CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O POVO LUTANDO PELO RETORNO DO CARNAVAL DE RUA EM MACEIÓ

Bloco da Nêga Fulô

De repente, um Prefeito energúmeno cancelou o carnaval de rua de Maceió com o esdrúxulo argumento: “não incomodar ao turista”. Foi a maior burrice criminosa que fizeram com o povo. Os moradores da cidade começaram a procurar folia em outros locais como Recife, Salvador, Rio, deixando um vazio no município. Maceió, durante os dias de Carnaval, parece um cemitério. Praias, restaurantes, bares vazios e comerciantes da teia econômica informal, deixando de faturar um bom dinheirinho nos dias de Carnaval.

CARNAVAL É ECONOMIA CRIATIVA. CARNAVAL É LUCRATIVO.

A abrangência da Economia Criativa, tem como matérias primas a inteligência e a criatividade humanas, recursos que, se bem trabalhados, tendem ao infinito. Sendo assim, com possibilidades praticamente ilimitadas, a economia criativa pode ser considerada revolucionária no mundo atual.

O Carnaval constitui-se numa das mais conhecidas expressões culturais do Brasil, pode ser visto como uma síntese da Economia Criativa, uma vez que nas suas diversas formas de manifestação, os pequenos comerciantes, como ambulantes, taxistas, costureiras, músicos, montadores têm a oportunidade de trabalho e renda. .

PREJUÍZO DE MACEIÓ, POR NÃO TER CARNAVAL DE RUA ORGANIZADO

Durante o carnaval viajam 200 mil maceioenses em busca de folia. Se cada um folião gastar R$ 1.000,00 (um mil reais) durante o Carnaval, serão R$ 200.000.000,00 (duzentos milhões de reais) que deixam de circular em Maceió durante os quatro dias de Carnaval. Perdem dinheiro indiretamente os ambulantes, taxistas, costureiras, fábricas de camisas, rede de hotel e pousada, músicos, restaurantes, bares, montadoras, enfim uma gama de pequenos e médios negociantes.

E os 800.000 maceioenses que ficam na cidade, por não poder viajar, ficam sem Carnaval, sem a alegria fugaz de quatro dias.

BLOCO DA NÊGA FULÔ

Não conformados com a falta de carnaval na cidade de Maceió, alguns amigos formaram um bloco para defilar no domingo de carnaval bloco. O BLOCO DA NÊGA FULÔ, uma homenagem a um dos mais belos poemas do poeta alagoano Jorge de Lima, enaltecendo a beleza da cor negra dos brasileiros. Foi armado um belo estandarte, camisas do bloco distribuídas gratuitamente. Sem trio elétrico. a Orquestra de Frevo do Maestro Elizaubo Wandenberg, tocou durante o desfile marchinhas antigas e múicas alagoanas. Foi sucessso e muita alegria.

Todos os anos o Bloco da Nêga Fulô desfila no domingo de Carnaval. A concentração é na Praça 7 Coqueiros às 14.30 horas. Não tem corda, é aberto para todos os foliões, não é obrigatório o uso da camisa do bloco, embora sejam distribuídas 300 camisas do bloco. Todos os anos o Bloco da Nêga Fulô homenageia uma figura da cultura alagoana. Em 2026 será homenageado um dos maiores carnavalesco da história da cidade, o MOLEQUE NAMORADOR, que cedo partiu para fazer Carnaval no Céu.

Desfila uma Ala de Cadeirantes. A nossa linda NÊGA FULÔ ( a atriz Allana Gatto) vai abrir o bloco.caindo no passo com um jovem bailarino, representando o MOLEQUE NAMORADOR.

Esse ano de 2026 vamos formar o Blocão do Domingão, juntando com mais seis blocos desfilando no domingo de carnaval saindo da concentração nos 7 Coqueiros ás 14.30 e término do desfile na Praça do Alagoinha. Todos convidados, paga nada. As camisas serão gratúias.

O PRINCIPAL OBJETIVO DO BLOCO DA NÊGA FULÔ É O RETORNO DO CARNAVAL DE RUA NOS DIAS DE CARNAVAL. OS GOVERNOS: ESTADUAL E MUNICIPAL TEM CONTRIBUÍDO AO RETORNO DO CARNAVAL DE RUA. MAS, MUITO POUCO, MUITO POUCO MESMO. QUEREMOS UM CARNAVAL NOS QUATRO DIAS DE CARNAVAL COM O POVO NA RUA DESFILANDO COM BLOCOS E SE DIVERTINDO, TODOS TÊM O DIREITO DE UMA ALEGRIA FUGAZ QUE SE CHAMA CARNAVAL.

– O CARNAVAL É A MAIOR MANIFESTAÇÃO CULTURAL ESPONTÂNEA DO POVO BRASILEIRO.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O CARNAVAL ERA ASSIM

Eu nasci num ensolarado domingo de carnaval. Aos cinco anos, fantasiado de pierrô com lança-perfume na mão, frequentava o baile infantil do Clube Fênix. Aos dez, moleque, acompanhava o carnaval de rua, atrás dos blocos. Durante a juventude aguardava o carnaval chegar acontecendo as pré carnavalescas: Baile do Hawaii, Preto de Branco, o chiquérrimo Baile de Máscaras onde a alegre e bonita burguesia em fantasia ou smoking caía no passo. Amanhecia o dia dançando na areia da praia, banho de mar na praia da Avenida da Paz.

Quinze dias antes do carnaval a COC, Comissão Organizadora do Carnaval, realizava, todas as noites, na Rua do Comércio, a Maratona Carnavalesca, Além do corso, fila de carros rodeando o centro da cidade; nas esquinas uma orquestra tocava frevança. Caíamos no passo junto às meninas virtuosas, soldados, empregadas, prostitutas, o povão se misturando na alegria do frevo, sem diferenças e preconceitos, apenas sorrisos, remelexo do corpo e a alegria de traçar uma tesoura nos passos de um frevo.

Domingo anterior ao carnaval acontecia o animadíssimo Banho de Mar à Fantasia. Desfile e concurso de troças, escolas de samba, fantasias e bloco carnavalesco. A turma de Ruben Camelo, Bráulio Leite, Pitão, Santa Rita, Alipão, os irmãos Moura, exibia as críticas, bem humoradas, à política, aos costumes, aos acontecimentos da época. Eles eram os arautos da animação, brincavam nas ruas, nos clubes e biroscas da cidade.

Outros foliões fantasiavam-se com irreverência: Fusco, Tarzan, Lincoln, concorriam aos prêmios. Eu e amigos ficávamos apreciando a passagem dos desfiles diante à Comissão Julgadora aguardando uma tradição: todos os Blocos de Frevo: Vulcão, Cavaleiros do Monte, Vou Botar Fora, Tudo ou Nada, Bomba Atômica, Pitanguinha Vai à Lua, Sai da Frente, entre outros, depois do desfile na Avenida, dirigiam-se à casa do Coronel Mário Lima. Meu pai aguardava a tropa do frevo com dois caldeirões de “laco-paco” de maracujá, cerveja gelada, cachaça e tira-gosto. Os músicos adoravam, tocavam três a quatro frevos, a moçada caía no passo no enorme terraço da casa onde nasci. Havia organização, um bloco de cada vez, se revezando. O domingo terminava tarde, minha casa entulhada de amigos, convidados, penetras, o povo. Acompanhávamos o último bloco até desaparecer em Jaraguá ao anoitecer.

O Carnaval iniciava à noite do sábado de Zé Pereira. Primeiro, a juventude brincava na Rua do Comércio, no corso em cima de um jipe, vestido de macacão, maizena na mão, meladeira entre os amigos, costume herdada dos entrudos nos primeiros carnavais no Brasil. Em toda esquina da Rua do Comércio uma orquestra de frevo animava o povão, dançando, cantando; amores surgindo, amores fugindo. É carnaval, tudo valia, amor de carnaval desaparece na fumaça. Meia-noite ao chegar em casa tomava um banho reativante rumo ao baile do Zé Pereira no Tênis Clube. A orquestra tocava marchinhas românticas, sambas e frevos até o dia amanhecer.

Domingo de Carnaval por volta das dez horas da manhã, a moçada já fazia fila para entrar na matinal do Clube Fênix, o calor retumbava com a música quente no Ginásio de Esportes, os foliões alegres bebiam de mesa em mesa, lança-perfume no ar e nos lenços. Todos conhecidos como se fosse uma imensa família, moças bonitas, barriguinha de fora, dançavam em cima das cadeiras ao som das grandes orquestras e bateria de Escola de Samba. À noite depois do corso, mais festa, mais baile. Inexoravelmente vinham a segunda e a terça-feira. “Um pé pra frente, dois prá trás, é hoje só, amanhã não tem mais”.. “Oh! quarta-feira ingrata chega tão depressa só pra contrariar”. No final da última noite, a Orquestra do Maestro Passinha, no Clube Fênix, dava as últimas voltas no salão, finalmente, descia à praia, o sol nascendo, os foliões dançando o Vassourinhas na areia branca, terminava num mergulho no mar azul esverdeado.

Cansados, molhados, sentados nos bancos da Avenida da Paz, namorados abraçados, ainda com fôlego de beijos agarrados, alegres, outros descansavam deitados na grama. Finalmente alguns amigos me acompanhavam a um café em casa. Abraçados, caminhando e cantando pela Avenida, bonitas canções: “Acabou nosso carnaval, ninguém ouve cantar canções. Ninguém passa mais, brincando, feliz, e nos corações saudades e cinzas foi o que restou.”

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BAHIA DE TODOS OS ÂNGELOS

Recentemente participei da 8ª Festa Literária do Pelourinho – 8ª FLIPELÔ. Hoje a melhor Festa Literária do Brasil. Nos intervalos, fui rever a velha Bahia, quando morei em terras soteropolitanas. Muitas recordações, onde aprendi uma outra visão do Brasil real. Onde me diverti as ladeiras da Bahia.

Em 1962 terminei o curso da Academia Militar de Agulhas Negras (AMAN) no Rio, com sangue, suor e lágrimas. Tive uma razoável classificação no final do curso, deu para escolher uma boa cidade para iniciar a carreira como tenente do Exército Brasileiro. Meu coração pediu uma terra que só conhecia pelos livros de Jorge Amado e pelas músicas de Caymmi. Escolhi o 19˚ Batalhão de Caçadores, Salvador.

Com uma mala na mão, me vi em frente ao prédio de dois pavimentos, todo ajanelado, paredes cinzentas, construção tipicamente militar.

Havia um quarto de oficial à minha espera, onde descansei um pouco. Mais tarde, da janela, contemplei um alaranjado pôr-do-sol no meu primeiro dia na Bahia. Naquele momento, me deu uma apreensão, um certo medo do desconhecido que viria pela frente. Fiquei refletindo, olhando o Sol que se punha. Mas no fundo, com certeza, sabia que tudo daria certo. Tinha aprendido muito na AMAN, estava preparado para a profissão que havia escolhido: oficial do Exército Brasileiro.

Minha casa seria, por algum tempo, o quartel, o pequeno quarto, pelo menos teria uma janela que me dava um magnífico pôr-do-sol.

Com pouco tempo, já desempenhava os trabalhos normais, os serviços relativos a tenente na 1ª Companhia de Fuzileiros.

Nos dois anos que servi em Salvador tive o privilégio de conhecer figuras incríveis que me fizeram ver uma Bahia mais bonita. Entre elas, o Subcomandante do Batalhão, coronel Diamantino Fiel de Carvalho, carioca, boêmio, homem da noite no Rio de Janeiro, amigo de artistas e de pessoas badaladas. Quando apareciam em Salvador, havia sempre um jantar, uma festa para recepcioná-los. Na casa de Diamantino, conheci grandes figuras do meio artístico brasileiro: Haroldo Barbosa, Elizeth Cardoso, Vanda Moreno, Luís Vieira e outros nomes da música popular e do teatro. Diamantino escrevia esquetes de humor para teatro e TV, era cidadão do mundo, inteligente, tremendo boa praça e bom caráter, mas na profissão era de uma exigência inarredável, principalmente com os amigos. Nas noites da Bahia, chamava Diamantino pelo nome próprio; no dia seguinte, com todo o respeito, era o Senhor Coronel. Dava-me essa liberdade, mas dentro do quartel era mais que exigente com o amigo tenente, não dava trégua na hora do trabalho. Afeiçoei-me e muito aprendi com essa figura humana extraordinária, doublé de militar e artista. Foi meu primeiro comandante.

Outra figura inesquecível, nos tornamos irmãos por adoção, era um tenente provindo do CPOR, Ângelo Roberto Mascarenhas. Ângelo me apresentou e eu conheci os mistérios da Bahia. Ele, um artista, aluno da Escola de Belas Artes. Depois do expediente do quartel, rumávamos em direção à noite baiana. Muitas vezes, passávamos na Escola de Belas Artes, eu gostava de ver as modelos nuas, mulheres lindas posando. Ângelo foi meu guia espiritual e boêmio da misteriosa Bahia. Dancei no Tabariz, frequentei a Rua Chile, o Hotel Palace. Bebemos no 63, no 44 e na Ladeira da Montanha. Na Boate Clock dancei e namorei a morena mais frajola da Bahia. Pulei o carnaval no Clube Baiano de Tênis. Foram farras homéricas na Cidade Baixa, no antigo Mercado Modelo, nas Setes Portas. Amanheci o dia em serenata no Forte de São Marcelo. Frequentei o terreiro de Mãe Menininha do Gantois. Ela jogou búzios para mim; hoje sei que sou filho de Xangô.

Foram muitas as noites conhecendo a vida mágica e musical do povo da Bahia, guiado pela mão desse artista, um dos maiores pintores de Salvador, o melhor bico de pena do Brasil.

Ângelo Roberto foi embora, me deixou chorando. Saudades do amigo, meu irmão. Ele desenhou a capa de meu primeiro livro, “Confissões de um Capitão”. Guardo com carinho sua imagem e nossas aventuras boêmias na terra de São Salvador.

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OS DONOS DA AVENIDA

Em 1918, terminou a Primeira Guerra Mundial. Alagoas não foi à Guerra, mas um filho seu, valoroso guerreiro, o então prefeito de Maceió, Firmino Vasconcelos comemorou com três dias de festas a Paz Mundial. O povo dançou e bebeu na Praia do Aterro, no centro da cidade. Maceió é talvez a única capital que tem praia no centro, no início da Rua do Comércio.

Durante o discurso, emocionado e empolgado com as doses de cachaça, das boas, que distribuiu para o povo, o alcaide prometeu que ali, naquela praia do aterro, extensa areia branca, construiria uma urbanização e daria o nome de Avenida da Paz. Como o prefeito era cabra decente, diferente desses de hoje, que fazem mil promessas e depois esquecem, logo cumpriu a promessa.

Duas calçadas paralelas, uma junto à pista de calçamento, outra do lado da praia; jardins gramados com desenhos arabescos, bancos de concreto e postes de ferro trabalhado, beleza de arte da Fundição Alagoana. Quando anoitecia, o acendedor de lampião iluminava a bela Avenida.

Tempos depois, o médico e poeta Jorge de Lima, morador da Praça Sinimbú, vizinha à Avenida da Paz, inspirou-se naqueles momentos para construir um dos mais belos poemas da língua portuguesa:

O ACENDEDOR DE LAMPIÃO

Lá vai o acendedor de lampião da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!

Em 1927, o prefeito de Maceió era o competente Amphilóphio Melo- como poeta, Jaime de Altavila- construiu o imponente e belo coreto e ampliou a urbanização da Avenida da Paz. Além de excelente administrador, Jaime de Altavila, morador da Avenida, era um dos grandes intelectuais de Alagoas. Entre tantos poemas, nos deixou esse legado:

SOBRE A AREIA DA PRAIA

Minha terra possui sete léguas de Praia
Que El’Rei doou por alvará
Sete léguas de renda e de cambraia
Por sobre a faixa verde dos coqueirais…

Após a Revolução de 1930, devido à pressão, o prefeito Abdon Arroxelas mudou o nome da Avenida da Paz para Avenida Duque de Caxias, e por muito tempo ela assim foi denominada. Mas o povo, que é sábio, continuou chamando-a de Avenida da Paz. No final dos anos 80, o vereador, batalhador, Ênio Lins conseguiu aprovar projeto na Câmara de Vereadores, retornando o nome antigo, definitivamente, para Avenida da Paz.

Nos anos 1940-1950, a elite alagoana descobriu a beleza da Avenida da Paz, que passou a ser moradia de comerciantes, industriais, intelectuais, políticos, militares, comunistas, famílias tradicionais, aventureiros, usineiros; davam um tom eclético entre moradores. \muitos investidores, compraram e construíram mais de uma dezena de casas e bangalôs. Era o grande locatário.

Apesar de tantas figuras cheias de saberes e poderes, éramos nós, os moleques de praia, adolescentes seminus, queimados de sol e sal, os verdadeiros donos da Avenida.

Ao acordar, vestíamos o calção de banho, direto para o mergulho matinal naquele mar azul turquesa. Se havia aula, depois do café, pulava no estribo do primeiro bonde, viajava em pé até o casarão do Colégio Diocesano. Na parte da manhã, aprendia as lições dos Irmãos Maristas. À tarde não havia aula, retornávamos à praia ou ao Riacho Salgadinho, com água cristalina, pescávamos de tarrafa, tomava banho no riacho.

Moleques de praia, depois de jogarmos futebol na areia, nadávamos até perto dos navios fundeados esperando vagas para atracar. Gritávamos pedindo cigarro. Os passageiros jogavam os maços, agarrávamos com cuidado para não molhar. Ao voltar, fazíamos um roda no coreto, fumávamos os cigarros lançados pelos passageiros.

À noite, o calçadão da Avenida era uma festa: jogar ximbra, pião, garrafão, gata parida, bicicleta, patins. Éramos os donos da Avenida. Donos do Mundo.

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O MELHOR PRESENTE

Há quem não goste do Natal, sente melancolia ou coisa parecida, fica triste, deprimido com a proximidade da festa natalina. Entretanto, há quem ame o Natal. Eu, por exemplo, quando dezembro aparece, me envolvo em clima de festa. São tantas as comemorações natalinas e ano novo que o velho fígado reclama. Talvez esse minha alegria natalina seja fruto das boas recordações do que ficou em minha mente e em minha alma dos belos natais de minha infância e juventude.

A festa de rua natalina iniciava em fim de novembro na Praça Sinimbu. Roda mundo, roda-gigante, navios, carrossel, tiro-ao-alvo e folguedos: reisado, chegança, pastoril. Que bonito: Viva o cordão azul! Viva o cordão encarnado! Lá vinham as pastoras num palco, dançando e cantando as jornadas: “Boa noite meus senhores todos, boa noite senhoras também. Somos pastoras, pastorinhas belas que alegremente vamos à Belém…” No intervalo nós meninos, chamávamos a Mestra ou outra pastora do encarnado em cena. Ela aparecia, saia rodada, dançando, se requebrando ao som da música, tocando no pequeno pandeiro de lata enfeitado de fitas coloridas. Meninos na pré-puberdade, subíamos ao palco com uma nota de Cr$ 1,00 (um) cruzeiro, prendia-a com presilha, como se estivesse condecorando, em seu vestido, nesse momento não resistíamos, roçávamos com a costa da mão os seios da divina pastora.

Aliás, era esse o principal objetivo daqueles meninos, maloqueiros, felizes. A pastora saía de cena rubra ainda sentindo o roçar de nossas mãos, dançando para trás, cantando até desaparecer entre as cortinas do palco. Logo depois apareciam todas novamente, cantando sorridentes outra jornada: “Meu São José dai-me licença, para o pastoril dançar. Viemos para adorar, Jesus nasceu para nos salvar. “ O pastoril era uma festa dentro da festa de rua. Andávamos em grupo paquerando as meninas desfilando pela calçada. Um olhar, um sorriso, era o bastante para alegrar o coração do jovem. O alto-falante tocava música romântica e dava recados que eram cobrados ao preço de Cr$ 0,50 (cinquenta centavos): “Alô, alô, Cidinha Madeiro, você é a menina que mais brilha nessa festa. Assinado: Você já sabe.” E dedicava música às musas de nossa ingênua e pura adolescência.

Quando aparecia um grupo de Guerreiro com vistosos chapéus de espelhos enfeitados, era sucesso. O visual do Guerreiro empolga a todos. Em algum local da praça construíam uma embarcação, um navio de taipa, de barro. A “Nau Catarineta” era palco da Chegança, dança folclórica de origem ibérica, tendo como personagens, o Almirante, o padre, os marinheiros; as músicas fala em luta entre mouros e cristãos. Muita música na praça, uma banda de pífano dava voltas na calçada tocando em animação carnavalesca.

Na véspera de Natal, pouco depois das onze horas da noite retornávamos em bando, cada qual para sua casa na Avenida da Paz. Hora de abrir os presentes embaixo da árvore de Natal, o momento da alegria Nos empanturrávamos com a ceia, sempre havia peru assado. Uma hora da manhã começava a Missa do Galo no coreto da Avenida; várias famílias reunidas em torno do Coreto, parecíamos uma só família. A alegria tomava conta de todos

Nos meus 12 anos ganhei no Natal o melhor presente de minha vida. Uma bicicleta Monark, vermelha, aro grande, uma belezura. Naquela noite assisti à missa do coreto montado na bicicleta, torcendo que acabasse rápido. Dei incontáveis voltas em torno da calçada da Avenida até meus pais me botarem para casa, cansado de tanto pedalar. No dia seguinte rodei com a bicicleta todo bairro de Jaraguá, Pajuçara, Ponta da Terra. Por muitos anos essa bicicleta foi minha companheira. Muitas vezes ia para o Colégio Diocesano (Marista) de bicicleta. Percorri toda Maceió em cima de minha amada Monark. Várias vezes desci a ladeira do Farol perigosamente guiando com os pés no guidão, as mãos soltas, menino sem juízo. Inesquecível aventuras. Ainda sinto o cheiro de borracha dos pneus furados, consertados com michelin.

Certa vez, correndo, descontrolei-me, bati com a bicicleta num muro, ela entortou, empenou. Mandei consertá-la num mecânico, me plantei na oficina, acompanhando como se ela fosse um parente sendo operado no hospital. Maior felicidade ver minha querida amiga renovada, rodando nos trinques. Natal me lembra generosidade, amizade, paz, lembra minha querida bicicleta Monark, o mais valioso presente de minha vida.

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CORNO VÉIO

Inocêncio Ferreira, assíduo funcionário do Correios, trabalhando, sentado, conferindo carimbos e certidões, sentiu-se mal, suando frio, gritou para seus colegas:

– Socorro! Estou com dor no peito. Estou com…

Não terminou a frase, sua cabeça pendeu, caiu de bruços em cima do birô. Deitaram Inocêncio no chão, afrouxaram a roupa, uma jovem fez respiração boca-a-boca. Quando a ambulância chegou, estava morto.

Inocêncio era homem sério, austero, funcionário exemplar. Tinha 52 anos, 29 dedicados ao serviço público, nunca faltou um dia à repartição. Homem formal, não bebia, nunca fumou. Tinha um físico magro de dar inveja aos amantes da malhação. Não sabia que seu coração era fraco. Todos esses predicados enchiam de orgulho à esposa. Maria Augusta afirmava convicta.

– Homem sério e decente é Inocêncio, por ele ponho a mão no fogo. Os amigos concordavam. Apenas algumas amigas mais íntimas, diziam para si mesma que Augusta poderia queimar as mãos. Inocêncio tinha um divertimento, gostava de pescaria. Em fim de semana, muitas vezes, viajava com amigos para pescar no litoral Sul de Alagoas.

O campo santo Parque das Flores estava cheio de amigos e curiosos. Maria Augusta arrasada, muita comoção no cemitério. Os amigos abraçavam, consolavam. Por conta do estado emotivo, ela não percebeu que uma senhora desconhecida chorava além do normal. Muitos notaram quando uma mocinha de seus treze anos aproximou-se do caixão depositou uma rosa, teve acesso de choro e chamou Inocêncio de pai. Essa senhora retirou a jovem discretamente.

Ao terminar a missa de sétimo dia, a viúva foi procurada pela senhora, morena, bonita, cabelos escorridos, olhos irritados vermelhos.

– Dona Augusta, eu me chamo Josefa, preciso falar com a senhora, assunto de nosso interesse.

A viúva, que estava abraçada à sua única filha, Rosinha, de treze anos, convidou-a para tomar café em sua casa com os amigos. Os parentes mais próximos tomaram o lauto café da manhã, lembrando Inocêncio que deveria estar no céu àquela hora.

Depois que todos saíram, Augusta chamou a senhora para conversar na varanda. Josefa entrou no assunto, direta, sem preparar a viúva:

– Dona Augusta a senhora precisa saber agora, não se pode adiar. Eu e Inocêncio há alguns anos tivemos uma relação amorosa. Tenho duas filhas com ele. A mais velha, Rosália, é essa que está na sala conversando com sua filha. São irmãs, incrível, nasceram quase no mesmo dia.

Augusta arregalou os olhos, desnorteada com a imprevisível notícia. Foi um choque como se tivesse levado um coice no estômago. Não admitiu. Não podia acreditar. Respondeu aos berros para Josefa.

– Mentirosa, ponha-se para fora! Não manche o nome de meu marido!

A amante sem fazer barulho disse apenas com firmeza:

– A Senhora precisava saber. Eu aceitei ser amante porque amava Inocêncio. Ele não era um santo, como a senhora pensa. Tome meu cartão, telefone-me quando acalmar. Meu advogado vai procurar a senhora.

Saiu levando sua filha que havia adorado a nova amiga, sua meia irmã e não sabia.

Pela tarde, Lindalva, uma vizinha, bateu à porta. Augusta atendeu se lamentando, chorando:

– Descobri a traição! Eu era corna e não sabia!

Lindalva teve um choque. Começou a chorar e inesperadamente confessou com voz baixa.

– Desculpe Augusta! Agora que você descobriu, quero dizer que não tive culpa. Inocêncio quando me via começava a falar aquelas coisas bonitas. Era um finório na lábia. Juro que dei a primeira vez porque prometeu parar com aquelas cantadas. Peço perdão, pelo amor de Deus.

Augusta ficou atônica e estarrecida com a nova descoberta. Botou Lindalva para fora de casa. Chorou o resto do dia. Inconformada com as histórias amorosas do defunto, ficou reclusa em sua casa. Passou um tempo sem receber ninguém, com vergonha de ter sido uma idiota. Uma incontrolável raiva de Inocêncio apoderou-se de sua alma. Na noite da missa do 30º dia, ela reapareceu, escandalizando. Entrou na Igreja com um vestido vermelho, bem decotado e justo, transparecendo as bonitas pernas. Chocou mais ainda, quando, no final da missa, convidou as amigas para dar uma volta na noitada da cidade.

A partir dessa noite Augusta se liberou. Dá para quem tem vontade. Não perde as baladas de fim de semana. Quando entra em casa, bêbada, olha o retrato do marido com a filha e ela, pendurado na parede, e pragueja.

– Agora sou livre. Dou a quem eu quiser. Corno Véio!

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A FEIA DA PITANGUINHA

Rosa, Hortência e Margarida, as três, nome de flor, filhas da professora Jacira e de Seu Jeremias, funcionário público exemplar, morreu inesperadamente de um infarto em sua caminhada matinal Um grande choque para família e amigos.

Ulisses, amigo de Jeremias, inconsolável e prestativo tentou consolar a viúva desde o cemitério. Como dispõe de tempo, aposentado precocemente, tratou dos papéis da pensão da viúva. Foi um longo trabalho nos cartórios e repartições. Passaram-se quase três meses nesse vai e vem, o que consolidou uma amizade, um bem querer entre os dois. Jacira apesar de sessentona é conservada, bonita e desejável. Os dois terminaram se entendendo num motel da praia de Jacarecica. Passaram mais de um ano encontrando-se furtivamente. Até que resolveram contar à família. Afinal Ulisses é um homem livre, divorciado, sem filho. Mesmo sem a aprovação unânime da família, Ulisses juntou seus trapos e foi morar na casa da bela Jacira, viúva de seu amigo Jeremias, cujo retrato colorido enfeita a parede da sala, sorrindo aos visitantes.

As filhas mais novas, Hortência e Margarida, casadas, viviam com seus maridos e filhos. Jacira ficou morando na casa da Pitanguinha com a filha Rosa. Apesar de um corpo escultural, um traseiro atraente, Rosa é feiosa, tem a boca troncha e alguma dificuldade em falar, problema advindo de um parto complicado. Ela cresceu e estudou numa escola, sofreu humilhação, zombaria, hoje chamam de bullying. Obviamente tem complexo de inferioridade. Penou muito na escola e na rua. Durante a adolescência teve vontade de se matar. Rosa sempre aguentou calada sua amargura. Fez vestibular e formou-se em Assistente Social, a profissão que poderia ajudar aos outros, foi sua decisão.

Mesmo feia teve namorados quando descobriu um dom de nascença: enfeitiçar um homem na cama. Operária do amor, ela tem criatividade instintiva na cama; os namorados se extasiavam. Certo engenheiro propôs casamento, ela recusou, não queria ter decepção amorosa. Assim foi vivendo. Rosa fez concurso, e em pouco tempo, era uma das melhores funcionárias da Secretaria de Educação. Tem o prazer em chegar na hora e trabalhar com dedicação. Sente-se compensada com o trabalho.

Rosa tinha um quarto bem cuidado e trancado, escrevia poemas, não queria que alguém lesse. Quando soube da ligação amorosa entre Jacira e Ulisses, compreendeu a necessidade de a mãe ter um companheiro, não criou problemas como as outras filhas criaram. Jacira trouxe Ulisses para morar em sua casa. Rosa se deu bem com o “padrasto”. Ulisses lhe tem atenção e carinho especial. Ela gosta de servir uísque e preparar tira gosto para ele e amigos nos fins de semana na calçada de casa. Certo dia, Ulisses trouxe uma novidade. Contou, com certo receio, o assunto era tabu, ninguém comentava.

– Rosinha, eu conheci um doutor cirurgião plástico, mesmo sem consentimento mostrei-lhe sua fotografia. Ele afirmou convicto que poderá com uma cirurgia plástica dar um jeito em sua boca, vai melhorar bastante a aparência. Você topa?

No dia seguinte Rosa foi à consulta com o doutor, fez os exames necessários, raspou suas economias do banco e submeteu-se à operação delicada de longa duração. Dentro de um mês, foram retiradas as ataduras de seu rosto. Ela ao se olhar no espelho irradiou sua alma de felicidade. Não que estivesse bonita, havia melhorado bastante sua feição. E falava normalmente.

Rosa ficou agradecida, tornou-se amiga íntima e confidente de Ulisses. O tempo passou e a amizade entre os dois se estreitou cada vez mais, até que certo dia aconteceu o inevitável. Agora, um ou dois dias na semana eles passam momentos de amor num motel. Rosa, lascívia, ótima no serviço, capricha no que sabe fazer de melhor; deixa Ulisses extasiado, relaxado, feliz. Jacira começou a desconfiar da amizade entre Ulisses e Rosa, hoje certeza; generosa, faz que nada sabe e deixa a vida repartir seu homem com a filha sofrida, Rosa, a feiosa da Pitanguinha.

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EX-AMOR

Danilo Mascarenhas abriu a janela da confortável suíte do Hotel Ponta Verde. Encheu-se de recordações extasiado com mar azul esverdeado. Logo telefonou para um amigo da cidade onde há 40 anos morou e cursou por cinco anos a Faculdade de Engenharia de Alagoas.

Danilo, baiano muito querido dos colegas, passou alguns dias sendo alvo de almoços e jantares. No sábado, enquanto esperava o amigo no lobby do hotel, avistou uma senhora, pareceu-lhe familiar, o coração disparou ao reconhecer aquela jovem alegre, bonita que ensaiava, cantava e dançava o rock nas festas de Maceió. Foi sua doce e inesquecível namorada. Aproximou-se.

– Tereza!

Espantada, ela levantou-se, o sangue ferveu e explodiu ao reconhecer o amor de juventude, um grito saiu da goela.

– Danilo! Não é possível.

Abraçaram-se longamente, pensamentos rodando, 40 anos de lembranças repentinas e sentimentos passados. Ao arrefecer a emoção do encontro, sentaram-se no sofá. Em um relance, o baiano fez uma rápida análise de seu ex amor: devia estar pelos sessenta, ainda uma mulher bonita, cabelos castanhos longos e lisos envolviam o rosto pouco machucado pela idade, olhos vivos castanhos, brilhavam cheio emoção. A boca carnuda era a mesma, ele dizia na época que seus lábios pareciam com os da Brigite Bardot. Tereza interrompeu-o:

– O que está olhando, seu cabra? Estou em forma, graças a muita malhação, bisturi e hormônios.

Conversaram bastante, Danilo contou que estava em Maceió para comemorar 40 anos de formatura. Confessou que, mesmo no tempo de casado, nunca esqueceu aquele amor juvenil, puro e bonito. Tereza emocionada deu um beijo em sua face, resumiu sua vida.

– Fiquei viúva há cinco anos, três filhos, quatro netos. Há algum tempo apareceu um câncer no seio, muita luta contra a doença, parece que venci, os últimos exames estavam bons. A compreensão da morte transformou minha cabeça. Hoje quero aproveitar o que resta, quero viver bem meus últimos anos. Entendi que a vida é uma dádiva. Sou uma coroa alegre que ama estar viva.

Nesse momento apareceu um colega de turma vinha buscar Danilo para o almoço de despedida. Cumprimentaram-se, ela conhecia o engenheiro. Tereza perguntou o restaurante do almoço, ficou de telefonar para Danilo.

Passava um pouco das três horas no agradável restaurante Akuaba os engenheiros com esposas deleitavam-se numa caprichada moqueca de arabaiana com cerveja. Rolavam histórias, memórias e muito uísque. De repente surgiu Tereza, deu boa tarde, cumprimentou o pessoal, puxou uma cadeira, sentou-se junto a Danilo e cochichou no seu ouvido:

– Não lhe largo mais.

Chegaram no hotel às sete da noite cantando antigas canções. Sozinhos no elevador, beijaram-se. No quarto amaram-se.. Danilo havia tomado uma azuladinha, ficou surpreso com a performance de Tereza; parecia uma loba no cio.

Depois do banho, enrolados em toalhas, sentados na varanda, pediram uma garrafa de uísque, os dois abriram os corações, contaram histórias de suas vidas. Tereza lembrou o pacto que fizeram de não escrever cartas. Ela na ilusão dele retornar, sofreu muito quando soube que ele estava morando no Canadá.

– O tempo passou e eu desisti de você, meu querido, no que fiz bem. Casei-me, mas nunca lhe esqueci. Essa é a verdade.

– Não há mais tempo de pedir desculpas. Assim que retornei à Bahia, meu pai, deputado, logo arranjou um emprego irrecusável no Canadá. Tive dificuldades com a língua e a parte técnica nos primeiros meses, logo estava dominando a tecnologia moderna de construção. Tive vontade de lhe escrever, mas achei que estaria alimentando uma ilusão. Casei-me. Depois de 10 anos retornei ao Brasil, sempre com bons empregos arranjados pelo deputado, meu pai. Tenho dois filhos, três netos e dois casamentos desmanchados. Preferi ser um coroa solteiro e boêmio. Nunca me prendi à outra mulher, acho que no inconsciente eu estava amarrado à você. Hoje tive essa clareza. Tereza aproximou-se deu um beijo em sua boca, os corpos rolaram no tapete. Adormeceram depois de muito uísque.

Amanheceu o domingo, Danilo deu-lhe um beijo no rosto, ela acordou-se e o puxou. Passaram o domingo conversando no apartamento do hotel. Desceram apenas para dar uma volta na orla, tomar uma cervejinha numa barraca. Afinal chegou a segunda-feira ingrata, só para contrariar. Danilo tinha que deixar o carro alugado no aeroporto, o avião decolava às 14:00 horas para Salvador. Tereza o acompanhou, retornaria de táxi. O carro deslizava na grande avenida. Num impulso ela beijou sua mão, seu rosto.

Na hora do embarque despediram-se entre beijos e lágrimas. Tereza retornou feliz da vida. Passou a semana recordando os bons momentos. Na sexta-feira telefonou para Danilo.

– Não vou desistir de você. Chego amanhã 12 h.. Vou lhe procurar.

– Não precisa. Estarei no aeroporto

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O JOVEM ESPANHOL

Carmencita Martínez, costureira, vivia em sua terra, Espanha. Bonita, mas infeliz, o marido alcoólatra, batia nela. Certo dia conheceu um brasileiro alegre, malandro; apaixonou-se. Combinaram, ela deixou o marido em Barcelona, fugiu de transatlântico para o Rio de Janeiro, levou o filho Alejandro de 12 anos. Durante a travessia do Oceano, outra decepção, flagrou seu novo amor abraçado com a camareira. Briga para lá, briga para lá, ficaram sem falar. Quando o transatlântico atracou na cidade de Maceió, Carmencita desceu para espreitar um pouco a cidade, quando conheceu as praias, ficou fascinada, retornou ao navio fez as malas, desceu para sempre, adotou a cidade nordestina como sua nova pátria. A fuga de Carmencita e seu filho aconteceu há 11 anos. Como excelente costureira, logo se adaptou. Hoje tem ótima clientela e vive com o filho num apartamento na praia de Ponta Verde.

Alejandro Martínez vinte três anos, mais de 1,80 metros de altura, corpo de atleta, cara bonita. Xodó das meninas na Faculdade de Direito.

Meses atrás, Alejandro iniciou, junto com colegas, a frequentar algumas aulas particulares de Direito Constitucional, matéria mais difícil da Faculdade e de todo o Brasil. Dora, a professora aposentada, cinquenta e poucos anos, senhora letrada, inteligente, de um bom humor notável. Dá essas aulas em seu apartamento para alunos da Faculdade, até para se ocupar, para se distrair. Tem ótimo salário de aposentada.

Dora foi muito poderosa nos bastidores da política. Nas brigas do poder ela metia a mão, elegantemente, protegendo seus partidários no emaranhado da corte. Seja no poder Executivo, Judiciário ou Legislativo, durante o mandato de seu amante governador, ela foi muito ouvida, teve poder de decisão. Esse poder conquistou pela inteligência, conhecimento de Direito, firmeza e posições tomadas, principalmente na cama.

A coroa tem ânsia de viver. O mais de meio século não deixou marcas na jovem alma. Corpo bem cuidado, bem moldado; com ajuda das academias e cirurgiões plásticos.

Mulher de muita leitura, gosta de fazer cursos, atualizar-se, aprender. Inventou esse curso de três meses, todas as quartas e sextas-feiras à noite. Os alunos são duas jovens e três rapazes. Alejandro a via como uma irmã mais velha, mas apreciava os decotes ousados dos vestidos de alegre professora.

Certa sexta-feira, terminando um trabalho em grupo; mais de duas horas de discussão numa mesa circular, deixaram a conclusão do trabalho para o outro dia, sábado às dez horas. Dora ofereceu um gostoso lanche: moqueca de siri mole, regado a vinho branco e uísque. Foi o ponto alto da noite. O grupo se divertiu até tarde, ouvindo boa música, papo alegre, inteligente. Alejandro dedilhando um violão, cantou: “Dora, rainha do frevo e do maracatu…”. Recebeu um beijo lambido no ouvido.

Dia seguinte logo cedo, Dora foi ao mercado comprou camarão e arabaiana. Ligou para todos os componentes do grupo, se desculpando, pedindo para adiar o trabalho para a quarta-feira. Não telefonou para Alejandro. Quando o espanhol, carregando livros e cadernos, embaixo do braço, pontualmente tocou a campainha, Dora abriu a porta do apartamento, com um largo sorriso e um bom-dia. Estava maravilhosa de vestido azul claro bem decotado, colado ao corpo, sapato alto. Alejandro estranhou quando sua amiga falou no trabalho adiado. Convidou-o para entrar, seria uma companhia agradável se ficasse para bebericar um pouco.

Sentaram-se na varanda com vista para a praia, o mar e as palhas dos coqueiros. O uísque rolou, bons tira-gostos, até Dora servir o peixe com camarão. Almoço divino.

Ao voltar para a varanda, tomaram licor. Eram três horas quando Dora colocou uma música suave, americana, iniciava: “Heaven I’am heaven…”, isso é, “Paraíso, estou no paraíso”. Alejandro deu-lhe a mão, saíram dançando, escorregando pela sala, ele cantava a canção em seu ouvido, puxava seu corpo com vigor, iniciaram uma seção de carinho e carícias. Beijaram-se. Ela sussurrou, pediu para ser levada ao quarto. Num impulso, colocou-a nos braços, empurrou a porta, entrou no quarto, soltando-a ternamente na cama. O resto é silêncio, como diria Shakespeare.

Depois dessa tarde de muito amor, os dois continuam se encontrando secretamente no mínimo duas vezes por semana no belo apartamento da coroa, que continua poderosa. Faz o que quer do jovem espanhol.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A FRAQUEZA DE UM HOMEM

Haroldo Lima é um homem que orgulha-se de sua dignidade, esteio de nossa sociedade, homem probo, advogado emérito, conhecedor profundo das leis. É meu primo, nos damos bem desde os tempos de colégio. Um apologista aos bons costumes e à moral da educação ocidental. Nunca teve problemas financeiros, conhece o mundo, hoje é um sessentão conservado. Caminha diariamente, não relaxa na musculação da Academia. Semana passada caminhando na praia, eu fui abraço por trás, era Haroldo, alegre, sorrindo, andou a meu lado conversando descontraidamente, com ar de felicidade, filosofou.

– Tudo pode acontecer com qualquer cidadão do mundo, com qualquer cristão, com qualquer homem de bem.

Fiquei surpreso com o pensamento espontâneo e tempestivo, perguntei o que havia acontecido. Haroldo colocou a mão em meu ombro, diminuímos a caminhada, ele confidenciou-me sua história quase sussurrando.

– O Cão está me provocando! Veja você meu primo, um homem como eu, crente em Deus, assisto à missa todo domingo, temente ao castigo divino, caí na tentação do Satanás. O Diabo tomou forma de uma morena da cor de mel, de um sorriso cativante, de uma tentação encantadoramente diabólica. Leonor, minha querida e santa mulher, contratou um jovem para trabalhar em casa. A capeta veste uma bermuda desfiada, esburacada para suas faxinas. Normal para ela, para mim, uma loucura. O sangue ferveu em minhas veias ao me deparar com as pernas roliças, perfeitas, daquela mulher. Todo dia Leonor sai para a casa dos filhos, ver os netos, eu fico sozinho trabalhando no quarto que transformei em escritório. Chica, a jovem, é esperta, na cozinha prepara um gostoso almoço, ela tem mãos de ouro, mãos encantadas, em tudo que pega, dá vida. Até engordei, contrariando meu zeloso médico. A diabinha em forma de mulher percebeu meus olhares para seu corpo fascinante. Certo dia, por volta das dez da manhã, ela entrou no meu gabinete, eu trabalhava em cima de um processo difícil. Chica varria distraída, vestia a bermuda jeans desfiado salientando o maravilhoso traseiro. Acabou-se minha concentração, eu olhava com o rabo do olho para a endiabrada, o sangue esquentava. O Demônio conhece bem as fraquezas humanas. Ela se aproximou, perto do birô, perguntou se eu era advogado, se soltava preso da cadeia. Foi direta, contou-me que um amigo estava preso, roubou o celular de um menino, deu azar, era filho de um sargento, no outro dia estava preso. No maior dengo, me chamando de patrão, disse que faria tudo, tudo mesmo (outra provocação da diabinha) para soltar o amigo e quanto eu cobrava para soltar o rapaz. Eu me contive, a satânica de voz angelical, chegou-se bem junto, o decote mostrava os seios pequenos e duros. Levantei-me respirando fundo, disse que iria pensar no caso, evitei continuar olhando, estava à beira de uma besteira. Sai do escritório.

À noite contei à Leonor sobre o namorado da moça, claro que omiti os detalhes do Demônio acendendo fantasias libidinosas. No sábado fui com a jovem Leonor à cadeia conversar com o marginal. Como não houve ferimento e ser primário, solicitaria habeas-corpus para o preso esperar o julgamento em liberdade. O Delegado de plantão, meu amigo, olhou para mim e para jovem e deu as ordens.

– Vou soltar esse bandido que roubou um celular, o Presidente já disse que não é crime. Pode ir Dr. Haroldo daqui para o meio-dia ele estará solto. Vou apenas dá-lhe uns conselhos e três palmadas.

Pegamos meu carro de volta ao meu santo lar, fiquei surpreso quando ela falou no maior descaramento que notava meus olhares e queria agradecer com amor, pelo que fiz por ela. Entramos num motel da Via Expressa. Foi uma tarde maravilhosa. A diabinha sabe tudo na cama, me ensinou o caminho do purgatório. Ainda não tive coragem de me confessar, se eu morresse hoje, iria para o inferno!

Uma vez por semana, num motel, a diabinha me deixa no céu. Nunca pensei que um dia poderia ser envolvido pelos caprichos do Demônio. O Cão sabe provocar nossas fragilidades. Até se veste com bermuda esfarrapada.

Perto de casa nos despedimos, atravessei a avenida pensando, avaliando como o Diabo se aproveita da fraqueza de um homem.