Existe uma expressão muito comum no linguajar brasileiro: “Vender o almoço para comprar a janta”.
Mas na realidade o raciocínio aqui é o contrário: está na hora do almoço e o sujeito descobre que o dinheiro só dá para comprar um PF com arroz, feijão, ovo e uma coxa de galinha. Aí surge a idéia: se juntar o dinheiro da janta, dá para ir num restaurante legal e encher a pança. Na hora do jantar, aplica-se o mesmo raciocínio e usa-se o dinheiro que seria para o almoço do dia seguinte. E assim por dia, empurrando o problema para mais longe, porque, como disse um ministro da fazenda certa vez, “divida não se paga, dívida se rola”.
Os economistas têm uma expressão chique para essa questão: “preferência temporal”. Eles a usam quando uma pessoa compra um carro novo parcelado em 72 vezes e acaba pagando o dobro do preço, ao invés de juntar o dinheiro primeiro e comprar o carro à vista depois.
Os bancos ficam felizes com esse tipo de cliente. Dão a ele tanta preferência que as pessoas que pensam em tomar um empréstimo para investir em uma empresa são deixadas de lado. É que um investidor faz contas para saber se o retorno do investimento vai compensar os juros pagos, enquanto o consumidor comum só quer saber quanto é a prestação, ou às vezes nem isso. Quanto ele está dando de lucro para o banco é algo que definitivamente não lhe interessa.
Com tudo isso, não é surpresa nenhuma constatar que metade da população adulta do país está inadimplente – 81,7 milhões de pessoas segundo o Serasa, com uma dívida média por consumidor de seis mil e seiscentos reais. O Serasa também informa que 42% dos inadimplentes já estiveram com o nome sujo anteriormente, ou seja, são reincidentes na inadimplência.
O governo diz estar preocupado, mas no fundo também gosta dessa situação. Por um lado, o lucro dos bancos é altamente taxado, o que transforma o governo em um sócio privilegiado dos bancos, participando do lucro sem participar do risco. E do outro lado, o alcance da visão dos políticos é sempre limitado à próxima eleição, o que faz com que eles se preocupem em deixar os eleitores felizes no curto prazo. Além disso, quando a situação parece estar ruim, especialmente em ano eleitoral, é sempre uma boa oportunidade para o governo inventar uma nova medida populista que traga alegria imediata e adie o problema para o ano seguinte.