DEU NO JORNAL

ESQUERDA: O PIOR QUE PODE ACONTECER COM UM PAÍS

Roberto Motta

O pensamento de esquerda é inferior porque é fundamentado em erros. Os primeiros socialistas, chamados de “utópicos”, até tinham boas intenções, mas nada entendiam dos princípios do comportamento humano.

A diferença mais fundamental entre direita e esquerda é que o pensamento da esquerda é construído em cima de uma sucessão de equívocos econômicos, políticos e morais.

No centro da ideologia esquerdista existem duas crenças. A primeira é que a propriedade privada é um roubo e tudo deveria ser propriedade coletiva ou estatal. A segunda ideia é que o Estado deve se meter em tudo. Ninguém pode fazer nada se não tiver a permissão do Estado.

Nenhuma forma de socialismo abre mão dessas duas ideias – exceto quando os socialistas precisam, por algum motivo, camuflar suas intenções. Por exemplo, em época de eleições.

A primeira crença explica a obsessão com impostos, os invasores de terra, a leniência com criminosos e o ódio à classe média e ao agronegócio – uma atividade baseada na propriedade de terras. A segunda crença explica por que o Estado socialista é sempre tirânico.

O pensamento de direita – o pensamento conservador, liberal e libertário – é o único caminho para que o ser humano possa ser livre e prosperar. Isso não tem a ver com os nomes “direita” e “esquerda” em si. Esses termos se originaram em um mero acidente histórico, durante a Revolução Francesa.

O pensamento de esquerda é inferior porque é fundamentado em erros. Os primeiros socialistas, chamados de “utópicos”, até tinham boas intenções, mas nada entendiam dos princípios do comportamento humano. Eles foram sucedidos por dois alemães que criaram uma teoria delirante, que divide o mundo em “classes” e imagina um paraíso na Terra ao qual só chegaremos através de uma revolução sangrenta. A teoria é repleta de erros básicos de lógica e desconhecimento de economia.

O nome dessa teoria é “socialismo científico” (embora ela não faça nenhum uso da ciência). O apelido dela é marxismo.

Do outro lado – no lado da direita – estão algumas das maiores mentes da história como John Locke, Adam Smith, Edmund Burke, Thomas Jefferson, Friedrich Hayek, Milton Friedman e Ludwig von Mises.

A direita não oferece unanimidade doutrinária nem propõe conformismo a um único modelo político ou econômico. A essência da proposta da direita – como ela é entendida hoje – é a liberdade e a proteção dos direitos. Os pensadores de direita não buscaram criar um modelo utópico ao qual a humanidade deve ser conduzida a ferro e fogo. Ao contrário; eles usaram observação e lógica para descobrir e entender as leis que regem a ação humana e, a partir daí, apresentar conclusões sobre as práticas que tendem a produzir riqueza e satisfação e aquelas que levam à pobreza e ao sofrimento.

Pode-se dizer que no centro das filosofias políticas de direita há também duas ideias essenciais. A primeira é que um mercado livre, onde as pessoas fazem trocas de forma voluntária, é essencial para o progresso e a prosperidade.

A segunda ideia é a necessidade de limitar o poder do Estado. A missão do Estado é proteger os direitos individuais e fornecer segurança e estabilidade ao funcionamento dos mercados – e mais nada. As funções estatais podem ser contadas nos dedos de uma mão: segurança pública, justiça, defesa nacional, saúde básica e educação básica.

Todo o resto deve ficar a cargo da iniciativa privada.

Essa não é uma proposta teórica, mas a receita que foi aplicada – ainda que sempre de forma imperfeita – na construção da prosperidade que o Ocidente conhece hoje. É importante comparar isso com as tragédias que sempre foram os governos socialistas.

A verdade é que governos de direita são bons até para a esquerda. Depois que um governo de direita arruma um país, os governos de esquerda (que sempre vêm em algum momento) têm dinheiro para gastar com seus programas assistencialistas e populistas.

Acima de tudo, o socialismo é a filosofia do ressentimento, da inveja e da busca incessante pelo poder a todo custo. Como já disse o ideólogo socialista americano Saul Alinsky, a única coisa imoral é não usar todos os meios para chegar ao poder. Por isso, como disse Ludwig von Mises, a pior coisa que pode acontecer com um socialista é ter seu país governado por socialistas que não sejam seus amigos.

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DEMOCRACIA, LIBERDADE E O EXEMPLO DOS ESTADOS UNIDOS

Editorial Gazeta do Povo

estados unidos 250 anos democracia

Norte-americanos desenharam instituições e uma Constituição com sistemas que impedem pessoas ou grupos de assumirem o poder absoluto

Neste fim de semana, os Estados Unidos comemoraram 250 anos de sua independência – em 4 de julho de 1776, a Declaração de Independência foi aceita de forma unânime pelo Segundo Congresso Continental, reunido na Filadélfia; a guerra de independência, que já estava em curso, ainda se estenderia por mais sete anos. Datas redondas sempre são dignas de recordação, mas há algo especial nestes 250 anos. Há nações bem mais antigas, mas nenhuma delas conseguiu o que os norte-americanos conseguiram: dois séculos e meio de perfeita regularidade democrática, sem golpes, nem ditadores a se intrometer em uma sequência de presidentes eleitos a partir de 1789, que só não completaram seus mandatos por morte ou renúncia; mesmo quando governantes foram assassinados, como Abraham Lincoln e John Kennedy, a sucessão se deu conforme a lei, com o vice-presidente assumindo, sem rupturas.

Isso só foi possível porque, desde o início, os norte-americanos acreditaram na força da democracia. Eles desenharam instituições e uma Constituição que perdura até hoje (com algumas poucas emendas), de forma a impedir que um homem ou um grupo deles se tornassem superpoderosos ou se eternizassem no poder – a 22.ª Emenda, que limita em dois os mandatos presidenciais exercidos por um indivíduo, foi a resposta aos quatro mandatos consecutivos de Franklin Roosevelt (todos devidamente conquistados nas urnas). O império da lei e o sistema de freios e contrapesos sempre se impuseram diante de qualquer tentação autocrática ao longo da história norte-americana, que não foi isenta de turbulências, das quais a maior foi a fratricida guerra civil entre 1861 e 1865.

As consequências da crença na democracia como o melhor sistema se revelaram de forma avassaladora na segunda metade do século passado, quando as nações que mais se desenvolveram economicamente foram aquelas do dito “mundo livre”. A União Soviética até chegou a se tornar uma superpotência econômica e militar, mas sucumbiu como todo o restante dos regimes comunistas do Leste Europeu, porque a prosperidade não se sustenta onde faltam a democracia e seu grande pilar, a liberdade. O desenvolvimento é feito para durar apenas em regimes onde as pessoas são livres para buscar seus interesses e desenvolver ao máximo seu potencial; dirigismos como o socialista podem até conseguir resultados de curto e médio prazo, mas estão condenados ao fracasso no longo prazo porque aleijam os indivíduos, submetendo-os aos caprichos da burocracia.

Eis, portanto, o grande valor da democracia: ela não é “a pior forma de governo, exceto por todas as outras”, como disse Winston Churchill em um discurso de 1947, no que talvez seja sua frase mais distorcida – o premiê britânico citava um desconhecido (real ou fictício), e em seguida mostrava que sua própria avaliação da democracia era bem mais positiva. A democracia é o império da liberdade, não apenas a de escolher seus governantes, mas também a de ser dono do seu destino e persegui-lo sem ser coagido, e a de buscar a excelência nos âmbitos pessoal, profissional e social. A liderança – ou no mínimo a proeminência – norte-americana em áreas como indústria, tecnologia, educação, entretenimento ou esporte se explica, em boa parte, por esse ambiente de liberdade que a democracia proporcionou aos cidadãos dos Estados Unidos nestes 250 anos.

Hoje, fala-se em uma certa “fadiga” da democracia. Não poucos observam com admiração a ascensão econômica e militar da ditadura chinesa, ignorando que ela é construída, ousamos dizer, sobre as mesmas bases frágeis do regime soviético, e que por isso tem prazo de validade, embora ainda não se possa vislumbrar hoje qual é esse prazo. Em outros casos, elogia-se regimes não abertamente ditatoriais, mas que chegam ao poder pelo voto e passam a suprimir liberdades ou enfraquecer instituições em nome de resultados efetivos em certas áreas ou da imposição de um ideário que se julga ser o correto. A democracia, de fato, não é fácil; ela exige diálogo, exige o debate de ideias para a implantação de um programa, exige compreender que ela não é a “ditadura da maioria”, exige que os governantes estejam dispostos a aceitar seus limites. Mas é só nela que as liberdades florescem, e com elas o desenvolvimento socioeconômico de uma sociedade. E, como diz Churchill em outro discurso, de 1944, “se isso é democracia, eu a saúdo. Eu a apoio. Eu trabalharia por ela”. Trabalhemos por ela também nós.

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OFENSA

Mauricio Marcon (PL-RS) criticou o gesto obsceno de Lula ao mostrar o dedo do meio durante discurso em Brasília:

“Quanta classe para um presidente. Será que estava bêbado?”, indagou o deputado federal.

* * *

O sinhô deputado praticou uma grave ofensa, perguntando se Lula estava bêbado.

Ofendeu profundamente os bêbados, uma classe honesta, unida e solidária.

Tem que pedir desculpas.

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NÃO É COM ÓRGÃOS E COMISSÕES QUE SE RACIONALIZA O GASTO PÚBLICO

Editorial Gazeta do Povo

editorial gasto público

Burocracia e máquina administrativa consome boa parte da arrecadação, prejudicando a oferta de serviços públicos

Em 20 de janeiro de 2012, a então presidente Dilma Rousseff editou um decreto que dava nova forma à Secretaria de Gestão Pública (SGP), vinculada ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Essa secretaria já havia existido com outros nomes e com estrutura e atribuições diferentes; a própria Dilma já havia criado, em 2011, um órgão similar com o nome de Câmara de Políticas de Gestão, Desempenho e Competitividade (CGDC), vinculada diretamente ao Conselho de Governo, cujo objetivo central era focar suas ações na qualidade do gasto público e na eficiência administrativa.

O exemplo citado é um caso extremo de crença na burocracia para resolver um problema clássico da administração pública brasileira, mas a verdade é que todos os governos anteriores desde a redemocratização – Lula, Fernando Henrique, Collor e Sarney – também criaram algum órgão, programa ou grupo de trabalho com a missão de racionalizar e melhorar a eficiência do governo e a qualidade dos serviços e obras públicas. Depois de Dilma, os governos Temer e Bolsonaro também promoveram medidas similares, focadas em reduzir ou mudar órgãos, alterar funções e mudar algumas estruturas funcionais, ao lado de tentativas de reduzir ineficiências e aumentar a qualidade do governo. Era uma admissão, ainda que implícita, e vinda de governantes de matizes ideológicos diferentes, de que o Estado brasileiro entregava pouco ao cidadão em comparação com o que retirava dele em impostos.

Os resultados de tais esforços, porém, têm sido inexpressivos. O governo retira cerca de um terço de toda a renda nacional para oferecer serviços públicos como defesa, Justiça, segurança, educação, saúde e assistência social, além de investimentos em obras de infraestrutura física e social, tais como transportes, portos, aeroportos, energia, armazenagem, hospitais, escolas e equipamentos urbanos de uso coletivo. No entanto, com algumas poucas exceções resumidas a ilhas de excelência em algumas áreas, o retorno ao pagador de impostos brasileiro tem sido bastante pífio.

A baixa produtividade do gasto público, percebida quando se coteja a elevada carga tributária e os gastos em serviços e investimentos, tem como causa principal o fato de que, para cumprir as funções a cargo do governo, o setor estatal mantém uma gigantesca máquina envolvida nas tarefas de impor tributos, efetuar a arrecadação, operar a administração governamental e executar as obras e os serviços para os quais a sociedade paga os impostos. Quando a estrutura de governo é muito grande e cara demais, consumindo boa parte dos tributos pagos pela sociedade, os indicadores de eficiência e desempenho acabam revelando a baixa produtividade dos impostos, dando à população a convicção de que paga caro demais por obras e serviços de baixa qualidade.

Órgãos, leis, medidas administrativas e o modo de funcionamento do governo devem ser confrontados de forma permanente com sua organização, métodos de trabalho, fluxo de processos, racionalização de atividades e adoção de princípios de gestão científica na execução de atividades e projetos. Todos esses assuntos já fazem parte da rotina de empresas privadas por imposição da necessidade de enfrentar a concorrência e obter resultados positivos para crescer, investir, gerar empregos e pagar impostos. Como o governo não sofre as pressões típicas do mercado privado, a ineficiência se eterniza e isso, ao lado da alta corrupção, contribui para manter os índices de pobreza.

Outro ponto relevante a considerar é a necessária revisão sobre qual deve ser o papel do governo nas diversas áreas e setores, incluindo a questão da privatização de empresas estatais em áreas que o governo deve deixar a cargo da iniciativa privada. A revisão dos processos e a melhoria das funções e atos de governo devem ser constantes e ininterruptas, pois o gigantismo estatal brasileiro e alta carga de impostos já passaram do tamanho que pode ser considerado razoável.

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CONVERSA SENATORIAL

O senador Flávio Bolsonaro confirmou ida aos EUA para “defender o PIX” e alfinetou Lula, acusando o presidente de estar “se lixando” para o Brasil e para os brasileiros:

“Vou lá defender o nosso Brasil”, disparou.

* * *

Muito amostrado esse senador Flávio.

Quero ver mesmo ele ganhar essa parada com o Lula num detalhe:

Falando mais verdades do que o descondenado fala, na média de uma por dia.

Fico no aguardo.

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LADROAGEM FARDADA

Na Venezuela, cai o ditador, mas não muda o regime.

Com denúncias de militares roubando vítimas do terremoto, a ditadora em exercício Delcy Rodriguez não prende malfeitores, mas restringe o acesso da imprensa.

* * *

Militares roubando vítimas do terremoto…

PQP !

É de lascar.

Um absurdo só possível mesmo de acontecer naquele recanto de mundo.

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NA COPA, NÃO SOU EU QUE ESCREVO, É NELSON QUE ESCREVE POR MIM

Francisco Escorsim

copa do mundo bélgica senegal

Belgas comemoram vitória e senegaleses lamentam eliminação da Copa do Mundo, após vitória da Bélgica por 3 a 2 na prorrogação

Amigos, Nelson Rodrigues não me abandona, continua escrevendo certo por minha digitação torta. Aviso ao leitor menos frequentador de arquivo morto: não é plágio, é possessão. Ele dita, eu erro a pontuação, ele corrige e seguimos os dois diante da televisão, torcendo pela Seleção – e contra todos, que é a única torcida decente que existe.

Na tela, enquanto aguardamos a Espanha entrar em campo, conferimos a reprise da Bélgica morrer contra o Senegal. Dois a zero, quase acabando. De Bruyne sumido, Doku sacado, Lukaku no banco feito móvel velho esperando a casa pegar fogo para ser útil. E Nelson aqui, pensando: a Bélgica vai morrer como morrem os aristocratas, sem drama, apenas cansada de si mesma.

Nós, particularmente, não cremos em acaso. Cremos em destino, que é o acaso com CPF. E o destino, nesta Copa de 2026, anda especialmente cruel com os africanos. Lukaku entrou e os belgas empataram nos minutos finais, em uma saída errada do goleiro senegalês, um instante que ficará, para Mory Diaw, como fica para todo homem a lembrança exata do momento em que confundiu a mulher errada com a certa.

Quando a prorrogação chegava ao minuto final e já nos preparávamos para os pênaltis, relembrávamos nossa virada contra o Japão. Como sofremos. O bastante para não perder o velho complexo de vira-lata que inventei – sim, fui eu, Nelson – e que o brasileiro carrega como sua certidão de batismo. E vencemos nos acréscimos, porque no Brasil tudo se resolve assim. Martinelli marcou como um menino chutando a própria angústia para dentro do gol.

Falando em angústia, pensem agora na Alemanha, que tentava o penta e perdeu pro Paraguai – o Paraguai! Antes de morrer de vergonha, morreu nos pênaltis, que é a forma mais civilizada de suicídio que o futebol inventou. E o goleiro paraguaio Orlando Gill, que ninguém conhecia até terça-feira, entrou para a história como quem despacha visita inconveniente.

A Holanda também caiu nos pênaltis, e voltou para casa laranja e murcha, como sempre voltou de todas as Copas. Não houve viúva chorando: a arrogância morre sozinha, sem cortejo. Vale para os alemães também. E quase para os ingleses, derrotados quase sempre, mas não (ainda) nesta Copa. Ainda assim, sofrem. É da natureza inglesa sofrer, mesmo vencendo a República Democrática do Congo.

Quem não sofreu foi a França, que passeou sobre a Suécia com a crueldade elegante de moça bonita que sabe que é bonita. Tampouco o México, que atropelou o Equador, e os outros anfitriões da Copa, que avançaram também sem maiores sustos. O Canadá bateu a África do Sul por 1 a 0, com a austeridade de quem nunca leu um romance russo, e a torcida dos EUA acredita até agora que venceu por 3 a 0 porque não entende a regra do impedimento.

A Noruega bateu a Costa do Marfim e se tornou nossa próxima adversária. Contemplamos o rosto de Haaland no final, aquela alegria escandinava que não sabemos se está de férias no verão ou num velório no inverno. Não sentimos medo algum. Talvez tenhamos exorcizado nossos medos com os nipônicos. Ou talvez seja o humano preconceito que atesta que gigante loiro pode ser ótimo para publicidade de leite, não pro futebol.

Voltamos à Bélgica, que marcou na bacia das almas da prorrogação, vencendo o jogo. Concluímos em voz baixa, católicos envergonhados, que no futebol a metafísica é outra: morre-se em noventa minutos, ressuscita-se depois de mais trinta, e às vezes é preciso esperar a descida do Espírito Santo na cobrança de pênaltis para consumar o sacrifício.

Vai ver é por isso que não tememos os noruegueses. Os deuses nórdicos que fiquem com seus fiordes como zagueiros e sua austeridade luterana no meio de campo e seu viking solitário no ataque. No campo, a religião é outra, e só a Seleção reza na língua certa.

Mas cesse tudo o que a musa antiga canta, pois as trombetas da vaidade ibérica começam a soar na tela iluminada. Entra em campo a Espanha, com seus passes de uma geometria milimétrica, asséptica, quase profilática. Vão enfrentar a Áustria, que parece aguardar um massacre com a dignidade impotente de sua aristocracia fantasmal.

Nelson ajeita os óculos escuros na ponta do nariz e dá a última baforada no seu cigarro imaginário. Já não me dita nada, apenas observa, olímpico, a soberba europeia em campo. Aguarda o momento exato em que a bola – essa mulher caprichosa e sem coração – decidirá punir os que jogarem sem pecado e sem paixão.

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DESENROLA PARA QUEM TEM CONTAS EM DIA É INCENTIVO AO ENDIVIDAMENTO FUTURO

Editorial Gazeta do Povo

editorial desenrola adimplentes
O presidente Lula e o ministro da Fazenda, Dario Durigan, no lançamento do Desenrola Adimplentes, em 29 de junho

A cartola de Lula, o mágico que acredita ser capaz de fazer dinheiro surgir espontaneamente do nada, ainda tem mais alguns truques finais antes que o espetáculo seja interrompido e o presidente-candidato não possa mais fazer anúncios públicos, nem usar a publicidade oficial para vender seus programas eleitoreiros. Depois do Novo Desenrola Brasil, o repeteco de um programa para devedores inadimplentes que conseguiu a proeza de gerar ainda mais dívidas no médio prazo, é a vez do Desenrola Adimplentes, voltado a trabalhadores informais que estão em dia com suas obrigações, mas pagam juros altos e poderiam renegociar os seus empréstimos.

Com o Desenrola Adimplentes, o governo pretende convencer 500 mil trabalhadores informais a renegociar suas dívidas de até R$ 15 mil, passando a pagar no máximo 1,99% ao mês de juros, podendo ampliar em até seis meses o prazo do contrato original, e reduzindo o valor da prestação a no máximo 90% do que pagavam antes de aderir. O truque, neste caso, está em abrir uma linha de crédito adicional correspondente a 50% do saldo devedor original – ou seja, mais estímulo para que o trabalhador pegue dinheiro para consumir e manter a economia artificialmente aquecida. Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, estatais, já confirmaram participação, se é que tinham alguma escolha; bancos privados ainda estudam, mas precisariam de argumentos muito bons para aceitar renegociar dívidas com quem está pagando em dia.

Além disso, foi anunciado o Fies Empreendedor, para ex-estudantes universitários que estão em dia com seus contratos de financiamento estudantil e precisam de dinheiro para iniciar ou impulsionar sua carreira profissional abrindo ou ampliando negócios. Esta linha de crédito terá juros de até 11% ao ano, com financiamentos de até R$ 180 mil para pessoas jurídicas, pagos em até 96 meses, e de até R$ 80 mil para pessoas físicas, com prazo de até 60 meses. Quem aderir a qualquer um dos dois programas recém-lançados terá seu CPF bloqueado por seis meses em sites de apostas on-line (as “bets”). As novas bondades governamentais custarão R$ 4 bilhões ao Tesouro Nacional: R$ 3 bilhões correspondem ao Desenrola Adimplentes e R$ 1 bilhão, ao Fies Empreendedor.

De bilhão em bilhão, o pacote eleitoreiro em que Lula aposta para conseguir a reeleição vai fazendo seu estrago nas contas públicas e na economia do país, que os estímulos mantêm aquecida além de suas capacidades. Isso gera pressão inflacionária, o que por sua vez leva a juros altos – seja a taxa básica, a Selic, seja aquela cobrada pelos bancos para emprestar dinheiro. Quando promete renegociações de dívidas em termos camaradas, o governo critica esses juros altos, embora seja o principal responsável por eles, quando adota uma política fiscal expansionista e amplia indiscriminadamente o crédito – ou seja, ou estamos diante de um espetáculo de ignorância, ou de pura hipocrisia.

Um dia, a conta da irresponsabilidade vem. No caso do gasto público desenfreado, todo o país pagará o preço, de várias formas possíveis: inflação, juros ou uma retração da economia, quando o motor superaquecido fundir de vez. E, se a experiência do primeiro Desenrola tiver algo a ensinar, há outros motivos de preocupação. Segundo o Banco Central, 15 milhões de pessoas renegociaram R$ 53 bilhões em dívidas em 2023, mas cada real renegociado naquela ocasião gerou R$ 1,15 em novas dívidas. Os adimplentes de hoje, uma vez aderindo ao Desenrola ou ao Fies Empreendedor, se tornarão os inadimplentes de amanhã caso algo saia errado? Com o governo incentivando essas pessoas a pegar emprestado mais e mais dinheiro, difícil saber quando o passo acabará maior que as pernas, inflando ainda mais os números de inadimplência, que já batem sucessivos recordes.

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O COLAPSO DO BRASIL É LOGO ALI

Alan Ghani

Se a conduta econômica do governo Lula é parecida com a de Dilma, os resultados gerados por ela também serão semelhantes

É impressionante a semelhança da política econômica atual do governo Lula com o final do governo Dilma em 2014. Elevação de benefícios sociais, linhas de créditos subsidiadas para alguns setores e isenções fiscais seletivas são ações fortemente presentes nos anos eleitorais de 2014 e 2026.

Sem nenhuma surpresa, se a conduta econômica é parecida, os resultados gerados por ela também serão semelhantes. Inflação elevada, indução artificial do crescimento econômico, deterioração fiscal, piora no ambiente de negócios, pessimismo no mercado financeiro, juros pressionados e redução dos investimentos das empresas são consequências esperadas da política fiscal ultra expansionista presente tanto no governo Lula como na administração Dilma.

A diferença é que agora a situação fiscal é muito mais preocupante do que era no governo Dilma. Primeiro, porque em 2014, a dívida bruta do governo federal era de 63,4% do PIB, enquanto hoje ela está em 81,1%.

O próprio tamanho da dívida torna a situação muito mais difícil de ser controlada. A razão é simples: quanto maior o endividamento estatal, mais juros são pagos ou incorporados ao principal, tornando a dívida crescente.

Além desse motivo, as políticas econômicas implementadas pelo atual governo Lula, como os mínimos constitucionais de gastos com saúde e educação, valorização real do salário mínimo, com impacto direto na previdência, tornam o controle da dívida uma missão quase impossível.

Para piorar, o Congresso também não faz a sua parte, pede emendas parlamentares cada vez mais bilionárias no orçamento, e o Supremo Tribunal Federal flexibiliza os penduricalhos para diversos setores do Poder Judiciário, impactando diretamente as contas públicas, além de despertar a vontade de funcionários públicos de outras esferas de receberem o mesmo benefício. Tal situação vai completamente na contramão de uma reforma administrativa.

O problema é que nada disso é de graça. Para sustentar todas essas benesses estatais, o governo cobra impostos e se endivida cada vez mais com sociedade brasileira. No entanto, o alto endividamento pressiona a taxa de juros e drena recursos de investimentos produtivos do setor privado para financiar o governo. Afinal, quem não quer ganhar 14,55% a.a ou IPCA + 8,35%a.a com baixo risco?

Com taxas de juros tão elevadas, uma dívida PIB acima de 81% e sem nenhum sinal de melhora das contas públicas, a situação fiscal brasileira vai se tornado dramática, a caminho de um colapso.

Sem “economês”, significa que se nada for feito, mesmo com impostos arrecadados e emissão de títulos públicos, não será possível pagar credores das dívidas de vencimentos mais curtos. Num eventual calote, as consequências para a sociedade são bem conhecidas: queda da atividade econômica, fuga de investimentos, desemprego e inflação. Infelizmente, caminhamos a passos largos para isso.