Ai, há quantos anos que eu parti chorando Deste meu saudoso, carinhoso lar!… Foi há vinte?…há trinta? Nem eu sei já quando!… Minha velha ama, que me estás fitando, Canta-me cantigas para eu me lembrar!…
Dei a volta ao mundo, dei a volta à Vida… Só achei enganos, decepções, pesar… Oh! a ingênua alma tão desiludida!… Minha velha ama, com a voz dorida, Canta-me cantigas de me adormentar!…
Trago d’amargura o coração desfeito… Vê que fundas mágoas no embaciado olhar! Nunca eu saíra do meu ninho estreito!… Minha velha ama que me deste o peito, Canta-me cantigas para me embalar!…
Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho Pedrarias d’astros, gemas de luar… Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!… Minha velha ama, sou um pobrezinho… Canta-me cantigas de fazer chorar!
Como antigamente, no regaço amado, (Venho morto, morto!…) deixa-me deitar! Ai, o teu menino como está mudado! Minha velha ama, como está mudado! Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!…
Cante-me cantigas, manso, muito manso… Tristes, muito tristes, como à noite o mar… Canta-me cantigas para ver se alcanço Que a minh’alma durma, tenha paz, descanso, Quando a Morte, em breve, ma vier buscar!…
Abílio Manuel Guerra Junqueiro, Portugal, (1850-1923)
Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro; de um outro galo que apanhe o grito de um galo antes e o lance a outro; e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo, para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos, se erguendo tenda, onde entrem todos, se entretendo para todos, no toldo (a manhã) que plana livre de armação. A manhã, toldo de um tecido tão aéreo que, tecido, se eleva por si: luz balão.
Plenilúnio de maio em montanhas de Minas! Canta, ao longe, uma flauta e um violoncelo chora, Perfuma-se o luar nas flores das campinas, sutiliza-se o aroma em languidez sonora.
Ao doce encantamento azul das cavatinas, nessas noites de luz mais belas do que a aurora, as errantes visões das almas peregrinas vão voando a cantar pela amplidão afora…
E chora o violoncelo, e a flauta, ao longe, canta. Das montanhas, brilhando, a névoa se levanta, banhada de luar, de sonhos, de harmonia.
Com profano rumor, porém, desponta o dia; e, na última porção da névoa transparente, a flauta e o violoncelo expiram lentamente.
Antônio Augusto de Lima, Nova Lima-MG, (1859-1934)
Lá vem o acendedor de lampiões da rua! Este mesmo que vem infatigavelmente, Parodiar o sol e associar-se à lua Quando a sombra da noite enegrece o poente!
Um, dois, três lampiões, acende e continua Outros mais a acender imperturbavelmente, À medida que a noite aos poucos se acentua E a palidez da lua apenas se pressente.
Triste ironia atroz que o senso humano irrita: Ele que doira a noite e ilumina a cidade, Talvez não tenha luz na choupana em que habita.
Tanta gente também nos outros insinua Crenças, religiões, amor, felicidade, Como este acendedor de lampiões da rua!
Esse perfume – sândalo e verbenas – De tua pele de maçã madura, Sorvi-o quando, ó deusa das morenas! Por mim roçaste a cabeleira escura.
Mas ó perfídia negra das hienas! Sabes que o teu perfume é uma loucura: – E o concedes; que é um tóxico: e envenenas Com uma tão rara e singular doçura!
Quando o aspirei – minhas mãos nas tuas – Bateu-me o coração como se fora Fundir-se lírio das espáduas nuas!
Foi-me um gozo cruel, áspero e curto… Ó requintada, ó sábia pecadora, Mestra no amor das sensações de um furto!