DEU NO JORNAL

A HORA DOS MINISTROS DIGNOS

Editorial Gazeta do Povo

Na manhã de quarta-feira, dia seguinte ao terremoto causado pelo fim do sigilo do relatório da Polícia Federal com várias mensagens de Daniel Vorcaro a Alexandre de Moraes, o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, afirmou que, “concluída a análise necessária dos fatos e observados os procedimentos institucionais pertinentes, esta presidência anunciará, no tempo devido e sem precipitação, as medidas cabíveis e necessárias”. Que medidas serão essas? Serão elas compatíveis com “o devido encaminhamento institucional” que os “indícios” exigem? O Brasil deve saber a resposta apenas na volta do feriado de 7 de setembro, já que Fachin deu cinco dias para que Moraes, André Mendonça, PF e PGR se manifestem; enquanto isso, os ministros tentam encontrar uma saída para o buraco no qual Moraes se colocou – e para o qual pode arrastar a corte toda.

O Supremo já passou por uma situação semelhante há pouco tempo, e escolheu a saída mais vergonhosa. Dias Toffoli vinha conduzindo o caso do Banco Master de uma forma muitíssimo estranha, a começar pela própria manobra que “puxou” o caso da primeira instância para o STF, passando por sigilos inexplicáveis e acareações sem fundamento. Enquanto isso, o país era informado da carona aérea do ministro com um advogado de um dos diretores do Master, e da negociação do resort Tayayá com a empresa familiar dos irmãos Toffoli – o ministro negou ser um dos sócios até que já não fosse possível esconder a verdade. Até que Fachin recebeu um relatório da PF com mais detalhes da ligação entre ministro e banqueiro; a situação tornara-se insustentável.

Mas a solução desmoralizou a corte. Em uma reunião a portas fechadas, decidiu-se que Toffoli deixaria a relatoria do caso (que passaria – providencialmente, hoje podemos dizer – para André Mendonça), e os ministros insultaram a inteligência do brasileiro ao publicar uma nota conjunta, assinada por todos eles, afirmando “não ser caso de cabimento para a arguição de suspeição” de Toffoli no caso Master, reconhecendo “a plena validade dos atos praticados pelo ministro Dias Toffoli na relatoria” e expressando “apoio pessoal” a Toffoli, “respeitando a dignidade de Sua Excelência, bem como a inexistência de suspeição ou de impedimento”. Como dissemos à época, só muita ignorância jurídica, muita hipocrisia ou muita cumplicidade explicariam essas palavras – e nenhuma das hipóteses caía bem para o Supremo. Toffoli, mesmo desqualificado para continuar na corte, acabou poupado, até porque os holofotes foram se deslocando para Moraes.

Pois agora os ministros mais alinhados com Moraes querem repetir a dose, segundo apuração da Gazeta do Povo: uma outra reunião secreta, sabe-se lá com que possível desfecho. Já Mendonça disse estar disposto à única medida realmente aceitável nessas circunstâncias: que o plenário, em sessão pública, analise um pedido para que Moraes seja investigado. No despacho que levantou o sigilo do relatório da PF, o ministro relator afirmou que, independentemente da posição da Procuradoria-Geral da República (que depois se manifestaria pelo arquivamento, de forma precipitada e com argumentos muito rasteiros), “o caminho inevitável dos presentes autos leva ao Plenário deste Supremo Tribunal Federal, instância soberana para analisar, de modo técnico e estritamente jurídico, os novos elementos trazidos pela autoridade policial”, e que a deliberação “deverá ocorrer de forma pública e transparente, em sessão presencial do colegiado, a partir de data a ser definida pelo eminente presidente deste Supremo Tribunal Federal”.

Se Fachin está mesmo disposto a “preservar a integridade do Supremo Tribunal Federal, a autoridade de suas decisões, o respeito às suas normas e, acima de tudo, a confiança da sociedade na instituição”, como diz sua nota, levar o caso ao plenário é a única escolha possível, e nisso ele precisa do apoio firme dos demais ministros que ainda têm alguma preocupação com o tribunal de que fazem parte. A “confiança da sociedade” no STF, sejamos honestos, nem está mais em condições de ser “preservada”, porque não se preserva o que já está perdido; agora, trata-se de começar a restaurá-la. E isso passa pela saída de Alexandre de Moraes: seja voluntariamente (o que é improvável, pois ele já iniciou seu contra-ataque, pedindo a inclusão de Mendonça no inquérito das fake news), seja “convencido” pelos colegas, seja por meio de uma condenação por crime de responsabilidade (o que é missão do Senado) ou por crime comum, o que poderá ser averiguado por meio de uma investigação criteriosa e um julgamento justo, do tipo que o próprio Moraes tem negado a centenas de brasileiros.

Pouco importa que não tenhamos as mensagens de Moraes (que as programava para que fossem apagadas assim que lidas, enquanto afirmava que a cabeleireira Débora, ao apagar fotos e mensagens de seu celular, admitia assim que estava delinquindo); e, a rigor, pouco importa também que Moraes tenha ou não cometido crimes como obstrução de Justiça, advocacia administrativa, corrupção passiva, tráfico de influência ou prevaricação. As mensagens bastam para que tenhamos um quadro que desqualifica Moraes para a posição de ministro do STF: interlocutor a quem Vorcaro recorria para pedir proteção, marido da advogada contratada a peso de ouro pelo Banco Master (em um contrato que ele ajudou a editar), presença obrigatória nas confraternizações, co-organizador de listas de convidados e palestrantes de eventos jurídicos; enfim, uma mistura de assessor, conselheiro e amigo do peito – no mínimo. Em fevereiro, os ministros escolheram a autopreservação, e colheram vergonha e descrédito. Agora, não podem imaginar que farão a mesma coisa e conseguirão algo diferente. Se optarem mais uma vez pelo segredo e pelos acordos de bastidores, cometerão um “ataque às instituições” muito maior que tudo aquilo de que eles costumam acusar os críticos do STF. Que agora mostrem ao Brasil que ainda lhes resta alguma decência, e façam o que é certo.

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Atualização

O texto do editorial foi atualizado com a informação sobre o prazo de cinco dias dado por Fachin a Moraes e Mendonça, e com o pedido para a inclusão de Mendonça no inquérito das fake news. A versão em áudio reflete o texto original, antes das atualizações.

Atualizado em 03/09/2026 às 21:55

DEU NO JORNAL

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PIORA DA ECONOMIA

Pesquisa Quaest (BR-07065/2026) divulgada ontem traz má notícia para Lula (PT): 49% dos entrevistados dizem que a economia piorou nos últimos 12 meses.

Para 67%, o preço dos alimentos subiu no último mês.

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Quase metade da população acredita que a economia piorou.

E quase 70% tem consciência da alta dos preços dos alimentos.

Certamente o Descondenado vai dizer que, pra não sentir este absurdo, é só não comer.

DEU NO JORNAL

NORMAL, NORMAL

Na retomada dos trabalhos do STF, ontem, foi chocante o silêncio dos ministros sobre o escândalo Vorcaro/Moraes.

Deram a impressão de que apostam no esquecimento e na memória curta dos brasileiros.

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Nada é chocante ali naquele recanto de mundo.

Tudo que acontece por lá, está dentro dos conformes da nossa republiqueta banânica.

DEU NO JORNAL

BRIGA

Mobilizada no impeachment de Alexandre de Moraes, a oposição tem se surpreendido com discreto apoio de governistas.

É que, temendo impacto do escândalo Vorcaro/Moraes em sua campanha, Lula orientou que, “sem tripudiar”, petistas defendam a investigação do escandaloso relacionamento que transformou um ministro do STF em consultor e informante de fraudador.

Lula esfrega as mãos de ansiedade pela abertura de nova vaga de ministro do STF.

Lula também sonha com uma terceira vaga, de Dias Toffoli, enrolado com Vorcaro no Tayayá. Para Lula, não se pode “cassar” apenas Moraes.

A bronca de Lula é do tempo de cadeia, quando Toffoli tomou decisões que o revoltaram.

Ainda se diz “traído” e quer ver o ministro pelas costas.

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A expressão “discreto apoio de governistas” ao impeachment, na abertura dessa nota aí de cima, está ótima!

Troca de tapas dentro do bando.

Que notícia boa.

Vamos torcer pra que a briga pegue fogo e provoque um inusitado desmantelo.

O Descondenado está ansioso pra nomear mais togados e ampliar o seu time lá dentro.

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O ESCÂNDALO

Ainda é incerto o impacto na disputa presidencial do escândalo sobre as relações entre Daniel Vorcaro, acusado de fraude bilionária, e Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

A avaliação de especialistas em pesquisas, que não a assumem publicamente, é que a ligação de Moraes a Lula talvez afete um pouco a definição de voto.

Mas o caso deve movimentar para valer as campanhas para deputado federal e para o Senado: a maioria dos candidatos deve subir nas tamancas.

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Interessante a expressão “ligação de Moraes a Lula”, que está nessa nota aí de cima.

Ligação, solidariedade, associação, união…

Sei não…

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PEDIDO DE NULIDADE DO RELATÓRIO

Editorial Gazeta do Povo

Paulo Gonet não perdeu tempo. Ainda na terça-feira, quando o Brasil inteiro nem tinha terminado de digerir todo o conteúdo das mensagens enviadas por Daniel Vorcaro a Alexandre de Moraes, cujo sigilo havia sido retirado pelo ministro André Mendonça, o procurador-geral da República defendeu a nulidade completa do relatório da Polícia Federal, tentando matar ainda no nascedouro uma eventual investigação sobre possíveis crimes que poderiam ter sido cometidos pelo ministro, como tráfico de influência, advocacia administrativa, obstrução de Justiça ou até corrupção passiva. Ocorre que Gonet não tem a menor legitimidade – se não do ponto de vista jurídico, no mínimo do ponto de vista moral – para tentar travar qualquer providência envolvendo Daniel Vorcaro.

Como a pressa é inimiga da perfeição, Gonet só conseguiu encontrar um argumento bastante pedestre para tentar blindar Moraes: o de que Mendonça teria atropelado o procedimento legal, já que apenas o plenário do STF possui competência para processar, julgar e autorizar investigações contra seus próprios integrantes. Mas o que Gonet ignora, ou quer ignorar, é que Mendonça não atropelou nada, pois ele não abriu nenhuma investigação contra Moraes. O investigado era e sempre foi Vorcaro; uma vez que surgiram nos elementos periciados as referências a Moraes, Mendonça fez o que o rito manda: pediu esclarecimentos justamente para que pudesse submeter ao plenário – como ele já prometeu que fará – um pedido para que Moraes passe a ser investigado. Uma manifestação tão apressada e tão primária só reforça a sensação de que tudo o que o procurador-geral deseja é colocar uma pedra sobre o assunto o quanto antes. Não lhe faltam razões para isso, e são essas mesmas razões que o desqualificam.

Que havia algum nível de relacionamento entre o dono do Banco Master e o procurador-geral da República já era algo sabido desde que o nome de Gonet apareceu na lista bastante seleta dos convidados para a degustação do caríssimo uísque Macallan, em um clube londrino, em abril de 2024. E, ainda que a maior parte do relatório preparado pela PF a pedido de Mendonça trate das mensagens enviadas por Vorcaro a Moraes, o procurador-geral também está nele, e o que consta no documento não é nada abonador. As trocas de mensagens entre Gonet e Vorcaro, feitas por meio de um intermediário, o advogado Ciro Soares, mostram a animação do procurador-geral com os eventos exclusivos do banqueiro, e indicam o pagamento de ao menos uma viagem a um filho de Gonet.

O procurador-geral realmente gostou da experiência londrina, a ponto de, quase um ano depois, afirmar que estava com “saudades” do banqueiro e, ao conversar com o advogado sobre um novo encontro na capital britânica, responder com um “Oba!!! Tomara que tenha charuto e Macallan!” Poucos dias depois, numa nova troca de mensagens entre Ciro e Vorcaro, o advogado questiona: “Gonet perguntou se o filho dele pode ir com a gente para Londres”, ao que o banqueiro responde: “Óbvio, né?”. Em seguida, Vorcaro recebe de uma funcionária do Master uma lista de nomes para que ele aprove o pagamento das despesas de viagem, e responde com um “Pedro e Ciro ok” – Pedro, no caso, seria Pedro Gonet, filho do procurador-geral.

Suponhamos, por uma fração de segundo, que o “Paulo” citado nas mensagens de Vorcaro a Moraes não seja Gonet – o que levaria a uma outra questão: que outro Paulo, além do procurador-geral, poderia “reverter” o cerco ao banqueiro e teria subordinados, gente “de baixo”, que não poderiam “fazer uma sacanagem” com Vorcaro? Ou suponhamos que, mesmo sendo Gonet o “Paulo” das súplicas a Moraes, ele não tenha agido fora da lei para blindar o dono do Master. Isso, agora, importa pouquíssimo, pois a proximidade demonstrada nas mensagens entre procurador-geral e banqueiro basta para colocar em dúvida sua imparcialidade, e lançam uma sombra sobre muito do que Gonet fez desde que o escândalo estourou: o primeiro arquivamento de um pedido de investigação contra Moraes, em dezembro do ano passado; ou a ausência, sob a alegação de que o prazo era curto demais, de um parecer quando do segundo pedido de prisão de Vorcaro, feito em março deste ano por Mendonça.

A associação de juristas Lexum apontou, nesta quarta-feira, que a Lei Complementar 75/1993 impede a atuação do procurador-geral da República em casos que envolvem informações sobre possíveis crimes cometidos por ele – mesmo quando ainda não há a atribuição concreta de crimes ao procurador-geral (e de fato o relatório da PF não afirma que Gonet tenha cometido ilícito algum). Mas insistimos: ainda que não houvesse impedimento legal, há o impedimento moral. Gonet participou de um dos eventos pelos quais Vorcaro cortejava autoridades – e gostou, a ponto de querer repetir a dose; e um de seus filhos recebeu regalias do banqueiro. Também ele precisa sair de cena o quanto antes para que as investigações prossigam sem novas tentativas de (auto)blindagem.

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LULA E A IMPRENSA DÓCIL

Guilherme Fiuza

Lula mostrou desconforto na sabatina, mas a reação da grande imprensa à sua versão sobre Roberta Luchsinger foi ainda mais surpreendente

Em sabatina na Globo, Lula disse que não conhece Roberta Luchsinger. Mesmo em se tratando de Lula, foi uma declaração surpreendente. Ainda assim, o que mais impressionou foi a reação da grande mídia a essa “revelação”.

O presidente estava muito pouco à vontade na posição de sabatinado. O fato de estar diante de jornalistas que deixavam de contrapor algumas lacunas significativas das respostas não amenizou o desconforto de Lula. O que ficou evidente é que ele se desacostumou por completo ao debate, por mais suave que ele seja.

Lula mal conseguia esperar os jornalistas concluírem suas perguntas. A impaciência e as reações prévias eram visíveis e audíveis – sempre com a marca do sorriso tenso de quem não está lidando nada bem com qualquer forma de questionamento. O ponto mais visível desse mal-estar foi a atitude do presidente de dizer à entrevistadora qual pergunta ela deveria ter feito.

(Curiosamente, não houve reações em cadeia a essa atitude, nem brados feministas contra o desrespeito à mulher, nem repúdio de jornalistas contra a prepotência da autoridade, nem manifestos denunciando misoginia. A afronta à jornalista da Globo foi recebida com indiferença pela coletividade vigilante.)

O líder máximo do PT nunca teve uma relação fluente com a imprensa. Nos primórdios era o “nós contra eles”, quase uma exortação para que a militância não acreditasse no que vinha da “mídia burguesa”.

Ele sempre foi adepto das entrevistas exclusivas (e mais controláveis) em detrimento das coletivas. Outros presidentes a quem chamou de autoritários, como FHC e até Jair Bolsonaro, foram mais abertos ao convívio cotidiano com a imprensa. O que se notou na sabatina da Globo, porém, foi que nos últimos anos isso se agravou.

A realidade pessoal de Lula parece estar hoje completamente filtrada. Ele põe o chapéu panamá, vai para o auditório da vez, conta suas histórias para a claque, é aplaudido e volta para o casulo. Está tão desacostumado a qualquer contato com o mundo externo que saiu da sabatina da Globo dizendo que foi maltratado, que aquilo “parecia o Ministério Público” (interrogatório).

Talvez por isso o presidente e seu núcleo tenham resolvido adotar uma estratégia tão exótica sobre o caso de Roberta Luchsinger. Optar por alegar desconhecimento da personagem é estar decididamente apartado da realidade atual. Basta a intimidade já exaustivamente demonstrada entre a lobista e seu filho, ou mais ainda, entre a lobista e o seu chefe de gabinete, para comprometer a tese do desconhecimento.

Seria mais verossímil (ou menos inverossímil) dizer que nunca lhe pediram nada em nome dela, etc. Alegar não saber quem é foi um atestado de divórcio da realidade.

A cereja do bolo foi a reação da imprensa a essa tática radical. Ficou claro que não é só Lula e seu núcleo mais próximo que subestimam os fatos. Jornalistas experientes se prestaram a endossar a tese de que as inúmeras fotos de Lula com Roberta não querem dizer nada – porque um presidente é como uma celebridade, “tira foto com todo mundo”, etc.

Claro que o contexto das relações palacianas e familiares da lobista com o universo íntimo do presidente torna essa tese exdrúxula. E aí está a pior notícia de todas: se parte da grande imprensa no Brasil resolveu se abraçar com o cinismo é problema dela; mas se há jornalistas relevantes achando que seu público é tonto, talvez seja mais difícil do que parece superar a crise da liberdade de expressão no país.