CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O ROUBO DO OPALA VERMELHO

Emílio é engenheiro, trabalhador e inteligente, homem realizado e casado com Sandra, advogada, procuradora do Estado. Formam um belo casal de bem com a vida, se amam, fizeram três bonitos filhos.

Só existe um probleminha: Sandra padece de um mal incurável, é desligada, distraída. O que já perdeu de óculos e celulares, dava para montar uma loja.

Há algum tempo, quando os carros eram coloridos, Sandra deu uma batida em seu carro, distração. Enquanto consertava, pegou um emprestado na loja de carros usados de seu irmão. Ele cedeu um Opala Vermelho, velho. Sandra chegou em casa com o carro emprestado. Na quarta-feira de manhã Sandra foi fazer a feira no supermercado, precisava abastecer a casa na praia de Barra de São Miguel na semana santa.

Depois de todas as compras possíveis no supermercado, cheia de pacotes nos carrinhos, ficou a procura de seu carro no estacionamento, nunca lembrava onde estacionava. Até que viu ao longe um Opala vermelho. A porta estava meio emperrada para abrir, mas conseguiu, colocou as compras no banco traseiro, deu o arranque e foi para casa.

Na hora do almoço, Emílio combinou para ela ir à Barra na frente, as crianças estavam ansiosas. Ele só desocupava no dia seguinte, tinha muito trabalho em casa. Era melhor ela viajar no seu carro, um belo Toyota. Ele ficava com o Opala emprestado.

Na quinta-feira, logo após o almoço, Emílio com dificuldade deu a partida no Opala, em direção à Barra, satisfeito da vida, dentro de uma velha bermuda e uma camisa leve, mais velha ainda. Esqueceu o celular, até que achou uma boa, não ser incomodado para resolver problemas, os sócios que se virassem, queria curtir o feriadão sem problemas, sem aporrinhação. Amava sua casa, sua praia, sua mulher, sua família.

Quando passou pelo Posto Policial de Marechal Deodoro, um guarda mandou parar. Ele prontamente obedeceu, mostrou as carteiras e os documentos do carro que estavam no porta-luvas. O guarda examinou, olhou nos olhos de Emílio.

– Por favor queira saltar, esse carro é roubado.

Emílio ficou surpreso e incrédulo olhando para o guarda, dirigiu-se para o interior do Posto. Tentou se explicar, dizendo ser engenheiro, que o carro era do cunhado, tinha emprestado à sua esposa. Muita explicação dá para desconfiar. O policial pediu a carteira de engenheiro. Ele não usava, ficava em casa guardada. O policial pelas roupas que Emílio vestia, desconfiou, era suspeito. Mandou aguardar, chamou o Detran, o Departamento de Furto, ele que esclarecesse os fatos a esses senhores. Sem o celular, não dava para Emílio se comunicar, achou que resolveria a bronca.

Ficou à espera do Detran, enquanto xingava o cunhado por ter emprestado um carro roubado. Quase duas horas depois, apareceu o pessoal do Detran. Emílio prestou os esclarecimentos, mas não teve muito crédito. Os policiais pediram para recolher o carro e que ele o acompanhasse até o Detran. Emílio foi dirigindo o Opala com um policial ao lado, e atrás, escoltando, um carro da Polícia.

No Detran teve que se explicar de novo a outros policiais, que o acharam também suspeito, mandaram aguardar, estavam se comunicando com o proprietário do carro. Emílio estava fulo de raiva do cunhado, sem poder comunicar-se com ninguém; suspeito, os policiais não deixaram telefonar. Um policial, disse ter certeza que ele pertencia a uma quadrilha de puxadores de carro, que atuava em Arapiraca.

Esperou até chegar o proprietário do Opala vermelho, um cidadão magro cheirando a cachaça, feliz por ter encontrado seu santo carro.

O proprietário foi a fonte salvadora, esclareceu o acontecido: ele estacionou o seu Opala no supermercado, quando Sandra viu um Opala vermelho, pensou ser o dela. Sua chave abriu a porta e deu a partida, foi embora levando o carro alheio. O Opala dela ainda está estacionado no supermercado, ele viu.

Tudo esclarecido, desculpas pedidas de ambas as partes, Emílio partiu num táxi ansioso para Barra, estava anoitecendo. Queria chegar logo, irado com a distração de Sandra. Ninguém iria acreditar. Ao chegar na Barra Sandra brincava com as crianças na calçada quando o táxi parou em frente a sua casa. Sandra não notou a fisionomia do marido, na maior alegria perguntou.

– Porquê chegou a essa hora? Não sabe o que perdeu, a praia hoje estava maravilhosa!!!

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

CARLITO LIMA LANÇA O ROMANCE ‘HELENA, DA RUA DAS ÁRVORES’

Com a licença de meus queridos leitores, transcrevo o texto do jornalista Lula Castello publicado no blog Notícias do Centro.

* * *

A todo vapor em sua produção literária, Carlito Lima lança mais um romance, ‘Helena – da Rua das Árvores’, a abordar uma grande paixão de adolescência que ressurge na vida dos protagonistas já idosos. Contextualizado em Maceió, Alagoas, além de viagens pelo Brasil e pelo mundo, com a essência desse contador de histórias. O lançamento do livro acontecerá no dia 14 de agosto, a partir das 17h, no Theatro Homerinho, no histórico bairro de Jaraguá.

Na contracapa, palavras do cineasta Cacá Diegues assim descrevem a obra: “Esse romance tem uma força telúrica, mantém o saudável desejo de reinventar a “literatura nordestina”, modernizar seus temas e seus hábitos, sua capacidade de abordar mundos antes proibidos, talvez até por um falso rigor moral. O que se destaca na ficção de Carlito e em sua “cultura local” é justamente a busca pela liberdade”.

Helena passou sua infância e adolescência na rua das Árvores, no bairro do Centro, em Maceió. Viveu intensamente a cidade e sua época. Após 40 anos de casada, filhos já adultos, enviuvou e, ainda no enterro, encontrou o amor da adolescência, Bernardo. Ela com 67 anos e ele com 70, nem esperaram o luto baixar, e juntos passaram a conviver intensamente. Um romance rico em nuances históricas da vida e do lugar.

Para a escritora Vera Romariz, Carlito Lima, nesse romance, “trilha um inusitado caminho romanesco em sua obra, repleta de textos pitorescos com uma construção reiterada de um tom e espaço memorialístico do espaço alagoano”, e que “as gargalhadas simpáticas e de motivação sensual do velho capitão cedem um discreto lugar à consciência tardia da maturidade; nesse sentido, o tom tristonho e amoroso que envolve a personagem Helena reitera uma consciência melancólica da finitude e de seus males inevitáveis. Mas esse elemento tecido pela autoria é introduzido na trama narrativa de modo delicado, quase amoroso, como se o escritor temesse pisar sem delicadeza em memória e pessoas queridas. Como não respeitar a dignidade que, pelas mãos do autor, se remete ao inevitável percurso humano na terra?”, pontua Romariz, “Nesse livro, a gargalhada cede lugar ao domínio dos afetos necessários, que embelezam e dignificam a existência humana. EVOÉ, Carlito!”, concluiu a escritora.

Orelhas do Livro

– “Carlito, meu mestre, grande escritor e memorialista, com muitos cheiros, carinho e admiração eternos. Querido amigo, agradeço seu último livro com três lindas histórias femininas. Me pergunto como você conseguiu se colocar tão bem na pele das mulheres. Genial. Carinho e admiração por você, Carlito Lima, imenso brasileiro e escritor tão apaixonante, contribuição maior à memória de nosso país. Bravo!” “Mary Del Priore – Carioca, historiadora, escritora, professora universitária.”

– “O talento, a competência e a dedicação do escritor Carlito Lima, secretário de cultura da cidade histórica de Marechal Deodoro, em Alagoas, realizaram, no último fim de semana, a 3a FLIMAR. Gente de todo o país, do Rio Grande do Sul ao Amapá, e da América Latina, compareceu: jornalistas, escritores, conferencistas, poetas, cantores, grupos de teatro, folclore. Durante cinco dias, diante de suas igrejas barrocas, sobrados patinados e praças de pedras seculares, a cidade tornou-se um anfiteatro da cultura a céu aberto.” – “Sebastião Nery- um dos mais polêmicos e inteligentes jornalistas do Brasil.”

– “Chico Anísio era quem adotava a seguinte frase, em referência à pessoa que julgava importante: “Se você não conhece o fulano de tal, não sabe o que está perdendo”. Pela amizade fraterna que me liga a Chico, aproprio-me sem constrangimento dessa joia de referência e homenagem para identificar e eleger Carlito Lima como a figura mais interessante e inteligente da vida literária e boêmia de Maceió. Com a devida permissão de Chico Anísio, volto a usar o refrão de sua sabedoria de gênio, em louvor à inteligência e à alagoanidade do Velho Capita. “Se você não conhece o Carlito Lima, não sabe o que está perdendo”. “Aldemar Paiva –Artista nordestino”

Lançamento – Dia 14 de agosto Theatro Homerinho – Rua Sá e Albuquerque, 450, Jaraguá

17 às 20 h – Sessão de autógrafo – 20 às 22 h- Chico de Assis entrevista: Carlito Lima e Wedja Miranda – Tema Jaraguá – Avenida

22 h – Coquetel no Bar Lampi – Beco das Raparigas – Jaraguá

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O GRAMADO DA PAJUÇARA

Praia de Pajuçara 1970

A Organização Mundial da Saúde – OMS – tem como parâmetro o mínimo de 12,00 m² de área verde por habitante para que uma cidade seja razoavelmente oxigenada, ventilada, boa qualidade de vida. No Brasil existem cidades com 50,00 m² de área verde por habitante, como Curitiba, e a nordestina João Pessoa é recordista nacional com 60,00 m².

Maceió carece de muitas praças, parques e jardins; nossas áreas verdes não alcançam o raquítico número 6,00 (seis) m² por habitante. Ainda bem que temos o mar e a brisa para amenizar, Maceió seria um inferno de quente e abafado.

Tudo na vida tem uma causa. Aqui nessa nossa bendita e linda cidade de Nossa Senhora dos Prazeres, os governantes têm a mania criminosa de doar áreas do município para entidades e até para particulares, diminuindo nossa área verde, área pública, pulmão da cidade.

Numa rápida lembrança cito: a Praça Napoleão Goulart que o Clube Fênix, o clube mais rico do Estado, anexou a seu patrimônio. A Praça 13 de Maio, local de encontro da comunidade do Poço, marco de várias gerações, foi doada ao Sesc para construir sua sede. No loteamento da Avenida João Davino, uma bela e enorme área verde foi doada ao Clube dos Sargentos, onde construíram sua sede.

É preciso fazer um esforço para aumentar essas áreas verdes, plantando mais árvores nas ruas, cuidando melhor das praças e jardins; assim Maceió será além da mais bela, a mais gostosa e fresca capital do Nordeste, basta atingir esse índice mínimo de 12,00 m² por habitante.

Domingo passado, comendo meu imperdível acarajé no Alagoinha, encontrei duas amigas da velha guarda. A conversa foi a lembrança do bucólico e saudoso Gramado da Pajuçara, deu-me uma dor no coração, até de indignação, hoje, aquela aprazível e bonita área foi tomada por um enorme posto de gasolina. Quem deu nosso pedaço de juventude? Quem derrubou nosso munguzá?

O Gramado da Pajuçara, no início da Rua Jangadeiros Alagoanos, era uma belíssima e gostosa área verde, toda gramada, arborizada, onde a juventude dos anos 60/70 jogava voleibol, conversava, cantava e principalmente era o ponto de encontro das paqueras, dos namoros. Célebres amores dessa terra começaram no Gramado.

Embora eu morasse na Avenida da Paz, dava incursões pelo Gramado, amava passar as tardes, as noites, paquerando ou mesmo jogando naquele bucólico tapete verde feito de grama macia, onde nas noites de Lua deitávamos olhando para o céu e a própria Lua, ao som de um violão, curtindo uma bonita serenata. Do gramado, às vezes, partíamos para as jangadas no mar, rumo às, ainda desconhecidas, piscinas naturais da Pajuçara. Onde o mar beija as areias com mais alma e mais amor, como diria o poeta Aldemar Paiva.

Uma amiga com sua brilhante memória lembrou uma paródia da música carnavalesca, EVOCAÇÃO, composta pelas belas meninas (Vânia Papini), assíduas frequentadoras do Gramado, a gente assim cantava:

“Felipe, Pedro Rolete, Guilherme, Moacir, Cadê Fernando Totó? Cadê Carlinhos? Mário Jorge? Carlos Cunha? Faixa Branca?
Dos assaltos saudosos…
Na alta madrugada partiam do Gramado pras farras desatinados.
E era um sucesso… das férias ideais, na Terra dos Marechais.
Adeus, adeus, minha gente, que já brincamos bastante,
As férias terminaram, as aulas começaram,
E muita gente está distante…”

Gramado da Pajuçara, marco cultural, social, encantamento dos amores da nossa geração. Ponto de encontro, de lazer, de uma juventude que não morreu, que ainda vive em nossos corações e mentes dos que ainda têm capacidade de amar. Hoje, o bucólico gramado virou Posto de Gasolina É de fazer chorar, e como dói.!

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

COMPANHEIRA DE VIAGEM

Cheguei à rodoviária do Recife faltando cinco minutos para quatro da tarde, rapidamente comprei a passagem, desci correndo a escada, fui o último passageiro a embarcar, coloquei a pequena valise em cima, no porta-malas. Acomodei-me na poltrona. Cumprimentei com um sorriso minha vizinha de viagem, o ônibus deu a partida, pegou a estrada rumo a Maceió. Aproveitando os últimos raios do sol, uma luminosidade razoável, comecei a ler o livro do Mário Vargas Llosa, “Elogio da Madrasta”. A vista cansou com o lusco-fusco do entardecer. Fechei o livro, arriei a poltrona, tempo de pensar no romance que escrevo em minha cabeça. Nesse momento a vizinha da poltrona tirou o fone do ouvido, puxou conversa.

– Eu lhe conheço, leio suas divertidas crônicas aos domingos, adoro.

Percebi que não era uma adolescente como havia imaginado, a vizinha de bordo devia estar na faixa de 25 anos. Morena, olhos e cabelos negros, uma moça bonita. Pelas roupas vestidas e maneira de falar calculei ser de família classe média. Respondi à companheira de viagem.

– Que bom você gostar do que escrevo. A maior alegria de um escritor é o reconhecimento, fico feliz em encontrar uma leitora como você.

– Agora me diga, como o senhor arranja tantas histórias todos os domingos, elas são verdadeiras?

– Olha menina, algumas são verdadeiras 100%, outras tem 80% de verdade, outras 40%, as que não são baseadas em fatos reais eu as inventei. Tenho uma fértil imaginação desde menino quando lia histórias em quadrinhos e assistia filmes de cowboy.

– Aquela história da loura tarada da praia da Jatiúca é hilária, e também aquela outra…

Minha companheira de viagem passou um bom tempo contando, às gargalhadas, várias das minhas histórias. Depois falou sobre meus livros, ela sabia de toda minha vida. Fiquei contente em ter uma leitora tão bem informada. Interrompi Michelle, era seu nome, perguntei o que fazia na vida. Ela não se fez de rogada.

– Estudo Direito, tenho certeza que serei uma boa advogada, gosto de falar. Sou dedicada, quero vencer na vida. Além de ser uma profissão fascinante, a advocacia tem mais chances de concursos públicos. Termino esse ano, minha meta é trabalhar e estudar sempre para concurso, quem sabe se não serei uma juíza ou desembargadora?

– Acho a profissão de advogado muito interessante, sou engenheiro.

– Eu sei, sei de muita coisa de sua vida. Casado, três filhos.

Deu uma gargalhada debochada.

– Uma amiga comum me disse que o senhor é um bom boêmio.

– Senhor não, me chame de você, Sou um menino no corpo de um coroa.

– Na minha Faculdade sou líder, reconheço minhas virtudes, depois de me formar quero trabalhar, trabalhar muito, aprender a profissão no dia a dia. Não me importa de viajar, enfrentar tribunais, sou despachada e corajosa.

Proseando passamos boa parte do percurso, conversas amenas, até política. A moça me impressionou pela vivacidade e inteligência. A viagem tornou-se rápida, logo o ônibus entrava em Maceió. Ao passar por Jacarecica, peguei minha valise, me preparei para descer na parada mais perto da Jatiúca. Ainda deu tempo de uma última pergunta à companheira de viagem. Onde trabalhava? Ela foi de uma franqueza espontânea.

– Não tenho emprego definido, sou recepcionista de casamento e festas, trabalho numa empresa sem carteira assinada, só ganho quando acontece o evento. Se o senhor tiver algum lançamento de livro, ou outros tipos de eventos, eu cobro barato. Preciso de ajuda, veja o que o senhor pode fazer por mim.

O ônibus parou, desci para pegar um táxi, dei um até logo com a mão vazia. Ainda percebi o sorriso simpático e maroto de minha companheira de viagem enquanto o ônibus, soltando fumaça, desaparecia na escuridão da noite. Eu queria lhe dar meu novo romance, nem peguei o telefone da minha simpática companheira de viagem.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

DEODATO, O ESCULTOR DOS SANTOS

Existem muitos talentos nordestinos fazendo artes pelo Brasil. Emigraram para ter sucesso no Sul Maravilha. Deodato, por exemplo, o maior escultor do Brasil, santeiro de alta cepa, Só tornou-se celebridade depois de se fixar em São Paulo

Meu amigo nasceu e se criou na Levada, tomou banho na lagoa Mundaú. Moleque andarilho na cidade de Maceió dos anos 40. Ainda menino, crescidinho, tinha apelido de varapau, por sua altura. Seu primeiro emprego, aos 12 anos foi no matadouro municipal como espantador de urubu. Passava o dia com uma palha correndo, enxotando urubus famintos nos restos de comida.

Despontou seu talento artístico nas brincadeiras. Deodato costumava moldar barro, construindo casinhas e bonecos. Certo dia foi vender sua escultura de barro na Feira de Passarinho, arranjou clientes e alguns trocados. Dr. Théo Brandão descobriu o menino escultor e incentivou-o a continuar seu belo trabalho em barro, depois esculpiu na madeira. Graças ao Dr. Théo seu trabalho começou a ser conhecido. Foi convidado para uma exposição em São Paulo, onde ficou. Foi entrevistado nos programas de TV, ficou famoso. Vez em quando retornava a Maceió, me procurava, eu amava as histórias de Deodato, sua maneira engraçada de conta-las.

Quando o Brasil entrou na II Guerra Mundial, Deodato prontamente se apresentou para lutar contra os Fascistas. Por sua infelicidade, aliás, felicidade, não foi escolhido pela Força Expedicionária Brasileira-FEB. Contudo, deixou seu nome na história do 20º Batalhão de Caçadores sediado em Maceió. Fez curso, foi promovido a cabo, ficou conhecido como Cabo Vareta, tornou-se uma lenda.

Durante a Guerra fez parte de um Pelotão Especial organizado pelo Sargento Madalena para patrulhar a zona do meretrício de Jaraguá. Resolviam os casos sem armas, acabavam brigas na porrada. Naquela época havia muitos soldados americanos destacados na base militar, os maiores encrenqueiros, mas, tinham medo do Pelotão Especial. Diz Deodato: “Dei muita porrada em americano folgado.”

Certa vez o quartel estava acampado perto da Lagoa Mundaú. Numa madrugada, Deodato e o soldado Zé Miguel estavam de serviço, faziam ronda numa noite escura de verão, Perto da margem da lagoa ouviram vozes, cantoria. Chegaram perto, era uma ladainha. As rezadeiras velavam o corpo de um rapaz afogado. Eles se aproximaram, foram recebidos pela família, tomaram alguns goles de cachaça. Zé ao verificar o sapato do morto ficou interessadíssimo, novinho em folha. Quando a reza acabou, os amigos do defunto se recolheram, ao amanhecer levariam o corpo para o cemitério, deixaram o cabo e o soldado à vontade. Zé Miguel ficou, de olho no sapato do defunto. Deodato continuou a ronda sozinho. Certo momento parou, ficou escondido atrás de um pé de pau, observando. Quando Zé Miguel iniciou a desatar o cadarço do sapato, Deodato atirou uma pedra, passou zunindo na cara do amigo. Zé ficou assustado, continuou a desatar o sapato. O cabo Vareta atirou outra pedra, acertou na barriga do defunto, Zé se assustou. Deodato lançou a terceira, a pedra maior apagou o candeeiro ao lado do corpo, Deodato aproveitou o escuro, gritou com voz cavernosa:

– Tire a mão do meu sapato cabra safado!!

Zé Miguel desembestou numa disparada sem parar, cabelos arrepiados. Uma hora depois Deodato chegou ao acampamento, perguntou com a cara mais lisa: “Que brancura é essa, Zé?”.

Zé Miguel estava ensanguentado, com o uniforme rasgado. Apavorado havia atravessado um obstáculo militar, cerca de arame farpado.

– Vareta, o defunto falou, me esculhambou!

Chorava o Zé ainda tremendo de medo, olhos arregalados.

– Bem feito, quem mandou mexer com almas do outro mundo!!!!

Disse Deodato, enquanto discretamente voltava para o local onde estava o velório vazio. Chegou sorrateiro, aliviou ο incômodo peso do sapato no defunto, experimentou.

– Era número 43, caiu como uma luva em meus pés.

Contou-me Deodato às gargalhadas. Saudades de meu amigo que hoje deve estar no céu esculpindo e os santos posando.

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ALEMÃ REVOLUCIONÁRIA

A bonita Hellen Merkel nasceu na Alemanha, chegou ao Brasil ainda menina, seu pai, gerente de uma fábrica no Paraná adotou Curitiba como sua. Na juventude Hellen tornou-se rebelde, adorava vestir camisa com foto de Che Guevara, boina vermelha de lado, sentia-se uma revolucionária, típica guerrilheira de botequim, frequentava os melhores e piores bares da cidade discutindo o fim do capitalismo e a vitória final do mundo socialista soviético. Entretanto, em sua casa não dispensava boa comida, roupas de grifes para festas burguesas que dizia detestar, e ar condicionado no quarto para os dias de calor. Experimentou a maconha. Entregou sua virgindade a um companheiro revolucionário, colega da Faculdade de Medicina, um bonito argentino de nome Belizário.

Contudo, tinha uma paixão forte pelo seu professor. O Dr. Amadeus também sangue alemão na veia, ficou apaixonado pela meiguice e determinação de sua aluna na Faculdade de Medicina. Divorciado, 17 anos mais velho que a jovem Hellen. Houve dificuldade da família em aceitar o casamento. Ela grávida, logo teve seu primeiro filho.

A diferença de idade entre os dois foi-se acentuando com o tempo, enquanto Hellen cuidava do corpo e da saúde, Amadeus deixou-se levar pelo sedentarismo, criou uma notável barriga consequência das cervejas diárias. Vivia de um consultório médico pouco frequentado e da aposentadoria de professor. Enquanto Hellen se tornou uma das mais competentes pediatras da cidade.

Foram mais de 22 anos de convivência, com respeito mútuo, criaram dois filhos. Mas, o diabo atenta, às vezes aparece em forma feminina. Não é que Amadeus se engraçou de uma pilantra, ficou de caso com uma jovem de 20 anos. Encantou-se com a mulher nova, bonita e carinhosa. A jovem ganhou presentes caros, as joias deram razoável baixa na conta corrente do Gordo.

Não foi difícil Hellen descobrir a traição. Conversou com Amadeus, deu-lhe uma chance para largar a sirigaita. Ele passou dois meses afastado da moça, entretanto, a força do satanás foi maior, o Gordo, voltou a encontrar-se com a jovem.

Hellen não aguentou a situação, reuniu os filhos em casa, contou o que estava acontecendo. Resolveu tirar umas férias sozinha, viajaria para um lugar tranquilo, pensar o que fazer de sua vida, tinha 45 anos, idade crítica para tomar decisões e mudar de vida, precisava refletir em paz.

Escolheu Recife, Hellen sempre teve um encanto especial por essa cidade e não conhecia. Chegou ao hotel numa ensolarada tarde, atravessou a avenida, sentou-se num banco para apreciar o mar azul esverdeado, sentiu-se bem. Pela manhã caminhou sozinha na areia da praia de Boa Viagem, o espírito necessitava isolamento, pensar nela mesmo. Na segunda manhã, após a caminhada, sentou-se num banco da barraca, pediu água de coco. Um jovem de bermuda e camiseta prontamente abriu o coco com três golpes, colocou um canudo e entregou-lhe sorrindo.

Hellen teve inveja da simplicidade, da felicidade que irradiava o jovem, notou o belo corpo do moreno, cheio de músculo, espadaúdo. Puxou conversa. Cicinho contou sua vida, era garçom por enquanto, havia dado baixa de cabo do Exército, pescador nas horas vagas, agora ajudava o pai na barraca de praia de onde a família tirava a sobrevivência. 28 anos, dois filhos, solteiro, não queria mulher lhe prendendo. Conversaram bastante. Nos outros dias Hellen depois da caminhada não dispensava o bate papo com o alegre amigo Cicinho, percebeu que havia despertado dentro dela algum ânimo adormecido. Foram-se cinco dias entre conversas, às vezes, confidencia; ao olhar o novo amigo nos olhos, perturbava-se. Num entardecer, passeando pela calçada, notou um ambulante vendendo camisa de Che Guevara, alegrou-se, comprou uma; num ímpeto, trocou a camisa num banheiro, sentiu-se bem, era novamente a revolucionária dos velhos tempos, estava feliz, vontade de cantar, de controvérsias, de insensatez. De repente, caminhou em direção à barraca. Ao ver Cicinho em pé olhando o mar, aproximou-se do amigo, sorriu-lhe, olhou nos olhos, abraçou-o, beijou sua boca. À noite foram para o hotel, dormiram juntos quatorze dias seguidos.

Ao chegar a Curitiba, Amadeus a esperava no aeroporto, Em casa conversaram, o Gordo arrependido, pediu perdão, prometendo não procurar mais a sirigaita. Hellen o perdoou com uma condição, vez em quando viajar sozinha para meditação, para o Recife.

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O VELHO E O MAR DE MACEIÓ

Seu Rodolfo acordou-se quatro da manhã na cama de colchão de palha, enlaçou Santinha pelas pernas, falou ao ouvido: “Está na hora”. Enquanto a esposa dirigia-se à cozinha preparando café, macaxeira, inhame, peixe frito, Seu Rodolfo dirigiu-se à casinha (o banheiro sanitário construído no quintal das casas, chamava-se casinha), depois de ter-se aliviado, pegou um pedaço de jornal, limpou-se, jogou fora o jornal datado da época (1942), sem ler a manchete impressa, “Submarino alemão visto em praias do Nordeste pode atacar o litoral brasileiro”. Depois do café pegou um saco de carne do sol, farinha e banana, outro com linhas, anzóis, peixes de isca, colocou a tarrafa no ombro, saiu de casa caminhando pelo bairro boêmio de Jaraguá até a praia, ouvia ao longe músicas de amor dos cabarés retardatários.

Perto do Bar da Tartaruga junto aos trapiches, deixou as sacolas na jangada, foi ao bar, cumprimentou outros colegas. Nas mesas alguns boêmios, prostitutas com lábios manchados pela noitada. Rodolfo tomou café com o compadre Moacir, dono do Bar. Ao sair o amigo desejou boa pescaria. Seu Rodolfo, desamarrou a jangada colocou dois rolos de coqueiro por baixo, empurrou a jangada até flutuar na água. Subiu a vela de pano branco parecendo um ritual militar. Molhou o pano com água salgada, tomou o remo como leme, navegou a jangada qual cisne branco mar adentro. O sol vermelho apareceu como se fosse uma cabeça de criança nascendo, alaranjou as nuvens, o mar tornou-se azul. A vista de Maceió ao longe era apenas uma fileira de casas pequeninas. Seu Rodolfo dirigiu a jangada ao local onde havia bons cardumes, conhecia cada canto do mar. A bússola era o olhar e a direção do vento, sabia navegação empiricamente, aprendeu com a vida no mar desde cinco anos, seu pai também foi pescador.

Seu Rodolfo, em torno dos 50 anos, pele encardida, parecia mais velho, a vista anuviada pela constante exposição ao Sol. Amava o mar, alegrava seu trabalho, cada peixe puxado uma vitória da arte da pesca. Retornava por volta das três da tarde, tratava os peixes com peixeira no Bar da Tartaruga, colocava os samburás no ombro, caminhava gritando na Avenida da Paz, “peixe fresco”, “olha o camorim”, “carapeba”. Seu Rodolfo tinha boa freguesia, inclusive minha mãe. Era amigo da família.

Naquela manhã a sorte estava a seu lado, ainda não era meio dia os caixotes da jangada estavam apinhados de xaréu, arabaiana, bijupirá, carapeba, garassuma, pescados por linhas jogadas ao mar e tarrafas. De repente ele sentiu um puxão em uma linha, alegrou-se pensando: peixe grande. Deu mais linha para cansar o peixe, logo depois puxava, era preciso paciência, astúcia para brigar contra o enorme peixe, sentia pelo puxão. Duas horas depois continuava a briga do peixe com o velho Rodolfo. O cansaço chegou em ambos os lados, Seu Rodolfo estava atrasado em sua tarefa diária na cidade, entretanto, nada lhe abalava, preferia a luta com o peixe grande. Com imensa força concentrada conseguiu puxar o peixe grande para cima da jangada, ainda se batendo. Rodolfo imediatamente cortou suas guelras, ficou contemplando embevecido a maravilha pescada, valente peixe, calculou 30 kg. Antes de cortá-lo, mostraria aos amigos na beira do cais.

Amarrou o peixe grande na jangada, desfraldou novamente a vela em direção à praia. Não havia dez minutos de navegação quando sentiu uma pequena onda levantar a jangada, percebeu alguma coisa estranha acontecendo; novas ondas, o mar ficou revolto em torno da jangada. Seu Rodolfo pensou, deve ser baleia, aparece a qualquer momento, sem medo comandava a jangada quando inesperadamente emergiu perto da jangada um navio diferente, parecendo um enorme charuto. Seu Rodolfo ficou na espreita, o navio-charuto depois de emergir totalmente, parou, não se avistava ninguém. De repente uma portinhola abriu-se por cima, saíram três homens de calção preto, pele rosada, ouros como nunca havia visto. Os homens falavam, ele não entendia. Depois de algum tempo, comunicando-se por meio de gesto, Seu Rodolfo compreendeu, os galegos queriam trocar peixe por materiais e comidas. Com lástima, entrou no negócio o peixe grande, o velho pescador recebeu enorme quantidade de queijo, presunto, sapatos, botas, cigarros, encheu a jangada. Logo depois o navio-charuto submergiu, desapareceu no mar.

Essa história do submarino alemão foi contada em 1950 a mim, a meu irmão Betuca e ao tio Nilo no Coreto da Avenida pelo velho Seu Rodolfo, calçado ainda com bota alemã, tomando goles de cachaça, dando gargalhadas. Sentiu apenas não ter podido mostrar o peixe de 30 quilos, fazendo inveja aos companheiros pescadores

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MINHAS QUERIDAS FESTAS JUNINAS

Ele chegava alegre com dois ou três pacotes, colocava-os na mesa e abria mostrando aos cinco filhos os fogos comprados para o São João. Arrodeando a mesa da sala da imensa varanda de minha casa, contemplávamos cheios de alegria aquele presente de meu pai. O Major Mário Lima sentia prazer, satisfação em distribuir os fogos aos filhos. Aos menores cabiam: traques, chuvinhas e estalos bebé. Aos maiores eram distribuídos: foguetes de três tiros, foguetes de estrelas, bombas travalianas, peidos de veia, e o melhor, os vulcões. Na véspera de São João, perto de escurecer dava-se o momento mágico: acender a fogueira bem arrumada na rua em frente à minha casa. Lançava álcool por cima dos troncos, acendia o fogo com um fósforo. O fogaréu começava chispando faísca, iluminava a rua. Os adultos sentados nas cadeiras na calçada, conversavam, tomando doses de quentão, uísque ou cerveja e olhavam a meninada correr e soltar seus fogos. Os vizinhos seguiam o mesmo ritual. A rua engalanava-se em fogueiras e bandeirinhas, havia um rodízio de visitas enquanto a eletrola tocava:

A fogueira tá queimando… Em homenagem a São João… O forró já começou… Vamos, gente, rapa pé nesse salão…

Quando dava meia-noite, as mocinhas entravam para fazer “adivinhações”. Em uma bacia cheia d’água deixavam pingar cera de uma vela acesa até formar ou aparentar com os pingos uma letra. Pronto, era com um jovem de nome iniciado com aquela letra que a moça iria casar. Ou levavam para o fundo do quintal uma faca que enfiava no tronco de uma bananeira, no dia seguinte puxava a faca manchada com a primeira letra do seu futuro marido. Eu, menino acompanhava com fascínio toda aquela movimentação da véspera de São João, ouvindo o som da eletrola rodando as músicas de Luiz Gonzaga. Quando a fogueira baixava, convidava um amigo do peito para pular por cima das brasas, um de cada lado, seríamos “compadres” para o resto da vida. Um dos momentos mais esperados era a queima de três ou quatro vulcões enormes, um esplendor de explosão jorrando forte para o alto enormes faíscas coloridas.

Durante a adolescência, a expectativa do São João iniciava um mês antes, com os ensaios da Quadrilha no Iate Clube Pajussara. Vários pares de jovens dançavam e rebolavam ao som de uma animada música junina e sob o comandando do quadrilheiro que cantava a sequência dos passos da dança em francês: “Em avant tout”, “change de dame”, “balancê”, “returnê”, “tur”, e lá íamos nós, os jovens casais, felizes da vida. Ensaiávamos bastante até a noite da grande apresentação. Durante os repetitivos ensaios, a paquera era maravilhosa. Iniciavam namoros entre os componentes da quadrilha. Afinal a noite de glória, a apresentação da Quadrilha do Iate. Todos fantasiados de matutos, com as calças e camisas remendadas, bigodes e costeletas de carvão, chapéu de palha, dançávamos como se fosse para a maior plateia do mundo. Enchíamos de orgulho e felicidade quando os aplausos ensurdeciam no enorme salão.

No CRB havia a famosíssima Festa dos Pedros, organizada na véspera de São Pedro, dia 28 de junho. As mesas rapidamente vendidas, quem tinha o nome Pedro, a mesa reservada era cortesia. Um arrasta-pé intermitente animado por quatro trios nordestinos, forró de pé de serra, tocava a noite toda. Ao lado de fora uma enorme fogueira acesa iluminava o Clube e a praia da Pajuçara. Quando terminava a animada festa, nós, jovens moradores da Avenida da Paz, caminhávamos rumo às nossas casas, cantando ainda com energia cheio de hormônios, geralmente de mãos dadas com a namorada da vez. Abraçados, um beijo roubado, cantando pela noite iluminada pelos postes da luz boêmia:

“Olha pro céu meu amor… Veja como ele está lindo… Olha para aquele balão multicor… Que lá no céu está sumindo… Foi numa noite igual a esta… Que tu me deste o coração… O céu estava em festa…

A música valia um beijo da namorada já segura pelo pescoço. Durante a alegre caminhada, às vezes a chuva acontecia, era sinal de alegria, estimulava nossa energia. Ao chegar perto do coreto da Avenida, o dia amanhecendo, o céu dourado anunciando um novo dia, com chuva ou sem chuva, corríamos para um mergulho no mar alaranjado pelo sol nascente com roupa e tudo que tivesse no corpo. Alegres, cansados, cada qual partia molhado para sua casa. Era a despedida, acabava as festas juninas tão amadas e tão esperadas durante o ano inteiro.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

NORDESTE INDEPENDENTE

O povo feliz, com alma lavada e enxaguada, dançava na praia da Avenida da Paz, celebrando a Independência do Nordeste. A festa varou a noite, continuou por mais uma semana. No palco armado um vistoso pastoril cantava acenando para o povo.

De um lado, o cordão encarnado, uma coluna com sete pastoras, moças charmosas, bonitas com seus vestidos de chita, fantasias de saias rodadas. Do outro lado, o cordão azul, outras sete jovens, louras, morenas, mulatas, todas acenavam para o povo na praia com seus pequenos pandeiros fantasiados de fitas coloridas. Entre as duas colunas, entre os dois cordões, dançava a Diana de minissaia, dividida entre azul e encarnado. Atrás da Diana, ao fundo, o pastor, segurando um cajado feito bengala com uma estrela incrustada na ponta. Todos dançavam, todos sorriam, era Festa da Independência.

A primeira pastora do encarnado- a Mestra- era a guerreira Heloísa Helena; a Diana, que não tem partido a afinadíssima cantora Leureny Barbosa; e a Contra-Mestra, primeira pastora do cordão azul com seu saiote rodado, a valorosa Kátia Born. Elas pareciam ter vinte aninhos iguais às outras pastoras. Atrás da Diana dançava o pastor, pelos trejeitos afeminados reconheci Lolita, um famoso fresco do Recife que costumava dizer: “Quem não conhece Lolita, não conhece o Recife”. Cantavam a primeira jornada do pastoril:

Boa noite meus senhores todos; Boa noite senhoras também… Somos pastoras, pastorinhas belas, Que alegremente vamos a Belém…

E o povão, embaixo do palco, enlouquecia quando as pastoras rodavam levantando os saiotes coloridos, mostrando as pernas. Eram mulheres-meninas com suas bonitas e empinadas bundas cobertas apenas por uma minúscula calcinha. A moçada ia ao delírio, ajudada pelo artista, poeta Chico de Assis, animando ao microfone:

Viva o cordão encarnado! Viva o cordão azul! Viva a Independência!

Sem deixar de olhar para as pastoras o povão respondia: – VIVA!

Durante toda a noite apresentaram-se fandangos, folguedos, folias, coco de roda, baiana, caboclinho, reisado, nega da costa, chegança, guerreiro e outras danças populares nordestinas.

No Museu Théo Brandão acontecia um agitado e divertido baile de carnaval. A orquestra do maestro Elizaubo Wanderberg tocou durante toda noite. O povão se esbaldava se empolgava com as músicas, ia ao delírio quando a orquestra arrochava no frevo Vassourinhas. Afinal o dia foi despertando, a orquestra desceu à rua, deu algumas voltas na Avenida, puxando os foliões em direção à praia.

O povo dançava na extensa praia de areia branca, cantando música de Edécio Lopes: Subi a ladeira do Farol… Fiquei no mirante a olhar… Os raios dourados do sol… No azul imenso do mar… Olhei a cidade sorriso… E vi Maceió tão feliz… Mostrando tanta riqueza… Ao povo desse país

Continuavam os gritos: “Viva a Independência”. “Viva o Nordeste!”.

De repente os foliões entraram na água cristalina e morna naquela luminosa manhã. O mar de um esverdeado com matizes azuis, levemente dourado pelo sol da madrugada convidava ao mergulho. O povo de roupa e fantasia, lavava sua alma. A música continuou.

De repente emergiram das águas tranquilas, os Deuses do mar: Yemanjá, Netuno, o Príncipe Submarino e algumas belíssimas sereias com caras e rabos humanos, alegres pelo carnaval inesperado. Como no Olimpo deuses e homens se misturaram, caíram na folia. Deuses brasileiros, deuses nordestinos, Deuses da alegria e do amor. A festa da Independência do Nordeste durou uma semana.
De repente acordei-me. Triste com a realidade, percebi que tudo foi apenas um sonho, um feliz sonho sonhado.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

AS ÁGUAS DE 1949

Ponte do Salgadinho partida ao meio

O ano, 1949, eu era um menino, fiquei assustado com relâmpagos e trovoadas, me alegrava apenas lembrar dos caranguejos, eles sairiam do buraco com trovões, durante a manhã eu havia espalhado nas tocas de caranguejos às margens do Riacho Salgadinho, armadilhas feitas de lata de óleo. Durante a madrugada houve um temporal diluviano. O Salgadinho transbordou, encheu as casas da Rua Silvério Jorge, onde eu morava.

À noite uma enxurrada desceu do Tabuleiro com muita velocidade, passando pelo bairro do Farol com um barulho aterrador de água em grande movimento. A aluvião avançou como se fosse uma onda desgovernada atropelando o que encontrava pela frente, carros, carroças, derrubou árvores. Quando a enxurrada se intensificou na descida do Farol, na Rua Barão de Atalaia, perto fábrica de Guaraná Davino, aconteceu um forte estrondo, rompeu um enorme bloco de barro desprendido da barreira caiu por trás das casas. Tragédia, 20 residências soterradas, mais de 50 mortos.

No leito do vale do Riacho Reginaldo-Salgadinho a correnteza da água de chuva, volumosa e insustentável como um enorme vagalhão, levava o que havia pela frente em seu corredor. Na foz, no desembocar, onde o riacho deságua na Avenida da Paz, a enxurrada chegou tão forte que partiu ao meio a ponte de concreto da avenida. A ponte desmoronou, foi arrastada em dois blocos à beira-mar.

No vão, onde estava a ponte sobre o Salgadinho, ficaram apenas trilhos dos velhos bondes pregados em seus dormentes. O bonde era um transporte urbano muito usado naquela época.

Quando o dia amanheceu puderam-se avaliar os estragos da catástrofe, daquela chuva de volume nunca visto. Curiosos, moradores, ficaram estarrecidos, contemplando as consequências da água violenta naquela madrugada.

Pela manhã já se sabia pela da catástrofe pela Rádio Difusora, a enxurrada havia derrubado a ponte da Avenida. A Rádio anunciou a suspensão das aulas; depois do café da manhã, corri atrás de minhas “ratoeiras”, não encontrei uma sequer, em alguns locais estavam submersas. Andei até a praia, entrei no Hotel Atlântico, de uma privilegiada posição fiquei contemplando emocionado o vão da ponte apenas com os dormentes do bonde balançando.

Dois enormes blocos de concretos à beira-mar, lavados pelas ondas, como se fossem rochas naturais. Dois pedaços de ponte. Fiquei deslumbrado com os trilhos pregados no dormente, resistindo, numa linha curva, o que restou da tragédia. Esses mesmos trilhos serviram como base, construíram imediatamente uma ponte provisória para pedestre. Os usuários dos bondes atravessarem fazendo baldeação da linha Vergel do Lago – Ponta da Terra e vice versa. Os bondes paravam na cabeceira da ponte, os passageiros recebiam um tíquete, atravessavam a ponte improvisada, tomavam outro bonde que os levavam ao destino. Carros, caminhões e ônibus seguiam seu destino de Ponta da Terra para o Centro, arrodeando via bairro do Poço.

A meninada traquina até gostou da tragédia, apareceu mais outro divertimento. Todo dia nós acompanhávamos, encantados, as obras de engenharia, construção da nova ponte do Salgadinho. Da cabeceira descíamos, ficávamos por baixo da ponte de pedestre improvisada, em local estratégico, apreciando o desfile das calcinhas das mulheres que atravessavam distraídas.

Com a construção de uma ponte de madeira provisória na Rua Silvério Jorge, o trânsito voltou ao normal na região da orla. Foi rápida, um ano, a construção da nova ponte de concreto, inaugurada com muito estardalhaço pelos políticos.