CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

UCPM

Nos anos 50/60, Maceió vivia uma época áurea de tranquilidade, excelente qualidade de vida, parecia uma enorme família. Nós adolescentes formávamos turmas de bairros, inventávamos brincadeiras, jogos, festas de rua onde a moçada torcia no pastoril pelo azul ou encarnado, ou nos campos de futebol pelo CRB ou CSA. Havia a turma da Praia da Avenida, da Praça Deodoro, da Praça Sinimbu, do Gramado da Pajuçara, da Praça Rayol, do Farol, entre outras. Todas tinham um time. Era grande a rivalidade entre os jovens no futebol na areia da praia, nas festas, nos clubes e nas namoradas. Contudo, todas as turmas convergiam para as mesmas praias: Avenida ou Pajuçara; mesmos clubes: Fênix, Iate, Portuguesa ou CRB; mesmos colégios: Diocesano, Liceu, Guido ou Batista. Resultava numa integração de amizade. Todos se conheciam na província de Maceió.

Apesar de morador na praia da Avenida da Paz, eu circulava por toda cidade com minha bicicleta. Certa vez eu namorava uma bela morena na Praça Centenário. Depois do jantar subia de bicicleta pela Ladeira da Catedral pedalando, na ânsia de abraçar a morena.

Minha namorada era gêmea. Um dia a irmã veio me avisar que ela estava doente, de repente resolveu tomar seu lugar, calada, segurou minha mão. Não percebi, abracei e beijei a cunhada. Caminhamos pelas ruas escuras do Farol, vez em quando parando, xumbregando, sem saber que beijava a irmã gêmea da namorada. Quando foi para casa, sorrindo me contou o engano proposital,

Tornou-se um segredo.

Certa noite, no Parque Gonçalves Ledo, encontrei um amigo. Depois de um papo informal, convidou-me para reunião de uma associação que a turma do Farol tinha criado com muita imaginação e bom humor. Assisti a reunião, gostei, fui aprovado e tornei-me sócio da UCPM – União dos Conquistadores de Peniqueira de Maceió, (naquela época nós adolescente chamávamos de Peniqueira, sem menosprezar, a empregada doméstica).

Tinha regulamentação. Havia uma escala hierárquica. Os sócios para ganharem pontos e serem promovidos, relatavam as aventuras, as conquistas com as empregadas domésticas. Conforme o tipo da aventura e o número de conquistas, ganhava-se pontos e promoção aos postos dentro da hierarquia, como se fosse militar. Cheguei a Capitão no Exército, mas não consegui ser Tenente na UCPM. Havia alguns amigos dedicados. José foi galgado ao posto de Marechal por merecimento. Este posto tornou-se cargo privativo; era o comandante, chefe geral. Apenas dois associados conseguiram promoção a general. Por coincidência, esses dois generais da UCPM, moram hoje no mesmo edifício na praia de Ponta Verde.

Naquela época namorada era só beijinhos, abraços, no máximo. Quando dava 10 da noite a namorada entrava em casa. Nós pobres mortais jovens, saíamos excitadíssimos do xumbrego. A solução era descarregar nas profissionais dos casarões de Jaraguá, ou ir à cata das gentis empregadas, generosas, amadas, inigualáveis. Geralmente morenas do interior, do sertão, aonde a seca matava. As moças vinham para a cidade por uma vida melhor. Na capital tinha pouco emprego, para sobreviver elas tinham dois caminhos: a prostituição ou ser empregada doméstica. Sempre cheirosinhas, saíam de casa perfumadas em busca de amor e carinho.

A mais famosa e bonita era a Nega Odete, parecia uma rainha africana, a rainha de Sabá, lábios carnudos, bunda rebitada e riso debochado. Trabalhava numa casa na Praça Sinimbu. À noite dedicava-se de corpo e alma, literalmente, ao que mais gostava, ao que mais sabia fazer, o amor. Era a Vênus Calipígia de ébano dos sonhos da juventude da Praia da Avenida, uma rainha. Não queria compromisso, nem cobrava, ela escolhia seu parceiro. Toda a noite arranjava um namorado. Sua cama de amor eram as plantas ralas da praia, olhando o céu com um milhão de estrelas. A maioria da juventude da Avenida da Paz perdeu a virgindade nas areias mornas da praia, nos braços e sabedoria da Nega Odete.

É necessário uma homenagem, um reconhecimento aos serviços prestados pela divina criatura, que merecia uma estátua na Praça Sinimbu, junto ao Joãozinho Mijão. É merecedora da gratidão de várias gerações.

Bendita juventude, bendita UCPM, bendita Nega Odete.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O SEGREDO

Afinal Alexandre é ou não é corno? A história é controversa, afinal sua mulher foi franca, confessou ao marido, estava apaixonada por um colega de trabalho, nada havia consumado, ela deixou a casa. Aparecida desapareceu da vida de Alexandre. O ex marido ficou em depressão, dor-de-corno, a autoestima mergulhou. O Pior é que Alexandre relaxou nos negócios, venda de carros usados. Começou a beber todo dia, estava beirando à sarjeta. O tempo é o senhor da razão, dizia o Presidente, quatro meses depois, Alexandre apagou mais a imagem de Aparecida de sua mente. Continuou vendendo carros usados. O ganho dá para se divertir em algumas noitadas. Atualmente, garotas de programa é seu brinquedo predileto. Não sai mais de três vezes com a mesma garota. Apenas Michelle lhe enfeitiçou, jovem Afrodite, Deusa do amor, nasceu para o serviço.

Passaram-se tempos da separação, Alexandre vivia bem, sem amarração, solteiro. Porém, sua irmã mais velha ficava preocupada, achando que todo ser humano veio à terra para se acasalar, inventava festas convidava moças, coroas disponíveis, Alexandre esnobava, casamento jamais.

Até que um dia se engraçou de Luzia, morena bem conservada, ultrapassando os quarenta, ninguém sabia ao certo sua idade. Amiga da irmã, que conseguiu fazer o namoro. Alexandre afinal gostou de uma companhia, mulher bonita, o tempo não foi tão cruel com Luzia. Começaram a sair, cinema, praia, mãozinhas dadas, um beijo, namoro à antiga, passaram-se dois meses para entrar no corpo a corpo. Alexandre ficou encantado com a sabedoria da nova companheira, a coroa bonita é carinhosa, fez o homem gemer sem sentir dor.

Luzia contou sua vida; casou-se nova, grávida, nasceu a filha, a alegria da casa, todos encantados com aquela menina bela e sabida; hoje uma jovem, Antônia, de 19 anos. Certo dia, o pai foi convidado para um bom emprego no sul, Usina de Açúcar em Minas Gerais, aceitou. Com menos de um ano se enrabichou com uma mineira de Juiz de Fora, nunca mais retornou à casa. Manda uma pensão mixuruca, Luzia teve que trabalhar, economizar bastante para se sustentar. Antônia ainda não se formou, estuda contabilidade à noite, tem seus negócios de venda, Avon, ganha um pouco. Como toda jovem gosta de uma balada noturna. Luzia marcou um jantar num restaurante para Alexandre conhecer a futura enteada. Ele foi o primeiro a chegar, pediu uma dose de uísque, bebericou feliz da vida, estava gostando de Luzia, mulher educada, assim estava pensando quando ouviu a voz da namorada, boa noite, ele se virou, tomou maior susto, não conseguiu esconder a surpresa ao perceber, Antônia, a filha, era uma das garotas de programa, a preferida, Michelle, seu nome de guerra. Ele conseguiu se recuperar da surpresa estendeu a mão, muito prazer. Sentaram-se à mesa, iniciaram a conversa. Luzia ficou animada ao apresentar Antônia. Conversaram bastante. Depois do jantar a filha pediu licença, tinha compromissos.

No outro dia Antônia telefonou, marcou encontro com Alexandre, foi direta.

– Meu querido amigo, que susto nós passamos, minha mãe jamais imagina meus programas, pensa apenas que gosto da boemia. Confesso estava ansiosa para lhe conhecer, sem nunca imaginar ser o Xandão. Minha mãe depois que lhe conheceu mudou completamente, tornou-se alegre, é uma mulher feliz, fala em Alexandre o tempo todo, ela lhe ama, lhe adora. Vocês formam um belo casal, vim lhe implorar, não acabe esse namoro por minha causa, garanto, deixarei os programas, seja qual for o preço, eu não quero atrapalhar a felicidade de minha mãe, de vocês, esqueça o que passamos.

– Antônia, minha enteada, gosto de Luzia, vamos nos juntar, não se preocupe. Quanto à você, a mulher mais lasciva, mais sensual, que encontrei, não dá para esquecer. Será nosso segredo. Vamos nos comportar como pai e filha. Entretanto, fica o aviso, se você der, eu como.

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O ASSALTO

Dona Zulmira teve dois filhos, dois Zé: Zé Miguel e Zé Gabriel, para diferençar chamou o menor de Zé Pequeno, o apelido pegou, até hoje os mais íntimos só o chamam de Zé Pequeno, sem cerimônia. Tornou-se um ótimo comerciante, chegado às mulheres, era solteirão convicto até a chegada de Jandira, uma gostosa prima, há muitos anos morando no Rio de Janeiro. Zé Pequeno ficou encantado com aquela vistosa mulher, loura, vestido decotado, divertida, sem meias palavras dizia o que vinha na cabeça, tetas exuberantes, sorriso desavergonhado. Escandalizou a família e o bairro. Era segredo o trabalho daquela jovem no Rio. Entretanto, Zé Pequeno sabia o que queria, sem preconceitos, terminou casando-se com a bela Jandira. Os amigos, os desocupados, previram um belo par de chifres no Zé Pequeno. Com sete meses de casados telefonaram para Zé Pequeno, fuxicando. Sua distinta estava de abraços com um rapaz, um surfista da praia da Jatiúca. Zé pegou-a saindo do motel. Não houve acordo, houve escândalo. Foi a crônica da galha anunciada.

Zé Pequeno passou um tempo se entregando aos cabarés. Certo dia entrou na sua loja de material de construção, Angelita, colega de infância, pouco estrábica, sem muitos predicados da beleza feminina. Logo Zé Pequeno casava novamente, sem medo de levar ponta.

Os anos se passaram, os dois se deram bem, cada qual no seu canto sem se intrometer na seara do outro. Angelita tem butique de moda jovem, ganha para seu sustento. Tiveram dois filhos. Entretanto, tem duas manias incuráveis: ciúme doentio pelo baixinho, seu marido, e neurótica da violência urbana. Ela lê tudo sobre assalto, assassinato, sequestro. É sua conversa predileta. Sabe de todas as histórias contadas no rádio, televisão e jornais. No fundo, ela ama o alarmismo da imprensa, parece que faz bem à sua mente, se alimenta de fatos tenebrosos. Reconta as histórias preferidas.

Numa bela tarde de sábado, Angelita foi a uma palestra sobre violência urbana, não poderia perder. O conferencista expôs sua teoria. A violência existe, entretanto, a maioria dos crimes está na faixa entre 16 e 26 anos, entre os traficantes, eles se matam por pontos de venda e lideranças. De repente perguntou à plateia quantas vezes alguém tinha sido assaltado e quantas pessoas conheciam que foram assaltadas. Apenas duas mulheres se pronunciaram. Angelita pensou, tentou relembrar algum caso com algum amigo, não lembrou. Foi para casa decepcionada, não conhecia um parente, um amigo que foi realmente assaltado, frustrante para sua neura.

Nessa mesma tarde, Zé Pequeno telefonou para uma amiga moradora do Trapiche, cafetina das melhores garotas de programas da cidade. Apanhou a jovem, bonita, alta. Janice, a alcoviteira, sabia o gosto do cliente. Levou-a para um motel. Tarde agradável, alguns uísques, até que na hora do banho ZÉ Pequeno escorregou, caiu de costa, nuca no chão, abriu-lhe a cabeça, o sangue jorrou. Foi ao Pronto Socorro, sutura, alguns pontos na cabeça. Zé começou a pensar o que dizer em casa. Imediatamente dirigiu-se à Delegacia de plantão, deu parte, abriu um Boletim de Ocorrência, tinha sido assaltado, levaram o carro, com ele dentro. Pararam na praia de Ipioca, deram-lhe uma coronhada, desmaiou. Acordou-se depois de algum tempo, levaram carteira, dinheiro, ainda bem que deixaram o carro e ele, vivo.

Ao contar a história do assalto em casa, veio um fluxo de felicidade e alegria de dentro de Angelita, ela não conteve o sorriso de satisfação. Ouviu atentamente a história do marido, logo saiu contando para toda vizinhança como Zé Pequeno foi assaltado. Há mais de um mês é seu único assunto. O assalto ao Zé acabou a frustração de Angelita. Seu grande ídolo agora é o marido.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MULHER DE VERDADE

– Você tornou-se uma consumista compulsória, tudo que você vê você quer. Hoje, um carro japonês, semana passada, aqueles brincos de esmeralda, maior vaidade, você só pensa em luxo e riqueza.

Reclamava Haroldo à esposa em tom ameno, paternal, como se estivesse ensinando alguma lição caseira à uma filha. Estavam casados há pouco tempo. Haroldo sentiu um carinho especial por Gracinha desde o dia em que ela bateu à porta do escritório recomendada pelo deputado amigo. Como funcionária era medíocre, entretanto, sua beleza, sensualidade, juventude e doçura encantaram o chefe. Com três meses de emprego eles já se uniam corpo a corpo. Haroldo, 65 anos, comanda a construtora, fiel às diretrizes do Planalto, sabe percorrer os tapetes de Brasília em busca de obras e dinheiro. Rico, bem de vida, sócio laranja do deputado.

O início foi difícil. Ao se formar em engenharia Haroldo abriu a construtora, trabalhar para si, sem patrão, era o sonho. Amélia, primeira esposa, deu-lhe ajuda na organização da empresa, deu-lhe apoio, carinho, e dois filhos. Cozinhava, lavava e de manhã cedo lhe acordava na hora de ir trabalhar. Foi o sustentáculo da família por muitos anos. Nada valeu quando o marido se engraçou e a trocou por uma jovem funcionária, 28 anos, Gracinha.

Estavam conversando na varanda do apartamento em frente à praia. Gracinha, cheia de vida, alegria e astúcia, sabia levar o marido.

– Meu querido, você mesmo pede que me arrume nas festas, faço sucesso nos salões e reuniões sociais. Detesto cozinha, entretanto, na cama você é a melhor testemunha, sabe perfeitamente que jamais arranjará outra igual, mereço seus presentes. Se está com saudade daquela mulher sem vaidade, que preparava seu café na hora de trabalhar, volte para ela.

Haroldo tinha um encantamento pela nova mulher, não contrariava a esposa, achava-a infantil, porém, dava tudo que ela pedia, compensação da idade, da libido minguando.

– Não quero voltar ao passado. É que você faz tanta exigência, não sabe o que é consciência, nem vê que não sou mais rapaz. Ainda trabalho duro para manter o conforto de nosso apartamento de nossa casa de praia. Para mim, mulher só existe uma, sem você eu não vivo em paz. – Abriu-se num sorriso.

Gracinha levantou-se, dirigiu-se à cadeira onde estava Haroldo, abaixou-se, deu-lhe um beijo no pescoço, o decote generoso mostrou a beleza do corpo. O marido se excitou. Ela sentou-se no colo, respondeu cochichando ao seu ouvido:

– Posso ser gastadeira, entretanto, sempre lhe honrei, oportunidade de trair já tive nesses dois anos de casados, muitas cantadas recebi. Nunca reclamei de nossa diferença de idade. Quando você tenta e às vezes não consegue, lhe vejo contrariado, eu consolo, o que há de fazer? Depois com carícias e prazer faço tudo acontecer, com toda vaidade, eu sou mulher de verdade.

Haroldo segurou-a firme, procurou seus lábios, num beijo prolongado se abraçaram se enlaçaram na cadeira. A Lua refletindo no mar e os carinhos da amada deram-lhe sensação de poder, confiança e segurança. Levantou-a pelos braços até a cama. Amaram-se com maestria de Gracinha. Sábia, intuitiva, havia nascida para amar.

Ao terminarem, deitados contemplando o teto do quarto, Gracinha, às gargalhadas, comunicou ao marido.

– Tenho uma surpresa, comprei meu presente do Dia Internacional das Mulheres, duas passagens para Nova York, lua de mel na semana santa. Preciso fazer umas comprinhas, renovar meu guarda-roupa.

Haroldo feliz, sorriu; recebeu um cheiro, dormiu.

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PROPOSTA MODERNA

– Meu irmão, há algum tempo precisava falar com você, pode me dar alguns minutos? Vamos pegar essa mesa.” Disse Marília abraçando Hugo ao encontrá-lo no shopping.

Feliz em encontrar a irmã querida, Hugo Sanchez puxou uma cadeira, sentou-se, pediu dois chopes no início daquela tarde de sexta-feira. Ela foi direto ao assunto.

– Hugo querido, só nós dois é que sabemos o quanto nos amamos, sou louca pelo meu irmãozinho desde criança, nossas afinidades são parecidas. Você casou-se, separou-se, agora está solteiro novamente, aos 40 anos. Nunca dei palpite em sua vida amorosa, boêmia e escandalosa. Desculpe eu estar me intrometendo em seu novo namoro, você falou levemente em casamento. Nada de pessoal contra Kalu, até gosto da moça, 10 anos mais nova, parece equilibrada e sensata. Acontece que, informaram-me um pequeno detalhe de sua vida pessoal, tenho obrigação de lhe passar, não quero que seja enganado. Uma fonte fiel confidenciou-me, ela é sapatona, ou melhor bissexual, tem um caso com aquela morena, andam muito juntas, se diz sobrinha. Sabendo do fato, seria uma traição por omissão não contar-lhe esse pequeno detalhe.

Hugo respirou fundo, tomou dois goles de chope, pensou, pensou, pensou, respondeu à irmã ainda no impacto emocional da notícia.

– Obrigado Marília, você agiu bem, não poderia ser de outra forma, francamente, nunca desconfiei da bissexualidade de Kalu. Eu até gosto muito de sua sobrinha Geísa, nada me fez perceber essa opção sexual de Kalu, ela gosta de homem, tenho certeza Vou pensar no que fazer. Obrigado minha irmã.

Hugo pediu mais chope, passaram a tarde conversando.

Eram nove horas da noite quando Hugo encontrou Kalu na Barraca Pedra Virada, acompanhada de Geísa, tomaram chope, uísque, tira-gosto, jantaram quase meia noite. Duas horas da manhã deixaram Geísa em casa, dormiram no apartamento, amaram-se, Hugo nunca mais havia passado uma noite de amor com tanta intensidade. Pela manhã do sábado resolveram dar um mergulho na praia do Francês, bebericar até o final da tarde. Kalu perguntou se podia convidar Geísa.

Tudo bem disse Hugo, mas, quero uma conversa antes. Foi claro e taxativo com a namorada.

– Kalu, estamos mais de dois anos juntos, somos adultos, lhe amo, tenho de ser sincero. Sua amizade com Geísa vem atiçando a maldade alheia, vieram me fuxicar de um relacionamento íntimo seu com Geísa, que vocês são um caso, é o boato corrente nas rodas da boemia.

Kalu ouviu olhando nos olhos do namorado, baixou a cabeça, respirou fundo, encarou-o novamente, abriu seu coração com franqueza.

– Hugo querido, é verdade, eu tenho essa opção sexual a mais, sou bissexual, a Geísa não é minha parente. Eu estava esperando um momento apropriado para abrir o jogo, lhe confessar. Conversei muito com Geísa, temos uma proposta, você pode se chocar, francamente não sei sua reação. Minha única certeza é que lhe amo, quero você, quero ficar com você, não importa se casados ou juntados. Minha proposta é meia louca, entretanto, foi bem pensada, amadurecida: Adicionar Geísa em nosso relacionamento. Peço apenas a você, conversar com Geísa, sinta como é uma pessoa boa, entre em suas intimidades, depois me diga se aceita a situação, sem compromissos.

Hugo Sanchez teve um impacto com aquela inusitada proposta. Conversou, passou algumas tardes com Geísa. Não precisou muito tempo para definir-se. Estão em período de adaptação, tiraram férias juntos, passeando pela bela Cartagena das Índias, Colômbia. O mais caro foram as três passagens de avião.

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OBRIGADO JHC, O PARAÍSO VOLTOU

Nós, meninos da Avenida da Paz, mesma idade, amigos, juntos, tínhamos predileções semelhantes. Gostávamos de pescar no Riacho Salgadinho. Empurrávamos uma jangada de tronco de bananeira para o meio do riacho, jogávamos a tarrafa aberta, puxávamos cheia de peixes. O siri era pescado com teteia. Nas margens e imediações do Salgadinho, por ser terra salobra, lama salgada, mangue, era “habitat” de caranguejos, o goiamum azulado. Com lata quadrada de azeite, fabricávamos armadilhas para capturá-los. Armávamos a arapuca, com uma isca, no buraco do caranguejo. Quando o bicho saía da toca, beliscava a isca, fechava a arapuca. Dava um ar de felicidade ao ver a arapuca com a tampa fechada e um baita goiamum preso. Cevava, engordava os caranguejos num gradeado. Dias depois nos deliciávamos com uma caranguejada, feita por nossas mães, o caldo gordo escorria pela boca.

À noite o calçadão da Avenida da Paz era uma festa, transformava-se em palco e campo de jogos e brincadeiras. Correr, “Roubar-Bandeira” era a primeira diversão. Dividia a calçada em dois campos, um para cada equipe de sete ou oito jovens, no final de cada campo fixava uma pequena bandeira pregada numa vara. O objetivo da brincadeira era entrar pelo campo adversário e roubar a bandeira do time adversário. Havia outros jogos, ximbra (bola de gude), pião, bicicleta, patinete. Mas nossa maior diversão era jogar futebol na areia da praia, de manhã e de tarde, às vezes, em noite de lua, quando fazia um gol depois que a lua aparecia, a partida acabava, era o gol da Lua. Mergulhar naquele mar azul esverdeado e nadar até perto dos navios, era nosso exercício lúdico.

Final do ano chegavam as férias, os jovens que estudavam fora retornavam à vida livre, leve e solta no Paraíso, a praia da Avenida. Adolescentes, inventávamos outros programas: andar de bicicleta batendo a cidade de Maceió e olhar na praia as mulheres de maiôs com intensões pecaminosas.

À noite sentávamos nos bancos da Avenida contando piadas e aventuras ou saíamos à cata de namoradas nas redondezas. Eram namoros à antiga, pegar na mão, em vez em quando um abraço mais quente.

Os empresários de turismo perceberam que a bela praia da Avenida da Paz era um paraíso, construíram os primeiros hotéis modernos, Luxor e Beira-Mar, havia o belo e antigo Hotel Atlântico. Foi a Avenida da Paz a pioneira do turismo em Maceió nos anos 70. Pouco tempo depois aconteceu a mecanização da lavoura no interior, os fazendeiros e usineiros compraram máquinas, não havia uma política pra fixar o homem no campo, aconteceu a primeira invasão de trabalhadores rurais desempregados, invadiram a capital, se fixaram, criaram favela no Vale Reginaldo-Salgadinho.

Em 1988 a Constituição cidadã previu o usucapião rural, quem morasse num imóvel por mais de cinco anos, teria sua posse. Os fazendeiros preferiram convocar os boias frias e demoliram mais de 20 mil casas de trabalhadores rurais em suas fazendas. Houve a segunda invasão no Vale Reginaldo-Salgadinho poluindo drasticamente o riacho e a praia da Avenida da Paz, a mais bonita de Maceió. Os hotéis fecharam, os prédios foram vendidos para repartição pública. Os moradores da Avenida da Paz se mudaram devido a fedentina dos 17 km do vale do Reginaldo-Salgadinho, com os casebre lançando os dejetos in natura no riacho. Uma pena, nesses quase 50 anos nenhum governador ou prefeito tentou realizar uma obra séria de despoluição do Salgadinho. Só pequenos paliativos. Até que apareceu um Prefeito de coragem, determinado, iniciou a obra “Renasce Salgadinho”. Muitos não acreditaram.

Sábado passado tive a honra em assistir a inauguração do projeto, “Renasce Salgadinho”, deu-me uma alegria, voltei a ser menino, qualquer dia vou mergulhar na mar da Avenida da Paz, a mais bela de Maceió. Obrigado prefeito JHC, obrigado secretário de obras Rodrigo Cunha pelo renascimento do Salgadinho e da belíssima praia da Avenida da Paz. O paraíso voltou. O turismo vai estourar em Maceió.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

1º DE ABRIL DE 1964

Acordei-me com o som cadenciado do toque de Alvorada pelo corneteiro do quartel. Tenente do Exército Brasileiro, eu servia na 2ª Companhia de Guardas, tropa de elite do IV Exército sediada no centro do Recife. Meus soldados estavam bem treinados contra distúrbios e guerrilha urbana. Uma luminosa manhã acordava a bela histórica cidade. A Companhia permanecia de prontidão há mais de uma semana devido aos acontecimentos da época. Um processo de desgaste político se espalhou sobre a Nação. O presidente João Goulart era ambíguo, acendia uma vela a Deus outra ao Diabo. Um esquema militar sustentava João Goulart na presidência, inclusive o General Justino Alves Bastos, comandante do IV Exército(Nordeste), havia jurado ao governador Arraes que a tropa estava com ele. Quando a conjuntura mudou, Justino também mudou. A situação política ficou mais nebulosa depois do grande comício das reformas em frente ao Ministério do Exército, dia 13 de março, com discursos provocativos às Forças Armadas. Jango, foi inábil, estava cutucando a onça com vara curta.

Naquela bela manhã logo depois da formatura matinal da tropa, o capitão Luís Henrique Maia reuniu os cinco tenentes comandante de pelotão, fez uma preleção. Havia notícias confirmadas que a tropa do general Mourão Filho de Minas Gerais estava a caminho do Rio de Janeiro para levantar o I Exército, e depor o presidente João Goulart. O objetivo era restabelecer a ordem no país, garantir a eleição para presidente em 1965. Mandou cada tenente preparar o pelotão para o enfrentamento, entrar em combate urbano a qualquer momento.

Dirigi-me ao alojamento de meu pelotão, sabia que haveria algum confronto naquelas próximas horas. Ainda estava em divagações quando o comandante me chamou e deu as primeiras ordens: Dissolver uma manifestação no Sindicado dos Bancários, perto do quartel. Coloquei o pelotão em forma, passei em revista o armamento e equipamento, falei para os soldados sobre a missão: O Exército estava destituindo o Presidente da República para garantir as eleições em 1965. Deixei bem esclarecido: tiro só com minha ordem. O pelotão tomou a rua em marcha. A batida uníssona do coturno no calçamento fazia um barulho assustador. Enquanto aqueles 44 soldados bem armados e equipados avançavam, eu vi mães colocando meninos para dentro das casas, ouvi algumas vaias, como também palmas das janelas dos edifícios, era o povo dividido. O Pelotão avançava, eu continha a emoção, pensava na informação que me passaram que os sindicalistas, os camponeses, os homens de Arraes, tinham sido treinados em guerrilha e possuíam armamento de primeira linha.

Assim que avistamos ao longe a multidão em torno de 400 pessoas, tive que controlar um sargento, meu auxiliar, ele pedia para dar um tiro para cima afim de dispersar a multidão. Mandei o sargento calar a boca, o comando era exclusivo meu. Evitava uma reação por parte dos manifestantes e provocar numa carnificina de um tiroteio dos dois lados. Tentaria até diálogo, se possível. O Pelotão se aproximava cada vez mais, dava para ver as fisionomias dos manifestantes. O sargento insistindo em atirar, eu negava, proibia gritando. Tomei uma decisão, dei voz de comando para o Pelotão: “Acelerado marche!” Os soldados iniciaram o avanço em acelerado (quase correndo). De repente tive a maior alegria e alívio de minha vida quando a multidão se dispersou em todas as direções.

Invadimos o prédio do sindicato. Ficaram apenas três sindicalistas. Solicitei para eles saírem ou teria que levá-los presos. Apenas um barbudo, corajoso, magro, me encarou: “Só saio morto ou preso”. Dei a ordem “Então têje preso, não vou lhe matar”. Mandei lacrar todos os móveis, deixei cinco soldados guarnecendo o sindicato. Retornei com o Pelotão para Avenida Visconde de Suassuna, sede da Cia de Guardas.

Durante o percurso, os soldados marchavam em duas colunas na rua, o barbudo, preso, caminhando no meio da tropa. Encostei-me e cochichei uma mentira no seu ouvido: “Estão matando tudo que é comunista, quando você chegar ao quartel vai ser fuzilado. Vou lhe dar uma chance, na próxima esquina lhe empurro e você se manda”!

Ao chegar mais perto da esquina, ele olhou para trás, encarou-me com olhar suplicante. Aproximei-me, segurei-o pela camisa, puxei-o pelo braço e empurrei-o, ele correu em disparada, escafedeu-se na primeira rua. No quartel fiz um relatório verbal. Um ano depois não houve a eleição. Ninguém, nenhum cientista político, nenhum profeta, nenhum futurólogo, acreditaria que aquele dia era o primeiro de uma ditadura prolongada, me desiludi. Deixei o Exército, escrevi um livro: Confissões de um Capitão, no qual conto a verdade que testemunhei.

Depois da redemocratização da nação, por mais que seja governado por um energúmeno, jamais haverá golpe no Brasil. As Forças Armadas estão profissionalizadas. Os acontecimentos de 6 de janeiro de 2023 nunca foi tentativa de golpe. Os militares são altamente organizados para cometerem aquela manifestação bagunçada, sem comando, sem apoio de governadores.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A COZINHEIRA DE IPIOCA

– O que é isso Doutor? – Sussurrou Edileuza quando Adolfo beijou de leve seus lábios.

Há mais de dois meses ela foi contratada como cozinheira na casa de Dona Virgínia. Desde a hora que a viu, o patrão teve uma compulsão, atração irresistível a seus lábios carnudos, sensuais. Sentiu imensa vontade de beijar a morena de sorriso branco.

Adolfo desde que se aposentou entregou-se ao lazer, ao ócio. Todos os dias durante a tarde assiste a um filme na televisão ou entra no Facebook. Ler bons livros, tomar um uísque faz parte de suas predileções. Pelo menos uma vez por mês cumpre suas obrigações matrimoniais com Dona Virgínia, vida tranquila, despreocupada, saudável, mas monótona. Ao aparecer a nova empregada deu uma catarse em sua libido, vivia espreitando a jovem, olhando as pernas, o andar e principalmente sonhava com os lábios carnudos da morena.

Certo dia, surpreendeu Edileuza, antes de sair, roubando da geladeira pedaços de carne, frutas e verduras, colocou na bolsa sem perceber que o patrão olhava. Na hora da saída, Adolfo chamou-a mandou abrir a sacola, provas irrefutáveis, o fruto e as frutas do roubo. Ela começou a chorar pedindo por tudo, não dissesse à patroa, era a última vez, devolvia tudo, só tinha aquele emprego para sustentar duas filhas adolescentes, morava num casebre em Ipioca. Chorava, pedindo a Adolfo. Ele se conteve, deu-lhe vontade de abraçá-la. Prometeu não contar se jurasse nunca mais levar um palito da casa! Ela sorriu apertou, alisou a mão do patrão, olhou nos olhos, saiu apressada.

Dia seguinte ao encarar Adolfo, ela piscou o olho, foi um alívio, ficou grata ao patrão, continuou seu trabalho na cozinha. Ela havia percebeu os olhares pidões de Adolfo desde que chegou. Depois do flagrante, quando Dona Virgínia saía Edileuza ficava displicente nos modos de sentar, cruzar pernas, rebolar. Ao falar com o patrão olhava-o nos olhos, provocava-o, ele cada dia mais tentado a fazer uma besteira, o Diabo veste avental.

Numa sexta-feira, Virgínia foi encontrar-se com as amigas, Adolfo chegou da rua alegre, cantando, com fome de anteontem. Ao servir à mesa, uma excelente arabaiana frita, Edileuza abaixou-se mostrando o generoso decote estufado por dois melões morenos, o coroa respirou fundo.

Adolfo foi tomar o cafezinho na cozinha. Edileuza encheu a xícara, açúcar, entregou-a olhando para os olhos da patrão, bem perto um do outro. Adolfo não aguentou, deu um beijo leve em seus lábios. Ela sussurrou com um sorriso maroto – “O que é isso Doutor?” – Ele respondeu com o sangue a ferver, “É só um beijo, apenas um beijo, não se importe fica nisso”. Edileuza deu uma gargalhada contou um segredo – “Minha tia Zefinha costumava dizer: dá certo não com patrão.”

Adolfo deixou a xícara cair, abraçou a morena num ímpeto de jovem abocanhou os lábios mais gostosos, mais sensuais que já havia experimentado em todos os anos de vida. A morena, não se fez de rogada, sabia beijar melhor que qualquer artista de televisão. No chão da cozinha aconteceu a primeira vez. Tia Zefinha tinha razão. Ao terminar, ela despenteada, “o senhor é louco patrão”, cada qual para seu lado como se nada tivesse acontecido, Adolfo entrou no computador, Edileuza continuou a faxina na cozinha. No momento da saída, ele colocou uma nota de R$ 100,00 na bolsa da morena, para o ônibus. Prometeram não fazer mais em casa. Durante a semana num motel é mais apropriado.

Adolfo anda feliz, remoçou, vive de bem, tem maior cuidado, foi um acontecimento em sua vida monótona. Dona Virgínia contagiou-se com o bom humor do marido, anda feliz como nunca. Edileuza continua excelente cozinheira, maior respeito ao patrão, exceto nos momentos de amor numa tarde de folga no motel Star. Adolfo aumentou o salário da jovem em 80%. Acabou-se a vida monótona de todo dia igual aos outros. Espera a tarde de folga na quarta-feira, e passa horas agradáveis com a Cozinheira de Ipioca.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A MULHER DA CAPA PRETA

Adalberon cursava a Faculdade de Direito no Recife nos anos 50. Orgulhava-se de ser universitário, vestia-se bem, adorava se exibir. Fazia sucesso entre as garotas quando chegava a Maceió.

No último ano do curso, ele aproveitou as férias juninas. Foi convidado para uma festa de 18 anos muito badalada na sociedade alagoana. O pai da moça, um rico fazendeiro, morava numa bela casa na praia de Pajuçara. Decoração suntuosa, mesas espalhadas no quintal, muita bebida e comida. A Orquestra animava o aniversário de Margarida.

Os jovens dançavam no salão iluminado por um vistoso lustre. Adalberon bem vestido em seu terno; como chovia, ele levou sua capa preta longa, deixou-a pendurada no cabide na entrada.

Cumprimentou os donos da casa, a aniversariante, bebeu, comeu. A orquestra tocava uma bonita música quando Adalberon avistou uma jovem loura no canto da sala com olhares insistentes para ele. Num impulso caminhou em direção à bela moça de vestido cor de rosa. Aproximou-se; antes de ele convidá-la para dançar, a moça abriu os braços dizendo que já o esperava. Rodopiando o salão com um abraço, dançaram. Os dois se olhavam como se uma paixão momentânea houvesse surgido.

Ela se chamava Carolina, a melhor amiga de Margarida, a aniversariante. Ele se apresentou dizendo que no final do ano se formava em Direito no Recife. Carolina respondeu apertando a mão de Adalberon com sua mão fria. – “Eu já sabia!”.

O Rapaz ficou impressionado com a beleza pálida da jovem. Contou suas histórias e fanfarronice na Faculdade. Ela mostrou-se bastante interessada, juntou seu corpo, e assim ficaram dançando por muito tempo, mudos, apenas se afastando algumas vezes para se olharem. Caso de paixão fulminante. Certa hora, Carolina falou que devia ir para casa, tinha prometido chegar antes da meia-noite. Ele se ofereceu para levá-la. Na saída da casa apanhou a capa pendurada. Como a chuva era intensa, num gesto elegante, Adalberon cobriu sua companheira com a capa protegendo-a da chuva, correram em direção ao ponto de ônibus.

Tomaram o ônibus “Pajuçara–Trapiche da Barra”, estava quase vazio. Sentaram-se num banco do fundo, conversaram como se conhecessem há muitos anos. De repente Adalberon puxou o rosto de Carolina e deu um beijo ardente em seus frios lábios, percebeu que ela chorava. Continuaram aos beijos e abraços durante o resto do percurso.

Perto da Praça Afrânio Jorge, ela tocou a campainha, o ônibus parou, eles desceram. A jovem pediu para não acompanhá-la, morava perto, no dia seguinte devolveria a capa.

Adalberon seguiu-a com olhar até ela desaparecer na escuridão da rua, no oitão do Cemitério Nossa Senhora da Piedade.

Pela manhã o rapaz acordou-se com a figura de Carolina gravada na cabeça e no coração. Passou o dia pensando na jovem. Lembrou-se que não havia marcado hora com Carolina. Às sete horas da noite Adalberon estava na Praça olhando os passantes em busca de um vulto parecido com sua amada. Deu voltas no quarteirão, passou dezenas de vezes na rua em que ela desapareceu. Perguntou a algumas pessoas se conhecia Carolina. Até que uma senhora se assustou-se quando indagada, informou que ela havia morado naquela casa, apontando para um bangalô.

Adalberon encheu-se de coragem, bateu à porta. Atendeu uma senhora com aparência triste. Ficou trêmula e assustada quando o rapaz perguntou se Carolina estava em casa.

A velha mulher sentou-se numa cadeira da varanda e perguntou quem era o rapaz. Ele disse ser amigo de sua filha, contou como havia conhecido, não havia marcada encontro com ela, por isso estava procurando a jovem.

Adalberon arrepiou-se do dedo do pé aos cabelos da cabeça quando a triste senhora respondeu que no dia anterior tinha completado um ano de sua morte num desastre de carro. O marido da triste senhora ao ouvir a história, desmaiou na cadeira.

Quando acalmaram-se, os três resolveram ir ao cemitério. Entraram pela alameda principal até à capela, havia um velório noturno, uma família chorava seu morto. Desviaram para direita onde estava a sepultura de Carolina. Ao se aproximarem deu-se o inesperado assombro: a capa preta cobria o túmulo de Carolina. Os três emocionados ficaram no cemitério até mais tarde quando Adalberon retirou-se para casa. Só conseguiu dormir ao tomar oito doses de uísque conversando com o pai.

Contam no bairro que uma misteriosa mulher com vestido rosa perambula pelos arredores do cemitério depois da meia-noite. Muitos moradores do Prado e do Trapiche juram ter visto a mulher à noite circulando pelas ruas.

Anos se passaram desse acontecimento, o Doutor Adalberon todos os anos, cumpre a obrigação em colocar um buquê de rosas brancas e rezar no túmulo de Carolina, onde alguém colocou uma capa de mármore preto por cima da cruz.

A lenda se alastrou na cidade.

O boêmio e carnavalesco, Marcos Catende, morador da região organizou um bloco carnavalesco. Durante o Carnaval o “Bloco da Mulher da Capa Preta” desfila pela cidade, arrastando multidão, com dispersão em frente ao Cemitério.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

ESCOLA PREPARATÓRIA DE FORTALEZA

Eu era menino, menino. Tinha me submetido ao difícil exame para Escola Preparatória de Cadetes de Fortaleza. Naquele tempo, em Maceió só havia a Faculdade de Direito. O jovem ingressar na Escola Militar, ser Oficial do Exército ou entrar no Banco do Brasil era o sonho das famílias da classe média. Foi numa noite de festa de rua, na Praça Sinimbu, que Jarbas Bagdá me deu a notícia: Eu havia passado nos exames. Jarbas com o jornal O Globo, do Rio na mão, mostrou-me a relação. Meu nome ali era a glória, muita emoção, muita vibração. Apenas três candidatos passaram no Estado de Alagoas. Fui correndo para casa dar a notícia. D. Zeca improvisou a maior festa, que durou até altas horas da noite, com amigos e parentes, muita bebida e comida. No final da festa, fui até a Avenida da Paz, andei sem rumo pela praia. A Lua iluminava de prata as águas daquela imensidão do mar. Fiquei a me perguntar: ” O que será?”. Sentei-me no parapeito do coreto, olhando para aquele infinito escuro, apenas a tênue iluminação da Lua, não sei de felicidade ou tristeza, chorei como menino… Estava deixando de sê-lo. Foi o que aconteceu de mais bonita de minha vida… ser menino. Vi o dia amanhecer e fui dormir.

Numa madrugada de março, deixando minha mãe chorosa, meu pai levou me à bela Estação Ferroviária de Maceió. Peguei o trem para Recife juntamente com Rubião Torres e Elio Wanderley, os dois outros alagoanos que passaram nos exames da Escola Preparatória. Partimos no famoso Trem das Alagoas, saiu às seis horas da manhã de Maceió, com chegada prevista no Recife às 18:00 horas, nunca cumprindo o horário.

Escalas incontáveis. Passamos em Bebedouro, Fernão Velho, Satuba, União dos Palmares e mais inúmeras cidadezinhas perdidas nos canaviais de Alagoas e Pernambuco. Nas estações, desciam e entravam novos passageiros, sempre com mala ou saco, o cadeado era um nó. O trem parava o mínimo possível, era o tempo de apreciar os vendedores de frutas, de comidas regionais, uma feira de mangaio: “Olha a manga madurinha. Cavaco, olha o cavaco… Tapioca quentinha feita na bora… Olha a água de quartinha… Chapéu de palha…” Achava interessante aquele comércio ambulante em cada estação, como se fossem as mesmas pessoas, raramente uma novidade nos artigos oferecidos.

Um belo céu azul quase sem nuvem se encontrava com o verde ondulado dos canaviais nos longínquos horizontes. O poeta pernambucano Ascencio Ferreira imortalizou essa viagem com seu poema, O Trem das Alagoas:

“Vou danado pra Catende, vou danado pra Catende, vou danado pra Catende com vontade de chegar… Mergulham mocambos nos mangues molhados… Moleques mulatos vêm vê-los passar…. Adeus, adeus. Mangueiras, coqueiros. Cajueiros em Bor. Cajueiros em frutos já bom de chupar. Adeus morena do cabelo cacheado…… Vou danado pra Catende com vontade de chegar… Cana caiana. Cana roxa. Cana fita. Cada qual é mais bonita. Todas boas de chupar… Vou danado pra Catende, vou danado pra Catende. Já deixei a praia longe…e vem perto outro mar.”

Que mar será? Pensava. Viagem cansativa, bancos de madeira dura. Para amenizar, conversávamos. Especulávamos o que haveria de ser, nós três meninos. Mas, no fundo, eu estava com uma saudade tremenda, minha mãe, meu pai, meus irmãos, minha bonita família, meu mundo, minha praia da Avenida. As vezes a vontade de chorar chegava, olhava o verde canavial no infinito disfarçadamente para enxugar uma lágrima. Era apenas um menino.

Ao Chegar em Recife, embarcamos num navio de Guerra até Fortaleza. 77 jovens de todo o Brasil ingressavam na Escola Preparatória de Fortaleza naquele dia. Era preciso ter raça, ser forte para enfrentar a nova vida. Algumas vezes tive vontade de desistir, mas os colegas incentivavam para terminar o curso, foram seis anos, contando com a Academia Militar das Agulhas Negras de onde me formei tenente do Exército. Depois da formatura os colegas se espalharam pelo Brasil, a maioria seguiu a carreira militar chegando ao generalato, eu deixei o Exército como Capitão. Desde a Escola nos tornamos irmãos. E nesse fim de semana haveremos de nos encontrar e celebrar os 70 anos do ingresso na Escola Preparatória. Serão quatro dias de alegria, muitas histórias, muitas recordações, alguns já se foram, choramos. Ainda sobram veteranos irmãos de armas, conservados no companheirismo, camaradagem, confiança, lealdade, amor e carinho por tantos anos.