. Repentinamente, saiu de soslaio pras bandas do matagal. As outras pensavam que ela tinha “ido conversar com o sabugo de milho” – mas, não foi, porque não levou a vara prumode ispantá os poicos.
Quando menos as outras esperavam, Domingas tava de volta. Tava de volta com uma braçada de ramos de melão São Caetano, que, nas necessidades, dava pra substituir o sabão – só num dava quando a roupa a ser lavada era branca.
– Mulé de Deus (disse Damiana de Inácio), o teu sabão acabou-se foi? E por causo de que tu num falô, mulé?! O sabão que eu truxe vai dá que sobra!
Damiana de Inácio lavando uma rede
– Deixa assim, cumade! Eu num calculei dereito a quantidade de roupa – disse Domingas.
– Ora, bom basta! Retrucou Damiana de Inácio.
Era chegada a hora da merenda. O sinal era o afastamento das amigas para a sombra grande e confortável da ingazeira.
Bacias e cumbucas pra cá, latas vazias pra cá e a merenda começou a aparecer. Nisso, Damiana de Inácio olhou para as amigas e começou a sorrir, certamente lembrando de alguma coisa do passado.
A cobrança veio rápida. Conta Dami, conta. Pediram as outras.
– Se essa ingazeira tivesse boca e falasse!….. KKKKKKKKKK
– O que foi mulé? Perguntaram as outras.
– Afffmaria! O hôme era um jumento, vote! Começou Damiana.
As outras arregalaram os olhos em expectativa.
– Vocês são doidas, num posso dizê! Só digo (gargalhando alto) que o hôme era um jumento. Mas que foi bom, isso foi! Concluiu Damiana.
– Só pode ter sido Getúlio, descobriu Sandra de Zezim do Bode!
– E, como diabos tu sabes, que Getúlio é um jumento, mulé?! Perguntou Domingas, já exigindo explicações!
Foi nesse exato momento que a filha de Maria do Rosário, a grávida, aparece. Foi, também, quando aquele assunto acabou.
– Saliente que só, Damiana, que naquele ambiente de lavação de roupa na beirada do açude, sabia de tudo, vociferou:
– Eita, espia aí a buchuda! Será que vai nascê um “jumentinho”???!!!
O céu tá ficano vremeio. Com certeza, é coisa de Deus. Só pode!
É o que minha vista tá alcançando. Daqui mais com pouco, o dia tá amanhecido.
Era assim!
Sempre foi assim na visão do povo que produz para dar o dicumê que quem num planta e ainda reclama o preço!
E o dia tá chegano. Clarim, clarim com um sol maravilhoso.
O rádio portátil ou não, dá a direção de tudo
Seu Messias, antes mesmo de tomar o café com beiju, babata doce cozinhada e amassada num prato de barro onde vai botar leite de cabra fervido, tá sentado no batente da porta da cozinha escutando o rádio. O programa matinal do rádio diz tudo. Dá tudo que muitos precisam ouvir antes de pegar o matulão e partir pra roça.
De repente, a característica sonora do Repórter Esso invade os tímpanos de Messias:
– Atenção, muita atenção!
Em cadeia nacional, o seu Repórter Esso informa: “Morreu o Presidente Getúlio Vargas! Dentro de instantes, diretamente do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, mais detalhes desse fatídico acontecimento”!
Assustado, Messias nem conseguiu levantar do batente da porta.
Rádio Philco antigo
Era assim. Foi assim durante muito tempo.
O programa de rádio era o GPS de quem morava na roça. Informava desde chá para combater gripe, ensinava como assar uma carne na panela de pressão, ensinava como tomar medicamentos alopáticos. Tipo: “Melhoral, melhoral! É melhor e não faz mal. Ou, ainda: “Vick vaporub, o descongestionante das crianças!
Ícones desconhecidos entravam pelas portas da frente das casas, deitavam nas redes e nas camarinhas sem pedir licença. Sempre através do rádio.
Heron Domingues, Narcélio Limaverde, Gontijo Theodoro, Ivan Lima e até Valdir Amaral, o “indivíduo competente – dez é a camisa dele.”
Atualmente os programas radiofônicos só tocam música. Não sei se em obediência à legislação, mas o rádio AM está sendo substituído pelo rádio FM. Tremendo desserviço para os “Seu Messias” da roça e da vida.
A noite chegando e trazendo chuva
Durante anos, nas emissoras PRE-9 e Assunção Cearense, OLIVEIRA RAMOS, meu irmão que chegou (e foi embora) primeiro, se transformou no GPS dos Messias da vida, comandando um programa sertanejo, no entardecer de cada dia: “Segura o bode”!
Era ao mesmo tempo o nome e o chavão do programa sertanejo, que Ele misturava com histórias e estórias vividas no sertão, nas Queimadas, na Guaíúba e na Pacatuba – mas tinha alcance estadual, e, provavelmente, nacional.
“Pula a fogueira, iaiá Pula a fogueira, ioiô Cuidado para não se queimar Olha que a fogueira já queimou o meu amor
Pula a fogueira, iaiá Pula a fogueira, ioiô Cuidado para não se queimar Olha que a fogueira já queimou o meu amor
Nesta noite de festança Todos caem na dança, alegrando o coração Foguetes, cantos e troça, na cidade e na roça Em louvor a São João”
Francisco Alves
Os anos eram 1952 e 1953. Tenho absoluta certeza.
Pela referência religiosa ligada aos santos Antônio, 13; João, 24; e Pedro, 29, os festejos e quase todos os arraiais eram montados nos pátios das igrejas – a quem também, por justo, cabeça bom percentual do lucro das barracas. Barracas de diversões com jogos infantis e juvenis e comidas típicas.
Ao final de cada noite, como acontecia também nos festejos dos santos e santas que nomeavam as paróquias, o leilão. Aí, o rateio do lucro, era meio a meio.
Detalhe: a igreja só cedia o espaço físico. Nunca comprava ou pagava nada. Só recebia.
Fogos de artifícios
E é aí que entra a história do que vivemos na tenra infância.
Em Fortaleza chegavam os fogos e os artifícios fabricados pela Caramuru.
A publicidade começava a acontecer a partir do começo de maio. Fogos: para a criança que os pais começavam a comprar – traques, fósforos luminosos e bombinhas.
Outras fábricas que nunca se sou se eram idôneas, fabricavam as bombas “rasga lata” e alguns foguetes.
Meu pai me abastecia de traques. Éramos sete irmãos. Os dois mais velhos já viviam a adolescência e os mais novos ainda não haviam chegado. Eu em 1952, tinha apenas 9 anos. Era o escolhido para as proezas do pai.
Os traques que explodiam no chão e nas paredes
Quando chega a noite, lá íamos nós (mãe, tia, primos e primas) para os arraiais da Igreja Matriz. Apenas para nos divertir, pois nunca participamos dos leilões que apregoavam galinhas e perus assados – não havia dinheiro para um único lance.
Mas, havia sempre diversões que nos cabiam: jogo do preá; laçar “carteira” de cigarros; tiro ao alvo – isso sem contar a possibilidade de saborear o algodão doce, os churros, as pipocas e as “chegadinhas” (casca do sorvete, vendidas sem o sorvete).
Vez por outra os auxiliares da igreja mandavam para os ares um ou até dois foguetes – claro que o índice de violência era muito pequeno e todos assistiam aquelas explosões em paz.
Mas, mesmo com o baixo índice de violência, os malefícios estavam sempre presentes. Os maus elementos fabricavam e vendiam (e encontravam quem comprasse) as bombas “rasga lata” – um artefato de explosão forte e barulhenta. Era comum, alguém usar uma lata de leite Ninho e “riscar” o fósforo da bomba e cobrir com a lata.
Era um barulho e perigo enorme. Mas, para uma criança de 9 ou 10 anos de idade, sempre foi uma diversão muito arriscada.
Bomba rasga lata
Quase que como um aviso, foguetes eram acesos e mandados para os céus, anunciando o encerramento do arraial naquela noite. A seguir, estava sendo iniciado, também, mais um leilão em benefício das “obras” da Igreja Matriz.