CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

O HOMEM QUE NÃO VENDEU SUA ALMA (1966) – UMA OBRA-PRIMA DE ZINNEMANN

Versão saída em Blu-ray

Na Inglaterra do século XVI, Henrique VIII (Robert Shaw) planejava se separar de sua primeira esposa para se casar com a fogosa (e bota fogosa nisso!!) Rainha Ana Bolena (Vanessa Redgrave), mas não recebe a aprovação de Thomas Morus (Paul Scofield), numa atuação soberba, impagável, um fervoroso católico que se tornou “Lord Chanceler”, um altíssimo posto que ele preferiu renunciar do que trair suas convicções. Entretanto, a importância de Sir. Thomas Morus era tão grande à época que mesmo após sua renúncia o rei continuou o perseguindo. Até que surgem “provas” que o incriminam como alta traição, um “crime” punido com a morte, sendo decapitado na Torre de Londres no dia 6 de julho de 1535, “antes das nove horas.”

(A MAN FOR ALL SEASONS (1966), ou O Homem Que Não Vendeu Sua Alma, é o primeiro de dois filmes em que o diretor Fred Zinnemann e a atriz Vanessa Redgrave trabalharam juntos. O posterior foi Julia de (1977). O ator Paul Scofield recebeu o Oscar de melhor ator pela atuação primorosa, mas não compareceu à cerimônia de entrega por ser avesso a comemorações. Com isso, sua estatueta de melhor ator foi recebida por Wendy Hiller, sua companheira de elenco. O orçamento do filme foi de US$ 3,9 milhões. Teve a sua refilmagem em (1988) com o mesmo título pelo ator e diretor Charlton Heston, que já havia trabalhado como ator principal em grandes clássicos do gênero, como Os Dez Mandamentos (1956), Bem-Hur (1959), O Planeta dos Macacos (1968), dentre outros. O homem que não vendeu sua alma ganhou nova versão e não decepcionou.

Como era de se esperar, um filme com esse objetivo e, ainda por cima, baseado diretamente em uma peça de teatro que seu próprio autor, Robert Bolt, transformou em roteiro cinematográfico, simplesmente não poderia primar pela ação no sentido mais esperado da palavra. Ela inexiste aqui e tudo, absolutamente tudo, recai no colo do incomparável trabalho dramático de Paul Scofield, no papel principal.

O ator, que começou sua vida artística no teatro, onde permaneceu focado praticamente a vida inteira, apesar de ter também aparecido em alguns filmes, viveu Thomas Morus na peça de Bolt tanto no West End de Londres, área da Região centro de Londres, Inglaterra, onde contém muitas atrações turísticas, quanto na Broadway, em Nova York. E foi a escolha do diretor Fred Zinnemann para viver o papel também nas telonas. No entanto, a produtora considerou que Paul Scofield não tinha nome para atrair audiência para o filme, com Richard Burton e Laurence Olivier sendo considerados para o papel. No entanto, o cineasta insistiu em sua escolha, brigou, ajudado por Bolt, especialmente depois que ele havia levado para casa o Tony de melhor ator justamente por seu trabalho na Broadway como Morus, em 1962.

Essa escolha foi extremamente acertada pelo diretor Fred Zinnemann. Paul Scofield interpretou Thomas Morus com um vigor impressionante, demonstrando com olhares, gestos e pequenos trejeitos corporais uma latitude dramática que vai da alegria em ver sua esposa no final de um dia estafante, passando pela surpresa e leve – mas elegante – desgosto em ver sua filha com um pretendente luterano e pelo encontro com seu amigo e rei nos jardins de sua moradia, até a veemente negativa em endossar o posicionamento do rei sobre o divórcio e novo casamento sem a benção do Papa.

O diretor Fred Zinnemann, por seu turno, não perde a oportunidade de manter sua câmera sempre parada e mirada no rosto de Paul Scofield em toda sua intensidade e profunda inteligência, construindo um personagem espetacular logo nos primeiros minutos da projeção, quando demonstra muito claramente sua integridade primeiro como advogado e, depois, como chanceler real.

O trabalho do ator Paul Scofield em O Homem Que Não Vendeu Sua Alma é um dos mais impressionantes trabalhos dramáticos da Sétima Arte, transformando um filme que é quase que completamente um teatro filmado e que, portanto, pode facilmente descambar para a monotonia, em uma obra realmente inesquecível, daqueles em que cada cena com a presença de Paul Scofield é um momento de se aplaudir. Sua presença é tão magnética e profunda, aliás, que todo o restante do elenco desaparece, até mesmo a espalhafatosa ponta de Robert Shaw como Henrique VIII e a assustadora aparição do imponente Orson Welles como o Cardeal Wolsey. Mesmo os atores que tem mais presença de tela, como John Hurt como Richard Rich e Leo McKern como Thomas Cromwell, por melhor que sejam os atores – e são mesmo excelentes – mínguam diante de Paul Scofield e a retitude moral e ética de Morus.

A equipe técnica que cuidou de O Homem que Não Vendeu sua Alma também não decepcionou. Figurinos corretamente suntuosos vestem o elenco que passeia por cenários em locação e alguns poucos construídos especialmente para o filme que se funde em um conjunto harmônico preciso que muito corretamente não tem nenhuma intenção de chamar atenção para si mesmo, deixando todo o espaço para que Paul Scofield e o restante do elenco brilharem como devem brilhar. A fotografia de Ted Moore, conhecido por seu trabalho na franquia 007, faz as cores ressaltarem da mesma maneira que ele as suga na medida em que o drama de Morus se torna cada vez mais sem saída, algo que a equipe de maquiagem e cabelo se esmera também em apontar.

Retratando um dos mais significativos momentos da história britânica sob o ponto de vista de um grande homem, o filme O Homem Que Não Vendeu Sua Alma é ao mesmo tempo uma aula de dramaturgia e cinema e de estadismo em sua forma mais pura. Todo político ou pretendente a político deveria no mínimo ser obrigado a absorver as lições que o Morus de Scofield passa aqui (já que pedir que estudem Thomas Morus talvez seja demais). O mundo político com certeza seria melhor mesmo se apenas um décimo da moralidade e honestidade do personagem fossem internalizadas.

“O Homem Que Não Vendeu Sua Alma” é uma grande lição de moral e ética que o diretor Fred Zinnemann nos deixou como legado.

Trailer O HOMEM QUE NAO VENDEU SUA ALMA, de Fred Zinnemann, COLUMBIA, 1966.

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

FRANCISCO FÉLIX DE SOUZA, O MAIOR TRAFICANTE DE ESCRAVOS DO SÉCULO XVII

O maior traficante de carne humana do século XVII

No genial romance Quincas Borba (1891), Machado de Assis conta a história de Prudêncio, o escravo vítima de maus-tratos, alijamento, e que, tão logo se vê liberto, compra seu próprio escravo para, ato contínuo, surrá-lo e alijá-lo. Em tempos politicamente corretos, de idealização das vítimas, esse parece mais um exemplo do eterno niilismo do Bruxo do Cosme Velho.

Infelizmente a história mostra que a arte copia a vida, como nos revela o diplomata, historiador e maior africanólogo do Brasil, Alberto da Costa e Silva, 90 anos, que escreveu a excelente biografia do ex escravo baiano, Francisco Félix de Souza, Mercador de Escravos, publicada pela editora Nova Fronteira, em 2004, com 208 páginas. Biografia essa onde o diplomata e historiador traça um painel cruel, estarrecedor de como o maior traficante de escravo do mundo, filho de pai branco com mãe índio mestiça, de visão, astúcia, competência e eficiência, se tornou o maior mercador de escravos do mundo, que transportava da Grande Fortaleza de Judá, o mais terrível entreposto de escravos da história escravista, construído pelos portugueses no século XVI para armazenar carne humana viva!

Francisco Félix de Souza, apelidado de Chachá, nasceu em Salvador, provavelmente no dia quatro de outubro de 1754 e morreu em Benin, África Ocidental, no dia oito de maio de 1849, aos 94 anos. Filho de um português traficante de escravos e de mãe índia mestiça, foi alforriado aos dezessete anos, decidindo viajar para a África quando tinha por volta de vinte e três anos. Não se sabe se por desterro o motivo da viagem, acredita-se que tenha sido a negócios em nome da família, retornando depois de três anos ao Brasil.

Em 1800 decide se estabelecer definitivamente em Ouidah (Ajudá), no Golfo de Benin, ao que parece como comerciante privado. Posteriormente, com a falência de seus negócios em solo africano, passa a prestar serviços à guarnição do forte de São João Batista de Ajudá, pertencente aos portugueses, no reino do Daomé, atualmente território da República do Benin. Com a falta de nomeação de administradores para o forte, Francisco Felix de Souza passa a governador interino do entreposto, posição que abandona logo depois para se dedicar ao comércio de escravos cativos de guerra, exportados para o Brasil e Cuba, atividade já tornada ilegal até mesmo em Portugal e norte do Equador.

A vida de Francisco Félix de Souza foi transformada em filme, COBRA VERDE (1987), filmado no Brasil e na África, com o ator Klaus Kinski interpretando o controvertido traficante de escravos. Foi produzido e dirigido pelo competente diretor Werner Herzog, roteiro extraído do romance O VICE-REI DE UDÁ, do aventureiro inglês BRUCE CHATWIN. Mas foi graças a Alberto da Costa e Silva que, pela primeira vez, o tema foi tratado com apuro historiográfico. Sem deixar de lado o fascínio rocambolesco da sua vida pessoal, o aventureiro de Salvador que, na África, conseguiu poder, nobreza e uma fortuna calculada em US$ 120 milhões, que fez dele um dos três homens mais ricos do mundo. Mas, ao morrer, já decadente e sem prestígio, com 94 anos, deixou mais 53 mulheres, mais de 80 filhos e mais de doze mil escravos à deriva.

A vida de Francisco Félix de Souza, o Chachá de Ajudá, título honorífico lhe concedido na cidade de Uidá, é fascinante pelo seu espírito aventureiro, pela sua astúcia, tirania e crueldade, tornando-se o maior traficante de carne humana viva do mundo no século XVII.

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

MARIA BAGO MOLE ALTRUÍSTA

“Retirantes” – 1944, quadro do pintor Cândido Portinari

Certo dia – era mês de agosto – chegara ao cabaré de Maria Bago Mole Dona Severina de Jesus com seus seis filhos. O primeiro ainda era de menor. O caçula, com dois anos, ainda procurava leite nos peitos murchos da mãe. O marido tinha desaparecido numa caçada misteriosa na mata à procura de comida. A cena da mãe com os filhos caminhando rumo ao cabaré à procura de abrigo parecia uma metáfora do quadro “Retirantes” de 1944, do genial pintor modernista Cândido Portinari, obra-prima emblemática da arte brasileira de cunho social, com influência expressionista.

Dona Severina de Jesus era uma mulher mediana, raçuda, de personalidade forte, olhos pretos tristes, cabelos longos, coxas torneadas. Bonita e bem afeiçoada para o nível e situação de vida vivida. Era-lhe perceptível no semblante que estava passando necessidades, principalmente os filhos: todos estavam passando fome há muito, só comento raízes, quando encontravam nos sítios das estradas por onde passavam e uma irmã de caridade dava!

Do caminho da roça ao cabaré se deparou com muitas famílias bastardas querendo “adotar” seus filhos, principalmente os três mais novos. Mas ela dizia não. Como mãe, para onde fosse os filhos iam juntos, seguindo sua sombra, na alegria, na dor, na tristeza, no sofrimento. Onde comesse e dormisse um, comiam e dormiam todos sob sua proteção.

Sabendo da existência do famoso cabaré de Maria Bago Mole na Vila dos Vinténs, para lá Dona Severina de Jesus e os filhos foram à procura da famosa cafetina para pedirem guarida, uma vez que diziam ser ela altruísta, apesar de ser o lugar um entreposto de carne mijada de jovens adolescentes que “se perdiam” com os namorados e eram expulsas dos sítios pelos pais, que não admitiam filhas “defloradas” e “mal faladas” morando no lar.

Um dia de sol a pino, Dona Severina de Jesus saiu de casa logo cedo rumo ao cabaré. A cada filho, antes de sair, deu um pote de água e dois pedaços de raiz cozida no fogão de lenha da casa, que ainda lhe restava no armário de barro. Juntou as tralhas necessárias que lhes podiam ser de serventia, enrolou os panos velhos, fez uma trouxa, pôs na cabeça, fechou a tramela da porta da frente da casa e partiu com os filhos lacrimejando sem dar adeus àquela que a acolheu do sol e da chuva e os filhos durante anos.

Antes de chegar ao cabaré de Maria Bago Mole, Dona Severina de Jesus sentiu um friozinho no pé do umbigo, pois jamais esperava encontrar um ambiente tão movimentado, diferente do seu universo particular: caminhões, cortadores de cana, atravessadores, a maioria vindo das fazendas de cana de açúcar e da trilha da ferrovia, que uma empresa americana estava instalando para o escorrimento da cana até o porto da Capital.

Como necessidade faz sapo voar, Dona Severina de Jesus desacanhou-se e se dirigiu até o balcão onde estava a cafetina organizando o cabaré e dando ordens às “meninas” para a noite que estava caindo e prometia-se muito frege!

– Madame – dirigiu-se acanhada  Dona Severina de Jesus a Maria Bago Mole – é a senhora a dona dessa casa “cristã?”

A cafetina, com o altruísmo que lhe era peculiar, afirmou que sim. E perguntou à retirante o que fazia ali com aqueles meninos e se estava precisando de alguma ajuda. Mas antes de esperar a resposta, mandou Dona Severina de Jesus entrar, preparou uma mesa com sete assentos, ofereceu-lhe comida e aos filhos, e cochichou no ouvido da retirante, sorrindo:

– Coma primeiro com seus filhos! Depois a gente conversa sobre o seu destino e dos meninos aqui na casa! – Disse com os olhos brilhosos que encantaram Seu Bitônio Coelho desde o primeiro dia que a viu!

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

SÍLVIO SANTOS (2024) – O ÍCONE DA COMUNICAÇÃO BRASILEIRA

Imagens de Sílvio Santos em três épocas diferentes

Encantou-se, no dia 17 de agosto de 2024, aos 93 anos, o maior comunicador do Brasil de todos os tempos: Sílvio Santos. O homem do sorriso, o homem do baú, o homem dos calouros, o homem do roletrando, o empreendedor, o influencer, o homem cantor – façanha essa que pouca gente conhece do homem que revolucionou a comunicação no Brasil, qual Charlie Chaplin nos Estados Unidos com a comédia.

Segundo afirma um dos melhores jornalistas e historiador da MPB, José Teles, no seu Site Teles Toques:

“Silvio Santos cantor é uma das suas facetas menos lembradas. Na época em que as marchinhas faziam a trilha do carnaval brasileiro, radialistas, apresentadores de TV aproveitavam para engordar o faturamento. A música para o carnaval era lançada pelo menos três meses antes da folia.

Dependendo de como fosse recebida pelo público rendia de direitos autorais o suficiente para o compositor não se preocupar com as finanças até o carnaval seguinte. Os comunicadores levavam vantagem sobre os cantores e cantoras porque muitas vezes tocavam eles mesmos o que gravaram em seus próprios programas.

Sílvio Santos estreou em 1965, com Índio Quer Dançar (Manoel Ferreira/Gentil Junior) num álbum de marchinhas, Carnaval Copa 66 (Copacabana). Daí em diante, todos os anos, ele gravou marchinhas. No ano seguinte dos mesmos autores lançou a Marcha do Barrigudinho. Foi assim até 1977, quando as marchinhas, com uma ou outra exceção não faziam mais sucessos nos clubes, nem no rádio. As gravadoras passaram a investir menos no gênero. Mas ele continuou a insistir nas marchinhas nos anos 80 e parou no início dos anos 90.

Mas nem tudo o que gravou foi para o carnaval. Em 1971, com selo Estúdio Silvio Santos Discos lançou um compacto com Samba do Corinthians (Manoel Ferreira/Gentil Junior), e Eu Queria Esquecer (Silvio Santos/Francisco Moraes), está ele declamando com um fundo musical. Silvio lançou dois LPs de música de meio de ano. O primeiro deles há 50 anos, Sílvio Santos e suas Colegas de Trabalho. O segundo em 1975 Show de Alegria, este com canções para datas comemorativas, São João, natal, carnaval, dia das mães, dos namorados e aniversários. O último é de 1994, um CD, com um repertório carnavalesco.”
Na comunicação, Sílvio Santos deixou um legado que só um gênio é capaz de fazê-lo.

As Melhores Músicas de Silvio Santos | Homenagem do Canal do Músico Ao Ícone da Televisão Brasileira

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

GOIANO BRAGA HORTA, UM GRANDE INTELECTUAL MODESTO

Os irmãos Anderson e Goiano Braga Horta

Irmão do talentoso poeta Anderson Braga Horta, autor de vários livros de poesia e ganhador de vários prêmios literários, Goiano Braga Horta, cantor, compositor e arranjador, por vários anos abrilhantou com seus textos icônicos no Jornal da Besta Fubana, lança, nas Redes Sociais (Faicebook e Instagram), um monte de clássicos da Jovem Guarda e do Movimento Brega dos anos 60, apenas acompanhado de seu violão.

Entre esses clássicos está A Carta, interpretada no passado por Ricardo Braga (autor, intérprete), Roberto Carlos e Erasmo Carlos.

Imperdível! Impagável ouvi-los hoje!

Goiano continua o mesmo gentleman, sempre amável e respeitoso com seus leitores e admiradores.

De uma postagem que fiz no seu perfil nas Redes Sociais comentando sua importante passagem no Jornal da Besta Fubana, com ele no vídeo interpretando NON HO L’ETÀ versão em Lá Maior (Mario Panzeri e Nicolas Salerno)), recebi este comentário:

“Isso é legal, ali (no Jornal da Besta Fubana), cada um expunha suas ideias políticas sem interesse pessoal, pensando no que entendem ser melhor para o País e para o ser humano!”

Viva Goiano Braga Horta!

Viva o Jornal da Besta Fubana!

NON HO L’ETÀ versão em Lá Maior (Mario Panzeri e Nicolas Salerno) Canta Goiano Braga

Erasmo Carlos – A Carta (DVD Meus Lados B)

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

BAGO MOLE ROMPE O CABAÇO NA VÉSPERA DE SÃO JOÃO

Quadro da Belle Époque dos Cabarés

Era uma noite festiva como nunca se vira naquelas paragens do Nordeste, início do Século XX. A cafetina mais charmosa e famosa daquele rincão inóspito, que fundou O Cabaré de Maria Bago Mole, referência regional, escolheu romper o cabaço para o coronel Bitônio Coelho, o fazendeiro mais respeitado da Zona da Mata Sul de Carpina (PE), num dia de sábado, lua cheia, sem nuvens, sem chuvas, com a plebe comemorando os festejos juninos à beira das fogueiras, soltando traques, busca-pés, peidos de veia, morteiros, foguetes, balões e outros fogos de artifícios.

Era mês de São João, tempo em que tudo transpirava festa, rela bucho iluminado por candeeiro e lamparina, alegria no vilarejo, com muita fartura de pamonha, canjica, milho assado na cozinha da mesa do povo da Vila dos Vinténs. Nesse dia o cabaré estava em festa, com tudo sobre o controle da cafetina que não deixava nada dar errado. As meninas enfeitadas sem excesso de maquiagem, sem a aparência das garotas do Natanael, do cabaré de Django.

À noitinha chega ao cabaré o coronel Bitônio Coelho, montado no seu cavalo alazão branco, todo serelepe, os pelos brilhando no reflexo da claridade vinda das lamparinas instaladas por Maria Bago Mole nas janelas térreas do cabaré. Como sempre costumava fazer, para não ter aborrecimentos depois, a cafetina reunia as dezoito meninas no quarto do aposento dela, e as alertava, depois de verificar, uma a uma, a maquiagem. E aconselhava:

– Trate bem dos seus homens. Não os deixem faltar nada. Deixe-os usufruir de todos os prazeres da carne e da bebida. Ofereçam muita comida e bebida. Não se esqueçam que quando chegam aqui os homens estão atrás de diversão e prazeres e procuram encontrar em vocês. Não se neguem a dar. Não se esqueçam que o sucesso “da casa” depende de vocês que são o produto almejado por eles. Vigiem tudo. Qualquer malquerença que houver revolva na conversa, no diálogo e, se mesmo assim, houver excesso no parceiro, leve-o para o quarto, tranque a porta, tire a roupa pela metade, mostre seus atributos sensuais e, depois, seja lá o que deus quiser, porque homens gostam de atenção. Eu vou estar ocupada com o meu amor nos nossos aposentos. Hoje vou dar o que nunca dei a ele, nem a ninguém, com as duas janelas abertas e a lua iluminando nossos desejos ardentes.

Depois desse bate papo com as meninas, Maria Bago Mole ainda sondou todo o cabaré, checou detalhes por detalhes das comidas e bebidas da despensa, verificou se estava faltando alguma coisa, desejou sucesso e diversão a todos os presentes e se mandou para os aposentos, onde já esperava por ela, todo tímido e desajeitado, o homem mais cobiçado e respeitado da Zona da Mata Sul da Região de Carpina (PE).

Apaixonadíssimo pela cafetina e sem poder esconder o nervosismo, Seu Bitônio Coelho deixou escapar alguns segredos de alcovas. Como se comportar sem roupa, nu, ante a mulher amada? Se beijasse a cafetina, e por onde começar as preliminares? Tantas eram as dúvidas e o nervosismo que o coronel a pediu para apagar a lamparina para mergulhar por baixo do lençol e a cafetina não o olhasse nu.

Nesse momento, com toda sua experiência lidando com homens no cabaré sem se envolver com nenhum dele, Bago Mole chamou o feito à ordem, pegou nas mãos do coronel, arrancou-lhe o pijama e começou a lhe fazer as preliminares para intumescer os desejos da carne.

Com menos de meia hora de excitação, Seu Bitônio Coelho, já estava relaxado e pronto para viver com a cafetina os desejos de um homem. Antes de ele a possuir, ela o beijou por todas as partes, fez barba, cabelo e bigode. Feito isso, perguntou-lhe o que estava sentindo.

Ao que ele respondeu:

– Nada do que eu pensava do sexo, – e a beijou na boca com um beijo tão ardente que ela sentiu sufocada, mas nada disse. Foi assim até amanhecer do dia, com o sol avisando que as estrelas já haviam se recolhido.

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

MARIA BAGO MOLE E O POETA ROMANO JUVENAL

Réplica semelhante à do Cabaré de Maria Bago Mole

Com suas obrigatórias idas e vindas ao Mercado Livre do Centro da Cidade de Carpina (PE), na Rua Ipiranga, todos os dias, manhã cedo, para comprar os mantimentos necessários para abastecer a despensa do seu pequeno comércio, que crescia a olhos vistos, com a chegada de mais trabalhadores da palha da cana nos engenhos das imediações, a cafetina mais sana in corpore sano da Vila dos Vinténs, a cada dia vibrava com o estrondoso crescimento do embrião do cabaré. Preocupava-lhe não poder atender, a seu jeito, a grande quantidade de homens com estômagos vazios por falta de mão de obra qualificada nas imediações: cozinheiras, arrumadeiras e atendentes para despacharem com os fregueses as refeições. Tudo teria de ser improvisado na hora para não desagradar os trabalhadores famintos.

Mulher inteligente e arrojada em suas atitudes empreendedoríssimas, Maria Bago Mole, sempre que passava em frente ao empório do Seu Adamastor Salvatore, imigrante italiano, para comprar mantimentos, observava um letreiro em forma de poema que ele pregava de frente do seu comércio. Era uma tabuleta de madeira, esculpida a mão por um artesão da redondeza, gênio da raça desconhecido. Na tabuleta havia grafado um poema do poeta romano Juvenal. No contexto, a frase era a parte da resposta do autor à questão sobre o que as pessoas deveriam desejar na vida.

No cabeçalho da tabuleta estava escrito em letras garrafais: MENS SANA IN CORPORE SANO (“Uma mente sã no corpo são”), que Maria Bago Mole não entendia o significado, mas ficava fascinada pelo som das palavras, ao ponto de decorar o poema e balbuciá-lo ao Sol toda manhã quando saia do cabaré para comprar os mantimentos:

Deve-se pedir em oração que a mente seja sã num corpo são.
Peça uma alma corajosa que careça do temor da morte,
que ponha longevidade em último lugar entre as bênçãos da natureza,
que suporte qualquer tipo de labores,
desconheça a ira, nada cobice e creia mais
nos labores selvagens de Hércules do que
nas satisfações, nos banquetes e camas de plumas de um rei oriental.
Revelarei aquilo que podes dar a ti próprio;
Certamente, o único caminho de uma vida tranqüila passa pela virtude.

Tudo isso prova por que a adolescente que foi expulsa de casa pelo pai, com apenas 17 anos por ter sido difamada por um aventureiro salafrário, ter conquistado o amor do fazendeiro Bitônio Coelho, o homem mais rico e poderoso da Região da Zona da Mata Sul de Carpina, PE, era uma mulher de mente sana in corpore sano e à frente do seu tempo.

Tudo isso corrobora que a mulher que teve a visão de transformar um vilarejo inóspito, caótico, sem vida, numa comunidade próspera, construindo um cabaré que se tornou referência em toda circunvizinhança, numa época em que não existia lamparina, tinha de ser uma empreendedora que enxergava longe.

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

ERA UMA VEZ NO OESTE (1968) – UMA OBRA-PRIMA

No dia 11 de julho de 1968, estreou nos cinemas alemães “Era uma Vez no Oeste”, de Sergio Leone. O filme se tornou um clássico não só pelo seu enredo espetacular, mas também graças ao elenco e à trilha sonora.

Três homens numa estação ferroviária, à espera de alguém. De quem, o espectador no cinema não sabe. Os minutos correm. O suor dos homens contagia os espectadores, o suspense torna-se quase insuportável. Gotas d’água e moscas transformam-se em instrumentos de tortura. As imagens em close up dominam a tela.

Então, o primeiro diálogo, icônico:

– Onde está Frank?

– Frank não tinha tempo.

– Vocês têm um cavalo para mim?

– Ha, ha, olhando em volta, eu só vejo três. Será que temos um a menos?

– Vocês têm dois a mais.

O próprio início de Era uma Vez no Oeste tornou-se legendário, um mito do cinema moderno, narra o crítico de cinema Jochen Kürten. E completa: a ele somava-se uma trilha sonora incomparável: poucas músicas na história do cinema foram tão marcantes como a composta pelo italiano Ennio Morricone. Sob diversos aspectos, Era uma Vez no Oeste consagrou-se como um clássico do cinema e um modelo de filme: música, encenação, direção, fotografia – em tudo isso, o filme criou um novo padrão em 1968.

Com o seu filme Por um Punhado de Dólares, o diretor Sergio Leone inventara o gênero denominado de spaghetti western, o qual ele próprio consolidaria com duas continuações. Com Once Upon a Time in the West (título original de Era uma Vez no Oeste), Leone voltou a criar uma obra-prima de caráter próprio, mesclando a mitologia do faroeste americano com a ópera europeia.

Era uma Vez no Oeste é a narração de uma viagem a um país distante, que se chama Estados Unidos da América. Mas refere-se a uma “Atlântida”, a um paraíso perdido. Leone trouxe da sua viagem as imagens da terra prometida, imagens de um anseio, de um sonho. Ele interligou essas imagens com os recursos de uma forma mediterrânea de expressão artística, a ópera. No seu dicionário do filme de faroeste, o crítico Joe Hembus atribuiu a Era uma Vez no Oeste a mesma afinidade com Giuseppe Verdi presente em John Ford.

A história narrada pelo filme é bastante conhecida. O caladão Charles Bronson, cujo personagem não tem nome no filme, busca vingança. Quando criança, ele fora testemunha de um ritual macabro de assassinato, sendo obrigado a tocar uma canção na gaita-de-boca enquanto o seu pai era enforcado.

Paralelamente, Leone conta também a história da conquista do Oeste pela ferrovia, a história da linda prostituta Jill (Claudia Cardinale), do bandido Frank (Henry Fonda) e do velhaco de boa índole Cheyenne (Jason Robards), em imagens belíssimas e diálogos lacônicos, que são tão simples como verossímeis:

– Ninguém sabe o que o futuro trará. Por que eu estou aqui? Eu quero a fazenda ou a mulher? Não. Você é o motivo. E vai me dizer agora quem você é!

– Algumas pessoas morrem de curiosidade.

Isso se confirma no final. Henry Fonda, que em toda a sua longa e bem-sucedida carreira anterior sempre encarnara o mocinho, sucumbe sobre o chão poeirento. Morto por Charles Bronson, que quase sempre fazia o papel do malvado. Também essa inversão de papéis foi um choque para os espectadores da época.

Em Era uma Vez no Oeste convergia muita coisa e eram muitas as interpretações possíveis naquele ano de 1968. Capitalismo e revolução, cultura clássica e cultura pop americana, mitologia grega e ópera, amor e tragédia: ou seja, cinema na forma e perfeição mais pura e original, além de uma música que, ainda hoje, dá um arrepio na espinha.

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

JORDAN PETERSON (1962) – O INDIVÍDUO CONTRA O POLITICAMENTE CORRETO

Jordan Peterson passou pelo Brasil em 8/Maio/2024

Maior psicólogo canadense da atualidade, quiçá do mundo, Jordan Bernt Peterson, simplesmente Jordan Peterson, psicólogo clínico, escritor, ex-professor canadense de psicologia da Universidade de Toronto, vem sacudindo o meio acadêmico nas suas principais áreas de atuação: a psicologia analítica, social e evolucionista, com particular interesse na crença ideológica, personalidade e na psicologia da religião, enterrando o politicamente correto, com fatos, no túmulo da esquerdopatia.

Psicólogo de visão libertária, Jordan Peterson, com certeza é um do mais conceituado estudioso e polêmico psicólogo da contemporaneidade, sendo autor do best-seller 12 Regras Para a Vida dentre outros tão importantes quanto. Seus principais embates têm sido contra o politicamente correto, que tem sido uma praga para a sociedade moderna.

Numa era tão polarizada, Peterson é um homem que decidiu ser fiel à verdade e a seus princípios, ao invés de se dobrar à seita progressiva da esquerdopatia. Ele defende o homem e a sua liberdade contra a ideologia cega, doentia e irracional, nunca cedendo às pressões do coletivo que sempre almeja a cabeça à sua causa política e ideológica.

Peterson é admirado mundo afora por todos que se cansaram do politicamente correto e das regras criadas pelos militantes esquerdopatas agressivos, nem das visões utópicas da sociedade perfeita. Por outro lado, ele é odiado pelos progressistas e demais defensores do politicamente correto e das diversas agendas que a esquerda defende.

Sendo professor de psicologia, é um intelectual que teve a coragem de bater de frente contra o autoritarismo moderno, que se traveste de movimento benfeitor. Peterson identifica fatores psicológicos que fizeram a sociedade do passado a aceitarem o nazismo e marxismo soviético, que ainda existe nos dias atuais.

Um dos principais temas de estudo do psicólogo é sobre o autoritarismo e tudo que envolve esse fenômeno. E ele mesmo afirma que um dos seus objetivos é o de vacinar as pessoas contra o que ele chama de “possessão ideológica”. Foi por causa da possessão ideológica que o Século XX foi o período histórico com mais terror de governos autoritários e totalitários, com movimentos políticos de massa e com genocídios, quando as pessoas abandonaram toda a concepção de moralidade e verdade para se apegarem à ideologia e suas propagandas de forma irracional. Mas não estamos tão longe e livre desse fenômeno da possessão ideológica como alguns podem pensar.

Peterson ficou impressionado como o politicamente correto cresceu rapidamente nos últimos anos. E ele relata que outros professores que conhece ficam com medo de dar aula sobre certos temas de estudo como gênero, pois ficam com temor de retaliações ou cancelamentos.

Mais informações relevantes sobre as polêmicas envolvendo o renomado psicólogo Jordan Peterson assistam aos dois vídeos abaixo. Vale a pena.

JORDAN PETERSON: o indivíduo contra o politicamente correto

George Orwell: Os Socialistas e os Pobres

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

JURAILDES DA CRUZ (1954) – UM CANTOR E COMPOSITOR REFINADO

Nascido em Aurora do Norte, Goiás, hoje Estado do Tocantins, um verdadeiro paraíso para o menino que cresceu ouvindo folias de reis, cantigas de rodas, catiras (dança folclórica caipira típica do Brasil), Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, o canto e compositor Juraildes da Cruz, na adolescência, mudou-se com os pais para Goiânia, onde aprendeu a tocar violão com um vizinho. Estudou violão clássico ouvindo a “Jovem Guarda”, MPB e rock dos anos 70. Seu trabalho é híbrido, uma junção desse movimento cultural brasileiro surgido em meados da década de 60 com a música da região.

“Iniciou sua carreira artística em 1976, quando participou do GREMI – Grandes Revelações da Mocidade Inhumense, um festival de arte que aconteceu na cidade de Inhumas, Goiás, onde foi classificado em primeiro lugar.

Participou de mais de cem festivais musicais, com destaque para o Festival Tupi, de 1979, onde se apresentou com Genésio Tocantins, ao lado de artistas dos cantores Caetano Veloso, Elba Ramalho, Zé Ramalho, Osvaldo Montenegro, Fagner, Alceu Valença, Jackson do Pandeiro e outros. Em 1992, foi classificado no MPB SHELL.

Gravou seu primeiro disco, Cheiro de Terra, em 1990, contando com a participação de grandes nomes como Chiquinho do Acordeon, Sebastião Tapajós, Paulo Moura, Jaques Morelenbaum, Fernando Carvalho, Nilson Chaves, Mingo e Xangai. Suas composições já foram gravadas por Pena Branca e Xavantinho, Xangai, Rolando Boldrin e Margareth Menezes, entre outros.

Em 1994, Pena Branca e Xavantinho gravaram a composição de Juraildes “Memória de Carreiro”, que abre o CD Uma Dupla Brasileira. Participou, ainda, do CD gravado ao vivo Canto Cerrado, no qual interpretou “Nóis é Jeca Mais é Jóia”. Cantou também com Xangai o forró “Fuzuê na Taboca” no CD Eugênio Avelino – Lua Cheia, Lua Nova.

Em 1998, ganhou o Prêmio SHARP, atualmente chamado “Prêmio da Música Brasileira, com a música “Nóis é Jeca, Mais é Jóia”, na categoria de melhor música regional.

Participou do Projeto Pixinguinha, fazendo apresentações em oito capitais brasileiras, com gravação de DVD.

Em 2000, foi classificado no concurso do Projeto Rumos Musicais, do Banco Itaú para fazer o mapeamento cultural do país, com gravação de DVD, representando o Centro-Oeste.

Em 2005, foi indicado para o Prêmio TIM (categoria regional), com o CD Nóis é Jeca, Mais é Jóia.

Participou do Acordes Brasileiros – primeiro encontro Nacional de músicas regionais do Brasil em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo publicou um artigo na revista Língua Portuguesa, fazendo um reconhecimento do seu trabalho na revista n° 39, no mês de janeiro de 2009.

Participou da trilha sonora da novela da Rede Globo, A Favorita, com a música “Memória de Carreiro”, na versão instrumental.

Participando pela terceira vez do Projeto Pixinguinha, em 2008, recebeu o prêmio para a gravação do CD Roda Gigante bem como realização de shows de lançamento em Goiás.

Prepara-se para o lançamento do DVD Meninos, com tema infantis e adultos, que contou com a participação de um coral infantil.

A partir de junho de 2010, abriu uma turnê, em Recife, juntamente com Xangai, que circulou pelo Nordeste, onde foi mostrado o trabalho do CD que gravaram juntos, pela Kuarup, indicado ao Prêmio Tim em 2005.

Em 2010, foi indicado ao 21º Prêmio da Música Brasileira, sendo contemplado como o melhor cantor na categoria “voto popular”, juntamente com Daniela Mercury.”

Em 2022, Juraildes da Cruz gravou um DVD com arranjo, violão e bandolins de Luiz Chafim, o primeiro de sua carreira musical, onde ele se apresenta cantando e tocando violão. Há um desfile de dez músicas de sua autoria de rara sensibilidade, onde ele mistura o erudito e o popular numa ode rara de genialidade.

Meninos – Juraildes da Cruz