CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

1º DE ABRIL DE 1964

Acordei-me com o som cadenciado do toque de Alvorada pelo corneteiro do quartel. Tenente do Exército Brasileiro, eu servia na 2ª Companhia de Guardas, tropa de elite do IV Exército sediada no centro do Recife. Meus soldados estavam bem treinados contra distúrbios e guerrilha urbana. Uma luminosa manhã acordava a bela histórica cidade. A Companhia permanecia de prontidão há mais de uma semana devido aos acontecimentos da época. Um processo de desgaste político se espalhou sobre a Nação. O presidente João Goulart era ambíguo, acendia uma vela a Deus outra ao Diabo. Um esquema militar sustentava João Goulart na presidência, inclusive o General Justino Alves Bastos, comandante do IV Exército(Nordeste), havia jurado ao governador Arraes que a tropa estava com ele. Quando a conjuntura mudou, Justino também mudou. A situação política ficou mais nebulosa depois do grande comício das reformas em frente ao Ministério do Exército, dia 13 de março, com discursos provocativos às Forças Armadas. Jango, foi inábil, estava cutucando a onça com vara curta.

Naquela bela manhã logo depois da formatura matinal da tropa, o capitão Luís Henrique Maia reuniu os cinco tenentes comandante de pelotão, fez uma preleção. Havia notícias confirmadas que a tropa do general Mourão Filho de Minas Gerais estava a caminho do Rio de Janeiro para levantar o I Exército, e depor o presidente João Goulart. O objetivo era restabelecer a ordem no país, garantir a eleição para presidente em 1965. Mandou cada tenente preparar o pelotão para o enfrentamento, entrar em combate urbano a qualquer momento.

Dirigi-me ao alojamento de meu pelotão, sabia que haveria algum confronto naquelas próximas horas. Ainda estava em divagações quando o comandante me chamou e deu as primeiras ordens: Dissolver uma manifestação no Sindicado dos Bancários, perto do quartel. Coloquei o pelotão em forma, passei em revista o armamento e equipamento, falei para os soldados sobre a missão: O Exército estava destituindo o Presidente da República para garantir as eleições em 1965. Deixei bem esclarecido: tiro só com minha ordem. O pelotão tomou a rua em marcha. A batida uníssona do coturno no calçamento fazia um barulho assustador. Enquanto aqueles 44 soldados bem armados e equipados avançavam, eu vi mães colocando meninos para dentro das casas, ouvi algumas vaias, como também palmas das janelas dos edifícios, era o povo dividido. O Pelotão avançava, eu continha a emoção, pensava na informação que me passaram que os sindicalistas, os camponeses, os homens de Arraes, tinham sido treinados em guerrilha e possuíam armamento de primeira linha.

Assim que avistamos ao longe a multidão em torno de 400 pessoas, tive que controlar um sargento, meu auxiliar, ele pedia para dar um tiro para cima afim de dispersar a multidão. Mandei o sargento calar a boca, o comando era exclusivo meu. Evitava uma reação por parte dos manifestantes e provocar numa carnificina de um tiroteio dos dois lados. Tentaria até diálogo, se possível. O Pelotão se aproximava cada vez mais, dava para ver as fisionomias dos manifestantes. O sargento insistindo em atirar, eu negava, proibia gritando. Tomei uma decisão, dei voz de comando para o Pelotão: “Acelerado marche!” Os soldados iniciaram o avanço em acelerado (quase correndo). De repente tive a maior alegria e alívio de minha vida quando a multidão se dispersou em todas as direções.

Invadimos o prédio do sindicato. Ficaram apenas três sindicalistas. Solicitei para eles saírem ou teria que levá-los presos. Apenas um barbudo, corajoso, magro, me encarou: “Só saio morto ou preso”. Dei a ordem “Então têje preso, não vou lhe matar”. Mandei lacrar todos os móveis, deixei cinco soldados guarnecendo o sindicato. Retornei com o Pelotão para Avenida Visconde de Suassuna, sede da Cia de Guardas.

Durante o percurso, os soldados marchavam em duas colunas na rua, o barbudo, preso, caminhando no meio da tropa. Encostei-me e cochichei uma mentira no seu ouvido: “Estão matando tudo que é comunista, quando você chegar ao quartel vai ser fuzilado. Vou lhe dar uma chance, na próxima esquina lhe empurro e você se manda”!

Ao chegar mais perto da esquina, ele olhou para trás, encarou-me com olhar suplicante. Aproximei-me, segurei-o pela camisa, puxei-o pelo braço e empurrei-o, ele correu em disparada, escafedeu-se na primeira rua. No quartel fiz um relatório verbal. Um ano depois não houve a eleição. Ninguém, nenhum cientista político, nenhum profeta, nenhum futurólogo, acreditaria que aquele dia era o primeiro de uma ditadura prolongada, me desiludi. Deixei o Exército, escrevi um livro: Confissões de um Capitão, no qual conto a verdade que testemunhei.

Depois da redemocratização da nação, por mais que seja governado por um energúmeno, jamais haverá golpe no Brasil. As Forças Armadas estão profissionalizadas. Os acontecimentos de 6 de janeiro de 2023 nunca foi tentativa de golpe. Os militares são altamente organizados para cometerem aquela manifestação bagunçada, sem comando, sem apoio de governadores.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A COZINHEIRA DE IPIOCA

– O que é isso Doutor? – Sussurrou Edileuza quando Adolfo beijou de leve seus lábios.

Há mais de dois meses ela foi contratada como cozinheira na casa de Dona Virgínia. Desde a hora que a viu, o patrão teve uma compulsão, atração irresistível a seus lábios carnudos, sensuais. Sentiu imensa vontade de beijar a morena de sorriso branco.

Adolfo desde que se aposentou entregou-se ao lazer, ao ócio. Todos os dias durante a tarde assiste a um filme na televisão ou entra no Facebook. Ler bons livros, tomar um uísque faz parte de suas predileções. Pelo menos uma vez por mês cumpre suas obrigações matrimoniais com Dona Virgínia, vida tranquila, despreocupada, saudável, mas monótona. Ao aparecer a nova empregada deu uma catarse em sua libido, vivia espreitando a jovem, olhando as pernas, o andar e principalmente sonhava com os lábios carnudos da morena.

Certo dia, surpreendeu Edileuza, antes de sair, roubando da geladeira pedaços de carne, frutas e verduras, colocou na bolsa sem perceber que o patrão olhava. Na hora da saída, Adolfo chamou-a mandou abrir a sacola, provas irrefutáveis, o fruto e as frutas do roubo. Ela começou a chorar pedindo por tudo, não dissesse à patroa, era a última vez, devolvia tudo, só tinha aquele emprego para sustentar duas filhas adolescentes, morava num casebre em Ipioca. Chorava, pedindo a Adolfo. Ele se conteve, deu-lhe vontade de abraçá-la. Prometeu não contar se jurasse nunca mais levar um palito da casa! Ela sorriu apertou, alisou a mão do patrão, olhou nos olhos, saiu apressada.

Dia seguinte ao encarar Adolfo, ela piscou o olho, foi um alívio, ficou grata ao patrão, continuou seu trabalho na cozinha. Ela havia percebeu os olhares pidões de Adolfo desde que chegou. Depois do flagrante, quando Dona Virgínia saía Edileuza ficava displicente nos modos de sentar, cruzar pernas, rebolar. Ao falar com o patrão olhava-o nos olhos, provocava-o, ele cada dia mais tentado a fazer uma besteira, o Diabo veste avental.

Numa sexta-feira, Virgínia foi encontrar-se com as amigas, Adolfo chegou da rua alegre, cantando, com fome de anteontem. Ao servir à mesa, uma excelente arabaiana frita, Edileuza abaixou-se mostrando o generoso decote estufado por dois melões morenos, o coroa respirou fundo.

Adolfo foi tomar o cafezinho na cozinha. Edileuza encheu a xícara, açúcar, entregou-a olhando para os olhos da patrão, bem perto um do outro. Adolfo não aguentou, deu um beijo leve em seus lábios. Ela sussurrou com um sorriso maroto – “O que é isso Doutor?” – Ele respondeu com o sangue a ferver, “É só um beijo, apenas um beijo, não se importe fica nisso”. Edileuza deu uma gargalhada contou um segredo – “Minha tia Zefinha costumava dizer: dá certo não com patrão.”

Adolfo deixou a xícara cair, abraçou a morena num ímpeto de jovem abocanhou os lábios mais gostosos, mais sensuais que já havia experimentado em todos os anos de vida. A morena, não se fez de rogada, sabia beijar melhor que qualquer artista de televisão. No chão da cozinha aconteceu a primeira vez. Tia Zefinha tinha razão. Ao terminar, ela despenteada, “o senhor é louco patrão”, cada qual para seu lado como se nada tivesse acontecido, Adolfo entrou no computador, Edileuza continuou a faxina na cozinha. No momento da saída, ele colocou uma nota de R$ 100,00 na bolsa da morena, para o ônibus. Prometeram não fazer mais em casa. Durante a semana num motel é mais apropriado.

Adolfo anda feliz, remoçou, vive de bem, tem maior cuidado, foi um acontecimento em sua vida monótona. Dona Virgínia contagiou-se com o bom humor do marido, anda feliz como nunca. Edileuza continua excelente cozinheira, maior respeito ao patrão, exceto nos momentos de amor numa tarde de folga no motel Star. Adolfo aumentou o salário da jovem em 80%. Acabou-se a vida monótona de todo dia igual aos outros. Espera a tarde de folga na quarta-feira, e passa horas agradáveis com a Cozinheira de Ipioca.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A MULHER DA CAPA PRETA

Adalberon cursava a Faculdade de Direito no Recife nos anos 50. Orgulhava-se de ser universitário, vestia-se bem, adorava se exibir. Fazia sucesso entre as garotas quando chegava a Maceió.

No último ano do curso, ele aproveitou as férias juninas. Foi convidado para uma festa de 18 anos muito badalada na sociedade alagoana. O pai da moça, um rico fazendeiro, morava numa bela casa na praia de Pajuçara. Decoração suntuosa, mesas espalhadas no quintal, muita bebida e comida. A Orquestra animava o aniversário de Margarida.

Os jovens dançavam no salão iluminado por um vistoso lustre. Adalberon bem vestido em seu terno; como chovia, ele levou sua capa preta longa, deixou-a pendurada no cabide na entrada.

Cumprimentou os donos da casa, a aniversariante, bebeu, comeu. A orquestra tocava uma bonita música quando Adalberon avistou uma jovem loura no canto da sala com olhares insistentes para ele. Num impulso caminhou em direção à bela moça de vestido cor de rosa. Aproximou-se; antes de ele convidá-la para dançar, a moça abriu os braços dizendo que já o esperava. Rodopiando o salão com um abraço, dançaram. Os dois se olhavam como se uma paixão momentânea houvesse surgido.

Ela se chamava Carolina, a melhor amiga de Margarida, a aniversariante. Ele se apresentou dizendo que no final do ano se formava em Direito no Recife. Carolina respondeu apertando a mão de Adalberon com sua mão fria. – “Eu já sabia!”.

O Rapaz ficou impressionado com a beleza pálida da jovem. Contou suas histórias e fanfarronice na Faculdade. Ela mostrou-se bastante interessada, juntou seu corpo, e assim ficaram dançando por muito tempo, mudos, apenas se afastando algumas vezes para se olharem. Caso de paixão fulminante. Certa hora, Carolina falou que devia ir para casa, tinha prometido chegar antes da meia-noite. Ele se ofereceu para levá-la. Na saída da casa apanhou a capa pendurada. Como a chuva era intensa, num gesto elegante, Adalberon cobriu sua companheira com a capa protegendo-a da chuva, correram em direção ao ponto de ônibus.

Tomaram o ônibus “Pajuçara–Trapiche da Barra”, estava quase vazio. Sentaram-se num banco do fundo, conversaram como se conhecessem há muitos anos. De repente Adalberon puxou o rosto de Carolina e deu um beijo ardente em seus frios lábios, percebeu que ela chorava. Continuaram aos beijos e abraços durante o resto do percurso.

Perto da Praça Afrânio Jorge, ela tocou a campainha, o ônibus parou, eles desceram. A jovem pediu para não acompanhá-la, morava perto, no dia seguinte devolveria a capa.

Adalberon seguiu-a com olhar até ela desaparecer na escuridão da rua, no oitão do Cemitério Nossa Senhora da Piedade.

Pela manhã o rapaz acordou-se com a figura de Carolina gravada na cabeça e no coração. Passou o dia pensando na jovem. Lembrou-se que não havia marcado hora com Carolina. Às sete horas da noite Adalberon estava na Praça olhando os passantes em busca de um vulto parecido com sua amada. Deu voltas no quarteirão, passou dezenas de vezes na rua em que ela desapareceu. Perguntou a algumas pessoas se conhecia Carolina. Até que uma senhora se assustou-se quando indagada, informou que ela havia morado naquela casa, apontando para um bangalô.

Adalberon encheu-se de coragem, bateu à porta. Atendeu uma senhora com aparência triste. Ficou trêmula e assustada quando o rapaz perguntou se Carolina estava em casa.

A velha mulher sentou-se numa cadeira da varanda e perguntou quem era o rapaz. Ele disse ser amigo de sua filha, contou como havia conhecido, não havia marcada encontro com ela, por isso estava procurando a jovem.

Adalberon arrepiou-se do dedo do pé aos cabelos da cabeça quando a triste senhora respondeu que no dia anterior tinha completado um ano de sua morte num desastre de carro. O marido da triste senhora ao ouvir a história, desmaiou na cadeira.

Quando acalmaram-se, os três resolveram ir ao cemitério. Entraram pela alameda principal até à capela, havia um velório noturno, uma família chorava seu morto. Desviaram para direita onde estava a sepultura de Carolina. Ao se aproximarem deu-se o inesperado assombro: a capa preta cobria o túmulo de Carolina. Os três emocionados ficaram no cemitério até mais tarde quando Adalberon retirou-se para casa. Só conseguiu dormir ao tomar oito doses de uísque conversando com o pai.

Contam no bairro que uma misteriosa mulher com vestido rosa perambula pelos arredores do cemitério depois da meia-noite. Muitos moradores do Prado e do Trapiche juram ter visto a mulher à noite circulando pelas ruas.

Anos se passaram desse acontecimento, o Doutor Adalberon todos os anos, cumpre a obrigação em colocar um buquê de rosas brancas e rezar no túmulo de Carolina, onde alguém colocou uma capa de mármore preto por cima da cruz.

A lenda se alastrou na cidade.

O boêmio e carnavalesco, Marcos Catende, morador da região organizou um bloco carnavalesco. Durante o Carnaval o “Bloco da Mulher da Capa Preta” desfila pela cidade, arrastando multidão, com dispersão em frente ao Cemitério.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

ESCOLA PREPARATÓRIA DE FORTALEZA

Eu era menino, menino. Tinha me submetido ao difícil exame para Escola Preparatória de Cadetes de Fortaleza. Naquele tempo, em Maceió só havia a Faculdade de Direito. O jovem ingressar na Escola Militar, ser Oficial do Exército ou entrar no Banco do Brasil era o sonho das famílias da classe média. Foi numa noite de festa de rua, na Praça Sinimbu, que Jarbas Bagdá me deu a notícia: Eu havia passado nos exames. Jarbas com o jornal O Globo, do Rio na mão, mostrou-me a relação. Meu nome ali era a glória, muita emoção, muita vibração. Apenas três candidatos passaram no Estado de Alagoas. Fui correndo para casa dar a notícia. D. Zeca improvisou a maior festa, que durou até altas horas da noite, com amigos e parentes, muita bebida e comida. No final da festa, fui até a Avenida da Paz, andei sem rumo pela praia. A Lua iluminava de prata as águas daquela imensidão do mar. Fiquei a me perguntar: ” O que será?”. Sentei-me no parapeito do coreto, olhando para aquele infinito escuro, apenas a tênue iluminação da Lua, não sei de felicidade ou tristeza, chorei como menino… Estava deixando de sê-lo. Foi o que aconteceu de mais bonita de minha vida… ser menino. Vi o dia amanhecer e fui dormir.

Numa madrugada de março, deixando minha mãe chorosa, meu pai levou me à bela Estação Ferroviária de Maceió. Peguei o trem para Recife juntamente com Rubião Torres e Elio Wanderley, os dois outros alagoanos que passaram nos exames da Escola Preparatória. Partimos no famoso Trem das Alagoas, saiu às seis horas da manhã de Maceió, com chegada prevista no Recife às 18:00 horas, nunca cumprindo o horário.

Escalas incontáveis. Passamos em Bebedouro, Fernão Velho, Satuba, União dos Palmares e mais inúmeras cidadezinhas perdidas nos canaviais de Alagoas e Pernambuco. Nas estações, desciam e entravam novos passageiros, sempre com mala ou saco, o cadeado era um nó. O trem parava o mínimo possível, era o tempo de apreciar os vendedores de frutas, de comidas regionais, uma feira de mangaio: “Olha a manga madurinha. Cavaco, olha o cavaco… Tapioca quentinha feita na bora… Olha a água de quartinha… Chapéu de palha…” Achava interessante aquele comércio ambulante em cada estação, como se fossem as mesmas pessoas, raramente uma novidade nos artigos oferecidos.

Um belo céu azul quase sem nuvem se encontrava com o verde ondulado dos canaviais nos longínquos horizontes. O poeta pernambucano Ascencio Ferreira imortalizou essa viagem com seu poema, O Trem das Alagoas:

“Vou danado pra Catende, vou danado pra Catende, vou danado pra Catende com vontade de chegar… Mergulham mocambos nos mangues molhados… Moleques mulatos vêm vê-los passar…. Adeus, adeus. Mangueiras, coqueiros. Cajueiros em Bor. Cajueiros em frutos já bom de chupar. Adeus morena do cabelo cacheado…… Vou danado pra Catende com vontade de chegar… Cana caiana. Cana roxa. Cana fita. Cada qual é mais bonita. Todas boas de chupar… Vou danado pra Catende, vou danado pra Catende. Já deixei a praia longe…e vem perto outro mar.”

Que mar será? Pensava. Viagem cansativa, bancos de madeira dura. Para amenizar, conversávamos. Especulávamos o que haveria de ser, nós três meninos. Mas, no fundo, eu estava com uma saudade tremenda, minha mãe, meu pai, meus irmãos, minha bonita família, meu mundo, minha praia da Avenida. As vezes a vontade de chorar chegava, olhava o verde canavial no infinito disfarçadamente para enxugar uma lágrima. Era apenas um menino.

Ao Chegar em Recife, embarcamos num navio de Guerra até Fortaleza. 77 jovens de todo o Brasil ingressavam na Escola Preparatória de Fortaleza naquele dia. Era preciso ter raça, ser forte para enfrentar a nova vida. Algumas vezes tive vontade de desistir, mas os colegas incentivavam para terminar o curso, foram seis anos, contando com a Academia Militar das Agulhas Negras de onde me formei tenente do Exército. Depois da formatura os colegas se espalharam pelo Brasil, a maioria seguiu a carreira militar chegando ao generalato, eu deixei o Exército como Capitão. Desde a Escola nos tornamos irmãos. E nesse fim de semana haveremos de nos encontrar e celebrar os 70 anos do ingresso na Escola Preparatória. Serão quatro dias de alegria, muitas histórias, muitas recordações, alguns já se foram, choramos. Ainda sobram veteranos irmãos de armas, conservados no companheirismo, camaradagem, confiança, lealdade, amor e carinho por tantos anos.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

ZINGA BAR

Robertinho dirigia feliz da vida seu Gordini vermelho numa noite de sexta-feira. Solteiro, boêmio, 27 anos, iniciava mais um fim-de-semana de alegria. Percorria a estrada do Litoral Norte rumo ao Zinga Bar, de repente sentiu o carro “morrer”, parou no acostamento, abriu o capô, olhou com ajuda de uma lanterna se alguma peça estava solta, não entendia de motor; trancou o carro, travou-o, dia seguinte viria com um mecânico. Ficou na estrada pedindo carona. Por sorte parou uma Kombi, eram amigos, tinham o mesmo destino.

O Zinga Bar era o ponto da juventude bonita de Maceió. Empreendimento arrojado de Cláudio Brabosa, a construção se estendia à praia de Riacho Doce, o grande sucesso da cidade dos anos 60. Aliás, revolucionário para aquela geração que mudou o mundo. As moças casadouras daquela época só saiam à noite acompanhadas dos pais para festas em casa de famílias ou clubes. Depois do Zinga Bar a mulherada não foi mais a mesma, deu um grito de liberdade frequentando aquele Bar-Restaurante-Boate e outros recantos aprazíveis. Foi quando apareceu a pílula. Dava-se início a revolução sexual das jovens. A virgindade deixou de ser tabu. É bom registrar esse marco histórico nos costumes da cidade.

Ao chegar no Zinga Bar tomaram uma mesa ao ar livre, podia-se conversar melhor e ver a lua tremeluzindo o mar de Riacho Doce. Mesa cheia: três amigos, duas belas jovens e uma coroa, risonha, solteirona, quarentona, tia de uma das jovens. Conversa divertida, maior alegria quando a banda iniciou os acordes, “Love is a many splendore thing”. Yolanda, a coroa, convidou Robertinho para dançar. No dancing, bela vista para o mar, juntaram-se o corpo dançando com leveza ao som do sax e clarinete. Ela puxou Robertinho, arrochou, rosto e corpo colocados, mudos, o carinho da mão na nuca, a rigidez nas pernas falava mais que qualquer palavra. A orquestra parou para descanso, o casal retornou à mesa. Bom uísque, tira-gosto, muita conversa, a coroa com os pés descalços por baixo da mesa alisava Robertinho. Certa hora a Banda animou, “Olha pro céu meu amor, veja como ele está lindo, olha pra que balão multicor, como no céu vai sumindo…” Todos levantaram dançando feito quadrilha ao som de músicas juninas de Gonzaga. Cada vez mais Robertinho e Yolanda se atraiam, deu-se o desejo imenso e ânsia louca de beijo na boca.

Ao retornar à mesa, Robertinho cochichou no ouvido do amigo, pediu a Kombi emprestada, voltava logo. O casal se escafedeu, um quilometro a mais, Robertinho encostou a Kombi embaixo de uma árvore, à meia luz de uma lua maravilhosamente prateada tiveram momentos de amor no banco traseiro como apenas os grandes amantes conseguem.

Retornaram com aquele sorriso maroto dos bem amados satisfeitos, de bem com a vida. Os companheiros de mesa perceberam, não houve uma piada, uma recriminação, a juventude mudava o comportamento, fazer amor é necessidade natural como beber um copo d’água para matar a sede. Dançaram, rodaram, beberam até o dia amanhecer, os boêmios desceram à praia foram cumprimentar o dia nascendo, dançando ciranda, pegando o Sol com a mão.

Dia seguinte Robertinho acordou-se por volta de meio dia, telefonou para um amigo, mecânico de automóvel, foram em busca do Gordini quebrado. A grande surpresa, o carro arriado no chão, a jante no asfalto do acostamento, levaram os quatro pneus, no vidro traseiro escrito em batom: “Obrigada pelo presente, um beijo de sua Odete”. O jeito foi arranjar quatro pneus velhos numa borracharia, levar o Gordini para casa. Na segunda-feira nosso boêmio recebeu um telefonema anônimo informando, os quatro pneus “roubados” estavam guardados com o vigia do Zinga Bar. Assim eram as brincadeiras, meio pesadas, da juventude dourada e bem humorada.

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O PISTON DE MANULA

Há quem considere Jorge de Lima, O maior poeta da língua portuguesa, foi também excelente romancista. No posfácio do romance Calunga compreendi a musicalidade da região das lagoas. Jorge afirma que os índios caetés acompanhavam os guerreiros na peleja incitando, tocando flautas e gaitas. Ainda hoje entre seus descendentes encontram-se exímios tocadores de pífano.

Depois dessa abertura, conto a história de amor acontecida na pequena cidade de Santa Luzia do Norte, à beira da Lagoa Mundaú. Como não sou de mentir, quem duvidar do meu escrito dou como testemunha, o ator global, poeta, diretor, Chico de Assis, nascido e criado naquela cidade e sobrinho do músico Otaviano de Assis Romeiro, que aos oito anos era excelente tocador de flauta. Otaviano tornou-se famoso como Maestro Fon-Fon no Rio de Janeiro e Europa. Alagoas se orgulha do célebre maestro e do Chico de Assis.

Em Santa Luzia do Norte havia uma pequena orquestra, dirigida pelo Maestro Wanderley, ele convocava os jovens da cidade para tocarem na Banda Municipal. Era uma atração da cidade; nos dias de festas, tocava até em povoados e cidades vizinhas. Durante o carnaval o povo se enchia de alegria com a Banda arroxando no frevo e a moçada alegre, pulando, dançando, cantando.

Certa vez o Maestro Wanderley recebeu a visita do jovem Manula, ele gostaria de tocar na banda. Ao fazer um teste com instrumento de sopro, Wanderley ficou fascinado com o talento do jovem negro, alto e bonito. Depois de um ano tocando na banda, Manula tornou-se atração com o som do piston, timbre focado e brilhante, ele tornava a música mais expressiva. Era o orgulho do Maestro descobridor de talentos.

Perto da casa de Manula, morava Inês, negra bonita, alta, sua beleza chamava a atenção. Ele a conheceu na Festa da padroeira, dia 13 de dezembro, dia de Santa Luzia. Inês ficou encantada com Manula quando ele tocou solo, a Ave Maria na Igreja. Os dois, daquele dia em diante, começaram a se encontrar, a namorar, sempre com o olhar vigilante dos pais que não queriam o namoro da filha com um músico, sem futuro.

Manula morava com a mãe viúva que recebia uma pensão. Dava para manter uma vida simples. Contudo, Manula tinha ambições e sonhos. Quando estava com Inês se sentia feliz, eram apaixonados, pensavam em casar assim que Manula pudesse sustentar a família. A ambição de Manula era entrar no Exército para tocar na Banda do Quartel e estudar música. As ambições se tornaram cada vez mais difíceis. Não havia emprego na cidade. Ele sempre pensando em Inês. Certa vez, o maestro Wanderley o levou para tocar em Maceió numa “Jazz Band” formada por militares, eles tocavam em festas de aniversários e de clubes. Ele foi aprovado. No final das festas Manula dava um show solo de jazz com piston ou trompete.

Depois da tocada ele retornava de Maceió logo cedo de canoa. Procurava Inês mostrava o que havia ganho no fim de semana. Em pouco tempo, por seu talento, ficou conhecido e nos finas de semana ganhava um dinheirinho, guardava, pensando no casamento com Inês, cada vez mais apaixonado. Certo sábado ele tocava na “Jazz Band” no Clube Fênix, acompanhando o show do cantor alagoano Alcides Gerardi que ficou encantado com o talento, com o som de Manula. Convidou-o a acompanhá-lo numa turnê pelo Brasil. Depois de conversar com Inês, mostrando quanto iria ganhar, partiu para turnê de seis meses Brasil afora. Não tinha tempo de escrever, não havia telefone DDD, Manula ficou meio ano sem ver seu amor.

Depois de seis meses retornou a Santa Luzia do Norte. Ainda navegando na canoa recebeu a notícia, a maior decepção de sua vida. Inês havia casado.

Entrou em casa, abraçou a mãe, meio aéreo, deitou-se na cama, entrou numa depressão profunda, não chorou, mas sentia uma dor profunda dentro das entranhas. Enterrou seu valioso piston no quintal. Todas as manhãs regava o “túmulo” do piston. Assim continuou por muito tempo. Até que chegou o carnaval. Quando a banda arrastava a mocidade pelas ruas, Wanderley teve a ideia, passaram na casa de Manula e tocaram o Vassourinhas, chamaram o grande músico para o Carnaval. Pela primeira vez depois de seu retorno, Manula sorriu. Foi ao quintal, desenterrou o piston, deu três sopros, se juntou aos amigos na frente do Bloco tocando seu som inconfundível. O Carnaval fez milagre, ressuscitou Manula.

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AS CARIOCAS

– O que tem para se fazer nessa terra numa belo domingo de Carnaval?

Perguntou Adriana às amigas, enquanto enchia a xícara no café do hotel. Beto, ao lado, entrou na conversa das três morenas bonitas. – Desculpe a intromissão, hoje tem o desfile do Bloco da Nêga Fulô, um dos melhores e mais animados blocos de Maceió, vale a pena dar uma olhada, no começo da tarde estará desfilando na orla uma multidão, na verdade são oito blocos juntos, tocando frevo e marchinhas de antigos carnavais.

As cariocas se interessaram, agradeceram, pediram mais informações, ele sentou-se junto a elas, era seu objetivo. Depois que Beto separou-se de Marlene leva a vida nos hotéis paquerando turistas maiores de trinta em busca de diversão ou algumas aventuras fortuitas. Acompanhou as novas amigas à praia, onde conversaram, divertiram-se com as histórias de Beto; um belo homem, bem humorado, alegre e conhecedor de muitas histórias, completara 50 anos no dia anterior. O desfile do Bloco partiria da pracinha dos 7 Coqueiros às 15:00 horas.

As cariocas descontraídas, de biquíni, acompanharam a multidão arrastada pelo Bloco da Nêga Fulô naquela bela tarde de fevereiro. Dançaram, pularam, cantaram, ficaram encantadas com a animação. O frevo na rua, as marchinhas antigas cantadas pelo povo fantasiado ou simplesmente de bermudas. Acompanharam o bloco por mais de três horas se divertindo, um carnaval inesperado. Eram cinco horas da tarde quando o bloco entrou à direita mar adentro sobre o Marco dos Corais. Orquestra do Maestro Elizaubo tocou uma série de frevos, terminando com os Vassourinhas. Cansados sentaram num banco olhando o azul do mar. As meninas fascinadas, não esperavam tantas beleza. Até que foram caminhando para Barraca Pedra Virada, onde tomaram uísque, cerveja, jantaram. Perto das oito horas, Foram ao hotel colocar uma bermuda, o que Beto também o fez em seu pequeno apartamento defronte à praia de Ponta Verde. Foram ao bairro antigo de Jaraguá, ficaram na praça Dois Leões em uma mesa de ambulante, olhando o povo cair no samba, tocava o afinado conjunto “Samba da Periferia”, as cariocas entraram no meio do povo sambando com seus passos miúdos deram um show.

Encontrara-se com eles, tomando uísque, assistindo a animada banda, o Dr. Evaldo, digno membro da Justiça Alagoana, sessentão aprumado, conquistador, leva a vida de solteiro embora seja casado há mais de 30 anos, solicitado pelo pareia, também fez companhia às cariocas fascinado pelo carnaval nordestino. Terminaram a festa, a paquera com o caminhar da noite estava indefinida. Mas na hora de dormir se ajeitara, Beto ficou com Adriana e Thereza no apartamento e Sua Excelência, o juiz, conseguiu entrar no hotel com Rose. Ele não tinha problema, sua santa mulher fora passar o carnaval em Olinda com as filhas, genros e netos. Ele não gostava, achava muito bagunçado o animadíssimo Carnaval de Olinda.

Pela segunda-feira de manhã encontraram-se na praia em frente ao Hotel Ponta Verde, almoçaram no Restaurante Maria Antonieta. Descansaram um pouco. Às 18:00 horas acompanharam o Bloco do Coco de Roda, as cariocas se encantaram com aquele bloco folclórico. Jantaram na Bodega do Sertão. Por acaso encontraram Bernardo, outro cinquentão que se adaptou muito bem com os cinco foliões. Partiram para a noitada alegre e agitada no belo bairro histórico de prédios antigos, Jaraguá. No final da noite, se ajeitaram, Thereza dormiu no apartamento de Bernardo, viúvo há um ano.

Afinal a terça-feira, foram à praia do Francês, tomaram boa cerveja, almoçaram, esperando o Bloco do Siri Mole, do artista plástico, Ovídio Gurgel, que iniciou seu desfile pelas cinco horas. Ao acabar de dançar, pular, frevar; conforme combinado, retornaram a Maceió, em Jaraguá ainda deu tempo de desfilar no Bloco da Nêga Fulô. Dançar na Praça e finalmente foram encerrar o carnaval no primeiro baile, “Grito de Jaraguá”, organizado pelo carnavalesco Dinho Lopes em um restaurante, ficaram até terminar o animadíssimo baile.

Na tarde de quarta-feira, no aeroporto, felizes, com tantas histórias a contar, Thereza perguntou às amigas cariocas.

– Quem disse que não havia carnaval em Maceió? – Para o ano estarei aqui de novo.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O BLOCO DA NÊGA FULÔ HOMENAGEIA O MOLEQUE NAMORADOR

Uma cidade não é feita apenas de prédios, ruas, praças, parques, praias e jardins. Toda cidade possui uma alma criada por suas figuras humanas, por seus costumes por suas histórias.

Na charmosa, adorável e alegre Maceió conheci e convivi com moradores notáveis; às vezes anônimos, às vezes famosos, que muito contribuíram com os genes dessa cidade.

Escrevi histórias em diversas épocas, histórias de figuras que viveram ou vivem e fazem parte da alma de minha Maceió.

Uma figura lendária que perambulou pela cidade, um festeiro, carnaval para ele era uma celebração divina; gostava de se divertir e de mulheres, seu apelido logo pegou. Quando organizavam uma festa, era imprescindível convidar o Moleque Namorador.

Armando Veríssimo Ribeiro seu nome, nascido na cidade de São Luis de Quitunde, ainda criança sua família transferiu-se para Maceió. O menino experto conseguiu trabalho vendendo jornais, mas preferiu tornar-se engraxate na Rua do Comércio, quando conheceu Gonguila, dono do Bloco Cavaleiro dos Montes, também engraxate e conhecido como o mais animado folião da cidade.

Armando, negro, simpático, deu-se bem no serviço de engraxate, juntou-se aos meninos de rua, os maloqueiros, moleques. Armando tornou-se um líder entre os pivetes miseráveis nas ruas.

Engraxava sapatos muito bem, conseguia gorjetas entre os elegantes de fino trato da cidade. Sentiu-se independente, ajudava em casa, era livre.

Certa vez, Gonguila estava precisando de um pandeirista, levou o Moleque para o Bloco Cavaleiro dos Montes. No Bloco, Armando arrasou, se adaptou tocava bem qualquer instrumento, tornou-se sambista, batuqueiro. No período do carnaval transformou-se em passista; era o campeão absoluto do frevo. Em todos os concursos, conseguia o primeiro lugar; derrotou num concurso de passo o negro Gia, vitorioso, conhecido, famoso passista pernambucano.

Aos dezoito anos, enfrentou o Concurso de Passo, realizado no Teatro Deodoro tendo como jurados: o Capitão Mário Lima, o sociólogo Manuel Diegues Júnior e Pedro Rocha. Armando, o Moleque Namorador foi classificado em primeiro lugar, representando o Clube Carnavalesco Cavaleiro dos Montes.

A partir dessa vitória, o exímio dançarino ficou conhecido no meio artístico. Várias companhias de Teatro de Revista do Recife, do Rio de Janeiro e de São Paulo, o convidaram para integrar o seu elenco. A boate Night and Day, da Cinelândia, queria que ele nos palcos cariocas.

O Moleque Namorador tornou-se conhecido em todo o Brasil, diversos repórteres de revistas e jornais, chegaram a Maceió para entrevistar o fenômeno; entrevistas e fotografias foram publicadas na revista O Cruzeiro, a revista mais importante do Brasil. Mas Armando não aceitou sair de sua vidinha de Maceió. Desde que começou a ganhar uns trocados a mais, passou a se integrar em grupos musicais medíocres da periferia e a frequentar as gandaiais nos cabarés.
As mulheres não o resistiam. Foi um verdadeiramente conquistador, farrista de tempo integral, acabou seu organismo antes dos trinta anos.

O moleque orgulhava-se de ser o maior dançarino das Alagoas; arrasava nos salões da capital, reinava tanto no Teatro Deodoro, como nos clubes de elite, mas, se sentia bem era nas boates, onde era bem aceito e respeitado e não havia quem o igualasse no tango argentino.

Depois dessa vida desregrada, o Moleque Namorador faleceu aos trinta anos, vítima de tuberculose pulmonar. Suas últimas horas foram na residência dos pais, na Rua Xavier de Brito, bairro do Prado, Maceió.

Em 1961, o então Prefeito de Maceió, Sandoval Caju, construiu uma pequena praça homenageando, Armando, um eclético artista alagoano, além de ter sido o maior passista, dançava o tango e o samba como ninguém. Cantor, tocava qualquer instrumento que caísse em suas mãos. Hoje está lá edificada na Ponta Grossa a Praça Moleque Namorador.

E nesse Carnaval de 2026 o Bloco da Nêga Fulô que desfila domingo 15 à tarde na Orla, vai homenagear, nosso herói da cultura popular, herói do povo, o Moleque Namorador.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MALOQUEIROS DA AVENIDA

Puxando a mais antiga memória lembro meu pai me levando à praia com um filho na corcunda e outro pelas mãos. Corríamos e mergulhávamos no mar tranquilo, de águas cristalinas. Os moradores da Avenida da Paz eram amigos, uma irmandade. De nossa infância ainda tenho gravado as retretas da Banda do Exército no coreto da Avenida. Concerto às quartas-feiras; nós meninos ficávamos calados ouvindo encantados com as músicas clássicas e populares, depois começava a algazarra. Todas as noites os adultos colocavam cadeiras na calçada para tomar fresca enquanto os meninos sentados no chão em torno de uma tia ouviam “Histórias de Trancoso” que aguçava nossa imaginação.

“Nos anos 1940 e 1950 a elite intelectual e econômica de Maceió descobriu a beleza da Avenida da Paz, que passou a ser moradia de comerciantes, industriais, intelectuais, políticos e barões que davam um tom eclético aos moradores. Mas os donos da praia eram os moleques, meninos seminus queimados de sol e sal (Histórias da Gente Brasileira – Mary Del Priore)”

Maceió era uma festa. Os moradores da Avenida da Paz faziam parte da elite econômica e social da cidade. Porém, nós jovens éramos democratas com nossas amizades, meninos maloqueiros, os donos da praia, podiam ser pretos, branco, pobre ou rico, moradores de todos os bairros. Nossa escala de valores era: jogar bem futebol, nadar até alto mar, contar histórias picantes, ser amigo, bem humorado e presepeiro. Gerson, negrinho, filho da lavadeira era admirado pela turma por sua destreza como goleiro e suas histórias safadas contadas com graça. Um líder.

No início da enseada da Avenida da Paz havia alguns trapiches. Uma espécie de cais fincados com palafitas de troncos grossos, estendendo-se mar adentro. Na extremidade, dentro do mar, havia um galpão de madeira, coberto com telhados de zinco, armazém de mercadorias. Quando a maré estava cheia, nós, maloqueiros da Avenida, nadávamos até o galpão, subíamos pelas palafitas ao telhado de zinco quente, onde havia uma deslumbrante vista da enseada da Avenida. De cima do zinco mergulhávamos ao mar, o corpo esticado, uma deliciosa caricia no peito, no ventre, até o impacto com a cabeça na água límpida e cristalina. Quando aparecia o vigia; todos pulavam, e nadando a molecada gritava uníssona: O galo canta… O macaco assobia… Banana de jegue… No cu do vigia! O vigia era um velhinho abusado, chegou a prender alguns dos campeões de salto ao mar, modalidade única no esporte mundial, praticado apenas pelos maloqueiros da praia da Avenida da Paz nos anos 50.

Pescávamos no Riacho Salgadinho. Empurrávamos uma jangada de tronco de bananeira para o meio do riacho jogávamos a tarrafa aberta que enchia de tainhas, também pescávamos siri com uma teteia. Nas margens e imediações do Salgadinho, por ser terra salobra, lama salgada, se prestava à vivência, ao “habitat” de caranguejos, o goiamum azulado. Com lata quadrada de óleo ou azeite, nós fabricávamos armadilhas para capturá-los. Armávamos a arapuca, com uma isca no buraco do caranguejo. Quando o bicho saía, beliscava a isca e fechava a arapuca. Uma vibração, uma felicidade, quando a gente via a lata com a tampa fechada e um baita goiamum preso. Cevava, engordava os caranguejos num gradeado. Dias depois nos deliciávamos com uma caranguejada, o caldo do gordo escorria pela boca.

À noite o calçadão da Avenida da Paz se transformava em palco e campo de jogos. Correr no “Roubar-Bandeira”. Dividia a calçada em dois campos, um para cada equipe de sete ou oito meninos (as), no final de cada campo fixava uma bandeira. O objetivo era entrar pelo campo adversário trazer a bandeira fincada para o nosso campo sem ser tocado pelo adversário. Quando alguém era tocado pelo adversário tinha que parar ficar imóvel até um amigo vir e tocar de novo, “soltar” o amigo. Ganhava quem trouxesse primeiro a bandeira do adversário pro seu campo. Jogo de astúcia e velocidade.

Havia outros jogos como ximbra (bola de gude). Pião, o vitorioso tinha direito de, com o próprio pião amarrado com a enfieira, tentar com a ponta quebrar o casco do pião adversário. Nosso paraíso não era apenas a praia. Nossos pais gostavam de passear nas lagoas. Embarcávamos numa enorme canoa navegando pelas lagoas até Coqueiro Seco. A meninada sentada no fundo, os mais velhos nos bancos de tábuas na proa e na popa. O canoeiro dava a direção, puxando e molhando a vela conforme a intensidade do vento. Vela enorme colorida em vários matizes marrom, como se fossem manchas. Nós ficávamos extasiados, embevecidos com a beleza da imensidão da lagoa cheia de ilhas, coqueirais e entrecortadas por canais naturais. Mergulhávamos a mão e deixávamos ser acariciada pela água. Tio Béu e Dr. Diegues cantavam emboladas e nós acompanhávamos: “Coqueiro Seco do outro lado da lagoa… Se atravessa de canoa… fazer feira no Pilar…” A moçada fazia o coro: “Espingarda, pá, pá, pá, pá, faca de ponta, tá, tá, tá”… A chegada da canoa era uma festa, não havia ancoradouro, era preciso ajudar as mulheres e crianças desembarcarem. Passávamos o dia naquele pequeno povoado, correndo, jogando bola, mergulhando nas águas limpas da lagoa.

No centro da cidade havia o Cine Arte (São Luiz) quase sempre assistíamos a matiné e descíamos caminhando à Avenida da Paz, passando junto ao Arcebispado tomávamos um divino suco de maracujá com pão doce.

À noite ficávamos nos bancos da Avenida ou saíamos à cata de namoradas, nas redondezas. Eram namoros à antiga, pegar na mão, às vezes um abraço mais quente. A turma de maloqueiros da Avenida dos anos 50 foi se dispersando no tempo e no espaço. Hoje é só memória e alguns retratos na parede.

O futebol na areia era o jogo o predileto. Começávamos jogando Zorra (Linha de Passe). Quando havia jogadores suficientes, dois “capitães” tiravam par ou ímpar e cada qual escolhia os jogadores alternadamente, as equipes se equilibravam, dividimos democraticamente os times. O campo era a areia da praia, as traves dois cocos em montículo de areia. Não havia camisa de time, nem juiz, nem falta, nem impedimento, a bola rolava, na hora do gol corria para o abraço. Geralmente havia empurrões e briga, fazíamos as pazes depois do jogo. Se o jogo era na parte da manhã, ao acabar, mergulhávamos no mar de água transparente, nadávamos até enxergar as casas pequeninhas, às vezes ajudávamos a puxar as redes dos pescadores, o arrastão. Quando a pelada era à tarde jogávamos até escurecer. Em época de Lua Cheia, só terminava a partida com o Gol da Lua, o primeiro gol depois da Lua aparecer. Meninos, maloqueiros românticos, estão acabando-se aos poucos como manda a natureza. Fica a saudade e um quadro na parede.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O POVO LUTANDO PELO RETORNO DO CARNAVAL DE RUA EM MACEIÓ

Bloco da Nêga Fulô

De repente, um Prefeito energúmeno cancelou o carnaval de rua de Maceió com o esdrúxulo argumento: “não incomodar ao turista”. Foi a maior burrice criminosa que fizeram com o povo. Os moradores da cidade começaram a procurar folia em outros locais como Recife, Salvador, Rio, deixando um vazio no município. Maceió, durante os dias de Carnaval, parece um cemitério. Praias, restaurantes, bares vazios e comerciantes da teia econômica informal, deixando de faturar um bom dinheirinho nos dias de Carnaval.

CARNAVAL É ECONOMIA CRIATIVA. CARNAVAL É LUCRATIVO.

A abrangência da Economia Criativa, tem como matérias primas a inteligência e a criatividade humanas, recursos que, se bem trabalhados, tendem ao infinito. Sendo assim, com possibilidades praticamente ilimitadas, a economia criativa pode ser considerada revolucionária no mundo atual.

O Carnaval constitui-se numa das mais conhecidas expressões culturais do Brasil, pode ser visto como uma síntese da Economia Criativa, uma vez que nas suas diversas formas de manifestação, os pequenos comerciantes, como ambulantes, taxistas, costureiras, músicos, montadores têm a oportunidade de trabalho e renda. .

PREJUÍZO DE MACEIÓ, POR NÃO TER CARNAVAL DE RUA ORGANIZADO

Durante o carnaval viajam 200 mil maceioenses em busca de folia. Se cada um folião gastar R$ 1.000,00 (um mil reais) durante o Carnaval, serão R$ 200.000.000,00 (duzentos milhões de reais) que deixam de circular em Maceió durante os quatro dias de Carnaval. Perdem dinheiro indiretamente os ambulantes, taxistas, costureiras, fábricas de camisas, rede de hotel e pousada, músicos, restaurantes, bares, montadoras, enfim uma gama de pequenos e médios negociantes.

E os 800.000 maceioenses que ficam na cidade, por não poder viajar, ficam sem Carnaval, sem a alegria fugaz de quatro dias.

BLOCO DA NÊGA FULÔ

Não conformados com a falta de carnaval na cidade de Maceió, alguns amigos formaram um bloco para defilar no domingo de carnaval bloco. O BLOCO DA NÊGA FULÔ, uma homenagem a um dos mais belos poemas do poeta alagoano Jorge de Lima, enaltecendo a beleza da cor negra dos brasileiros. Foi armado um belo estandarte, camisas do bloco distribuídas gratuitamente. Sem trio elétrico. a Orquestra de Frevo do Maestro Elizaubo Wandenberg, tocou durante o desfile marchinhas antigas e múicas alagoanas. Foi sucessso e muita alegria.

Todos os anos o Bloco da Nêga Fulô desfila no domingo de Carnaval. A concentração é na Praça 7 Coqueiros às 14.30 horas. Não tem corda, é aberto para todos os foliões, não é obrigatório o uso da camisa do bloco, embora sejam distribuídas 300 camisas do bloco. Todos os anos o Bloco da Nêga Fulô homenageia uma figura da cultura alagoana. Em 2026 será homenageado um dos maiores carnavalesco da história da cidade, o MOLEQUE NAMORADOR, que cedo partiu para fazer Carnaval no Céu.

Desfila uma Ala de Cadeirantes. A nossa linda NÊGA FULÔ ( a atriz Allana Gatto) vai abrir o bloco.caindo no passo com um jovem bailarino, representando o MOLEQUE NAMORADOR.

Esse ano de 2026 vamos formar o Blocão do Domingão, juntando com mais seis blocos desfilando no domingo de carnaval saindo da concentração nos 7 Coqueiros ás 14.30 e término do desfile na Praça do Alagoinha. Todos convidados, paga nada. As camisas serão gratúias.

O PRINCIPAL OBJETIVO DO BLOCO DA NÊGA FULÔ É O RETORNO DO CARNAVAL DE RUA NOS DIAS DE CARNAVAL. OS GOVERNOS: ESTADUAL E MUNICIPAL TEM CONTRIBUÍDO AO RETORNO DO CARNAVAL DE RUA. MAS, MUITO POUCO, MUITO POUCO MESMO. QUEREMOS UM CARNAVAL NOS QUATRO DIAS DE CARNAVAL COM O POVO NA RUA DESFILANDO COM BLOCOS E SE DIVERTINDO, TODOS TÊM O DIREITO DE UMA ALEGRIA FUGAZ QUE SE CHAMA CARNAVAL.

– O CARNAVAL É A MAIOR MANIFESTAÇÃO CULTURAL ESPONTÂNEA DO POVO BRASILEIRO.