ALEXANDRE GARCIA

COMO O BRASIL SABOTA SEU AGRONEGÓCIO

agronegócio rio grande do sul

Lavoura de milho no Rio Grande do Sul

Nós sabemos que Lula gosta do MST e não gosta do agronegócio, até já chamou os produtores de fascistas. Pois o agro está passando por apertos, um atrás do outro. Houve uma reunião com o presidente do Senado nesta quarta-feira, com lideranças políticas do Rio Grande do Sul, como os deputados Osmar Terra e Zucco. A dívida dos agricultores gaúchos, principalmente por causa da enchente e dos juros altos, está em R$ 70 bilhões!

O deputado Alceu Moreira estava falando na Comissão de Agricultura, se não me engano, e estava se queixando dos ambientalistas. Os concorrentes do agro brasileiro agradecem os serviços prestados pelos ambientalistas, que atrapalham tudo. Querem fazer hidrovia? Não, não pode. A Ferronorte trisca uma reserva indígena? Não, não pode. Está cheio de ferrovia enferrujando pelo país, mas ela é essencial. Estava ouvindo o depoimento de um português que queria ir para a Suíça, e estava na fronteira da Espanha com a França. Ele viu um caminhão português e perguntou ao seu conterrâneo caminhoneiro para onde ele ia. “Vou para Moscou levando carga”, ele respondeu. O primeiro perguntou que estrada ele usava, e vejam a resposta: “Não uso estrada. Eu ponho meu caminhão em cima do trem”. Nós praticamente não temos trem. Somos um país-continente, do tamanho da Europa, e, além de não termos trem, dificultamos ao máximo a instalação de ferrovias. Nós já tivemos mais trilhos que rodovias, mas isso se inverteu. A rodovia encarece o produto que está sendo escoado.

Alceu Moreira continuou listando os problemas. Não temos armazenamento, por exemplo. Segundo ele, temos 26% da safra com potencial de ser armazenada nas fazendas; deveria ser o dobro. O produto fica em cima do caminhão, ou dentro de um navio esperando o preço. Mas o preço cai porque, se não vender, tem de jogar fora o grão. Estamos à mercê dos nossos compradores internacionais. Temos o caso do javali. O produtor precisa caçar, mas não pode, tem de conservar o bicho – até sermos todos mortos por ele, que está destruindo florestas, as aves do Pampa que fazem o ninho no chão, destroem tudo o que encontram. Há risco de febre aftosa, de peste suína. O deputado diz que não há como produzir com juros de 15%, com spread de 6%.

Vejam, então, como está a situação do agro, que é o que dá certo neste país. Somos masoquistas. Os governos brasileiros deveriam fazer de tudo para estimular o agro. Nós poderíamos ser o superceleiro de comida do mundo. Do território nacional de 8,5 milhões de km², só usamos uns 8% para a agricultura, talvez 20% para o gado. É mínimo. Só de áreas indígenas, para comparar, são 15%. E mesmo assim ainda temos potencial para alimentar quase 2 bilhões de pessoas.

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A irmã de Cristiano Ronaldo que mora no Rio Grande do Sul

Falando em Rio Grande do Sul, descobri que uma irmã de Cristiano Ronaldo mora em Gramado. Ela fez algumas publicações, e os jornais disseram que ela vai aos Estados Unidos para ver a última Copa do irmão. Ela é casada com um gaúcho, parece que é dona de uma marca de confecções, foi cantora, chama-se Kátia – até achei estranho ser com K, tendo nascido em Portugal. Ela e o marido têm três filhos, e um deles já está jogando em um time de Guimarães, no norte de Portugal, pertinho da Espanha. O irmão dela, Cristiano Ronaldo, nasceu na Ilha da Madeira, e é meio vizinho meu em Portugal, porque ele mora de um lado do Parque Eduardo VII, em Lisboa, e eu moro do outro. Provavelmente ele mora em um tríplex, porque gente rica como ele mora em tríplex…

DEU NO JORNAL

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

VENDO-A SORRIR – Guerra Junqueiro

A minha filha

Filha, quando sorris, iluminas a casa
Dum celeste esplendor.
A alegria é na infância o que na ave é asa
E perfume na flor.

Ó doirada alegria, ó virgindade santa
Do sorriso infantil!
Quando o teu lábio ri, filha, a minha alma canta
Todo o poema de Abril.

Ao ver esse sorriso, ó filha, se concentro
Em ti o meu olhar,
Engolfa-se-me o céu azul pela alma dentro
Com pombas a voar.

Sou o Sol que agoniza, e tu, meu anjo loiro,
És o Sol que se eleva.
Inunda-me de luz, sorri, polvilha de oiro
O meu manto de treva!

Abílio Manuel Guerra Junqueiro, Portugal, (1850-1923)

DEU NO X

JESSIER QUIRINO - DE CUMPADE PRA CUMPADE

DEU NO JORNAL

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

AS ÁGUAS DE 1949

Ponte do Salgadinho partida ao meio

O ano, 1949, eu era um menino, fiquei assustado com relâmpagos e trovoadas, me alegrava apenas lembrar dos caranguejos, eles sairiam do buraco com trovões, durante a manhã eu havia espalhado nas tocas de caranguejos às margens do Riacho Salgadinho, armadilhas feitas de lata de óleo. Durante a madrugada houve um temporal diluviano. O Salgadinho transbordou, encheu as casas da Rua Silvério Jorge, onde eu morava.

À noite uma enxurrada desceu do Tabuleiro com muita velocidade, passando pelo bairro do Farol com um barulho aterrador de água em grande movimento. A aluvião avançou como se fosse uma onda desgovernada atropelando o que encontrava pela frente, carros, carroças, derrubou árvores. Quando a enxurrada se intensificou na descida do Farol, na Rua Barão de Atalaia, perto fábrica de Guaraná Davino, aconteceu um forte estrondo, rompeu um enorme bloco de barro desprendido da barreira caiu por trás das casas. Tragédia, 20 residências soterradas, mais de 50 mortos.

No leito do vale do Riacho Reginaldo-Salgadinho a correnteza da água de chuva, volumosa e insustentável como um enorme vagalhão, levava o que havia pela frente em seu corredor. Na foz, no desembocar, onde o riacho deságua na Avenida da Paz, a enxurrada chegou tão forte que partiu ao meio a ponte de concreto da avenida. A ponte desmoronou, foi arrastada em dois blocos à beira-mar.

No vão, onde estava a ponte sobre o Salgadinho, ficaram apenas trilhos dos velhos bondes pregados em seus dormentes. O bonde era um transporte urbano muito usado naquela época.

Quando o dia amanheceu puderam-se avaliar os estragos da catástrofe, daquela chuva de volume nunca visto. Curiosos, moradores, ficaram estarrecidos, contemplando as consequências da água violenta naquela madrugada.

Pela manhã já se sabia pela da catástrofe pela Rádio Difusora, a enxurrada havia derrubado a ponte da Avenida. A Rádio anunciou a suspensão das aulas; depois do café da manhã, corri atrás de minhas “ratoeiras”, não encontrei uma sequer, em alguns locais estavam submersas. Andei até a praia, entrei no Hotel Atlântico, de uma privilegiada posição fiquei contemplando emocionado o vão da ponte apenas com os dormentes do bonde balançando.

Dois enormes blocos de concretos à beira-mar, lavados pelas ondas, como se fossem rochas naturais. Dois pedaços de ponte. Fiquei deslumbrado com os trilhos pregados no dormente, resistindo, numa linha curva, o que restou da tragédia. Esses mesmos trilhos serviram como base, construíram imediatamente uma ponte provisória para pedestre. Os usuários dos bondes atravessarem fazendo baldeação da linha Vergel do Lago – Ponta da Terra e vice versa. Os bondes paravam na cabeceira da ponte, os passageiros recebiam um tíquete, atravessavam a ponte improvisada, tomavam outro bonde que os levavam ao destino. Carros, caminhões e ônibus seguiam seu destino de Ponta da Terra para o Centro, arrodeando via bairro do Poço.

A meninada traquina até gostou da tragédia, apareceu mais outro divertimento. Todo dia nós acompanhávamos, encantados, as obras de engenharia, construção da nova ponte do Salgadinho. Da cabeceira descíamos, ficávamos por baixo da ponte de pedestre improvisada, em local estratégico, apreciando o desfile das calcinhas das mulheres que atravessavam distraídas.

Com a construção de uma ponte de madeira provisória na Rua Silvério Jorge, o trânsito voltou ao normal na região da orla. Foi rápida, um ano, a construção da nova ponte de concreto, inaugurada com muito estardalhaço pelos políticos.

DEU NO X

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

ENDIVIDANDO

Existe uma expressão muito comum no linguajar brasileiro: “Vender o almoço para comprar a janta”.

Mas na realidade o raciocínio aqui é o contrário: está na hora do almoço e o sujeito descobre que o dinheiro só dá para comprar um PF com arroz, feijão, ovo e uma coxa de galinha. Aí surge a idéia: se juntar o dinheiro da janta, dá para ir num restaurante legal e encher a pança. Na hora do jantar, aplica-se o mesmo raciocínio e usa-se o dinheiro que seria para o almoço do dia seguinte. E assim por dia, empurrando o problema para mais longe, porque, como disse um ministro da fazenda certa vez, “divida não se paga, dívida se rola”.

Os economistas têm uma expressão chique para essa questão: “preferência temporal”. Eles a usam quando uma pessoa compra um carro novo parcelado em 72 vezes e acaba pagando o dobro do preço, ao invés de juntar o dinheiro primeiro e comprar o carro à vista depois.

Os bancos ficam felizes com esse tipo de cliente. Dão a ele tanta preferência que as pessoas que pensam em tomar um empréstimo para investir em uma empresa são deixadas de lado. É que um investidor faz contas para saber se o retorno do investimento vai compensar os juros pagos, enquanto o consumidor comum só quer saber quanto é a prestação, ou às vezes nem isso. Quanto ele está dando de lucro para o banco é algo que definitivamente não lhe interessa.

Com tudo isso, não é surpresa nenhuma constatar que metade da população adulta do país está inadimplente – 81,7 milhões de pessoas segundo o Serasa, com uma dívida média por consumidor de seis mil e seiscentos reais. O Serasa também informa que 42% dos inadimplentes já estiveram com o nome sujo anteriormente, ou seja, são reincidentes na inadimplência.

O governo diz estar preocupado, mas no fundo também gosta dessa situação. Por um lado, o lucro dos bancos é altamente taxado, o que transforma o governo em um sócio privilegiado dos bancos, participando do lucro sem participar do risco. E do outro lado, o alcance da visão dos políticos é sempre limitado à próxima eleição, o que faz com que eles se preocupem em deixar os eleitores felizes no curto prazo. Além disso, quando a situação parece estar ruim, especialmente em ano eleitoral, é sempre uma boa oportunidade para o governo inventar uma nova medida populista que traga alegria imediata e adie o problema para o ano seguinte.

DEU NO X