PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

TELAS – Euclydes da Cunha

No instante cruel da despedida –
Gelado o lábio, mudo – hirto, sem ar –
Eu vi su’alma – d’ilusões despida
– Tremer na luz do seu tão triste olhar!…

E não chorei!… seu seio – alva guarida
De minh’alma – chorava em crebro arfar…
E, eu não chorei… e ah! – eu sentia a vida
Das lágrimas ao peso – se dobrar!…

Saí, andei, corri… parei cansado –
Voltei-me e longe, longe eu vi asinha
– Garça do amor fugindo pr’o passado –

Branca, pura – ideal – sua casinha…
E as lágrimas do amor deixei – domado –
Constelarem da dor a noute minha!…

Euclydes Rodrigues Pimenta da Cunha, Cantagalo-RJ (1866-1909)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SONETO DITADO NA AGONIA – Bocage

Já Bocage não sou!… À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento…
Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura;

Conheço agora já quão vã figura,
Em prosa e verso fez meu louco intento:
Musa!… Tivera algum merecimento
Se um raio da razão seguisse pura.

Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui… a santidade
Manchei!… Oh! Se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!

Manuel Maria Barbosa du Bocage, Setúbal, Portugal (1765-1805)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SONETO DO VELHO ESCANDALOSO – Bocage

Tu, oh demente velho descarado,
Escândalo do sexo masculino,
Que por alta justiça do Destino
Tens o impotente membro decepado:

Tu, que, em torpe furor incendiado
Sofres d’ímpia paixão ardor maligno,
E a consorte gentil, de que és indigno,
Entregas a infrutífero castrado:

Tu, que tendo bebido o menstruo imundo,
Esse amor indiscreto te não gasta
D’ímpia mulher o orgulho furibundo;

Em castigo do vício, que te arrasta,
Saiba a ínclita Lísia, e todo o mundo
Que és vil por gênio, que és cabrão, e basta.

Manuel Maria Barbosa du Bocage, Setúbal, Portugal (1765-1805)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

ESPINOSA – Machado de Assis

Gosto de ver-te, grave e solitário,
Sob o fumo de esquálida candeia,
Nas mãos a ferramenta de operário,
E na cabeça a coruscante ideia.

E enquanto o pensamento delineia
Uma filosofia, o pão diário
A tua mão a labutar granjeia
E achas na independência o teu salário.

Soem cá fora agitações e lutas,
Sibile o bafo aspérrimo do inverno,
Tu trabalhas, tu pensas, e executas

Sóbrio, tranquilo, desvelado e terno,
A lei comum, e morres, e transmutas
O suado labor no prêmio eterno.

Joaquim Maria Machado de Assis, Rio de Janeiro-RJ, (1839-1908)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

NÓS – Guilherme de Andrade de Almeida

Fico – deixas-me velho. Moça e bela,
partes. Estes gerânios encarnados,
que na janela vivem debruçados,
vão morrer debruçados na janela.

E o piano, o teu canário tagarela,
a lâmpada, o divã, os cortinados:
– “Que é feito dela?” – indagarão – coitados!
E os amigos dirão: – “Que é feito dela?”

Parte! E se, olhando atrás, da extrema curva
da estrada, vires, esbatida e turva,
tremer a alvura dos cabelos meus;

irás pensando, pelo teu caminho,
que essa pobre cabeça de velhinho
é um lenço branco que te diz adeus!

Guilherme de Andrade de Almeida, Campinas-SP, (1890-1969)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

FLOR DO ASFALTO – Guilherme de Andrade de Almeida

Flor do asfalto, encantada flor de seda,
sugestão de um crepúsculo de outono,
de uma folha que cai, tonta de sono,
riscando a solidão de uma alameda…

Trazes nos olhos a melancolia
das longas perspectivas paralelas,
das avenidas outonais, daquelas
ruas cheias de folhas amarelas
sob um silêncio de tapeçaria…

Em tua voz nervosa tumultua
essa voz de folhagens desbotadas,
quando choram ao longo das calçadas,
simétricas, iguais e abandonadas,
as árvores tristíssimas da rua!

Flor da cidade, em teu perfume existe
Qualquer coisa que lembra folhas mortas,
sombras de pôr de sol, árvores tortas,
pela rua calada em que recortas
tua silhueta extravagante e triste…

Flor de volúpia, flor de mocidade,
teu vulto, penetrante como um gume,
passa e, passando, como que resume
no olhar, na voz, no gesto e no perfume,
a vida singular desta cidade!

Guilherme de Andrade de Almeida, Campinas-SP, (1890-1969)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

RIMAS – Euclydes da Cunha

Ontem – quando, soberba, escarnecias
Dessa minha paixão – louca – suprema
E no teu lábio, essa rósea algema,
A minha vida – gélida – prendias…

Eu meditava em loucas utopias,
Tentava resolver grave problema…
Como engastar tua alma num poema?
E eu não chorava quando tu te rias…

Hoje, que vivo desse amor ansioso
E és minha – és minha, extraordinária sorte,
Hoje eu sou triste sendo tão ditoso!

E tremo e choro – pressentindo – forte,
Vibrar, dentro em meu peito, fervoroso,
Esse excesso de vida – que é a morte…

Euclydes Rodrigues Pimenta da Cunha, Cantagalo-RJ (1866-1909)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

TOMBOS… – Euclydes da Cunha

Uma águia colossal, possante – um dia
O voo alevantou,
E nas garras torcendo a ventania
A vastidão galgou!…

Subiu – subiu – subiu – e audaz subia
Quando fraca estacou
– U’a corrente de abismos a prendia!… –
Em queda atroz rolou…

Um dia – assim também meu ser se viu…
E a delirar – na febre dos desejos –
Subiu, subiu, subiu…

Afinal sem um arrimo sequer
Rolou, descrente – tropeçando em beijos –
De um seio de mulher!…

Euclydes Rodrigues Pimenta da Cunha, Cantagalo-RJ (1866-1909)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

BUDISMO MODERNO – Augusto dos Anjos

Tome, Dr., esta tesoura, e…corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contato de bronca destra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, Cruz do Espírito Santo, Paraíba (1884-1914)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SONHO DE UM MONISTA – Augusto dos Anjos

Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo
Viajávamos, com uma ânsia sibarita,
Por toda a pro-dinâmica infinita,
Na inconsciência de um zoófito tranquilo.

A verdade espantosa do Protilo
Me aterrava, mas dentro da alma aflita
Via Deus – essa mônada esquisita –
Coordenando e animando tudo aquilo!

E eu bendizia, com o esqueleto ao lado,
Na guturalidade do meu brado,
Alheio ao velho cálculo dos dias,

Como um pagão no altar de Proserpina,
A energia intracósmica divina
Que é o pai e é a mãe das outras energias!

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, Cruz do Espírito Santo, Paraíba (1884-1914)